Além do que os Olhos Podem Ver é o sexto álbum de estúdio da banda brasileira de rock cristão Oficina G3, lançado em fevereiro de 2005 pela gravadora MK Music. Produzido por Geraldo Penna, a obra é caracterizada pela formação reduzida do grupo, sendo o primeiro álbum de sua discografia a conter Juninho Afram como principal vocalista nas canções.
Com músicas em maioria escritas por Afram, Duca Tambasco e Jean Carllos, é um trabalho majoritariamente conceitual, caracterizado como uma crítica à hipocrisia religiosa. O contexto no qual o trio compôs e gravou as canções foi problemático, sobretudo quanto à saída conturbada do ex-vocalista PG e incertezas acerca de um substituto do músico. A gravação do projeto conteve várias participações especiais e músicos contratados, como o baterista Lufe, o guitarrista Déio Tambasco e o cantor Marcão, na época vocalista da banda Fruto Sagrado.
O trabalho vendeu mais de vinte mil cópias no Brasil em poucos dias de seu lançamento, mais tarde ganhando um certificado de ouro da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD) por mais de cinquenta mil cópias comercializadas. O álbum também recebeu uma indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor álbum cristão em língua portuguesa, sendo premiado no Troféu Talento em 2006, como o melhor álbum de rock.
Com críticas em maioria positivas da mídia especializada em geral, Além do que os Olhos Podem Ver é geralmente considerado como um dos melhores discos na discografia da Oficina G3, restaurando a concepção totalmente rock de Indiferença e mesclando influências do metal progressivo, gênero musical até então não explorado pela banda. Em 2015, foi considerado, por vários historiadores, músicos e jornalistas, como o 97.º maior álbum da música cristã brasileira, em uma publicação dirigida pelo Super Gospel.
Antecedentes thumb|esquerda|O guitarrista Juninho Afram assumiu os vocais após a saída de PG em 2003. Em 1997, após o êxito do álbum Indiferença, o vocalista Luciano Manga precisou deixar a banda, colocando, em seu lugar, o cantor PG. Durante esta época, o grupo resolveu lançar um trabalho acústico, sucedido por um acústico gravado ao vivo, que obteve grande popularidade. Em 2000, o conjunto ingressou na gravadora MK Music, e lançou o inédito O Tempo, que possui um direcionamento musical mais próximo do pop. A mudança de sonoridade foi geralmente associada ao novo vocalista, no entanto, os membros sempre negaram as considerações da imprensa, afirmando que a estética musical do grupo sofreria mudanças independentemente de novos integrantes.
Em 2002, o baterista Walter Lopes anunciou sua saída, e declarou que sua desistência foi motivada por desentendimentos musicais e interpessoais. Em entrevista dada na época ao Super Gospel, Walter evitou dizer se tinha ocorrido algum conflito entre ele e o grupo. Com isso, Juninho Afram tornou-se o único integrante da banda remanescente da formação original. Para ocupar o lugar de Walter, o grupo contratou o baterista Lufe, que gravou a maioria das faixas de Humanos. Apesar de ser definido por Afram como o trabalho "mais pesado" do G3, com influências de nu metal, o álbum dividiu opiniões acerca da quantidade de baladas pop rock. Do ponto de vista de composição, o disco deu estreia a um novo processo criativo para a banda: a partir de Humanos, as músicas seriam creditadas a todos os integrantes. Juninho, anos mais tarde, afirmou que tomou essa atitude para incentivar a composição coletiva entre os membros e para evitar conflitos por créditos que enxergava em outros grupos.
No ano seguinte, o cantor PG anunciou sua saída da Oficina G3 com o objetivo de seguir uma trajetória pastoral, e manteve uma agenda com a banda até o final de 2003. Em 2004, ingressou numa carreira solo, enquanto a banda decidiu que Juninho Afram assumiria por completo os vocais, como fazia esporadicamente desde o início do grupo, enquanto não encontravam um novo intérprete para o conjunto. Composição thumb|PG, ex-vocalista da Oficina G3, chegou a escrever oito músicas para um futuro projeto de estúdio antes de sair As primeiras composições inicialmente destinadas a Além do que os Olhos Podem Ver foram escritas ainda com a participação de PG. O ex-vocalista, em entrevista fornecida em 2004 ao portal Universo Musical afirmou que, no momento de sua saída, o cantor tinha escrito oito melodias com a banda e, embora acreditasse que não as utilizariam, disse desconhecer o que os músicos fariam com o material já escrito. Nesta época, o músico disse que estava insatisfeito a respeito da Oficina G3, e que os demais não demostravam apoiar completamente suas novas atividades como pastor. "Comentaram muitas coisas erradas quando eu saí. Não houve briga, não saí porque queria ganhar dinheiro. Saí exatamente porque queria continuar cantando e me dedicar a outros propósitos. Onde estava eu não conseguia". Anos mais tarde, ao revisitar sua saída da banda, PG contou que o grupo tinha um foco em fazer apresentações em locais menos religiosos e grandes. O cantor, por sua vez, estava vivendo uma fase mais intimista, em que queria cantar em igrejas e contar seu testemunho de vida. O vocalista avisou sua saída em um dos ensaios e processos de composição do álbum, o que contribuiu para o tom de insatisfação do grupo. O tecladista Jean Carllos, por exemplo, defendeu que a saída de PG foi atravessada.
A saída de PG do Oficina G3 resultaria em uma quebra de contrato com a gravadora MK Music que, na época, resultaria em mais de R$ 2 milhões em multa. Por isso, o cantor cogitou permanecer no grupo até o final do contrato. Mas, para administrar o conflito, a presidente Yvelise de Oliveira liberou o cantor de suas obrigações contratuais, dando liberdade para que o cantor até optasse assinar com outra gravadora, caso quisesse. A situação estava tensa entre os integrantes a ponto do conflito se tornar público para a imprensa e o público. O guitarrista Juninho Afram afirmou que, em janeiro de 2004, o trio encontrou-se pela última vez com PG na sede da MK, e a relação entre eles não estava boa. Ao relembrar a situação, PG disse em 2022 que a reunião foi conflituosa e que, ao ir embora, se sentiu mal e ligou para Afram, pedindo desculpas pelo que tinha ocorrido. O tecladista Jean Carllos, na época, reiterou o fato do ex-integrante não ser mais amigo de nenhum dos três, considerando que aquela situação não era positiva para nenhum dos envolvidos, embora em outra entrevista, ocorrida em maio daquele ano, tenha dito que "é bom estar no meio do fogo e abrir o verbo". Em fevereiro de 2004, PG se reuniu com o seu irmão, o baterista Johnny Mazza, e escreveu todo o repertório de seu álbum de estreia como cantor solo, Adoração, que saiu ainda naquele ano. O projeto foi lançado pela MK. Ao lançar o projeto, PG deixou claro não ter utilizado nenhum material escrito anteriormente com a Oficina G3 neste trabalho. O cantor também disse que, por anos, evitou tocar músicas do Oficina G3 em shows, tanto por uma convicção pessoal, quanto a pedido dos integrantes remanescentes.
A saída de PG foi uma das influências para o disco. Segundo o baixista Duca Tambasco, quando questionado se alguma música do álbum foi escrita como indireta ao ex-membro, disse que começou a escrever canções para Além do que os Olhos Podem Ver como forma de desabafar a respeito da saída inesperada do vocalista. Mas, em conversas conversas entre o trio, decidiu mudar o direcionamento lírico por não considerar a atitude condizente com a filosofia da banda. Assim, as letras do novo álbum acabaram tendendo acerca da hipocrisia cristã, tema que permeia quase todas as canções, também abordando os conflitos internos dos seres humanos acerca do assunto. E para o grupo, se trata de uma questão polêmica, antiga, mas presente na atualidade. Na apresentação do projeto, os integrantes disseram que "a hipocrisia cristã é uma personagem antiga, velha conhecida de todos nós, mas ainda bem presente em nosso meio e longe de ser radicada. É um vírus que atinge a todos, do mais simples cristão aos grandes líderes. Estamos cansados de ver tanta gente falar o que não vive e cantar sobre isso. É o nosso grito de alerta e de protesto. Mas o foco evangelístico é imutável". Outro ponto acerca de sua lírica foram as intensas especulações e julgamentos por parte do público acerca dos últimos acontecimentos. Quase todas as faixas foram escritas em conjunto entre Afram, Tambasco e Carllos, com exceção de "Lugar Melhor", com co-autoria de Viviane Afram; "Sem Trégua", com participação de Marcão; e "Queria Te Dizer", escrita por Julim Barbosa.
Gravação O lançamento de Além do que os Olhos Podem Ver estava previsto para os primeiros meses de 2004. No entanto, a saída de PG mudou todos os planos da banda e atrasou o projeto, o que causou especulações do público. A principal incerteza estava acerca do substituto para os vocais. O guitarrista Juninho Afram afirmou que, naquela época, a banda recebeu vários discos de cantores para se integrarem à banda, mas o trio não esteve satisfeito com nenhuma proposta. Para o instrumentista, a escolha deveria ser feita com calma, pois além de ter um bom desempenho nos vocais, precisava ter uma compatibilidade de ideias com os demais membros. O ex-vocalista PG, por sua vez, tinha certeza que Juninho seguiria como o vocalista e considerava o músico completamente capaz de fazer a função.
Para os shows que o grupo cumpria agenda na época, os tons das músicas foram alterados para se adequarem à extensão vocal de Juninho Afram. A tendência para o álbum permaneceu a mesma, com Duca Tambasco preferindo esta forma. Para o baixista, a sonoridade tenderia a ser mais "pesada" assim. "A gente abaixou o tom de algumas músicas, pois é mais confortável, e nós gostamos muito de cantar em dó. Ficou animal, muito pesado, é legal de ouvir. Ainda não sabemos se vamos gravar o CD em dó ou em ré, mas estamos fazendo as músicas com uma linha vocal que funcionaria dos dois jeitos", afirmou Juninho Afram. thumb|esquerda|Duca Tambasco, Jean Carllos e Juninho Afram, em imagem de divulgação fotografada em 2007 Pela primeira vez na história da Oficina G3, o álbum foi escrito e pré-produzido simultaneamente. Ainda nos primeiros meses de 2004, os membros se reuniam num estúdio pessoal de Duca para criarem letras para arranjos prontos. No entanto, não foi esclarecido se tais melodias eram as mesmas nas quais PG citou ter feito junto com o trio antes de deixar o conjunto. Após isso, a banda repassaria o material ao produtor musical Geraldo Penna, no qual faria incrementações.
Além dos três músicos integrantes do conjunto, o baterista Lufe e o guitarrista Déio Tambasco, irmão de Duca, participaram das gravações do álbum, além de acompanharem o grupo nos shows e viagens. Uma destas apresentações foi o Canta Zona Sul, ocorrido no Rio de Janeiro, na Praia de Copacabana, em abril de 2004, que reuniu um público de 150 mil pessoas. Nesta época, Juninho, Duca e Jean participaram de um álbum solo de Déio que estava sendo gravado, Novos Rumos.
Os músicos entraram em estúdio no início de maio de 2004 para gravar Além do que os Olhos Podem Ver. As sessões ocorreram no estúdio Lord G, sob produção musical de Geraldo Penna. Em uma notícia divulgada pela banda, Penna adiantou que o disco seria mais "pesado" que o anterior, sem deixar de lado as baladas e contendo uma sonoridade diferente, misturando elementos eletrônicos, rítmicos e acústicos, que o faria ser intrigante, no mínimo. Em junho, o baixista Duca Tambasco gravaria seus solos definitivos para o disco.