thumb|O tetragrama em hebreu. YHWH (transliteração do hebraico יהוה) é o tetragrama (do grego: τετραγράμματον, tetragrammaton; "conjunto de quatro letras")Henry George Liddell, Robert Scott, A Greek-English LexiconVerbete tetragrama no Dicionário Priberam. que na Bíblia hebraica indica o nome próprio de Deus.Kerygma 07 Kerygma, Revista Científica de Teologia (Unaspress, 2011), volume 7, número 2, p. 22.Roberto G. Bratcher. Comentários SBB - Marcos versículo a versículo. Sociedade Bíblica do Brasil; 6 de junho de 2013, p. 312.
As quatro letras do alfabeto hebraico que compõem este tetragrama (escritas da direita para a esquerda) são (yod), (he), (vav, chamada também waw), e de novo ה (he). Em português (assim como em inglês e francês) a transliteração usual é YHWH, mas encontram-se também na forma YHVH (como em espanhol).
As quatro letras são todas consoantes, como é normal ao escrever hebraico. Hoje a maioria dos estudiosos pensa que a pronúncia original do tetragrama bíblico era "Yahweh". Entre eles há incerteza sobre a vocalização como "Yahwoh" ou "Yahweh", mas esta é a forma que escolhem principalmente."On hésite généralement aujourd'hui entre deux vocalisations : Yahwoh et Yahwéh. Avec la plupart des traductions, nous adopterons ici la vocalisation conventionnelle Yahwéh"().</ref>"the name ... was probably pronounced Ýahwoh'. The 'Yahweh' pronunciation would have been the result of a later theological interpretation of the name" (Klaas Spronk, Crítica do livro de A. Lemaire, The Birth of Monotheism. The Rise and Disappearance of Yahwism (Biblical Archaeology Society, Washington, 2007) em Bibliothesa Orientalis LXVII, 3–4, maio--agosto 2010.A.T. Olmstead, History of Palestine and Syria to the Macedonian Conquest (Scribner 1931), pp. 250–251, citada en Barnard H. F. Howe, "The Conflict of Baalism and Hebrew Prophetism" (The Biblical Seminary in New York), p. 35
Traduções mais populares da língua portuguesa na atualidade usam o termo Jeová ou Javé para o tetragrama.
Antigos textos com o tetragrama YHWH Primeiros usos conhecidos thumb| Tetragrama YHWH na Pedra Moabita A inscrição mais antiga conhecida que contém o tetragrama YHWH é a Pedra Moabita de cerca de 840 a.C, que celebrou a vitória de um rei moabita sobre um rei israelita e o saque de um templo do deus israelita.Adeilson Nogueira. A Invenção Do Alfabeto. Clube de Autores 2019. O tetragrama também foi encontrado em inscrições menos solenes em fragmentos de cerâmica e semelhantes de data ligeiramente posterior.F. M. Cross, Canaanite Myth and Hebrew Epic (Harvard University Press, 1997) p. 61 Aparece por exemplo nas chamadas Cartas de Laquis escritas em fragmentos de cerâmica na última parte do e que contêm frases como "Que YHWH faça que meu senhor ouça hoje mesmo notícias de paz.
Em todos estes textos, usa-se a forma arcaica do alfabeto hebraica (letras páleo-hebraicas): 𐤉𐤄𐤅𐤄. Textos com o Tetragrama
As visões gerais atuais começam com a epigrafia egípcia. Uma inscrição em hieróglifos do Faraó Amenhotep III (1402–1363 a.C.) em Soleb menciona um grupo de Shasu aos quais chama de "os Shasu de Yhwꜣ" (lido como: ja-h-wi ou ja-h-wa). James D. G. Dunn e John W. Rogerson sugeriram que a inscrição de Amenhotep III pode indicar que a adoração de Yahweh originou-se em uma área ao sudeste de Israel. Uma inscrição posterior do tempo de Ramsés II (1279–1213 a.C.) em Amara Ocidental associa os nômades Shasu a S-rr, interpretado como o Monte Seir, mencionado em alguns textos como o lugar de onde Yahweh provém. O egiptólogo Thomas Schneider argumentou a favor da existência de um nome teofórico em um papiro do Livro dos Mortos datado do final da 18ª ou início da 19ª dinastia, o qual ele traduziu como `adōnī-rō'ē-yāh, significando "Meu senhor é o pastor de Yah".
A Estela de Mesa, datada de 840 a.C., menciona o deus israelita Yahweh. Fragmentos de cerâmica e inscrições em gesso aproximadamente contemporâneos encontrados em Kuntillet Ajrud mencionam "Yahweh de Samaria e sua Aserá" e "Yahweh de Temã e sua Aserá". Uma inscrição tumular em Khirbet el-Qom também menciona Yahweh. Datados um pouco mais tarde (século VII a.C.), existem um óstraco das coleções de Shlomo Moussaieff, e dois minúsculos rolos de amuletos de prata encontrados em Ketef Hinnom que mencionam Yahweh. Também uma inscrição de parede, datada do final do século VI a.C., com menção a Yahweh foi encontrada em uma tumba em Khirbet Beit Lei.
Yahweh é mencionado também nas Cartas de Laquis (587 a.C.) e nos óstracos de Tel Arad ligeiramente anteriores, e em uma pedra do Monte Gerizim (século III ou início do século II a.C.).
Textos com teônimos semelhantes
Os teônimos YHW e YHH são encontrados nos Papiros de Elefantina de cerca de 500 a.C. Pensa-se que um óstraco com YH tenha perdido a letra final de um YHW original. Estes textos estão em aramaico, não na língua do Tetragrama Hebraico (YHWH) e, ao contrário do Tetragrama, possuem três letras em vez de quatro. No entanto, por terem sido escritos por judeus, assume-se que se referem à mesma divindade e que sejam uma forma abreviada do Tetragrama ou o nome original a partir do qual o nome YHWH se desenvolveu.
Kristin De Troyer afirma que YHW ou YHH, e também YH, estão atestados nos papiros do século V e IV a.C. de Elefantina e Wadi Daliyeh: "Em ambas as coleções pode-se ler o nome de Deus como Yaho (ou Yahu) e Ya". O nome YH (Yah/Jah), a primeira sílaba de "Yahweh", aparece 50 vezes no Antigo Testamento, 26 vezes isoladamente (Êxodo 15:2; 17:16; e 24 vezes nos Salmos), e 24 vezes na expressão "Aleluia".
De acordo com De Troyer, os nomes curtos, em vez de serem inefáveis como "Yahweh", parecem ter tido uso falado não apenas como elementos de nomes pessoais, mas também em referência a Deus: "Os samaritanos parecem, portanto, ter pronunciado o Nome de Deus como Jaho ou Ja." Ela cita Teodoreto () afirmando que os nomes mais curtos de Deus eram pronunciados pelos samaritanos como "Iabe" e pelos judeus como "Ia". Ela acrescenta que a Bíblia também indica que a forma curta "Yah" era falada, como na frase "Aleluia".
Os textos da Patrologia Graeca de Teodoreto diferem ligeiramente do que De Troyer afirma. Em Quaestiones in Exodum 15, ele diz que os samaritanos pronunciavam o nome Ἰαβέ e os judeus o nome Άϊά. Tradução em português: (O termo grego Άϊά é uma transcrição da frase de Êxodo 3:14 אֶהְיֶה (ehyeh), "Eu sou".) Em Haereticarum Fabularum Compendium 5.3, ele utiliza a grafia Ἰαβαí.
A Bíblia hebraica thumb|esquerda|Tetragrama bíblico em Números 18:2 em um pergaminho de sinagoga e, portanto, sem sinais vocálicos O tetragrama YHWH ocorre 5 410 vezes no texto hebraico da Bíblia.Crawford Howell Toy, Ludwig Blau, "Tetragrammaton" em Jewish Encyclopedia
Por ser uma palavra hebraica, YHWH não aparece nem nas partes da Bíblia escritas em aramaicoDaniel 2:4–7:28; Esdras 4:8–6:18; 7:12–76; Jer 10:11; dos palavras em Gen 31:47 (Andreas Schuele. An Introduction to Biblical Aramaic (Westminster John Knox Press, 2012), p. 1). nem nos livros deuterocanônicos escritos em grego e considerados como parte da Bíblia por algumas igrejas cristãs mas rejeitados por outras.
Segundo a hipótese documental os cinco primeiros livros do Antigo Testamento (chamados de Pentateuco ou Torá) são resultado de uma composição a partir de quatro fontes principais, das quais uma, ao falar de Deus, enfatiza o nome YHWH. (As outras fontes seriam a Eloista, a Deuteronista e a Sacerdotal.)
Em alguns manuscritos do Mar Morto (todos anteriores ao ano 100 d.C., mas descobertos apenas em meados do século XX), o tetragrama YHWH é escrito com caracteres páleo-hebraicos, enquanto o resto do texto usa o estilo de escrita que então havia se tornado normal: יהוה.
A Septuaginta thumb|YHWH grafado em páleo-hebraico, em meio do texto grego da Septuaginta em um manuscrito do século I d.C. A grande maioria dos manuscritos da Septuaginta (tradução antiga grega da Bíblia hebraica) representa o tetragrama YHWH pela palavra Κύριος (Kyrios, Senhor) correspondente ao termo hebraico אדני, (Adonai, que tem o mesmo significado). São exceções cinco manuscritos entre os mais antigos conhecidos. O manuscrito 4Q120 do século I a.C. usa ΙΑΩ (Iao) como sua tradução de YHWH. Os outros quatro, em vez de traduzir o nome YHWH, inserem-no em meio do texto grego com suas letras hebraicas, seja na forma contemporânea יהוה (Papiro Fouad 266 do século I a.C.) ou em caracteres páleo-hebraicos 𐤉𐤄𐤅𐤄 (Pergaminho Grego dos Profetas Menores de Nahal Hever e Papiros Oxirrinco 3522 e 5101 do século I d.C.), onde o Tetragrama aparece escrito em hebraico arcaico ou páleo-hebraico.
Originalmente sem sinais vocálicos thumb|O Códice Leningrado, do As antigas inscrições, como a da Pedra Moabita. têm só consoantes sem indicação das vogais. O mesmo vale para os primeiros manuscritos da Bíblia hebraica. Mais tarde, por volta do signo V a.C. começou-se a indicar, não sempre mas ocasionalmente, os sonidos vocálicos, empregando para isso certas letras, chamadas por isso matres lectionis (mães da leitura), como Y para indicar I ou E, W para indicar U ou O. Não antes do século VI d.C. apareceu um sistema de pontos e traços para indicar com precisão a vogal de cada sílaba.Russell Norman Champlin. Novo dicionário bíblico Champlin: Completo, prático, exegético, indispensável (Editora Hagnos, 2020). p. 1784].
Este novo sistema de pontos vocálicos foi empregado em os manuscritos bíblicos e por isso entrou nas edições impressas do texto sagrado, mas não em o uso ordinário, como demonstra, por exemplo, o artigo sobre o tetragrama YHWH na Wikipédia Hebraica.A correspondente artigo na Wikipédia hebraica Também não foi aceito nos pergaminhos para uso nas sinagogas.
Algumas palavras e frases do texto consonantal podiam ser ambíguas se os sinais vocálicos não estiverem lá para esclarecê-las. Por isso alguns protestantes sustentaram que os sinais vocálicos inseridos na Escritura recebida (sola scriptura) não podiam ter sido uma invenção dos massoretas na Idade Média, mas eram parte da Palavra inspirada que Deus revelou a Moisés no Monte Sinai. Do outro lado os primeiros líderes protestantes, Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio e João Calvino, viam-nos como invenções rabínicas doutrinariamente irrelevantes. Alguns católicos enfatizaram as ambiguidades como prova da inadequação da Bíblia tomada isoladamente.Robert J. Wilkinson, Tetragrammaton: Western Christians and the Hebrew Name of God: From the Beginnings to the Seventeenth Century. BRILL, 2015. pp. 460–461.Robert J. Wilkinson, Chapter 13. The Demystification of Language and the Triumph of Philology. The Question of Hebrew Points O inglês John Gill (1697–1771) argumentou a favor da possibilidade que Deus teria ensinado Adão a escrever com os pontos vocálicos.John Gill, A Dissertation Concerning the Antiquity of the Hebrew Language: Letters, Vowel-points, and Accents (G. Keith, 1767). p. 46. Os admiradores modernos de Gill preferem nada dizer sobre esta sua obra: em um simpósio celebrando o tricentenário de seu nascimento, é mencionada apenas em uma nota de rodapé que afirma: "A desatualizada crítica bíblica e histórica de Gill é ilustrada em sua Dissertation Concerning the Antiquity of the Hebrew Language: Letters, Vowel-points, and Accents (Londres, 1767), razão pela qual limitamos nossa investigação ao seu trabalho como exegeta".Michael A. G. Haykin, The Life and Thought of John Gill (1697-1771): A Tercentennial Appreciation (BRILL, 1997). p. 94.
Redução da enunciação