A Guerra de Corinto ou Guerra Coríntia foi um conflito na Grécia Antiga que transcorreu entre os anos 395 e , no qual se encontravam, de um lado, Esparta e, do outro, uma colisão de quatro estados aliados: Tebas, Atenas, Corinto e Argos, colisão que estava também apoiada, no princípio, pela Pérsia.
A causa imediata da guerra foi um conflito local no noroeste da Grécia, no qual intervieram tanto Tebas como Esparta. A causa subjacente era a hostilidade de Esparta provocada pela dominação unilateral que havia exercido nos nove anos que seguiram ao final da Guerra do Peloponeso.Simon Hornblower, "Corinthian War," extraído de The Oxford Classical Dictionary, Simon Hornblower e Antony Spawforth, ed.
A guerra foi levada a cabo sobre duas frentes: em terra, próximo de Corinto e Tebas, e no mar, no Egeu. Em terra, os espartanos alcançaram vários êxitos em batalhas importantes, mas foram incapazes de capitalizar sua vantagem, e a guerra se viu em um estado de equilíbrio. No mar, a frota espartana foi derrotada por uma frota persa, acontecimento que deu fim às tentativas de Esparta de vencer através do poder naval. Aproveitando este fato, Atenas lançou várias campanhas navais nos anos posteriores da guerra, reconquistando um número de ilhas que haviam sido parte do antigo Império Ateniense durante o .
Alarmados por esses êxitos atenienses, os Persas deixaram de apoiar os aliados e começaram a apoiar Esparta. Esta troca de lado obrigou os aliados a buscarem a paz. A Paz de Antálcidas, normalmente conhecida como a Paz do Rei, foi assinada em , terminando assim a guerra. Este tratado declarou que a Pérsia controlaria toda a Jônia e que as demais cidades gregas seriam independentes. Esparta devia garantir a paz, com o dever de fazer cumprir as cláusulas do tratado.
Os efeitos da guerra, portanto, foram estabelecer a capacidade da Pérsia de interferir satisfatoriamente na política grega e afirmar a posição hegemônica de Esparta no sistema político grego.Fine, The Ancient Greeks, 556-9
Eventos que conduziram a guerra
300px|miniaturadaimagem|Mapa da guerra de Corinto
Na guerra do Peloponeso, que havia terminado em , Esparta desfrutou do apoio de quase todos os estados do território continental da Grécia antiga, assim como do império persa, e depois nos meses que se seguiram da guerra uma série de pólis no Egeu também ficaram sob domínio espartano.
Essa sólida base de apoio, entretanto, logo se viu fragmentada depois da guerra. Apesar da natureza da vitória, que havia sido realizada graças a colaboração de vários estados, Esparta foi a única que recebeu os saques tomados dos estados derrotados e o pagamento de tributos do império ateniense.Fine, The Ancient Greeks, p. 547 Os aliados de Esparta se viram mais marginalizados quando em , Esparta atacou e tomou Élida sob o seu controle, sendo esta uma cidade membro da Liga do Peloponeso que havia enfrentado Esparta durante o curso da guerra. Corinto e Tebas se negaram a enviar tropas para ajudar Esparta na campanha contra Élida.Xenofonte, Helênicas 3.2.25
Tebas e Corinto também recusaram em participar da expedição espartana contra a Jônia em , com os tebanos inclusive interrompendo um sacrifício que o rei espartano Agesilau II tentou lavar a cabo em seu território antes de partir.Pausânias, Descrição da Grécia 3.9.2-4 Mesmo com a ausência dos estados aliados, Agesilau conseguiu derrotar com êxito os persas em Lídia, chegando a avançar em terra adentro até Sárdis. O sátrapa Tissafernes foi executado pela sua incapacidade de deter Agesilau, e seu substituto Titraustes pagou aos espartanos para que dirigissem ao norte, até a sátrapa de Farnabazo II. Agesilau aceitou o pagamento, e então começou a preparar uma frota naval de grande tamanho rumo a sátrapa.Xenofonte, Helénicas 3.4.25-29
Se vendo incapaz de derrotar o exército de Agesilau, Farnabazo decidiu obrigar os espartanos a efetuar uma retirada através de uma ameaça de ataque pela Grécia continental. Enviou Timócrates de Rodes, um grego asiático, para distribuir dinheiro nas principais cidades do continente afim de incitá-las a enfrentarem Esparta.Xenofonte (3.5.1) Os tebanos, que já haviam demonstrado sua antipatia contra Esparta, trataram de começar a guerra.
Primeiras etapas da guerra () Primeiros enfrentamentos
Os tebanos, que não desejavam em um primeiro momento desafiar Esparta de forma direta, preferiram uma via indireta para começar a guerra. Apoiaram seus aliados na Lócrida para que levassem a cabo a coleta de tributos em um território que estava sendo reclamado pela Lócrida e Fócida. Em resposta, os cidadãos da Fócida invadiram a Lócrida, que por sua vez solicitou a ajuda de Tebas. Os tebanos invadiram o território fócio, e estes pediram ajuda para Esparta, que avistou uma oportunidade para afligir os inquietos tebanos.Xenofonte, Helênicas 3.5.3-5 Os espartanos ordenaram a movimentação de seu general, enquanto que uma embaixada foi a Atenas para buscar apoio. Entretanto os atenienses votaram em ajudar os tebanos, e foi formado uma aliança duradoura entre Atenas e a Liga da Beócia.Fine, The Ancient Greeks, 548-9
O plano espartano era movimentar dois exércitos, um sob o comando de Lisandro e o outro comandado por Pausânias, para que se encontrassem e atacassem a cidade de Haliarto.Xenofonte, Helénicas 3.5.6-7 Lisandro chegou antes de Pausânias e conseguiu persuadir os orcomênios para que se rebelassem contra a Liga da Beócia, avançando assim contra Haliarto com suas próprias tropas e uma força de orcomênios. Lisandro morreu na batalha de Haliarto por ter levado a suas tropas perigosamente perto das muralhas da cidade. O saldo final do conflito não foi favorável para nenhum lado, com os espartanos sofrendo muitas baixas no início para posteriormente derrotarem um grupo de tebanos que os perseguiam em um terreno mais acidentado, mas no geral o resultado foi positivo para Tebas. Pausânias chegou um dia mais tarde, e concordando com um cessar fogo recuperou os corpos dos espartanos mortos, e retornou para Esparta. Chegando na cidade Pausânias foi condenado a morte por sua incompetência, mas fugiu antes que fosse sentenciado.Xenofonte, Helénicas 3.5.17-25
A aliança contra Esparta se expande
Depois destes acontecimentos, tanto os espartanos quanto seus oponentes se prepararam para os enfrentamentos que viriam a seguir. No final de , Corinto e Argos entraram na guerra como aliados de Atenas e Tebas. Formou-se um conselho em Corinto para dirigir os assuntos desta aliança, e os aliados enviaram emissários para uma série de pólis menores recebendo o apoio de muitas delas.Diodoro Sículo, Biblioteca histórica 14.82.1-3
Alarmados com esses acontecimentos, os espartanos prepararam um exército contra esta nova aliança e enviaram um mensageiro a Agesilau ordenando-lhe para voltar a Grécia. As ordens foram mal recebidas por Agesilau, que buscava uma grande campanha na Ásia, mas ele voltou e se dirigiu para casa com suas tropas, cruzando o Helesponto e marchando a oeste através da Trácia.Xenofonte, Helénicas 4.2.1-8
Guerra na terra e no mar Nemeia
Depois do conflito entre Tebas e Fócida, onde Tebas se saiu vitoriosa, os aliados reuniram um grande exército em Corinto. Para combatê-los, Esparta enviou uma força de grande tamanho até Corinto. Os exércitos se encontraram no leito seco do rio Nemeia, onde os espartanos obtiveram uma vitória decisiva. Os exércitos da aliança perderam 2800 homens, contra somente 1100 de Esparta e seus aliados.Xenofonte, Helénicas 4.2.16-23
Cnido
A ação militar seguinte de grande importância se deu no mar, onde os aquemênidas e os espartanos haviam reunido grandes frotas durante as campanhas de Agesilau na Ásia. Graças ao recrutamento de navios nas cidades sob o seu controle, Agesilau havia reunido um contingente de 120 trirremes, e que botou sob a liderança de seu cunhado Pisandro, o qual carecia de experiencia naval.Xenofonte, Helénicas 3.4.27-29 Os persas, por sua vez, haviam reunido as frotas da Fenícia, Cilicia e do Chipre sob comando do experiente almirante Conão, o qual havia conseguido se apoderar de Rodes em e convertido em base naval.
As frotas se encontraram em agosto de . Os espartanos lutaram bem mas finalmente foram derrotados. Um grande número de navios da frota espartana foram afundados ou capturados, sobrando pouco dos 120 trirremes. Depois dessa vitória, Conão e Farnabazo navegaram na costa da Jônia, expulsando os governadores (Harmostas) espartanos e as guarnições das cidades, embora não tenham expulsado as bases espartanas em Abidos e Sesto.Fine, J. V.A The Ancient Greeks pp., 546-7
Coroneia
Até então o exército de Agesilau havia conseguido rechaçar os ataques dos tessálios enquanto marchava sobre o seu território até chegar na Boécia, lugar onde encontrou um exército formado por várias pólis contrárias a Esparta. A força asiática de Agesilau, composta principalmente por hilotas e mercenários do Dez mil, fora reforçada por um regimento orcomênio.
Os exércitos se encontraram em Coroneia, onde as alas esquerda de ambos os exércitos saíram vitoriosas, com os tebanos saindo triunfantes enquanto o resto dos aliados foram derrotados. Vendo que estavam sozinhos, os tebanos tentaram furar o cerco inimigo para se encontrar com os aliados no Monte Hélicon.Xenofonte Helénicas 4.3.15-20 e Diodoro Sículo, Biblioteca histórica 14.84.1-2 Agesilau enfrentou eles de frente, e o que se sucedeu foi um dos maiores banhos de sangue na história militar grega. Poucos tebanos conseguiram furar o cerco e saírem vivos. Depois da vitória, Agesilau voltou por mar para regressar a Esparta.
Eventos posteriores
Os eventos do ano deram a Esparta vantagem na guerra terrestre, mas ficaram muito fragilizados no mar. A coalizão de estados havia sido incapaz de derrotar a falange espartana no campo de batalha, contudo haviam realizado com exito em manter a força da aliança e terem impedido os espartanos de se deslocarem até a Grécia central. Os espartanos seguiram tentando nos anos seguintes derrotar Corinto e Argos para deixá-los fora de combate, sem sucesso.
Embora os aliados buscassem preservar a sua frente unida contra Esparta, não obstante Atenas e Tebas tomavam vantagem da preocupação de Esparta em perder poder em áreas que tradicionalmente havia dominado.
A ajuda persa, a reconstrução de Atenas e revolta civil em Corinto
No ano , Conão e Farnabazo navegaram até a Grécia continental, e se dedicaram a saquear a costa da Lacônia e atacaram a ilha de Citera, onde deixaram uma guarnição a um governador ateniense. Dali navegaram até Corinto, onde distribuíram dinheiro e demonstraram para o rei persa que o conselho era merecedor de confiança. Farnabazo enviou Conão com recursos econômicos e com grande parte da frota até a Ática, lugar que estava ocorrendo a reconstrução das longas muralhas, que ia de Atenas até Pireu, projeto que havia sido iniciado por Trasíbulo em . Com a ajuda dos remadores e dos trabalhadores pagos com o dinheiro persa, a construção foi completada.Xenofonte, Helênicas 4.8.7-10 Atenas tomou vantagens da longas muralhas e da frota para atacar as ilhas de Esquiro, Imbros e Lemnos, onde estabeleceu colônias de cidadãos atenienses.Fine, The Ancient Greeks, 551
Aproximadamente nesta época implodiu uma revolta civil em Corinto entre o partido democrático e o oligárquico. Os democratas, apoiados pelos argivos, lançaram um ataque contra seus oponentes e os expulsaram da cidade. Os exilados foram em busca de ajuda dos espartanos, que tinham Sicião como base no momento, enquanto os atenienses e beócios apoiaram os democratas. Em um ataque noturno, os espartanos e os exilados tiveram êxito de tomar o porto de Corinto, Lequeu, situado no golfo de mesmo nome, e derrotaram um exército que foi mandado para enfrenta-los no dia seguinte. Os aliados tentaram invadir o porto, mas os espartanos sofreram um novo ataque e foram derrotados.Diodoro Sículo, Biblioteca histórica 14.86
Fracasso nas negociações de paz