Leninismo (, ) é uma ideologia política desenvolvida pelo revolucionário marxista russo Vladimir Lenin que propõe o estabelecimento da ditadura do proletariado, liderada por um partido de vanguarda revolucionário, como prelúdio político ao estabelecimento do comunismo. As contribuições ideológicas de Lenin ao marxismo dizem respeito às suas teorias sobre o partido, o imperialismo, o Estado e a revolução. A função do partido de vanguarda leninista era fornecer às classes trabalhadoras a consciência política (educação e organização) e a liderança revolucionária necessárias para depor o capitalismo no Império Russo (1721–1917).
A liderança revolucionária leninista baseia-se no Manifesto Comunista (1848), que identifica o partido comunista como "a seção mais avançada e resoluta dos partidos da classe trabalhadora de todos os países; aquela seção que impulsiona todas as demais". Como partido de vanguarda, os bolcheviques viam a história pelo arcabouço teórico do materialismo histórico, que sancionava o compromisso político com a derrubada bem-sucedida do capitalismo e, depois, com a instituição do socialismo; e, como governo nacional revolucionário, com a realização da transição socioeconômica por todos os meios.
Após a Revolução de Outubro (1917), o leninismo tornou-se a versão dominante do marxismo na Rússia e a base da democracia soviética, o governo de sovietes eleitos diretamente. Ao estabelecer o modo de produção socialista na Rússia bolchevique — com o Decreto sobre a Terra (1917), o comunismo de guerra (1918–1921) e a Nova Política Econômica (1921–1928) —, o regime revolucionário suprimiu a maior parte da oposição política, incluindo marxistas contrários às ações de Lenin, os anarquistas e os mencheviques, facções do Partido Socialista Revolucionário e os Socialistas Revolucionários de Esquerda. A Guerra Civil Russa (1917–1922), que incluiu a Intervenção dos Aliados na Guerra Civil Russa (1917–1925), realizada por dezessete exércitos, e levantes de esquerda contra os bolcheviques (1918–1924), foi uma guerra externa e interna que transformou a Rússia bolchevique na República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR), a república central da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Como práxis revolucionária, o leninismo originalmente não era uma filosofia propriamente dita nem uma teoria política distinta. O leninismo compreende desenvolvimentos político-econômicos do marxismo ortodoxo e as interpretações de Lenin do marxismo, que funcionam como uma síntese pragmática para aplicação prática às condições reais — políticas, sociais e econômicas — da sociedade agrária do Império Russo posterior à emancipação, no início do século XX. Como termo da ciência política, a teoria de Lenin sobre a revolução proletária entrou em uso comum no quinto congresso da Internacional Comunista (1924), quando Grigori Zinoviev empregou o termo leninismo para designar a "revolução do partido de vanguarda". O leninismo foi aceito como parte do vocabulário e da doutrina do PCUS por volta de 1922 e, em janeiro de 1923, apesar das objeções de Lenin, entrou no vocabulário público.
Contexto histórico No século XIX, Karl Marx e Friedrich Engels escreveram o Manifesto Comunista (1848), no qual defenderam a unificação política das classes trabalhadoras europeias para alcançar a revolução comunista; e propuseram que, como a organização socioeconômica do comunismo seria uma forma superior à do capitalismo, uma revolução operária ocorreria primeiro nos países industrializados. Na Alemanha, a social-democracia marxista era a perspectiva política do Partido Social-Democrata da Alemanha, inspirando marxistas russos, como Lenin.
No início do século XX, o atraso socioeconômico do Império Russo (1721–1917) — caracterizado pelo desenvolvimento econômico combinado e desigual — facilitou uma industrialização rápida e intensiva, que produziu um proletariado unido da classe trabalhadora em uma sociedade predominantemente agrária. Além disso, como a industrialização era financiada principalmente por capital estrangeiro, o Império Russo não possuía uma burguesia revolucionária com influência política e econômica sobre trabalhadores e camponeses, como ocorrera na Revolução Francesa (1789–1799), no século XVIII. Embora a economia política russa fosse agrária e semifeudal, a tarefa da revolução democrática coube à classe trabalhadora urbana e industrial, como a única classe social capaz de realizar a reforma agrária e a democratização, tendo em vista que a burguesia russa reprimiria qualquer revolução.
Nas Teses de Abril (1917), a estratégia política da Revolução de Outubro (7–8 de novembro de 1917), Lenin propôs que a revolução russa não era um acontecimento nacional isolado, mas um evento fundamentalmente internacional — a primeira revolução socialista do mundo. A aplicação prática, por Lenin, do marxismo e da revolução proletária às condições sociais, políticas e econômicas da Rússia agrária motivou e impulsionou o "nacionalismo revolucionário dos pobres" a depor a monarquia absoluta da dinastia tricentenária dos Romanov (1613–1917), os czares da Rússia.
Imperialismo Em Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo (1916), as análises econômicas de Lenin indicavam que o capitalismo se transformaria em um sistema financeiro global, pelo qual países industrializados exportariam capital financeiro para suas colônias e, assim, realizariam a exploração do trabalho dos povos nativos e a exploração dos recursos naturais de seus países. Essa superexploração permite que os países ricos mantenham uma aristocracia operária interna com um padrão de vida ligeiramente superior ao da maioria dos trabalhadores, assegurando relações pacíficas entre trabalho e capital na metrópole capitalista. Portanto, uma revolução proletária de trabalhadores e camponeses não poderia ocorrer nos países capitalistas enquanto o sistema financeiro imperialista global permanecesse em vigor. A primeira revolução proletária teria de ocorrer em um país subdesenvolvido, como o Império Russo, então o país politicamente mais fraco do sistema financeiro capitalista global no início do século XX. Em United States of Europe Slogan (1915), Lenin escreveu:
Em Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo (1920), Lenin escreveu:
Práxis leninista Partido de vanguarda
No capítulo II, "Proletários e comunistas", do Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels apresentam o partido comunista como a vanguarda política exclusivamente qualificada para conduzir o proletariado na revolução:
O objetivo revolucionário do partido de vanguarda leninista é estabelecer a ditadura do proletariado com o apoio da classe trabalhadora. O partido comunista conduziria a deposição popular do governo czarista e, então, transferiria o poder governamental à classe trabalhadora; essa mudança da classe dominante — da burguesia para o proletariado — torna possível o estabelecimento do socialismo. Em Que Fazer? (1902), Lenin afirmou que um partido revolucionário de vanguarda, recrutado da classe trabalhadora, deveria dirigir a campanha política porque somente assim o proletariado realizaria com êxito sua revolução; ao contrário da campanha econômica de luta sindical defendida por outros partidos políticos socialistas e pelos anarcossindicalistas. Assim como Marx, Lenin distinguiu os aspectos de uma revolução: a "campanha econômica" (greves trabalhistas por aumentos salariais e concessões no trabalho), caracterizada por uma liderança plural e difusa; e a "campanha política" (mudanças socialistas na sociedade), que exigia a liderança revolucionária decisiva do partido de vanguarda bolchevique.
Centralismo democrático
Com base na Primeira Internacional (AIT, Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864–1876), Lenin organizou os bolcheviques como um partido de vanguarda democraticamente centralizado, no qual a liberdade de expressão política era reconhecida como legítima até a formação de um consenso sobre a política; depois disso, esperava-se que todos os membros do partido obedecessem à política acordada. O debate democrático era prática bolchevique, mesmo depois de Lenin proibir facções dentro do partido em 1921. Apesar de exercer uma influência política orientadora, Lenin não detinha poder absoluto e debatia continuamente para que seus pontos de vista fossem aceitos como curso de ação revolucionária. Em Freedom to Criticise and Unity of Action (1905), Lenin afirmou:
Revolução proletária Antes da Revolução de Outubro, apesar de apoiar reformas políticas moderadas — incluindo a eleição de bolcheviques para a Duma quando oportuno —, Lenin afirmou que o capitalismo só poderia ser derrubado por meio da revolução proletária, e não por reformas graduais — internas (fabianismo) ou externas (social-democracia) —, que fracassariam porque o controle da burguesia sobre os meios de produção determinava a natureza do poder político na Rússia. Conforme sintetizado no lema "Por uma Ditadura Democrática do Proletariado e do Campesinato", uma revolução proletária na Rússia subdesenvolvida exigia que um proletariado unido — camponeses e trabalhadores industriais — assumisse com êxito o poder governamental nas cidades. Além disso, em razão das aspirações de classe média de grande parte do campesinato, Leon Trótski afirmou que a liderança proletária da revolução garantiria uma transformação socioeconômica verdadeiramente socialista e democrática.
Ditadura do proletariado
Na Rússia bolchevique, o governo por democracia direta era realizado por meio dos sovietes — conselhos eleitos de trabalhadores —, que Lenin afirmou constituírem a "ditadura democrática do proletariado" postulada no marxismo ortodoxo. Os sovietes eram compostos por comitês representativos das fábricas e dos sindicatos, mas excluíam a classe social capitalista para estabelecer um governo proletário pela e para a classe trabalhadora e os camponeses. A respeito da privação dos direitos políticos da classe capitalista na Rússia bolchevique, Lenin afirmou que "privar os exploradores do direito de voto é uma questão puramente russa, e não uma questão da ditadura do proletariado em geral. [...] Em quais países [...] a democracia para os exploradores será, de uma forma ou de outra, restringida [...] é uma questão das características nacionais específicas deste ou daquele capitalismo". No capítulo cinco de O Estado e a Revolução (1917), Lenin descreve a ditadura do proletariado como:
A respeito da exclusão da classe capitalista da democracia, Lenin afirmou: "Democracia para a imensa maioria do povo e repressão pela força, isto é, exclusão da democracia, dos exploradores e opressores do povo — essa é a mudança pela qual passa a democracia durante a transição do capitalismo para o comunismo".Collected Works, vol. 25, pp. 461–462, A ditadura do proletariado seria realizada com o constitucionalismo soviético, uma forma de governo oposta à ditadura do capital — meios de produção de propriedade privada — praticada nas democracias burguesas. Sob o constitucionalismo soviético, o partido de vanguarda leninista seria um entre vários partidos políticos concorrendo em eleições pelo poder governamental. Contudo, em razão da Guerra Civil Russa (1917–1924) e do terrorismo antibolchevique de partidos políticos opositores que apoiavam a contrarrevolução dos Exércitos Brancos, o governo bolchevique proibiu todos os demais partidos políticos, o que deixou o partido de vanguarda leninista como o único partido político na Rússia. Lenin afirmou que essa repressão política não era filosoficamente inerente à ditadura do proletariado.
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