A Serra do Caldeirão é uma cadeia Montanhosa em Portugal e marca a fronteira entre, por um lado, o Litoral e o Barrocal algarvios e, por outro, as peneplanícies do Baixo Alentejo. Faz parte do maciço antigo e é constituída por xisto-grauvaque, rocha que origina solos finos e pouco férteis. O seu ponto mais alto localiza-se no Algarve (Pelados 589 m – Cavalos do Caldeirão – Loulé), sendo o Pico do Mu (São Barnabé – Almodôvar) o 2º ponto mais alto com 577 m. Nos concelhos de Tavira (Alcaria do Cume 535 m), São Brás de Alportel (Menta 515 m; Quatrelas 521 m; Águia 529 m) e de Loulé possui diversos pontos em que ultrapassa os 500 m. Possui uma orientação predominante de nor-nordeste/su-sudoeste e constitui a maior cordilheira montanhosa do Algarve com cerca de 70 quilometros de extensão desde de Almodôvar até ao Barrocal algarvio em São Brás de Alportel.
Apesar da sua modesta altitude, forma uma paisagem muito peculiar, onde elevações arredondadas, os cerros, são cortadas por uma densa rede hidrográfica, constituída na sua maior parte por cursos de água temporários. O relevo é por este motivo bastante acidentado em diversos pontos.
A serra do Caldeirão tem influência climática considerável. Constitui uma barreira física à passagem dos ventos frios do quadrante norte e às depressões de noroeste, contribuindo para a existência de um clima mediterrânico no litoral algarvio, com fracas precipitações anuais e temperaturas suaves no Inverno. Por outro lado, é também uma barreira de condensação para os ventos húmidos do quadrante sul.
As precipitações médias anuais variam: nas zonas mais altas do concelho de Loulé são superiores aos 800 mm anuais, mas, à medida que nos aproximamos da fronteira com a Espanha, a oriente (vale do Guadiana), vão descendo, até serem inferiores a 500 mm anuais nas regiões do nordeste algarvio.
A serra possui uma riquíssima tradição histórica, mitológica e folclórica, moldada por séculos de isolamento e pela forte interiorização das suas comunidades (os "serrenhos").
miniaturadaimagem|300x300px|Vista da cordilheira da Serra do Caldeirão
História Ocupação Pré-Histórica e Antiga A presença humana na Serra do Caldeirão remonta ao período Neolítico e à Idade do Bronze. A região servia como zona de pastorícia e de exploração mineira. São abundantes os vestígios megalíticos na região, destacando-se a Anta da Mealha, situada na freguesia de Cachopo, que demonstra a sacralização do território por comunidades pré-históricas.
Durante o período islâmico do Al-Andalus, a serra foi uma zona de refúgio e de subsistência, deixando marcas profundas na toponímia local, nas técnicas agrícolas (como os muros de pedra seca) e no património genético e cultural da população.
As Guerrilhas do Remexido Durante as Guerras Liberais (1832–1834) e o período subsequente, a Serra do Caldeirão foi o principal palco de atuação do capitão-guerrilheiro Remexido (José Joaquim de Sousa Reis). Devido ao relevo acidentado, repleto de vales profundos e densa vegetação de esteva, o Remexido conseguiu liderar uma feroz resistência absolutista miguelista contra as tropas liberais, escondendo-se em redes de grutas e povoados isolados, tornando-se uma figura mítica de resistência popular.
Mitologia e Lendas O isolamento geográfico da serra permitiu a preservação de uma vasta tradição oral, onde se misturam influências pagãs, romanas e árabes.
Moiras Encantadas Como no resto do sul do país, o mito das moiras encantadas é central no folclore do Caldeirão. Crê-se que estas jovens muçulmanas foram guardadas em fontes, poços e penedos por feitiços aquando da Reconquista cristã. A Moura de Salir: Associada às ruínas do Castelo de Salir, a lenda reza que a filha do alcaide mouro, Aben-Fabilla, se fundiu com as pedras da muralha para não ser capturada pelos cavaleiros de Santiago, surgindo apenas nas noites de Lua cheia. A Moura dos Pés Descalços: Relatos recolhidos em povoados da serra descrevem uma moira que surge na manhã de São João junto a linhas de água, prometendo tesouros a quem lhe ofereça sapatos para que possa quebrar o seu fado.
As Janas Derivadas presumivelmente do culto romano à deusa Diana, as Janas são descritas no Caldeirão como pequenas fadas ou ninfas que habitam as ribeiras e os vales mais húmidos. São descritas ora como criaturas benfeitoras que auxiliam os pastores perdidos, ora como entidades travessas que pregam partidas aos viajantes, baralhando os seus caminhos no nevoeiro.
O Homem do Chapéu de Ferro Trata-se de uma das assombrações mais temidas do imaginário estrito da serra. Segundo a tradição oral, o Homem do Chapéu de Ferro é um espírito colossal e de feições monstruosas que deambula pelos cumes e caminhos de terra batida após a meia-noite. Este mito era frequentemente utilizado para impor o recolher obrigatório nas aldeias isoladas.
A Velha da Égua Branca Semelhante a outros mitos ibéricos de cariz pedagógico (para assustar crianças), descreve uma figura bruxuleante ou uma idosa decrépita montada numa égua branca que galopa silenciosamente pelas cumeadas da serra durante noites de nevoeiro cerrado, raptando aqueles que se encontram perdidos fora de hora.
Conservação Cultural Atualmente, as lendas, a história e a geologia da região são promovidas e protegidas através das iniciativas do aspirante a Geoparque Mundial da UNESCO, o Geoparque Algarvensis, que engloba os territórios serranos de Loulé, Silves e Almodôvar.
Trilhos
Vegetação miniaturadaimagem|esquerda|240px|Sobreiro (Quercus suber) miniaturadaimagem|esquerda|240px|Caminho rural com flores na Serra do Caldeirão em São Barnabé (Almodôvar)
A vegetação natural da serra do Caldeirão é influenciada pelas variações climáticas. Nas zonas mais ocidentais da serra, predomina o sobreiro (Quercus suber), associado ao carvalho-cerquinho (Quercus faginea) e ao medronheiro (Arbutus unedo). Nas vertentes próximas do vale do Guadiana, predomina a azinheira (Quercus rotundifolia Lam.), associada ao sobreiro (que nestas regiões surge nas vertentes úmbrias próximas dos barrancos ou linhas de água), à aroeira (Pistacia lentiscus) e à palmeira-anã (Chamaerops humilis).
Ao longo dos séculos, o homem alterou esta paisagem, destruindo as florestas naturais para criar terrenos agrícolas e pastagens para o gado, do que resultou a paisagem atual, quase sem vegetação, onde predominam as estevas (arbustos do género Cistus), adaptadas aos solos entretanto destruídos pela erosão. A principal causa da erosão foram, na primeira metade do século XX, as campanhas do trigo e, com carácter recorrente, os incêndios: a destruição da vegetação natural sujeita os solos às chuvas torrenciais, que os arrastam, deixando exposta apenas a rocha nua; este processo é acelerado pela típica inclinação dos solos das serras, motivo pelo qual a desertificação natural é muito preocupante, nomeadamente nas vertentes mais orientais.
Os principais cursos de água são ladeados por galerias ripícolas, onde predomina o freixo (Fraxinus excelsior), associado a outras espécies menos frequentes, como o amieiro (Alnus glutinosa). Nos cursos de água mais pequenos, predomina a adelfeira.
Fauna Mamíferos Lontra (Lutra lutra) Lobo-ibérico (Canis lupus signatus) Lince-ibérico (Lynx pardina) Veado (Cervus elaphus) Javali (Sus scrofa) Coelho (Orictolagus cuniculus) Lebre (Lepus capensis) Gineta (Genetta genetta);
Aves miniaturadaimagem|240px|Águia-de-bonelli (Hieraaetus fasciatus) Eram as seguintes as espécies mais notáveis da fauna tradicional: Águia-de-bonelli (Hieraaetus fasciatus) Águia-imperial-ibérica (Aquila heliaca adalberti) Cegonha-preta (Ciconia nigra) Abetarda (Otis tarda) Bufo-real (Bubo bubo);
Batráquios Sapo-parteiro-ibérico (Alytes cisternasii);
Peixes Saramugo (Anaecypris-hispanica). O lobo-ibérico desapareceu em meados do século XX, bem como a águia-imperial-ibérica. O lince-ibérico pensa-se que desapareceu nos finais do século passado. Quanto à cegonha-negra, nidificava nas fragas da Foupana e do Vascão, mas de momento já não o faz. A abetarda surgia nas estepes planálticas do nordeste, e a águia-de-bonelli nidifica de momento em alguns pontos da serra, como no norte do concelho de São Brás de Alportel, junto da Ribeira de Odeleite.
Ação humana As culturas agrícolas predominantes na serra do Caldeirão são as de sequeiro – amendoeira, alfarrobeira e oliveira –, surgindo a cultura de árvores de fruto como a laranjeira e a nespereira próximo dos vales de alguns cursos de água. São ainda cultivados tremoços, grão-de-bico, trigo, aveia, cevada e centeio.
O gado predominante é o caprino. Segundo registos antigos, a raça de vaca algarvia já foi frequente na região, mas neste momento está praticamente extinta.
O povoamento remonta ao Neolítico, como testemunha a grande quantidade de vestígios pré-históricos. Existem diversas antas, tholos e restos de povoações, como a Anta da Mealha, próxima de Cachopo (concelho de Tavira) ou o castelo de Santa Justa (concelho de Alcoutim).
Houve uma intensa exploração mineira nesta serra desde o Neolítico, existindo vestígios de minas em bom estado no concelho de Alcoutim.
Os árabes exerceram grande influência na serra do Caldeirão. Introduziram a amendoeira e a laranjeira e estão na origem do atual tipo de povoamento, constituído por aldeias dispersas de pequenas dimensões – os montes –, com toponímias curiosas, normalmente baseadas em características físicas locais: Alcaria, Azinhal, Cabeça Gorda, Cumeada, Barranco do Velho, Ameixial. A memória da presença árabe permanece ainda a nível arquitetónico, de que são exemplos o castelo velho de Alcoutim ou o povoamento do Cerro das Relíquias, e a nível cultural (regionalismos, contos e lendas envolvendo mouras e mouros encantados).
A população da serra do Caldeirão viveu isolada durante séculos. Raramente ia ao litoral, e ainda hoje os serrenhos (designação pela qual são tratados os habitantes das serras algarvias) chamam «Algarve» às zonas baixas do litoral e do barrocal algarvios. Durante séculos, as notícias de fora eram trazidas pelos almocreves, juntamente com os produtos do litoral, como peixe e sal. Ainda na atualidade existem muitas marcas do modo de vida antigo, como azenhas, levadas, açudes, moinhos de ventos ou fornos. As casas típicas da serra do Caldeirão são feitas de pedra e caiadas de branco, com telhado de cana, normalmente de uma só água. As diversas funções dividem-se frequentemente por edifícios separados, não raro com uma única porta em cada um deles. Por vezes não se caiam os fornos e os palheiros. Galeria de imagens
Ligações externas
Pela serra do Caldeirão - Portal de Turismo do Algarve Serra do Caldeirão - Guia da Cidade Roteiro pela serra do Caldeirão - Turismo Rural
Ver também Via Algarviana Serra de Monchique
Referências
Caldeirão Categoria:Trilhos e rotas de caminhada de Portugal Categoria:Sítios de Importância Comunitária em Portugal