Império Bizantino foi a continuação direta do Império Romano na Antiguidade Tardia e Idade Média. Sua capital, Constantinopla (atual Istambul), originalmente era conhecida como Bizâncio. Inicialmente parte oriental do Império Romano (comumente chamada Império Romano do Oriente no contexto), sobreviveu à fragmentação e ao colapso do Império Romano do Ocidente no e continuou a prosperar, existindo por mais de mil anos até sua queda diante da expansão dos turcos otomanos em 1453. Foi conhecido simplesmente como Império Romano (; ) ou România () por seus habitantes e vizinhos.
Como a distinção entre o Império Romano e o Império Bizantino é em grande parte uma convenção moderna, não é possível atribuir uma data de separação. Vários eventos do ao marcaram o período de transição durante o qual as metades oriental e ocidental do Império Romano se dividiram. Em 285, o imperador Diocleciano dividiu a administração imperial em duas metades. Entre 324 e 330, Constantino transferiu a capital principal de Roma para Bizâncio, conhecida mais tarde como Constantinopla ("Cidade de Constantino") e Nova Roma. Sob , o cristianismo tornou-se a religião oficial do império e, com sua morte, o Estado romano dividiu-se definitivamente em duas metades, cada qual controlada por um de seus filhos. E finalmente, sob o reinado de Heráclio , a administração e as forças armadas do império foram reestruturadas e o grego foi adotado em lugar do latim. Em suma, o Império Bizantino se distingue da Roma Antiga na medida em que foi orientado à cultura grega em vez da latina e caracterizou-se pelo cristianismo ortodoxo em lugar do politeísmo romano.
As fronteiras do império mudaram muito ao longo de sua existência, que passou por vários ciclos de declínio e recuperação. Durante o reinado de Justiniano , alcançou sua maior extensão após reconquistar muito dos territórios mediterrâneos antes pertencentes à porção ocidental do Império Romano, incluindo o norte da África, península Itálica e parte da Península Ibérica. Durante o reinado de Maurício , as fronteiras orientais foram expandidas e o norte estabilizado. Contudo, seu assassinato causou um conflito de duas décadas com o Império Sassânida que exauriu os recursos do império e contribuiu para suas grandes perdas territoriais durante as invasões muçulmanas do . Durante a dinastia macedônica (), o império expandiu-se novamente e viveu um renascimento de dois séculos que chegou ao fim com a perda de grande parte da Ásia Menor para os turcos seljúcidas após a derrota na Batalha de Manzicerta (1071).
No , durante a Restauração Comnena, o império recuperou parte do território perdido e restabeleceu sua dominância. No entanto, após a morte de e o fim da dinastia comnena no final do , o império entrou em declínio novamente. Recebeu um golpe fatal em 1204, no contexto da Quarta Cruzada, quando foi dissolvido e dividido em reinos latinos e gregos concorrentes. Apesar de Constantinopla ter sido reconquistada e o império restabelecido em 1261, sob os imperadores paleólogos, o império teve que enfrentar diversos estados vizinhos rivais por mais 200 anos para sobreviver. Paradoxalmente, este período foi o mais produtivo culturalmente de sua história. Sucessivas guerras civis no minaram ainda mais a força do já enfraquecido império e mais territórios foram perdidos nas guerras bizantino-otomanas, que culminaram na Queda de Constantinopla e na conquista dos territórios remanescentes pelo Império Otomano no .
Nomenclatura
A designação do império como "bizantino" surgiu na Europa Ocidental em 1557, quando o historiador alemão Hieronymus Wolf publicou sua obra Corpus Historiæ Byzantinæ, uma coleção de fontes bizantinas. "Bizantino" em si vem de "Bizâncio" (uma cidade grega, fundada por colonos de Mégara em ), o nome da cidade de Constantinopla antes de se tornar a capital do império sob Constantino. Este antigo nome da cidade raramente seria utilizado a partir daquele evento, exceto no contexto poético ou histórico. A publicação, em 1668, de Bizantino du Louvre (Corpus Scriptorum Historiæ Byzantinæ), e em 1680 da História Bizantina de Du Cange popularizou o uso de Bizantino em autores franceses, como Montesquieu. Contudo, só em meados do é que o termo entrou em uso geral no mundo ocidental.
O império era conhecido por seus habitantes como Império Romano (; ) ou Império dos Romanos (; ), România (;), República Romana (; ), Graikia (), e também Rhōmais .
Por boa parte da Idade Média, os bizantinos identificaram-se como romaioi (, ou seja, cidadãos do Império Romano), um termo que, em língua grega, tornou-se sinônimo de grego cristão. Também chamavam-se graikoi (), embora este etnônimo nunca foi usado na correspondência política oficial antes de 1204. O antigo nome "heleno" era popularmente considerado um sinônimo para pagão e foi readotado como um etnônimo no período médio bizantino, mais precisamente no .
Embora o império tivesse caráter multiétnico em boa parte de sua história e mantém as tradições romano-helênicas, era geralmente conhecido pela maioria dos seus contemporâneos ocidentais e do norte como o "Império dos Gregos" () devido ao crescente predomínio do elemento grego. O uso ocasional do termo "Império dos Gregos" para referir o Império Romano do Oriente e "Imperador dos Gregos" () para o imperador bizantino reflete o desejo dos novos reinos do Ocidente de separá-lo do Império Romano, pois rejeitavam a afirmação imperial de descendência.
A reivindicação do Império do Oriente da herança romana foi ativamente disputada no Ocidente durante o reinado da imperatriz Irene de Atenas , depois da coroação de Carlos Magno como imperador do Sacro Império no ano 800 pelo , que, precisando de ajuda contra os lombardos em Roma, considerou vago o trono do Império Romano por não haver um ocupante do sexo masculino no trono. O papa e os governantes do ocidente sempre utilizaram o nome "romano" para referirem-se aos imperadores do oriente, todavia preferiram o termo Imperator Romaniæ ("imperador da România"), em vez de Imperator Romanorum ("imperador romano"), um título que os ocidentais mantiveram apenas para Carlos Magno e seus sucessores. Essa distinção não existiu nos mundos persa, islâmico e eslavo, nos quais o império era visto como uma continuação do Império Romano. No mundo islâmico, era conhecido principalmente como (Rûm, "Roma").
História Divisão do Império Romano
thumb|esquerda|O Batismo de Constantino, por Rafael Sanzio, 1520–1524, Vaticano, Palácio Apostólico. Eusébio de Cesareia recorda que, como foi comum entre os cristãos convertidos deste período, Constantino teve um batismo tardio, próximo de sua morte thumb|esquerda|Seção restaurada das Muralhas de Teodósio, em Istambul thumb|esquerda|Soldo de Odoacro no qual aparece o nome de Zenão (r. 474–475; 476–491), a quem estava nominalmente subordinado
Em 293, Diocleciano criou um novo sistema administrativo, a Tetrarquia. Após a abdicação de Diocleciano e Maximiano , a tetrarquia entrou em colapso e Constantino substituiu-a pelo princípio dinástico de sucessão hereditária. Escolheu a antiga cidade de Bizâncio como nova capital imperial, refundando-a em 330 como "Nova Roma" (adquiriria posteriormente o nome Constantinopla), pois estava bem situada nas rotas comerciais que passavam pelos mares Negro e Mediterrâneo, ligando o Oriente e o Ocidente. Constantino fez muitas mudanças nas instituições civis, militares, administrativas e religiosas. Baseando-se nas reformas administrativas introduzidas por Diocleciano, estabilizou a moeda (o soldo de ouro que introduziu tornou-se moeda altamente valorizada e estável) e fez alterações na estrutura do exército. Embora não tenha sido tornado a religião oficial do Estado, o cristianismo gozava da preferência imperial, uma vez que Constantino concedeu-lhe generosos privilégios. Estabeleceu o princípio de que os imperadores não deveriam resolver questões de doutrina, mas deveriam convocar concílios eclesiásticos gerais para esse efeito. O Primeiro Concílio de Arles foi convocado por ele e o Primeiro Concílio de Niceia apresentou sua reivindicação para ser a cabeça da Igreja.
Durante o reinado de os templos pagãos do império foram sistematicamente destruídos e o cristianismo tornou-se a religião oficial do Estado romano. Após a sua morte em 395, o império foi dividido entre seus filhos: a porção ocidental foi mantida por Honório , enquanto a oriental por Arcádio . O Oriente foi poupado das dificuldades enfrentadas pelo Ocidente no , em parte devido a uma cultura mais urbana e a mais recursos financeiros que lhe permitiram evitar invasões pagando tributos e contratando mercenários estrangeiros. comissionou em Constantinopla as muralhas que levaram seu nome , o que deixou a cidade imune à maior parte dos ataques; as muralhas mantiveram-se inexpugnáveis até 1204. A fim de afastar os hunos, Teodósio pagou-lhes tributos (159 quilos de ouro).
Seu sucessor, Marciano , recusou continuar pagando a quantia anteriormente estipulada, pois considerava-a elevada. À época, no entanto, Átila já havia desviado sua atenção para o Império Romano do Ocidente. Após a morte de Átila, o Império Huno se desmoronou e Constantinopla iniciou um relacionamento profícuo com os hunos restantes, que acabaram lutando como mercenários do exército. Com o fim da ameaça huna, o Império do Oriente viveu um período de paz, enquanto o Império do Ocidente continuou seu lento declínio em decorrência da expansão dos povos germânicos: por esta altura muitos de seus antigos territórios já haviam sido perdidos, terminando por ser completamente conquistado em 476 pelo oficial de origem germânica Odoacro, que forçou o imperador Rômulo Augusto a abdicar.
Em 480, o imperador Zenão aboliu a divisão do império, tonando-se imperador único. Odoacro , agora governando a Itália como rei, foi nominalmente subordinado de Zenão, mas atuou com completa autonomia e acabou por apoiar uma rebelião contra o imperador. Para recuperar a Itália, Zenão negociou a reconquista com o rei ostrogótico da Mésia, , a quem enviou como mestre dos soldados da Itália, a fim de depor Odoacro. Ele foi assassinado por Teodorico durante um banquete em 493 e Teodorico fundou o Reino Ostrogótico, do qual tornou-se rei , embora nunca tenha sido reconhecido como tal pelos imperadores orientais. Em 491, , um oficial civil de origem romana, tornou-se imperador. No âmbito militar foi bem-sucedido em suprimir, em 497, uma revolta isaura que havia eclodido em 492, bem como numa guerra contra o Império Sassânida. Atualmente desconhecem-se os termos do tratado de paz que terminou este último conflito. No âmbito administrativo mostrou-se um reformador enérgico e um administrador competente — aperfeiçoou o sistema de cunhagem de Constantino, através do estabelecimento definitivo do peso do fólis, a moeda utilizada na maioria das transações diárias, e reformou o sistema tributário, abolindo permanentemente o imposto Crisárgiro. O Tesouro do Estado dispunha da enorme quantia de 150 mil quilos de ouro quando ele morreu em 518.
Reconquista das províncias ocidentais
thumb|Trecho de um dos afrescos da Basílica de São Vital, em Ravena, no qual Justiniano é representado thumb|Basílica de Santa Sofia