A Batalha de Iwo Jima (19 de fevereiro — 26 de março de 1945) foi um grande combate em que as forças Aliadas (formadas basicamente por membros do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos) desembarcaram e eventualmente conquistaram a ilha de Iwo Jima, que estava em mãos do exército imperial do Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. A invasão americana, denominada Operação Detachment, tinha como objetivo conquistar a ilha, incluindo seus três aeroportos, com o objetivo de utilizar a região como base para lançar ataques mais eficazes as ilhas japonesas principais. O combate, previsto pelos estrategistas para durar menos de uma semana, durou trinta e cinco dias, se tornando uma das batalhas mais ferozes e sangrentas da Guerra do Pacífico. Controversamente, apesar de ter sido uma vitória contundente das forças armadas americanas, a importância e o valor estratégico da conquista da ilha para o esforço de guerra dos Aliados segue como motivo de debates. Iwo Jima nunca seria utilizada pelo exército dos Estados Unidos como base de preparação e tão pouco a marinha a usaria como base naval.
O exército japonês fez extensivas preparações em antecipação para a invasão americana. Eles encheram a ilha de posições fortificadas, bunkers, casamatas e peças de artilharia escondidas, quase tudo interconectado por quase 18 km de túneis recém construídos. A força de invasão estadunidense era protegida por seu extenso poderio de sua artilharia naval e completa superioridade aérea fornecida pelos aviadores da Marinha e Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos. No geral, os americanos tinham uma enorme superioridade em números, recursos e tecnologia. Os japoneses, que estavam na defensiva desde 1943, careciam de suprimentos e tropas bem treinadas (além do fato de estarem numa ilha, o que os impossibilitava de receberem mantimentos ou reforços) e isso fez com que sua possibilidade de vitória fosse praticamente nula. Assim, o general Tadamichi Kuribayashi (comandante das forças japonesas na ilha) teve que adequar sua estratégia para essa realidade, com ele determinado a infligir o máximo de perdas no inimigo e morrer lutando.Adrian R. Lewis, The American Culture of War: The History of U.S. Military Force from World War II to Operation Iraqi Freedom, New York 2007, p. 59
Ambos os lados sofreram pesadas perdas. Embora o número de soldados japoneses mortos tenha sido quase três vezes maior que a dos americanos, o total de baixas (somados mortos e feridos) sofridas pelos estadunidenses excedeu a dos japoneses, pela primeira e única vez no Pacífico. Das 21 000 tropas japonesas guarnecidas em Iwo Jima no começo da batalha, apenas 216 foram feitos prisioneiros.Burrell 2006, p. 83. "The Ghosts of Iwo Jima". Página acessada em 18 de dezembro de 2017. Outros 18 000 foram mortos e pelo menos 3 mil prosseguiram por semanas, após a ilha ter sido declarada segura, lutando em forma de guerrilha, escondidos nos seus túneis, atazanando as forças americanas de ocupação. Até perto do fim da guerra, porém, Iwo Jima já estava completamente segura. Ainda assim, remanescentes japoneses permaneceram, com o último militar japonês se rendendo apenas em 1949.John Toland, Rising Sun: The Decline and Fall of the Japanese Empire 1936–1945, pág 669.
O fotografo da Associated Press, Joe Rosenthal, tirou uma das fotos mais reproduzidas da história durante a batalha, a Raising the Flag on Iwo Jima, no momento em que as tropas americanas ergueram a bandeira do seu país no topo do Monte Suribachi por seis fuzileiros americanos. A imagem percorreu o mundo e se tornou uma das fotos mais famosas durante e após a guerra.
Contexto miniaturadaimagem|Localização de Iwo Jima, a meio caminho entre as Ilhas Marianas e o Arquipélago Japonês.
Após os Aliados terem conquistado as Ilhas Gilbert e Marshall e terem lançado uma série de ataques aéreos devastadores contra o Atol de Truk, a principal fortaleza japonesa nas Ilhas Carolinas, em janeiro de 1944, os militares japoneses começaram a reavaliar suas táticas. Tudo apontava que o próximo passo dos americano seria avançar sobre as Ilhas Marianas e as Carolinas. Para deter estas ofensivas, o Exército e a Marinha Imperial Japonesa estabeleceram linhas defensivas que se estendiam para o norte das Marianas e Carolinas, via Ilhas Vulcano, e a oeste via Carolinas e Ilhas Palau até as Filipinas. Em março de 1944, o 31º Corpo do exército japonês, comandado pelo general Hideyoshi Obata, defendia as linhas internas.
O comandante da guarnição japonesa em Chichi-jima foi nominalmente colocado no comando do exército e da marinha nas Ilhas Vulcano. Após os americanos terem conquistado as Marianas, incursões de bombardeios contra forças japonesas no norte do Pacífico foram lançadas, como parte da Operação Scavenger. Iwo Jima, em particular, era usada como base avançada para alertar o Japão que missões de bombardeio americanas estavam a caminho, dando tempo para as defesas anti-aéreas japonesas se prepararem. Isso a tornou um dos alvos principais da aviação Aliada.
Após os Estados Unidos tomarem as bases japonesas nas Ilhas Marshall nas batalhas de Kwajalein e de Eniwetok, em fevereiro de 1944, o Alto Comando Japonês decidiu enviar reforços para Iwo Jima: 500 homens da base naval de Yokosuka e 500 de Chichi Jima chegaram em março e abril de 1944. Neste período, com a chegada destes reforços, o exército imperial agora tinha uma guarnição de 5 000 homens em Iwo Jima. A perda das Ilhas Marianas no verão de 1944 aumentou exponencialmente a importância das Ilhas Vulcano para os japoneses, que sabiam que se Iwo Jima caísse, as missões de bombardeio dos americanos ficariam mais fáceis, com seus aviões sendo transportados para bases mais perto do arquipélago japonês, devastando ainda mais a infraestrutura militar e civil do país.
Os planos finais japoneses para defender as Ilhas Vulcano eram frustrados por vários fatores:
a Marinha Imperial Japonesa já tinha perdido boa parte do seu poder de fogo e não tinha condições de deter os desembarques americanos. a aviação da marinha e do exército do Japão também tinham sofrido pesadas baixas em 1944 e com o complexo industrial japonês em ruínas, novas aeronaves não podiam ser construídas em quantidades relevantes. Em abril de 1945, os japoneses tinham menos de 3 000 aviões disponíveis. Tais aeronaves, contudo, não podiam ser operadas em grandes números a partir do principal arquipélago japonês pois, para defender as bases militares avançadas, eles não tinham alcance suficiente para operações de cobertura além de um raio de 900 km. o que sobrou do efetivo aéreo japonês tinha prioridade de defender Taiwan e as ilhas principais do Japão. havia falta de pessoal treinado e pilotos experientes, principalmente devido as enormes perdas sofridas pelos japoneses nas derrotas nas Ilhas Salomão e durante a Batalha do Mar das Filipinas em meados de 1944.
Em um estudo pós guerra, oficiais japoneses descreveram a estratégia usada para defender Iwo Jima desta maneira: esquerda|miniaturadaimagem|Imagem tirada antes do início da invasão de Iwo Jima, em Fevereiro de 1945. Vista do sul, é notável o Monte Suribachi, o ponto mais alto da ilha e umas de suas posições de defesa mais importantes.
Após outra vitória dos Aliados na Batalha de Leyte (outubro – dezembro de 1944), nas Filipinas, seguiu-se dois meses de uma pequena calmaria para sedimentar as preparações para a invasão de Okinawa (embora a campanha de bombardeio contra as cidades japonesas prosseguisse a todo o vapor). Iwo Jima era considerada estrategicamente importante: servia como base aérea para os aviões caça japoneses interceptar os esquadrões de B-29 Superfortress americanos e fornecia uma base naval para unidades que precisavam de apoio. Além disso, os japoneses a usavam para tentar lançar ataques aéreos contra as forças Aliadas nas Ilhas Mariana, entre novembro de 1944 até janeiro de 1945. A tomada de Iwo Jima eliminaria esse problema e serviria como base para a Operação Downfall – a eventual invasão do território japonês. Hipoteticamente, a distância entre as bases dos B-29 e seus alvos no Japão seria cortada pela metade e daria aos caças P-51 Mustang meios de escoltar estes bombardeiros durante quase toda a viagem.
O serviço de inteligência do exército dos Estados Unidos afirmou que Iwo Jima cairia em uma semana. À luz dos relatórios de inteligência otimistas, a decisão foi feita de invadir Iwo Jima e a operação recebeu o codinome de "Operação Detachment". O que os americanos não sabiam é que os japoneses haviam mudado suas táticas consideravelmente e aprimorado suas defesas, construindo elaborados bunkers e cavernas, com fortificadas posições. Foi só depois da batalha que os Aliados descobriram que a maioria das suas bombas e artilharia pré-invasão não tiveram efeito, com boa parte da guarnição japonesa saindo quase intacta dos bombardeios aeronavais.
Planejamento Preparações japonesas miniaturadaimagem|O tenente-general Tadamichi Kuribayashi. Em junho de 1944, o tenente-general Tadamichi Kuribayashi recebeu o comando das forças japonesas em Iwo Jima. Kuribayashi sabia que não havia como o Japão vencer a batalha, mas ele esperava infligir pesadas baixas nas forças americanas, para que os Estados Unidos, a Austrália e os Britânicos tivessem que reconsiderar sua planejada invasão do arquipélago japonês.
A inspiração para as defesas de Iwo Jima foi a sangrenta Batalha de Peleliu. Kuribayashi desenhou as defesas da ilha quebrando com a doutrina militar japonesa. Ao invés de erguer suas defesas nas praias para enfrentar os desembarques de cara, ele criou uma série de cavernas, defesas em profundidade interconectadas, com posições estáticas e armamento pesado, como artilharia e ninhos de metralhadora. Os tanques de guerra do coronel Takeichi Nishi foram camuflados e usados como artilharia. Como os túneis que uniam a montanha ao resto da ilha não foi completado, Kuribayashi organizou a parte sul e ao redor do Monte Suribachi como setores semi-independentes, com as principais defesas construídas no norte. O esperado pesado bombardeio aeronaval americano pré-invasão fez com que o sistema de defesa de túneis fosse melhorado e interconectado, para que unidades de infantaria pudessem recuar de suas as casamatas para ocuparem outras posições, quando necessário. Essa rede de bunkers e ninhos de metralhadora favoreciam uma forte defesa, estocando suprimentos para uma longa batalha. Alguns bunkers chegavam a ter quase 30 metros de profundidade, interconectados por túneis que iam para múltiplos lados. Geradores movidos a querosene e gasolina mantinham as luzes e os rádios operacionais. esquerda|miniaturadaimagem|250px|Mapa de Iwo Jima. A 19 de fevereiro de 1945, o dia que os americanos invadiram, cerca de 17 km de túneis haviam sido completados dos 27 km planejados. Além das casamatas e ninhos de metralhadora, havia também bunkers de comando e controle, onde os oficiais coordenavam os esforços defensivos. Os túneis permitiam que as tropas japonesas se movimentassem entre as linhas inimigas, surgindo por trás e reocupando áreas abandonadas, ou abandonando rapidamente setores que já não tinham mais como defender.
Centenas de posições de artilharia e morteiros foram escondidas junto com campos minados que foram espalhados pela ilha inteira. Entre algumas das principais armas japonesas estavam o morteiro Type 98, que disparava um projétil de 320 mm e uma variedade de foguetes explosivos.
Apesar de tudo isso, a situação dos japoneses ainda era precária, especialmente na questão de mantimentos. As tropas tinham disponível apenas 60% da quantidade suficiente de munição necessária por divisão para um combate prolongado. A água e a comida, sendo racionadas, durariam apenas quatro meses.History of Imperial General Headquarters Army Section, p. 257