A riboflavina (lactoflavina ou vitamina B2; designada no passado também por vitamina G; nome sistemático 7,8 - dimetil-10-(D-1'-ribitil)-isoaloxazina) é um composto orgânico (flavina) da classe das vitaminas. No organismo humano, favorece o metabolismo das gorduras, açúcares e proteínas e é importante para a saúde dos olhos, pele, boca e cabelos.

A riboflavina é utilizada como corante alimentar, sob a designação E101 ou E101a (quando na forma fosfatada). A deficiência em riboflavina provoca rachaduras nos cantos da boca e nariz, estomatite, coceira e ardor nos olhos, inflamações das gengivas com sangramento, língua arroxeada, pele seca, depressão, catarata, letargia e histeria.

A riboflavina é necessária na síntese do dinucleótido de flavina-adenina (FAD) e do mononucleótido de flavina (FMN), dois cofactores enzimáticos essenciais no funcionamento de enzimas importantes em diversas vias metabólicas. É uma molécula fotossensível, degradando na presença de luz.

Características físico-químicas thumb|esquerda|Estrutura da riboflavina evidenciando o grupo flavina (caixa superior, a amarelo) e o grupo ribitilo (caixa inferior, a verde). As flavinas são compostos orgânicos baseados no anel tricíclico isoaloxazina. A adição de grupos metilo nos carbonos 7 e 8 e de uma cadeia ribitilo na posição 10 (azoto) da isoaloxazina forma a riboflavina (7,8-dimetil-10-ribitil-isoaloxazina). O radical ribitilo deriva do açúcar ribitol, um álcool obtido através da redução da ribose.

A presença do grupo flavina (composto de aneis heterocíclicos) confere propriedades espectroscópicas características deste grupo de moléculas, como uma coloração amarela a laranja, e fluorescência.

A adição de grupos químicos à cadeia ribitilo origina outras flavinas: o mononucleótido de flavina (FMN) é uma forma fosforilada da riboflavina; o dinucleótido de flavina e adenina (FAD) possui adicionalmente um grupo adenina ligado por dois fosfatos ao ribitilo. Tanto a riboflavina como os cofactores dela derivados são capazes de transferência electrónica graças à presença do grupo isoaloxazina, e fazem normalmente parte de proteínas transportadoras de electrões e oxidorredutases.

Em flavoproteínas, é a cadeia ribitilo do FAD ou FMN que usualmente interage com a cadeia polipeptídica. A própria riboflavina serve de cofactor nas proteínas de ligação à riboflavina (em inglês, riboflavin-binding proteins), um dos tipos de flavoproteínas mais estudado.

A riboflavina é uma molécula anfipática: a parte da isoaloxazina semelhante ao xileno é predominantemente hidrofóbica, podendo interagir com aminoácidos hidrofóbicos em proteínas; a outra extremidade da isoaloxazina, semelhante a pirimidina, é mais hidrofílica e capaz de estabelecer ligações de hidrogénio com aminoácidos polares. É por esta razão pouco solúvel em água (130 mg/L a 27 °C). O anel central (pirazina) é o principal responsável pela actividade redox presente em flavinas. É também uma molécula fotossensível, sendo destruída rapidamente por exposição à luz, mas resistente ao calor (e portanto à maioria dos procedimentos de cozedura de alimentos).

No seu estado puro, apresenta-se normalmente sob a forma de pó cristalino de cor amarela ou laranja. É instável em soluções alcalinas, com uma estabilidade máxima a pH 6.

Nutrição thumb|Riboflavina em solução. O organismo humano é incapaz de sintetizar riboflavina. Para a síntese de cofactores enzimáticos indispensáveis ao funcionamento normal do metabolismo, é necessário incluir esta vitamina na dieta humana. A riboflavina produzida pela flora intestinal é uma importante fonte desta vitamina em seres humanos.

Dose diária recomendada Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) recomenda oficialmente uma dose diária de 1,7 mg de riboflavina, valor que poderá ser revisto para 1,3 mg, em acordo com a dose considerada suficiente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para homens adultos. A OMS recomenda um valor ligeiramente menor para mulheres adultas (1,1 mg), excepto quando em gestação (1,4 mg) ou em lactação (1,6 mg). As doses recomendadas para crianças variam entre 0,3 mg/dia para recém-nascidos até aos seis meses de idade e 0,9 mg/dia para crianças entre os sete e os nove anos de idade.

Fontes na alimentação Alimentos como leite, produtos lácteos. couves e vegetais folhosos verdes como bróculos, repolho e agrião, carne (especialmente vísceras), cereais em grão (arroz, lentilha, aveia, cevada, trigo, levedo de cerveja), em frutas como o jambo, ovos, semente de girassol e ervilhas, são fontes de riboflavina, embora esta seja destruída pela exposição à luz. No leite, a riboflavina encontra-se na forma livre, ou seja, não ligada a proteínas. No ovo de galinha, a riboflavina liga-se à "proteína de ligação a riboflavina".

Nos países em via de desenvolvimento, o consumo de vegetais verdes constitui a principal fonte de riboflavina, enquanto que nos países desenvolvidos são os produtos lácteos a fonte primária.

Fontes comerciais Além de ser feito o enriquecimento (fortificação) de determinados alimentos com riboflavina, incluindo produtos de panificação e cereais, esta vitamina é também comercializada sob a forma de preparado oral (em combinação ou não com outras vitaminas) e preparado injectável.

Deficiência Por ser continuamente excretada na urina, um baixo consumo de riboflavina leva facilmente a uma deficiência nutricional desta vitamina, embora tal deficiência seja sempre acompanhada por deficiências noutras vitaminas. Existe maior propensão a uma deficiência em riboflavina em dietas pobres em produtos animais. A deficiência em riboflavina também se encontra associada a determinadas doenças crónicas, como a diabetes, doenças inflamatórias intestinais e infecções pelo HIV. A avitaminose associada à deficiência em riboflavina denomina-se ariboflavinose. Pode resultar de uma dieta pobre em riboflavina, má absorção intestinal desta vitamina, incapacidade de a metabolizar ou excreção exagerada na urina. Sintomas de ariboflavinose incluem dermatite seborreica, formação de gretas e vermelhidão nos lábios, estomatite e inflamação do revestimento da boca e língua, úlceras bocais e infecções na garganta e neuropatia. Também pode causar dessecação e escamação na pele e anemia (deficiência em ferro, reflectida numa menor produção de grupo hemo),A diminuição da produção de hemo está relacionada com a utilização da riboflavina na protoporfirinogénio oxidase, uma enzima essencial na biossíntese do hemo ( maior perda intestinal de ferro/menor absorção intestinal de ferro e indução de stress oxidativo com acumulação de ferro "livre"). Pode ocorrer vermelhidão, lacrimação e coceira no globo ocular, além de sensibilidade à luz. A deficiência de riboflavina em animais tem como consequências gerais diminuição do desenvolvimento do organismo, ataxia, fraqueza e morte.

A deficiência em riboflavina está associada à síndrome oral-ocular-genital. Nesta síndrome, a estomatite angular, a fotofobia e a dermatite escrotal são sintomas clássicos.

Em ratos utilizados como modelo de investigação, a deficiência em riboflavina leva a uma menor actividade de algumas desidrogenases, tendo como consequência imediata uma significativa inibição da β-oxidação mitocondrial de ácidos graxos. Outras enzimas cuja actividade é afectada incluem a glutationo redutase (com consequente diminuição de glutationo reduzido), glutationo peroxidase, catalase, aldose redutase, sorbitol desidrogenase e fosfato de piridoxamina oxidase. São também afectadas diversas vias metabólicas de oxidação mitocondrial dependentes de flavoproteínas.

Uma forma de detectar os níveis de riboflavina no soro sanguíneo consiste na medição do coeficiente de actividade da glutationo redutase em eritrócitos, medido como a razão entre a actividade normal da enzima estimulada por FAD e a actividade basal da enzima in vivo: um coeficiente de actividade elevado é em geral indicação de uma deficiência vitamínica de riboflavina. Outros métodos de detecção são a medição de riboflavina excretada na urina e a determinação da concentração de riboflavina em eritrócitos.

Leite materno Diversas vitaminas do complexo B, incluindo a riboflavina, estão incluídas no denominado grupo I de nutrientes durante a lactação. Isto significa que os níveis absorvidos pela mãe reflectem-se nos níveis detectados no leite materno. Em mulheres saudáveis e bem nutridas, a média de riboflavina encontrada no leite materno é de 0,35 mg/L, o que cobre apenas entre 40 e 60% do consumo requerido por recém-nascidos e bebés até dois anos de idade. Por esta razão, é recomendada por alguns autores a fortificação da alimentação com suplementos vitamínicos, de modo a suprir eventuais carências. Nos Estados Unidos, não existem limites superiores estabelecidos para a quantidade de riboflavina a ser consumida nesta faixa etária.

História thumb|Riboflavina em pó. A riboflavina foi descoberta por Wynter Blyth no final do século XVIII enquanto fazia a análise dos componentes do leite de vaca, tendo denominado então este composto como "lactocromo". Outros nomes foram empregues para descrever a riboflavina, como lactoflavina ou ovoflavina, dependendo do material de onde havia sido isolada. Também foram empregues as designações hepatoflavina, verdoflavina e uroflavina, além de vitamina G. O nome actual reflecte a presença de uma cadeia lateral ribitilo e da cor amarela do grupo flavínico (do latim flavus, que significa "amarelo").

No final da Década de 1920, foram isolados diversos pigmentos amarelos com fluorescência esverdeada, e identificados como parte do complexo B. Por essa altura foi identificada a estrutura da riboflavina por Richard Kuhn e Paul Karrer, de forma independente.

Mais tarde, Hugo Theorell demonstrou que uma enzima de cor amarela, previamente identificada por Otto Warburg nas suas investigações sobre a fosforilação oxidativa, poderia ser separada em apoproteína e numa fracção solúvel amarela. Nenhuma das duas fracções em separado era capaz de oxidar o NADPH, mas ao fazer-se uma mistura de ambas, essa actividade catalítica reaparecia. Theorell tentou reconstituir a actividade da enzima juntando riboflavina à apoproteína, já que, espectroscopicamente, a fracção amarela era muito semelhante à vitamina, mas não detectou catálise. Descobriu então que o cofactor amarelo da enzima diferia da riboflavina pela presença de um grupo fosfato adicional na cadeia ribitilo. Theorell havia descoberto o FMN, o derivado directo da fosforilação da riboflavina. Anos mais tarde, Hans Krebs descobriu uma nova flavoenzima, cujo cofactor foi identificado como um novo derivado da riboflavina, o FAD, por Warburg e Christian, em 1938.

Na década de 1940 surgem os primeiros estudos sobre os efeitos da deficiência de riboflavina em humanos. O teste da actividade da glutationo redutase para aferição dos níveis de riboflavina é proposto nos finais dos anos 60, sendo utilizado até ao presente.

Metabolismo in vivo thumb|Dinucleótido de flavina e adenina (FAD). thumb|Mononucleótido de flavina (FMN). A riboflavina é a molécula precursora do FADDavid L. Nelson, Michael M. Cox, "Lehninger Principles of Biochemistry", 4ª edição, W. H. Freeman, 2005, ISBN 978-0-7167-4339-2 e do FMN. O FMN é obtido com a fosforilação da riboflavina por acção da enzima riboflavina cinase, enquanto que a FAD sintetase é a responsável pela síntese do FAD. O FAD é por isso considerado a forma biologicamente activa da riboflavina.

Para estudar as propriedades destas flavinas nas proteínas que as contêm, podem ser sintetizadas flavinas artificiais com estruturas químicas ligeiramente diferentes das naturais, ou marcadas isotopicamente. Esta síntese, que pode ser química ou enzimática, utiliza normalmente riboflavina como molécula precursora.