Por arte da Grécia Antiga compreende-se as manifestações das artes visuais, artes cênicas, literatura, música, teatro e arquitetura, desde o início do período geométrico, quando, emergindo da Idade das Trevas, iniciou-se a formação de uma cultura original, até o fim do período helenístico, quando a tradição grega se dissemina por uma larga área entre a Europa, África e Ásia, abrangendo o intervalo de aproximadamente 900 até , data em que a Grécia caiu sob o domínio romano. Entretanto, esses limites cronológicos não são um consenso entre os historiadores.
Os exemplos mais conhecidos da arte grega antiga, e os que mais profundamente influenciaram as gerações posteriores, tanto teórica como materialmente, pertencem ao período clássico, quando conheceram apreciável unidade ideológica e formal, encontrando os seus alicerces numa filosofia antropocêntrica de sentido racionalista que inspirou as características fundamentais deste estilo: por um lado a dimensão humana e o interesse pela representação naturalista do homem e, por outro, a tendência para o idealismo, traduzido na proposição de cânones ou regras fixas que definiam sistemas de proporções e de relações formais para as produções artísticas. A mesmo tempo, cristalizava-se o conceito de paideia, que vinha sendo elaborado desde os tempos arcaicos - um sistema de educação integral para a formação do cidadão perfeito - que previa uma função social e pedagógica para a arte, concebendo-a como uma atividade eminentemente utilitária e técnica e colocando-a na órbita dos ofícios mecânicos - de fato, somente no fim de seu ciclo a cultura grega passou a debater a ideia de que a arte poderia ter um escopo ampliado e popularizado, e ser praticada sem vínculo com a função social, e sim pelo puro prazer estético.
Porém, a arte da Grécia Antiga não se resume no período clássico, que abrange apenas pouco mais de cem anos de sua longa história, e teve manifestações de grande importância antes e depois dele, cujos conceitos e práticas eram bastante distintos. No helenismo, período que sucedeu o classicismo e representou a última floração cultural originalmente grega, embora colorindo-se de inúmeras outras influências externas, a arte passou definitivamente a se aproximar do público de um modo mais íntimo e pessoal, expressando todo o espectro da experiência humana, do cômico e do obsceno ao heroico e ao trágico, e do oficial e cívico ao prosaico e doméstico. As pesquisas mais recentes revelaram que mesmo durante o classicismo a aplicação prática dos padrões teorizados foi muito mais flexível do que se pensou durante muito tempo, abrindo espaço para variações e desvios da norma e a formação de várias escolas regionais diferenciadas.
A partir desta constatação, modernamente a arte da Grécia Antiga já não é vista como um bloco monolítico, mas sim como um corpo de expressões ricamente diversificadas, adaptáveis a contextos regionais, a influências externas e inúmeros outros determinantes. Em seu conjunto, por sua impressionante série de conquistas conceituais, formais, técnicas e funcionais, de grande consistência, forte base filosófica e ética e excitante novidade, e também pela alta sofisticação e qualidade técnica de seu produto, a arte da Grécia Antiga vem sendo, desde sua aparição, uma referência onipresente na cultura ocidental, repetidamente invocada pelos ocidentais como a mais sublime manifestação do engenho e da inspiração humana, mas sendo também, justamente por sua avassaladora influência, repetidas vezes contestada, combatida e mesmo ridicularizada, formando de qualquer maneira uma das referências mais centrais e permanentes da história da cultural ocidental. Hoje, com a grande penetração desta cultura em todo o mundo, a arte da Grécia Antiga se tornou conhecida e apreciada universalmente, recebendo imensa atenção dos estudiosos e do grande público.
Contexto e visão geral thumb|250px|Harmódio (à direita) e Aristógito (à esquerda), chamados "os tiranicidas". Famoso grupo estatuário celebrando em formas idealizadas modelos de heroísmo e virtude cívica
O período aqui enfocado testemunhou uma série de modificações profundas na sociedade grega. Partindo de um conglomerado de tribos rurais independentes e frequentemente em guerra entre si, os genos, cujo único elo comum era a língua e a religião, e cuja cultura, dissolvida na Idade das Trevas, começava a ressurgir, os gregos encaminharam-se gradualmente para um modelo de vida urbano, constituindo-se as pólis, dominadas primeiro por uma aristocracia latifundiária, e depois por uma elite de políticos e comerciantes, dentro de uma moldura social mais ou menos democrática, na qual, porém, só tinham voz ativa os detentores do atributo da cidadania, permanecendo estrangeiros e escravos à margem dos processos decisórios, ainda que não dos produtivos e sociais. Esse modelo se difundiu, em sucessivas ondas de colonização, por toda orla do mar Mediterrâneo e trechos do mar Negro. Mais adiante, enfraquecida por guerras internas, a Grécia sofreu o domínio macedônio e posteriormente o romano, extinguindo-se como sociedade independente.Lobato, Vivian da Silva. Revisitando a Educação na Grécia Antiga: A Paideia. TCC de Pedagogia. Belém: Centro de Ciências Humanas e Educação da Universidade da Amazônia - UNAMA, 2001, pp. 20-23
Ao longo desta história, desde cedo surgiu entre eles um desejo, de índole racionalista, por um conhecimento mais completo do mundo e do homem. Em vista disso desenvolveram-se diversas ciências, como a matemática, a biologia, a medicina, a geometria, a astronomia, a ciência política, a óptica, a geografia, a filosofia, a etnografia, a historiografia, e lançaram-se os fundamentos da psicologia e da psiquiatria. E para disseminar todo esse novo conhecimento, desenvolveu-se também um modelo educativo de largo escopo, conhecido como paideia, consolidado no período clássico, que objetivava a educação integral do indivíduo para o perfeito domínio de si, para o exercício pleno da cidadania e para o desfrute de uma vida mais rica, saudável, harmoniosa e significativa.Stewart, Andrew. Classical Greece and the Birth of Western Art. Cambridge University Press, 2007, p. 7Lobato, pp. 25-31 thumb|180px|O Discóbolo de Míron, uma das mais conhecidas obras da arte grega. Cópia em bronze da Gliptoteca de Munique|esquerda
Naturalmente, a arte produzida nesse continuum de transformações refletiu-as de variadas maneiras, tanto em termos de estilo quanto de significado e função. Permaneceram mais ou menos constantes, porém, alguns traços comuns, regidos pelo conceito básico da kalokagathia, o qual associava a beleza com as virtudes morais, religiosas e cívicas. A arte não era vista como uma atividade meramente decorativa, mas engajava-se profundamente, como disse Andrew Stewart, na construção e transformação da sociedade e na consagração de ideologias específicas. Por isso, estava sujeita a uma série de convenções que impunham ao artista a criação de produtos socialmente significantes, capazes de, atendendo às formulações da kalokagathia, ao mesmo tempo adornar as cidades mas acima de tudo servir como modelos educativos.Werner Jaeger. Paideia, The Ideals of Greek Culture. Oxford University Press, 1939. pp. 15; 319; 420 Sequer havia naquele tempo uma palavra para designar arte como hoje a entendemos — uma atividade livre de compromissos e nascida em grande medida da criatividade e da iniciativa individuais do artista —, mas falava-se em techné, um termo de difícil tradução que equivale aproximadamente a técnica, habilidade ou tecnologia, que tinha conotações práticas e racionais e que podia se aplicar a qualquer atividade sujeita a regras e passível de aprendizado.Tatarkiewicz, Władysław. Historia de la estética I. La estética antigua. Akal, 2002, p. 39 A poesia, por exemplo, naqueles tempos não era considerada uma "tecnhé", pois se acreditava que era fruto direto da inspiração divina.
Assim, a arte grega foi essencialmente uma criação urbana, de características funcionais e de fundo moral, sagrado e/ou político, que elevou o homem a uma condição exaltada. Boa parte do que se criou foi encomendado pelo Estado — era destinado ao culto, ou era concebido como monumento público, celebrando heróis, atletas e outras figuras por algum motivo notáveis e exemplares. Outras obras perenizavam episódios mitológicos e conquistas coletivas, como eventos históricos importantes ou os sucessos militares recentes, ou declaravam a superioridade cultural dos gregos sobre outros povos, segundo a sua própria visão. Isso, mais a concepção da arte como um instrumento pedagógico, fez com que muito da arte grega tivesse características idealistas e formas austeras, equilibradas e nobres, ao mesmo tempo em que mantinha contato com a realidade concreta através de um concomitante interesse pela representação naturalista, uma tendência cristalizada no período clássico. A associação clássica de idealismo e naturalismo criou uma síntese original de duradoura influência sobre a posteridade do ocidente.Stewart, p. 7-24Hemingway, Colette, and Hemingway, Seán. "Etruscan Art". In Heilbrunn Timeline of Art History. Nova Iorque: The Metropolitan Museum of Art, 2000Hemingway, Colette, and Hemingway, Seán. "Ancient Greek Colonization and Trade and their Influence on Greek Art". In Heilbrunn Timeline of Art History. Nova Iorque: The Metropolitan Museum of Art, 2000
thumb|esquerda|180px|Velha bêbada, um típico representante da arte helenística