O Dragão, ou drago (do , drákōn, “grande serpente”) é uma criatura lendária presente na mitologia de diversos povos, civilizações e culturas do mundo. A sua descrição apresenta variações, mas é normalmente representado como um lagarto ou uma serpente de grande porte com escamas e asas, podendo ainda ter plumas, poderes mágicos e a capacidade de soprar fogo. Pode ser representada como uma fera destruidora, ou como uma fonte sobrenatural de sabedoria e força.
Origem dos mitos É possível que os dragões sejam uma das primeiras manifestações culturais ou mitos criados pela humanidade.
A origem dos mitos sobre dragões em diversos lugares do mundo é bastante discutida. Acredita-se que possam ter surgido da observação de fósseis de dinossauros e outras grandes criaturas, como baleias, crocodilos ou rinocerontes, por povos antigos, que os tomaram por ossos de dragões.
Por serem relativamente grandes, é comum que sejam apresentados como adversários de deuses ou heróis lendários. É comum também que sejam usados para explicar fenômenos através da atribuição de tarefas míticas às criaturas, como a sustentação do mundo ou o controle de fenômenos climáticos.
As representações mais antigas já encontradas foram observadas em pinturas rupestres de aborígenes pré-históricos na Austrália, datadas de aproximadamente em 40.000 a.C. Dada a inexistência de registros escritos da época, o conhecimento sobre estas pinturas provém da comparação com mitos semelhantes de povos contemporâneos. Isto sugere que estes dragões eram reverenciados como deuses, responsáveis pela criação do mundo, e eram vistos positivamente pelo povo.
Dragões na mitologia Visão geral A imagem mais conhecida dos dragões na cultura Ocidental é a das lendas europeias (celta e germânica), mas a figura — ainda que de enorme variação de forma, tamanho e significado — é recorrente em quase todas as civilizações antigas. Temos, ainda que sem aparente conexão entre si, os dragões com formas de serpentes e crocodilos da Índia — sobre os quais o escritor grego Filóstrato dedicou uma extensa passagem da sua obra “Vida de Apolônio de Tiana” (livro III, capítulos VI, VII e VIII) — as serpentes emplumadas adoradas pelos astecas, passando pelos grandes lagartos da Polinésia. É possível que o dragão seja um símbolo chave das crenças primitivas, como os fantasmas, zumbis e outras criaturas igualmente recorrentes.
No Oriente Médio No Oriente Médio, os dragões eram geralmente vistos como encarnações do mal. A mitologia persa menciona vários dragões, como Azi Dahaka, que atemorizava os homens, roubava seu gado e destruía florestas — provavelmente, uma alegoria mítica da opressão que a Babilônia exerceu sobre a Pérsia na antiguidade clássica. É da cultura persa que aparentemente se originou a ideia de grandes tesouros guardados por dragões, que poderiam ser tomados por aqueles que o derrotassem, hoje tema comum em histórias fantásticas.
Na Mesopotâmia Na antiga Mesopotâmia, também havia essa associação de dragões com o mal e o caos. Os dragões dos mitos sumérios, por exemplo, frequentemente cometiam grandes crimes, e por isso acabavam punidos pelos deuses, como Zu — um deus dragão sumeriano das tempestades — que teria roubado as pedras onde estavam escritas as leis do universo, e por isso foi morto pelo deus sol Ninurta; ou a dracena (dragoa) Tiamat, do épico babilônico “Enuma Elish”, que conta a criação do mundo. Tiamat, apontada por diversos autores como uma personificação do oceano, une-se ao seu consorte, Apsu, personificação das águas doces sob a terra, dando à luz aos diversos deuses mesopotâmicos.
Apsu, no entanto, não conseguia descansar na presença de seus rebentos, e decide destruí-los, mas é morto por um deles, Ea. Para se vingar, Tiamat cria um exército de monstros, onze dos quais considerados dragões, e prepara um ataque contra os jovens deuses. Liderados pelo mais jovem entre eles, Marduque — mais tarde o principal deus do panteão babilônico — os deuses vencem a batalha e se consolidam como senhores do universo. Do corpo perecido de Tiamat são criados o céu e a terra, enquanto do sangue de Kingu, principal general do seu exército, é criada a Humanidade. O Dragão de Mushussu é subjugado por Marduque, se tornando seu guardião e símbolo de poder.
No Extremo Oriente
Na China, a presença de dragões na cultura é anterior mesmo à linguagem escrita e persiste até agora, sendo o dragão um símbolo nacional chinês. Na cultura chinesa antiga, os dragões possuíam um importante papel na previsão climática, já que eram considerados os responsáveis pelas chuvas.
Assim, era comum associar os dragões com a água e com a fertilidade nos campos, criando uma imagem bastante positiva destes, ainda que conseguissem causar imensa destruição quando enfurecidos, via grandes tempestades. As formas quiméricas do dragão Lung chinês, misturando partes de diversos animais, também influenciaram diversos outros dragões orientais, como o “Tatsu” do Japão.
Nos mitos do extremo oriente, os dragões geralmente desempenham funções superiores às de meros animais mágicos, muitas vezes ocupando a posição de deuses. Na mitologia chinesa, os dragões chamam-se long e dividem-se em quatro tipos: celestiais, espíritos da terra, os guardiões de tesouros e os dragões imperiais. No contexto do taoísmo, divindades primordiais como Yuanshi Tianzun são associadas à criação do universo e a símbolos cosmogônicos frequentemente representados por figuras dracônicas.
Nas lendas japonesas, os dragões desempenham papel divino semelhante. O dragão Ryujin, por exemplo, era considerado o deus dos mares e controlava pessoalmente o movimento das marés mediante joias mágicas.
Em algumas tradições japonesas, forças naturais destrutivas como vulcões e maremotos eram explicadas por meio de seres sobrenaturais, frequentemente associados a dragões ou serpentes marinhas. De modo semelhante, em outras culturas antigas, figuras dracônicas ou serpentinas também simbolizavam o caos primordial, como Apófis, no Egito Antigo, personificação da desordem cósmica.
Dragões na Bíblia thumb|Representação do dragão como um ser demoníaco nas culturas religiosas europeias Muito da visão dos cristãos a respeito de dragões é herdado das culturas do Médio Oriente e do Ocidente antigo, como uma relação bastante forte entre os conceitos de dragão e serpente (muitos dragões da cultura cristã são vistos como simples serpentes aladas, às vezes também com patas), e a associação deles com o mal e o caos.
De acordo com o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, no Antigo Testamento os dragões simbolizam os inimigos do povo de Deus, como em . Ao fazê-lo, os textos bíblicos recorrem a imagens mitológicas comuns a povos do Oriente Próximo, a fim de facilitar sua compreensão pelos Israelitas. Nesse contexto, a Septuaginta, ao narrar a história de Moisés, traduz o termo hebraico para “serpente” como “dragão”, como em .
Há ainda, no Antigo Testamento, em , a seguinte descrição de Leviatã:18 "Os seus espirros fazem resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pestanas da alva.
19 Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.
20 Dos seus narizes procedem fumaça, como de uma panela que ferve, e de juncos que ardem.
21 O seu hálito faz incender os carvões, e da sua boca sai uma chama." Em , há citado um "áspide ardente voador" (versão ARC), junto com outros animais, para ilustrar a terra para onde os israelitas serão levados, pois o contexto do capítulo é sobre a repreensão deles. No Novo Testamento, acha-se apenas no Apocalipse de São João, utilizado como símbolo de Satanás.
Em o dragão é descrito como sendo o próprio Satanás: "O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada diabo ou Satanás, que engana o mundo todo. Ele e os seus anjos foram lançados à terra".
O Leviatã, a serpente/crocodilo cuspidora de fumaça do livro de Jó, também é considerado um dragão bíblico, embora não seja apresentado como um ser maligno e sim como uma criação de YHWH (Jeová). Os dragões nas histórias da cristandade acabaram por adotar esta imagem de maldade e crueldade, sendo como representações do mal e da destruição.
O caso do mais célebre dragão do imaginário cristão é o da lenda de São Jorge, que, segundo a tradição hagiográfica medieval, enfrentou e derrotou um dragão que exigia sacrifícios humanos, frequentemente descritos como jovens virgens. A narrativa, difundida sobretudo pela Legenda Áurea, contribuiu para a consolidação do motivo literário do cavaleiro nobre que enfrenta um dragão para salvar uma princesa, tema recorrente tanto na literatura medieval quanto na fantasia moderna.
Na América pré-colombiana Os dragões aparecem mais raramente nos mitos dos nativos americanos, mas existem registros históricos da crença em criaturas "draconídeas".
Um dos principais deuses das civilizações do golfo do México era Quetzalcoatl, uma serpente alada. Nos mitos da tribo Chincha do Peru, Mama Pacha, a deusa associada à colheita, ao plantio e às forças telúricas, era por vezes descrita como uma entidade monstruosa ou serpentiforme ligada a terremotos.
Segundo a tradição oral dos apaches, um herói cultural primordial — por vezes identificado como o primeiro chefe da tribo — teria enfrentado uma criatura monstruosa gigante em um duelo utilizando arco e flecha. De acordo com a lenda, o monstro usava um enorme pinheiro torcido como arco, disparando árvores jovens como projéteis. O herói conseguiu se desviar de quatro ataques e, em seguida, atingiu a criatura com quatro flechas, derrotando-a. O número quatro possui forte significado simbólico nas cosmologias das culturas indígenas do sudoeste da América do Norte.
No folclore brasileiro existe o Boitatá, uma cobra gigantesca que cospe fogo e defende as matas daqueles que as incendeiam.
No Ocidente thumb|esquerda|Um dragão numa tapeçaria medieval No Ocidente, de modo geral, predomina a concepção do dragão como um ser maligno e associado ao caos, embora existam exceções. Nos mitos europeus, a figura do dragão aparece com frequência, sendo na maioria das vezes descrita como uma besta irracional, diferentemente do papel divino ou cosmológico que tais criaturas frequentemente desempenham nas mitologias orientais.
A visão negativa dos dragões é bem representada na lenda nórdica e germânica de Siegfried e Fafnir, na qual o anão Fafnir transforma-se em um dragão devido à sua ganância e cobiça, sendo posteriormente derrotado pelo herói. Na mesma narrativa, observa-se um motivo recorrente em histórias envolvendo dragões: as propriedades mágicas de partes de seu corpo. Após matar Fafnir, Siegfried assa e ingere parte de seu coração, adquirindo assim a capacidade de compreender a linguagem dos animais, da mitologia nórdica, era o pesadelo dos víquingues; por outro lado, as proas de seus navios eram entalhadas com um dragão para espantá-lo.
Na mitologia grega, os dragões frequentemente aparecem como adversários mitológicos de grandes heróis, como Héracles e Perseu. Segundo uma lenda, o herói Cadmo matou um dragão que guardava uma fonte sagrada e havia devorado seus companheiros. Em seguida, a deusa Atena aconselhou Cadmo a extrair e enterrar os dentes do dragão. Dos dentes semeados nasceram guerreiros conhecidos como Espartanos (Spartoi), que auxiliaram Cadmo na fundação da cidade de Tebas. Sláine, Cuchulainn e diversos outros heróis celtas enfrentaram dragões nos relatos dos seus povos.
A lenda polonesa do dragão de Wawel narra como um dragão que habitava a região próxima à atual cidade de Cracóvia foi derrotado, segundo a tradição, por meio de astúcia ou bravura humana, em um dos mitos fundadores associados à cidade.
Durante a Idade Média, eram numerosas as histórias sobre batalhas contra dragões. A existência dessas criaturas era frequentemente considerada real, e seu aspecto e hábitos eram descritos em detalhes nos bestiários medievais de tradição cristã. Segundo relatos hagiográficos, São Jorge teria derrotado um dragão.