Galego-asturiano é um conjunto de variedades linguísticas galego-portuguesas faladas num território conhecido como Terras do Eu-Návia que não coincide exatamente com a comarca homônima, situadas na região ocidental do Principado das Astúrias, e cuja influência abrange o concelho galego de Negueira.
Em janeiro de 2016, o concelho da Veiga declarou o galego como língua oficial do concelho.
Geografia linguística As Terras do Eu-Návia compreendem os municípios asturianos de Bual, Castropol, Cuaña, Eilao, El Franco, Grandas de Salime, Ibias, Pezós, Samartín d'Ozcos, Santalla d'Ozcos, San Tiso d'Abres, Tapia, Taramundi, A Veiga, Vilanova d'Ozcos, e partes de Návia, Villayón, e Allande. Historicamente esta zona esteve e está muito isolada do resto das Astúrias, e também da Galiza e Castela, devido às suas fronteiras naturais: o Rio Eo, a Cordilheira Cantábrica e o Rio Nalón, e o Mar Cantábrico. É também uma zona de paisagens abruptas, menos a parte da linha de costa que é mais plana.
Esta comarca, integrada durante o Império Romano no Convento Lucense, terá ficado adscrita ao Reino das Astúrias depois da segregação do reino asturleonés que se produz após a morte de Afonso III. Assim o denotam diversos documentos que localizam vários termos da comarca em território asturiense.Assim, deve ser citado o Testamentum Sancte Marie de Taule quod fecit comes Fafila Spassanidz ovetensi ecclesie (1006), «... de monasterio quod est fundatum in Asturiis in villa nomine Taule, inter duo flumina purzia et ove», também no comissum de Kartavio quod fecit Ramimirus rex (978) «Sancte Marie semper virginis... in cuius honore ist monasterium in Asturias», entre outros. Durante a Idade Média, apresenta uma singular coesão interna como resultado da sua integração na modalidade feudal da honra (Honra de Suarón e Honra de Grandas); no entanto, por um acordo adotado a 2 de janeiro de 1154, nas Cortes celebradas em Salamanca pelo rei Afonso VII, confirmam-se as cessões que se tinham vindo efetuando ao bispo de Oviedo, e é feita a doação a Martinho II e à sua Igreja, entre outros bens, do castelo de Suarón (...de illo castello de Sueirum quod est intre (sic) fluuium de Oue et fluuium de Nauia...) com todos os seus termos, as seus regalías e jurisdições. Dita condição estende-se à Honra de Grandas através de outra doação em 1186.
A comarca fica sob tal dependência até que, por motivo da desamortização realizada pela Bula Breve Cum Acceperimus de 6 de abril de 1574, os habitantes conseguem comprar quase simultaneamente a sua emancipação. Assim Castropol (1579), Bual (1580), Cuaña (1582), Pezós (1582), El Franco (1583), Taramundi (1584), Salime (1584), Grandas de Salime (1584), San Tiso d'Abres (1584), Samartín d'Ozcos (1584), Santalla d'Ozcos (1584) e Eilao (1585).Sobre o modo sobre o qual foi levado a cabo o processo de desamortização no antigo concelho de Castropol, ver:
Faya Díaz, M.A. Los señorios eclesiásticos en la Asturias del Siglo XVI, publicado por Ridea en 1992;
Pérez de Castro, Ramona: Los señoríos episcopales en Asturias: El régimen jurídico de la Obispalía de Castropol, IDEA-CSIC, Oviedo, 1987 Figueiras teria que esperar até 1775 para a sua segregação da família Donlebún; e Návia dos Condes de Ribadeu em 1551 (conquanto não consegue confirmar a sua emancipação senão depois de um longo pleito na Cancelharia de Valhadolide, que concluirá com a sentença que confirma os direitos dos vizinhos recaída em 1608).O conteúdo essencial desta sentença e as vicissitudes do processo podem ser consultadas no artigo Navia remota y actual. Datos y referencias para su historia: los siglos XVI y XVII, Boletín RIDEA, 1979, Nº 96, p. 334 e ss. Ibias, por sua vez, dependerá de várias famílias com paços na comarca dos Oscos. Deste processo ficará excluído o Concelho de Villanueva de Oscos, que continuará a depender do Mosteiro de Villanueva até a desamortização de 1837.
Desde a sua emancipação, os concelhos concorrerão com o de Castropol dentro do partido de Episcopalia à eleição de representantes na Junta Geral do Principado, exceto no período de 1810 a 1814, em que a comarca fica adscrita nominalmente à prefeitura de Mondonhedo (Castropol e a sua comarca tomam uma parte muito ativa na Guerra da Independência Espanhola e na Junta do Principado, constituída então em Junta Suprema).
Sociolinguística Existe um conflito politico-linguístico referente à identidade das variedades eu-naviegas. De um lado encontram-se os que ressaltam o caráter de língua de transição entre o galego e o asturiano.Veja-se neste sentido o informe sobre a fala ou Gallego-asturiano, úa perspectiva hestórica social y lingüística editado pela Academia da Língua Asturiana em 2006, no qual se argumenta a existência de caracteres comuns a ambas as línguas e a partir dos quais se afirma a existência de um contínuo linguístico que explicaria o caráter de transição da língua. No relatório é ignorada a existência de um ponto de ruptura da inteligibilidade entre as variedades galaico-asturianas. Doutro lado estão os que priorizam o substrato galego destas variedades, reclamando para elas um tratamento idêntico ao do galego no Bierzo e alguns povos seabrenses, reconhecido como tal pela Junta e, portanto, tutelado pela Secretaria de Política Linguística da Junta da Galiza. Entre as partes que primam pela galeguidade do eu-naviego (que seria um dialeto oriental do galego), encontram-se o Instituto da Língua Galega e a Real Academia Galega, os quais estudaram as variedades faladas nesta zona desde a década de 1980, ou a Promotora Espanhola de Linguística (PROEL), que inclui o eu-naviego no bloco oriental do galego com o nome de «galaico-asturiano».
Neste sentido, o escritor e filólogo Dámaso Alonso afirmou o seguinte
Por sua parte, o professor Alonso Zamora Vicente especifica:
Xavier Frías recalca a identidade galega destas falas e especifica as razões do conflito:
A Academia da Língua Asturiana, instituição que se encarrega da normalização, defesa e promoção do asturiano, de modo geral, não aceita que neste território se utilize o galego, contando com a Secretaría Llingüística del Eo-Navia. A denominação «eonaviego», ou «língua eonaviega» é a preferida pela Academia.
Por outra parte, a 25 de fevereiro de 2005, o governo asturiano aprovou o Plano de Normalização Social do Asturiano para promover o uso e presença tanto do asturiano como do galego-asturiano, denominação preferida pela administração asturiana.Ley 1/98, de 23 de marzo, de uso y promoción del bable/asturiano, Disposición adicional. Ambos são colocados em igualdade de condições como línguas a proteger e promover e, implicitamente, como línguas diferentesPlan para la normalización social del asturiano 2005-2007
Alguns filólogos (Ruth González Rodríguez e Ricardo Saavedra Fernández-Combarro) defendem a classificação do eu-naviego como língua independente, tanto do galego como do asturiano. Também nesta linha se manifestaram associações como a Xeira e a Xunta pola Defensa de la Llingua Asturiana, que defendem a oficialidade dos dois idiomas nos correspondentes domínios linguísticos.
Quanto a esta situação, o Comité de Peritos do Conselho da Europa refere o seguinte:
Para os próprios falantes, dois de cada três habitantes do Návia-Eu consideram as variedades da região uma mistura de galego e asturiano, enquanto que 16% as consideram como variantes asturianas e 8% como variantes galegas. Quanto à designação destas variedades, um em cada três (33%) chama-lhe a fala e um em cada quatro (24%) prefere a designação galego-asturiano. 22% preferem a denominação bable ou asturiano. Apenas 2% dos interrogados preferem a designação galego.
Características
Fonéticas thumb|300px|O galego das Astúrias (IIIH) dentro do conjunto de áreas linguísticas do galego.Acentua-se a perda das consoantes nasais intervocálicas, reflexo do qual:
Sufixo latino –anu perde totalmente a nasalidade: ‘mao’ (mão), ‘ chao’ (chão), ‘ermao’ (irmão) Formação dos plurais: ‘camiois’ (camiões), ‘pantalois’ (pantaleões), cais (cães) Aumentativo: Casúa (grande casa), muyerúa (grande mulher), bobúa (grande boba) Formação do feminino: búa (boa), ermá (irmã), ladrúa (mulher ladrão) Perda das nasais palatais: Dieiro (dinheiro), cocía (cozinha), espía (espinha), etc. Formação diminutivos: Pequenía/pequenín, (pequenino/a), nía/nenín (menino/a), contíus (continhos)Deformação do vocalismo: Cía (ceia), Avía (Aveia), bús (bons), ayeu (além) Velarização das codas nasais e deformação do vocalismo como conseqüência da perda do -n- intervocálico.Vid. Dámaso Alonso, engañar, volar, casos y resultados de velariación de –n- en el dominio Gallego. Homenagem a Fr. Krüger, Mendoza II, 1952, PP. 210 y ss.) Supressão do ditongo –ua com coda em –n-: lat. quandum> eon. condo (quando), lat. quantum> eon. conto (quanto), lat. Iohannes> Eon. Xan, ant. Sayane (João) Palatizacão da -l- inicial na metade da comarca eonaviega, deste jeito vem assim a ficar-se nos concelhos de Bual, Cuaña, El Franco, Navia e Villayón. Nesta zoa distingue-se os fonemas -j- e -lh-.García García propõe as seguintes oposições ‘callo’ (verbo ‘calar’), cayo (verbo cair), rayo (fenómeno meteorológico), rallo (verbo rallar), piyo/pillo (sust) Também no Este da comarca mantém a degeminação da -lh- gallía (galinha), villa (vila), callar (calar), etc. Conservação da -l- intervocálica, assim: xelar (gear), cèlo (céu), calente (quente), etc. Vocalismo nasal. O mesmo que o resto do galego exterior, consta documentado até o século XIX, como o vocalismo nasal era um fenômeno bastante comum em todo o território eonaviego. Dámaso Alonso foi o primeiro em constatar este fenômeno muito esparzido nos Ancares. Menéndez García sinala restos de nasalidade em Freixulfe e em pontos de Villayón, e Celso Muñiz em O Valledor na fronteira co asturleonés. Atualmente, este fenômeno é observado apenas, mas a existência generalizada deste fenômeno no passado é fundamental para entender a fonética do galego-asturiano. Exemplo deste vocalismo nasal é que nesta língua, diferentemente de outras falas galego-portuguesas, as vocais em sílabas com coda nasais som sempre abertas, conseqüência necessária de velarizar estes sons, estádio prévio á formação do vocalismo nasal.Veja-se Fernández Fernández, Marcelino, «El Franco y su concejo», p. 51, Dámaso Alonso y García Yebra «Cuadernos de Estudios galegos, XVI», Santiago de compostela 1.961 págs. 43-79, ver também respeito das falas ancaresas «O galego-leonés dos Ancarés e seu interesse para a dialetologia portuguesa», em II colóquio de Estudos Luso Brasileiro, Lisboa pág. 331.
Morfológicas Aspectos metafónicos do vocalismo verbal. Tem esta língua, mesmo que as demais da família galaico-portuguesa, uma forte dependência do vocalismo originário da língua latina, fecho, que no galego-asturiano resulta ainda mais conservador. Assim, a flexão verbal do galego-asturiano vem condicionada pela perda da distinção entre as vogais abertas e fechadas no latim vulgar. Ignorando se a distinção entre as vogais átonas e dada a mobilidade das vogais tônicas da raiz verbal, os falantes prevalecem o morfema sobre a raiz na maioria dos supostos, distinguindo entre abertas e fechadas segundo se trate a sua posição tônica ao conjugar o verbo. De fato, o vocalismo vem adir certas denotações metafónicas por depender aquele da flexão verbal ignorando a origem etimológica das palavras. Assim, nos supostos das formas pessoais fortes, as três pessoas do singular e a terceira do plural do presente de indicativo, todo o subjuntivo e a segunda do imperativo, em que os falantes distinguem sempre entre e- e o- abertos, mantendo sempre a distinção entre a forma forte e débil, exceto os verbos monossilábicos, nos quais a vogal tônica da raiz e o morfema coincidem, ademais dos verbos ‘deber’ (dever) e ‘ceder’, de fato irregulares em galego-asturiano.