O Convento de Santa Teresa de Jesus de Carnide, também conhecido por Convento de Santa Teresa de Jesus da Ordem das Carmelitas Descalças e de Santo Alberto ou Asilo de São Vicente de Paula de Carnide, é um antigo convento situado em Carnide, Lisboa.
Fundado na primeira metade do século XVII para recolhimento feminino da Ordem das Carmelitas Descalças, o edifício, em traça maneirista e barroca, encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público e serve actualmente como lar de terceira idade.
História
Origens A Ordem das Carmelitas Descalças está presente em Lisboa desde o ano de 1585, ano em que esta congregação feminina estabeleceu nas Janelas Verdes o convento de Santo Alberto. Foi neste edifício que a Madre Micaela Margarida de Santa Ana traçou o objectivo de erguer um novo convento. Esta mulher, que havia sido acolhida no cenóbio ainda antes dos cinco anos, era filha ilegítima do imperador germânico Matias e sobrinha do monarca português D. João IV.
Para viabilizar este projecto, o Correio-Mor do Reino, João Gomes da Mata, doou a 29 de Novembro de 1640 uma propriedade rural sita na actual Rua do Norte, n.º 45, em Carnide. O acto de doação estipulava, contudo, uma condição estrita de reversão: na eventualidade de o espaço perder a sua função de morada para a Ordem, a titularidade dos terrenos e do património edificado retornaria para a posse do doador ou dos seus herdeiros.
O arcebispo D. Rodrigo da Cunha concedeu a licença para a fundação do convento a 22 de Junho de 1642. Todavia, meses antes, em Abril, a Madre Micaela e o seu séquito de religiosas tinham já abandonado a comunidade das Albertas para habitar a moradia modesta existente na quinta, aguardando ali o desenrolar da empreitada. Com a aprovação de D. João IV, a fundação formalizou-se em 1642, e volvidos quatro anos, em 1646, D. Raimundo de Lencastre, duque de Aveiro, presidiu à cerimónia de colocação da primeira pedra.
O mecenato da infanta D. Maria A 25 de Março de 1650, ingressou no cenóbio a infanta D. Maria, com cerca de seis anos de idade. Nascida em Lisboa a 30 de Abril de 1644 e filha ilegítima de D. João IV, a criança, que até aos seis anos fora educada pelo Secretário de Estado, António de Cavide, foi entregue aos cuidados da sua familiar, a fundadora Madre Micaela, sendo a sua instrução confiada à religiosa Margarida da Ressurreição. A infanta manteve uma vivência de grande pudor e devoção, sem inicialmente prestar os votos religiosos. Apenas quando lhe chegou a notícia da morte do seu pai, a infanta decidiu cortar o cabelo e assumir o hábito carmelita em definitivo, roupagem que nunca mais abandonou, nem mesmo quando imperativos de saúde a obrigaram a deslocar-se às termas das Caldas da Rainha por três ocasiões.
A legitimidade filial da infanta fora assegurada no testamento do rei D. João IV, que lhe concedeu doações avultadas, nomeadamente as vilas e termos de Torres Vedras, Colares, Azinhaga e Cartaxo, posteriormente ratificadas pelo seu irmão, D. Afonso VI, a 18 de Novembro. Posteriormente, a 25 de Novembro de 1677, D. Pedro II não só lhe outorgou o tratamento de alteza, como a elegeu para preceptora da infanta D. Luísa, sua própria filha ilegítima.
Com a morte da madre fundadora em 1663 (cujos restos mortais foram depositados sob a grade do coro baixo), D. Maria tornou-se a principal promotora e financiadora do complexo monástico. A sua intervenção permitiu retomar as obras a partir de 1662 e residir em permanência no edifício, assumindo a conclusão das estruturas conventuais e da igreja, cujos trabalhos se deram por terminados em 1667, ano inscrito na porta de madeira do templo. Num cunhal esquerdo da fachada da igreja, pode-se ler:MARIA, FILHA DE D.JOÃO IV REI DE PORTUGAL CONSTRUIU ESTA OBRA NO ANO DO SENHOR DE MDCLXIII'Para lá da estrutura de alvenaria, a infanta enriqueceu o santuário com ornamentos de grande valor, como telas pictóricas, alfaias litúrgicas, jóias e uma imponente custódia e lâmpada trabalhadas em prata. Registam-se também encomendas artísticas de relevo durante este período, como o desenho do retábulo-mor da autoria de João Nunes Tinoco, datado de Junho de 1671.
Quando D. Maria faleceu, a 7 de Fevereiro de 1693, instituiu o convento de Carnide como herdeiro universal da sua fortuna. O seu corpo repousa num requintado túmulo de mármores embutidos, situado num arcossólio do compartimento contíguo à capela-mor (ou coro baixo), monumento fúnebre encomendado por D. Pedro II ao canteiro Luís Nunes Tinoco no mesmo ano da sua morte.
Século XVIII Durante o século XVIII, a fama da observância rigorosa da regra carmelita transformou esta casa num refúgio de excelência, preferido pelas damas da nobreza portuguesa. A data de 1725, inscrita numa cartela cerâmica da sacristia, documenta uma importante campanha decorativa suportada pela Coroa (uma oferta do casal real, D. João V e D. Maria Ana de Áustria).
Relata-se em documentos da época uma capela devotada ao Senhor dos Passos (situada no lado do Evangelho junto à teia da capela-mor), servida por uma irmandade que aí celebrava missas às sextas-feiras em sufrágio das almas dos irmãos, e que organizava a procissão padroeira. Em 1908, descrevia-se como integrante desta capela uma maquineta representando um presépio, com cenas e figuras como o cego da sanfona e os anjos músicos, para além de episódios como a Adoração dos Reis Magos, o Anúncio aos Pastores e a Fuga para o Egipto. Este artefacto é atribuído ao escultor António Ferreira e foi incorporado de forma fragmentada no acervo do Museu Nacional de Arte Antiga em 1916. Em paralelo, as fontes documentais aludem à execução de um outro presépio setecentista, possivelmente saído das mãos de Silvestre Faria Lobo, actualmente exposto no Palácio Nacional de Queluz.
A 1 de Novembro de 1755, o violento terramoto afectou seriamente o imóvel, obrigando à reconstrução quase integral das dependências conventuais. Abriram-se novos vãos de iluminação, e deu-se uma vasta reorganização dos painéis cerâmicos e quadros, alguns da autoria de Inácio de Oliveira Bernardes e José da Costa Negreiros.
Coube às freiras a tarefa de fundar, em 1781, a comunidade afecta à nova Basílica da Estrela, cumprindo ordens de D. Maria I. A monarca nutria tamanha afeição pela congregação de Carnide que, no decurso do banquete comemorativo da inauguração, coincidente com o seu aniversário, assumiu pessoalmente a tarefa de servir as madres à mesa.
Extinção das ordens religiosas e reutilização do edifício A implementação das políticas liberais em 1833, instigadas por Joaquim António de Aguiar, decretou o fim da admissão de noviças em todo o país, ditando a morte do convento. Relatos coevos de Luís Gonzaga Pereira confirmam que, por essa mesma data, a capela-mor albergava um retábulo de madeira de irrepreensível trabalho de talha com a imagem de Nossa Senhora da Conceição, encomendado por D. Maria I em substituição do exemplar anterior, já envelhecido.
A 20 de Outubro de 1891, morreu a última freira de Carnide, a Madre Matilde Maria de São José. O edifício cerrou as suas portas e transitou imediatamente para a esfera patrimonial do Estado.
A 21 de Abril de 1892, as autoridades governamentais transferiram a tutela das instalações para a Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas, organismo sob a dependência da Congregação das Irmãs de São José de Cluny. No entanto, logo em Julho desse mesmo ano, os descendentes do benemérito João Gomes da Mata invocaram a velha cláusula fundacional de 1640, exigindo em tribunal a devolução da quinta, do imóvel e das suas benfeitorias, uma vez cessada a presença das carmelitas.
A contenda jurídica encerrou no ano de 1900 com uma resolução desfavorável para o Estado e para a Associação, forçando a Congregação a proceder à compra efectiva do edifício. Para financiar esta aquisição, as freiras de Cluny recorreram a um empréstimo com garantia hipotecária, encargo financeiro que se revelou incomportável, motivando a perda do convento e a sua subsequente alienação em praça pública. As ricas decorações em talha dourada que preenchiam a nave e os altares desapareceram de forma progressiva durante esta época.
Nas primeiras décadas de Novecentos, a vasta estrutura albergou diversas funções pragmáticas, acomodando no seu seio uma esquadra da força policial e funcionando como albergaria-geral da cidade até ao ano de 1924. Posteriormente, em 1929, Jean Pouymayou vendeu a propriedade ao reverendo José Ferreira Governo, que ali estabeleceu o Asilo das Velhinhas de Palhavã, posteriormente rebaptizada para Asilo das Velhinhas de Carnide.
Passadas duas décadas, em 1949, a gestão e a posse transitaram para as mãos da Confraria de São Vicente de Paulo. Esta irmandade procedeu à readaptação das alas conventuais e instalou um jardim de infância, uma escola primária e um lar de idosos, mantendo ali residente uma congregação vicentina para garantir o auxílio logístico e espiritual. A crescente necessidade de espaço motivou, em 1992, o desenho de um projecto de expansão arquitectónica que consistiu na erecção de um novo corpo a poente, ligado por um túnel ao edifício principal.
A 8 de Abril de 1993, a Confraria submeteu uma proposta para a salvaguarda oficial do edificado. O despacho inaugural do processo foi lavrado a 11 de Setembro de 1996, seguindo-se, em Dezembro de 1998, a redacção da Carta de Risco promovida pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. A 14 de Junho de 2012, publicou-se em Diário da República o projecto de decisão derradeiro que elevou oficialmente a estrutura ao grau de e determinou a formulação da respectiva Zona Especial de Protecção.
Descrição
Exterior O convento adopta uma matriz arquitectónica chã, mesclada com pontuais elementos de cariz maneirista e barroco. A organização em planta revela-se irregular e vazada, articulando-se em torno de um claustro quadrangular. Esta específica implantação do claustro a norte da igreja afasta-se da tipologia conventual beneditina clássica, mas obedece rigorosamente às exigências de isolamento impostas pelas carmelitas, que privilegiavam construções inteiramente voltadas "dentro" da instituição. A volumetria global apresenta-se de forma escalonada, sendo o remate superior garantido por telhados de duas e três águas que se unem através das respectivas arestas.
Fachada principal O alçado principal, orientado a poente, reparte-se através de dois pisos balizados por pilastras de pedra de cantaria, ao longo dos quais se rasgam portas e janelas de variadas morfologias e com uma distribuição assimétrica. Rasga-se nesta fachada a portaria primitiva, protegida por uma modesta cobertura alpendrada que assenta sobre mísulas de suporte. Coroando este acesso encontra-se um nicho de pedra, desenhado para albergar a figuração polícroma de São José acompanhado pelo Menino.
Na parte sul deste mesmo alçado ergue-se a fachada propriamente dita do santuário. Este pano de muro encontra-se enquadrado lateralmente por uma pilastra e por um cunhal cantoneiro, terminando a nível superior num frontão de formato triangular, aberto por um óculo e rematado por uma cruz. O portal rasga-se axialmente e exibe um emolduramento calcário rectilíneo encimado por uma verga destacada.
Acima da porta, um nicho envidraçado abriga a escultura da padroeira Santa Teresa do Menino Jesus ladeada por duas aberturas rectangulares gradeadas. Abaixo, assentam as armas de Portugal atribuídas à infanta D. Maria, cinzeladas em forma de lisonja e sobrepostas numa cartela coberta por uma coroa de infante. miniaturadaimagem|Fachada sul
Fachada sul Na fachada virada a sul podem-se distinguir os três grandes volumes que constituem o corpo canónico da igreja: a nave, a capela-mor e o cruzeiro saliente, este último perfurado por um amplo vão semicircular de características termais.
Interior