JaciJACI. In: Michaelis: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, [s.d.]. (do tupi ÎasyNAVARRO, 2013, p. 163. e do guarani Jasy) é o deus Lua na religião e mitologia tupi-guarani, protetor das plantas, da vida marinha, da fertilidade e da reprodução.AFONSO, Germano Bruno. Mitos e estações no céu tupi-guarani. ’Ciência e Cultura,’ [s. l.], v. 58, n. 4, out./dez. 2006. Ele é o irmão gêmeo mais novo de Quaraci, o deus Sol.
Enquanto para os povos tupis-guaranis Jaci é do sexo masculino, no imaginário não-indígena, contudo, Jaci passou a ser considerado uma deidade feminina devido a equívocos iniciados por missionários e cronistas, divulgados na literatura de origem não-indígena e atualmente propagados pela Internet. Assim como ocorrido a outras figuras mitológicas tupis-guaranis como Tupã, Anhanga, Jurupari, Maíra e outros, Jaci sofreu a influência da mentalidade eurocêntrica, que pensa na Lua como arquetipicamente feminina, e muito do seu caráter e papel originais nas religiões e mitologias nativas de Pindorama foi distorcido ao longo do tempo. Entretanto, estudos em décadas mais recentes e, principalmente, o resgate das narrativas contadas pelos próprios povos originários na literatura antropológica e etnológica como a de Curt Nimuendajú, León Cadogan, Alfred Métraux, Germano Afonso e outros têm ajudado a corrigir isso.
Além do nome da Lua, “Jaci” também é como os tupis-guaranis chamam ao mês lunar (lunação, período entre duas luas novas consecutivas) e também a um ornato feito de concha branca e talhada em forma de crescente que os tupinambás penduravam no pescoço.SAMPAIO, Teodoro. O tupi na geographia nacional. 2.ª ed. São Paulo: O Pensamento, 1914. p. 235.
Etimologia “Îasy” é uma palavra do tupi que significa "Lua".
O nome da Lua tupi-guarani comporta uma grande variação de grafias, de acordo com a língua de cada povo do tronco tupi.LEMLE, Miriam (1971), Internal classification of the Tupi-Guarani linguistic family. In :David Bendor-Samuel, editor, Tupi Studies (SIL Publications in Linguistics and Related Fields; 29), volume I, Norman: SIL of the University of Oklahoma, p. 122, linha 115.
Couto de Magalhães apresentou uma etimologia do nome “Jácy” (com acento em Já, paroxítona) em sua obra O Selvagem (1876), dizendo ser "mãe (ci) dos vegetais/frutas (ja)" em nheengatu.MAGALHÃES, 1935, p. 159.
Luís da Câmara Cascudo registra em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1988) o nome “Jaci” e repete a etimologia apresentada por Magalhães de “mãe dos frutos” (Ia-ci).CASCUDO, 1988, p. 394.
Luiz Gustavo Souza Pradella sugere "senhor/dono (ja/dja/jara/iara) da imperfeição (achy/axi/asy)", pois Jaci é o primeiro a nascer imperfeito em comparação ao seu irmão Quaraci.PRADELLA, Luiz Gustavo S. Entre os Seus e os Outros: Horizonte, Mobilidade e Cosmopolítica Guarani. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009.
Descrição A provável menção mais antiga registrada de Jaci é do frade franciscano e cosmógrafo francês André Thevet, que viajou ao Brasil em 1550 e 1554. Iachu tatà é o termo usado por ele para se referir às estrelas segundo a língua dos tupinambás, em sua transcrição fonética do francês (seria îasytatá, "lua de fogo" ou "fogo de Jaci", que é "estrela" em tupi). No mesmo trecho Thevet menciona a Lua, que ele diz ser o principal dos corpos celestes para os nativos, mas não informa o seu nome tupi, que podemos, entretanto, inferir do termo tupi para estrela.THEVET, 1575, p. 917v.MÉTRAUX, 1950, p. 54.
Outra das menções mais antigas dos nomes de Jaci e seu irmão Quaraci é nos poemas líricos religiosos do padre jesuíta espanhol José de Anchieta, chegado ao Brasil em 1553, como o “Da Conceição de Nossa Senhora” (década de 1560), onde ele usa os nomes îasy e kûarasy para a lua e o sol, mas sem apresentar os astros celestes como deuses (no mesmo poema ele usa “Tupan” como nome do deus cristão e “Anhanga” como o diabo, ignorando a mitologia nativa).ANCHIETA, José de (Autor) e NAVARRO, Eduardo de Almeida (Compilador). Poemas: lírica portuguesa e tupi. Martins Fontes, São Paulo, 1997.
Ainda no mesmo século, em Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dite Amérique (História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, Também Chamada América) publicado em 1578, o pastor, missionário e escritor francês Jean de Léry registra os nomes Jasce ou Iasce para a Lua e Couarassi para o Sol, mas, igual a seus predecessores, também não lhes atribui personalidade.LÉRY, 1880, p. 133.
No livro Histoire de la mission des pères Capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisins (História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças, 1614), o religioso e entomólogo francês Claude d'Abbeville grafou Yasseuh/Yaseuh e Koarassuh para a Lua e o Sol dos tupinambás, respectivamente. Contudo, d'Abbeville considerava que os mesmos não tinham religião por não ter encontrado templos ou ídolos de seus deuses.D'ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 371-372. Para ele, os tupinambás não consideravam o Sol e a Lua como divindades e, portanto, à mesma maneira dos cronistas cristãos antecessores, ele não lhes atribuiu agência. Entretanto, d'Abbeville tem o mérito de ter registrado que os tupinambás conheciam a influência da Lua sobre as marés muito antes dos europeusD'ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 368.; somente mais de 70 anos depois da publicação do livro de d’Abbeville, Isaac Newton demonstrou, em 1687, que a causa das marés é a atração gravitacional do Sol e, principalmente, da Lua sobre a superfície da Terra.Sbpc, F. A. (2009, julho 22). Indígenas brasileiros constataram influência da lua sobre marés antes de Newton. Org.br; CIMI - Conselho Indigenista Missionário.
miniaturadaimagem|left|Os tupinambás atribuíam a Jaci, a Lua, poder sobre as marés. Nascer da Lua em Maraú, Bahia, região outrora habitada por tupinambás. Apesar de não reconhecer uma religião para os indígenas, d’Abbeville também registrou a crença tupi de que a estrela Jaguara (Iaouare ou Îaûara/Îagûara, “Jaguar”NAVARRO, 2013, p. 153. ou, como ele traduz, “Cão”) tenta devorar a Lua; é uma estrela muito vermelha, que a astronomia ocidental chama de Aldebaran (quando, no começo do inverno, desaparece no horizonte leste pouco antes do amanhecer, por vezes junto à Lua) ou Antares (quando, depois do final do inverno, desaparece no horizonte oeste pouco depois do anoitecer, também por vezes junto à Lua), ou talvez a estrela da tarde (Vésper).NAVARRO, 2013, p. 154 (citando D'Abbeville, Histoire, 251v). Os homens tupinambás se voltavam para o nascente da Lua ao final do inverno quando ela se ergue vermelha de sangue por causa do Jaguara que a persegue e socam o chão com seus cacetes, rogando ao Pai Grande (na verdade "Avô", pois a tradução de Dr. Cezar Augusto Marques de d’Abbeville para o português na edição de 1874 confundiu o francês mon grand Père,D’ABBEVILLE, 1614 (em francês), p. 318. que é "meu Avô" em português, com "meu Pae grande",D’ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 365. numa equivocada tradução ao pé-da-letra) por prenunciar a possível morte pela destruição do mundo. Trata-se do mito tupi-guarani do Jaguarový, o Jaguar Azul.D'ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 365-366.
Em O Selvagem (1876), Couto de Magalhães denomina Guaracy ou Cuaracy e Jácy (como ele grafa seus nomes) como "mãe dos seres viventes" e "mãe dos vegetais", respectivamente, como etimologias propostas de seus nomes, então geralmente se referindo a ambos os deuses como "mães",MAGALHÃES, 1935, p. 158-159. e Jácy, especificamente, sendo tratado no feminino por causa do arquétipo lunar feminino europeu que muitos esperam erroneamente encontrar nos mitos nativos brasileiros,FARGETTI, 2021, p. 412. em que, por exemplo, "Lua", em português, é uma palavra feminina de origem latina com raízes greco-romanas (onde o satélite da Terra é representado por divindades femininas, como Luna [da qual vêm os nomes do astro noturno, sempre feminino, nas modernas línguas latinas], Diana, Selene, Ártemis e Hécate).
Para Magalhães, os chamados deuses superiores dos tupis são três: Guaracy, Jácy e Rudá ou Perudá, o deus do amor e da reprodução, tendo cada um deles outros deuses menores que lhe são subordinados. Os deuses submetidos a Jácy, associados à vida vegetal e/ou à noite, seriam: Saci Cererê, guardião das matas e das ervas medicinais; Mboitatá, protetor dos campos contra aqueles que os incendeiam; Urutau, "pássaro-fantasma" (Uyrá-Taú) em guarani, ave noturna anunciadora da Lua cujo lamento traz mau-agouro; e Curupira, deus que protege as florestas, fazendo mal-feitores perderem-se dentro delas. Duas manifestações de Jácy seriam subordinadas a Rudá: Cairé (Lua cheia) e Catiti (Lua nova), cuja missão é despertar saudades no amante ausente.MAGALHÃES, 1935, p. 170-171.
Fazendo um longo estudo de mitologia comparada sobre as grandes mães lunares ao redor do mundo, o pintor e historiador Angelo Guido reapresenta em O reino das mulheres sem lei (1929) o mito das mulheres guerreiras icamiabas como uma tribo matriarcal que adora Jaci como uma mãe das águas junto à Mãe dos Muiraquitãs, associadas ao lago Jací-uaruá (“Espelho da Lua”),GUIDO, Ângelo. O reino das mulheres sem lei: ensaios de mitologia amazônica. Porto Alegre: Edições Globo, 1937. uma história primeiro contada pelo frei Gaspar de Carvajal, que acompanhou o conquistador espanhol Francisco de Orellana em 1542 e chamou essas mulheres de “amazonas”, quando eles desciam de navio o Paranaguaçu (“Rio Grande” em tupi, que Orellana rebatizou como “Rio das Amazonas”) e foram atacados por elas (Carvajal, entretanto, não menciona culto à Lua entre as mulheres guerreirasCARVAJAL, frei Gaspar de. Relatório do novo descobrimento do famoso rio grande descoberto pelo capitão Francisco de Orellana: edição bilíngue. Introdução e notas de Guillermo Giucci. Tradução do relatório por Adja Balbino Barbieri Durão; tradução da introdução e das notas por Maria Salete Bento Cicaroni. São Paulo: Scritta Editorial; Brasília: Embaixada da Espanha, 1992. (Coleção Orellana, 6).). Na obra de Guido, ele iguala Jaci a outras grandes mães associadas à Lua, como Ísis, Maria e Hécate, ajudando a cimentar o gênero feminino a Jaci no imaginário brasileiro não-indígena. Antes de Guido, no livro Macunaíma (1928), Mário de Andrade também conta das icamiabas se reunindo no Jací-uaruá, mas não as associa diretamente ao culto da Lua tupi. No romance de Andrade, a Lua se chama Capei e o Sol se chama Vei e ambas são mulheres, mas em realidade no mito original dos povos arecuna e taurepangue (família karib) Capei (Kapyi) e Vei (Wéi) são ambos homens.MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Astronomia do Macunaíma. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
Um exemplo claro dessa desconsideração pelo sexo masculino de Jaci pode ser encontrado no livro Estórias e lendas dos índios de Herbert Baldus (1960), onde ele conta uma lenda caiouá (guarani) do pós-dilúvio centrada em Sol e Lua, cujos nomes ele grafa Koarahy e Djacy, com elementos referentes ao pós-contato colonial (a lenda menciona paraguaios e brasileiros e conta sobre a mestiçagem entre os povos e a criação de cidades), e junto ao texto há uma ilustração de Sol e Lua como homem e mulher feita por José LanzellottiBALDUS, 1960, p. 277. (na contação da lenda, contudo, ele só se refere a eles como “o Sol” e “a Lua”, em relação à qual a linguagem está, obviamente, no feminino), embora se saiba que os caiouás, como todos os povos tupis-guaranis, consideram Jacy irmão de Pa'i Kuara, o Sol.<ref name=Kaiowá>Guarani Kaiowá - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.</ref> Mais sobre a versão caiouá dos gêmeos míticos encontra-se mais abaixo, na seção “Mitologia”, onde Jacy, ou Djasý, é apresentado como um deus, jamais uma deusa.
miniaturadaimagem|Família tupinambá, pintura de John White (séc. XVI). Note o colar "jaci" em forma de crescente usado pelo homem.