Conímbriga foi uma importante cidade romana da Hispânia, na província imperial da Lusitania, Dada a sua ilustre reputação foi classificada como Monumento Nacional em 1910, sendo actualmente o sítio arqueológico mais visitado em Portugal e o quarto museu em número de entradas vendidas nacionalmente (2023).
Pertencente ao Convento Escalabitano, era servida pela via romana XVI que também conectava as cidades lusitanas de Olissipo, Escálabis e Sélio a Brácara Augusta, na Galécia. A ocupação do lugar remonta aos séculos XII-IX AEC, no assentamento provável de um castro, tornando-se cidade nos finais do séc. I AEC, após a ascensão do imperador Augusto. Continuou habitada, pelo menos, até ao EC.
Sita no município de Condeixa, o Museu Nacional de Conímbriga dista cerca de 2 km da sede do concelho e 16 km de Coimbra, expondo uma ímpar colecção de artefactos provenientes das escavações realizadas desde o século XIX EC.
Actualmente Conímbriga é candidata a Património Mundial da UNESCO em Portugal.
Percurso da descoberta e reconhecimento Apesar de ser conhecida a existência de Conímbriga já no , as primeiras escavações só foram realizadas em 1873, pelo Instituto de Coimbra. Tendo sido alvo de trabalhos arqueológicos em 1889, com o apoio da Rainha D. Amélia, as primeiras sondagens importantes e respectivo estudo científico foram concretizados apenas no ano seguinte.
Em 1929 iniciou-se uma fase primordial na investigação da cidade de Conímbriga, num programa organizado pela Universidade de Coimbra e pela Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, tendo as escavações sido dirigidas pelo professor Vergílio Correia. O programa foi concluído em 1944, ano em que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais iniciou a recuperação e consolidação das estruturas antigas, completada em 1962. Entretanto, em 1953 começaram a ser tratados os mosaicos, sob a coordenação do arqueólogo João Bairrão Oleiro. Oleiro seria ainda responsável pelo lançamento da revista Conimbriga e fundação do Museu Monográfico em 1959 (inaugurado em 1962), e pela contratação de Jorge de Alarcão e Mário de Castro Hipólito em 1963.
Etimologia Existem diferentes ensaios teóricos sobre a origem etimológica do nome desta povoação, posto que na documentação medieval surge, principalmente, como Conimbriga, mas também, Conimbrica, Conembriga, Conimbria, Coniumbrica, ou Colimbria, esta última evoluirá para Coimbra. De modo geral é consensual e amplamente divulgada a associação do elemento “briga” (fortaleza, castelo ou altura fortificada) à sua origem céltica e pré-romana.
Existe uma linha de pesquisa que relaciona Conimbriga com Conii, associando-a aos cónios. Ao acrescentar briga, significaria “povoação dos cónios”, contudo cabe salientar que conforme as normas linguísticas seria mais correcto Coniumbriga, Coniobriga ou Coniombriga.
Outros investigadores acreditam que a etimologia de Conimbriga remonta ao antiquíssimo étimo do celta antigo “kon”, que significa “elevado pedregoso”. Referindo-se ao planalto de Conímbriga este lexema, unido a briga, significaria “povoação fortificada num elevado pedregoso” ou “povoação fortificada da colina”.
História Idade do Ferro Existem evidências arqueológicas do local ter provavelmente sido frequentado na pré-histórica, no entanto, apenas dois artefactos cerâmicos puderam ser datados com exactidão.
A partir da fase final da Idade do Bronze e fase inicial da Idade do Ferro (sécs. VIII a II AEC) existe maior número de evidências arqueológicas que permitem afirmar que a zona foi habitada consistentemente. Entre os materiais encontrados é de destacar um conjunto de vasos, de superfície polida e decorados, classificados como “cerâmica cinzenta de tradição indígena”, técnica que evoluiria mais tarde nas mãos dos artesãos romanos para uma “cerâmica cinzenta fina”. Outros de importância do período do Bronze final são elementos de uma foice, pendentes de adorno pertencentes a colares e uma segunda foice de bronze.
Antiguidade na época orientalizante No contexto do Baixo Mondego o sítio arqueológico de Santa Olaia, na Figueira da Foz, é importantíssimo para analisar a presença de achados de tipologia oriental e orientalizante. Este entreposto comercial fenício (presentemente Líbano), de características similares a outros ao longo da costa mediterrânica da Península Ibérica, teria em Conímbriga uma das suas principais relações comerciais pelo que se pode averiguar pelos artefactos recolhidos: fíbulas, braseiros, pratos de pescado, ânforas, e alguns objetos de luxo, tal como um pente de marfim decorado. Mesmo após a extinção de Santa Olaia como entreposto, Conímbriga continuou a importar e exportar, salientando o seu papel político e social para além do económico.
A conquista romana miniaturadaimagem|226x226px|Busto de César Augusto
A conquista romana de território na Hispânia Ulterior, por parte de Décimo Júnio Bruto em 138 AEC, na sua campanha para subjugar os galaicos, é um marco fundamental na história de Conímbriga.
Plínio, no seu recenseamento das tribos do ocidente da Península, fala, abaixo do Vouga, já de ópidos (oppida) "cidades" e não de povos (populi), "tribos". Isto diz-nos que as populações abaixo do Vouga eram maiores e possuíam uma forma diferente de organização, não teriam tantos laços tribais, mas linhagens, tendo sobrevivido registos sobre pelo menos duas: a dos dovilônicos (Dovilonici) e a dos pintões (Pintones).
esquerda|miniaturadaimagem|Mapa da província romana da Lusitânia, à qual Conímbriga pertencia.|196x196px
Seria apenas na época de Augusto que Conímbriga seria reformada, o imperador romano enviou arquitectos para a remodelar e adaptá-la ao urbanismo romano. O fórum foi o primeiro edifício a ser levantado pelos romanos. Logo em seguida, criaram-se as termas da cidade tomando água de Alcabideque. Dotou-se à povoação duma muralha artificial, complementando a natural posição defensiva do assentamento, de dois quilómetros, a linha da muralha dava mais vinte e três hectares para a expansão de Conímbriga. Casas que se encontram junto da muralha, com azulejos, são do e III.
Os romanos trouxeram com eles novos elementos da engenharia civil: o mármore, a coluna, o estuque, a argamassa de cal e a pedra esquadria. Isto, aliado à vinda de novos conceitos e métodos, acelerou o crescimento do assentamento e criou um sincretismo arquitectónico entre a antiga tradição local e a moderna romana.
Conímbriga ia avolumando-se cada vez mais, no governo de Vespasiano tornou-se num município entre 70 e 80. Consequência desta expansão da cidade, entre 77 e 78 um cidadão de Conímbriga, M. Júnio Latrão, foi escolhido como sacerdote do culto imperial da Lusitânia, esse mester obrigar-lhe-ia a morar em Emerita Augusta, a moderna cidade de Mérida, a capital da província. Tem-se como provável que tal designação foi feita como preito ao assentamento.
Posteriormente, entre os séculos II e III a cidade entra num período obscuro do qual não nos chegou muito até os nossos dias. Na metade do o Império começou a ser invadido por tribos bárbaras, em 262 vararam os Pirenéus e arrasaram o Levante peninsular, não se tem constância de que chegassem até ao litoral atlântico ocidental. Nesse clima de instabilidade as defesas de Conímbriga foram reforçadas e o sistema de águas, incluindo o aqueduto, também.
Idade Média miniaturadaimagem|238x238px|A Hispânia romana entre 409 e 429, durante as Invasões bárbaras. Conímbriga está na zona verde e rosa às riscas deste mapa da Península Ibérica. Embora o Império já estivesse a ser assaltado há muito as ameaças continuavam relativamente longe, quiçá devido à posição geográfica da região, porém, essa calma da qual desfrutara o assentamento acabar-se-ia cedo, em 409 EC os vândalos e o suevos atacaram a Península. Na região da Lusitânia em que se inseria Conímbriga, fixar-se-iam os alanos. Este foi um período muito instável, no qual os bárbaros faziam e desfaziam os acordos com o governo romano e verificava-se uma situação económica desfavorável. Neste clima de desassossego, as famílias mais influentes das cidades tomavam o poder nestas e tornavam-se os seus senhores, no caso de Conímbriga tudo parece indicar que foi entregue à família dos Cântabros.
O assentamento foi em 465 pilhado pelos suevos, que teriam raptado a mulher e a prole do cabeça de família dos Cântabros. Os suevos voltaram em 467 e 468 para arrasar a cidade e a região, o que resultou na desertificação da urbe, tendo a maioria dos habitantes mudado-se para o local correspondente à moderna cidade de Coimbra. Com efeito, em 468 o governador romano de Olissipo, Lusídio, entregou Conímbriga aos suevos.CAPELO et al, 1994:11-12
A cidade entrará num período com pouca informação documental.
Sabe-se que a cidade não seria abandonada desta vez (embora já estivesse em decadência), dado que em 561 era capital dum bispado, o prelado da mesma, Lucêncio, tomou parte no Primeiro Concílio de Braga. Constata-se também que ainda continuava a ter a mesma posição, o mesmo prelado assinou, em 572, a súmula do Segundo Concílio de Braga.
Durante esta época, existem intervenções no urbanismo da povoação, muitos destes patrocinados diretamente pelo bispo: a demolição do já devoluto Augusteum (antigo templo de culto imperial), a construção de pelo menos um edifício próximo do forum. Apesar destas intervenções, já a cidade nesta altura se encontrava em decadência, sendo Aemínio (futura Coimbra) a cidade já mais importante do bispado.
Em 586, a região caiu definitivamente sob domínio visigótico, depois de muito tempo de lutas entre estes e os suevos. Além de assinalar a derrota definitiva do Reino Suevo e a unificação política peninsular baixo o poder visigótico, para Conímbriga foi o fim, o bispo e o grosso dos seus vizinhos deixaram-na e transferiram-se para Emínio (a moderna cidade de Coimbra). Esta derradeira localização muito mais fértil e com um melhor abastecimento de água, bem essencial que começava a escassear para essas alturas em Conímbriga.
Foram encontrados vestígios e moedas da época muçulmana, o que sugere que ainda não havia sido totalmente abandonada. As poucas gentes que ainda moravam nela estabelecer-se-iam no vale vizinho e fundariam Vila Cova, posterior Vila Cova da Condessa Domna Onega, que se tornaria na atual Condeixa-a-Velha: “A cidade foi ocupada até ao século IX. A partir de então, “deixa de se ouvir falar de Conímbriga e começa a ouvir-se falar em Condeixa-a-Velha”.
Sítio arqueológico thumb|direita|270px|Conímbriga em 1966
O ópido de Conímbriga ocupa um planalto em forma de esporão, cuja base do lado meridional é demarcada pelo Rio dos Mouros.
Este sítio arqueológico foi reconhecido em 1910 como Monumento Nacional através do Decreto de 16 de junho de 1910, DG, n.º 136, de 23 de junho de 1910.
Em 1930, na sequência XI Congresso Internacional de Arqueologia, o Estado português obtém alguns terrenos na estação arqueológica.
Em 1962 no decorrer da investigação das ruínas criou-se o Museu Monográfico de Conímbriga como veículo de transmissão dos novos conhecimentos acerca dos achados à população geral.
As ruínas de Conímbriga são agora classificadas como ZEP (Zona Especial de Proteção) pela Direcção-Geral do Património Cultural. De acordo a DGPC, o status de Zona Especial de Protecção confere ao sítio: A presente condição de ZEP foi outorgada pela Portaria de 12 de novembro de 1971, publicada no DG, II Série, n.º 277, de 25 de novembro de 1971. Embora o status de Zona Especial de Protecção confira ao sítio um perímetro reservado, o IC3 entra neste, descumprindo a regulação.
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