Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) é uma base antártica pertencente ao Brasil localizada na ilha do Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, na baía do Almirantado, na Antártida. O nome da estação homenageia Luís Antônio de Carvalho Ferraz, hidrógrafo, oceanógrafo e comandante da Marinha Brasileira que visitou o continente antártico por duas vezes a bordo de navios britânicos e desempenhou importante papel na criação do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

A estação começou a operar em 6 de fevereiro de 1984, levada à Antártida, em módulos, pelo navio oceanográfico NApOc Barão de Teffé (H-42) e diversos outros navios da Marinha do Brasil. Ela foi parcialmente destruída por um incêndio no dia 25 de fevereiro de 2012, com sua reconstrução terminada em 2020 após um investimento de cerca de 100 milhões de dólares.

Ocupando uma área de 4 mil metros quadrados, a estação pode abrigar 64 pessoas. A estrutura é composta por heliponto, auditório, alojamentos, laboratórios, depósitos, oficinas, biblioteca, salas de lazer e estar, enfermaria, sala de comunicações, ginásio de esportes, cozinha e refeitório.

A estação está adaptada para receber pesquisadores das áreas de oceanografia, glaciologia e meteorologia e cientistas da Fiocruz têm um laboratório exclusivo de microbiologia para pesquisar fungos locais. Nos arredores da EACF, também existem módulos isolados voltados para várias atividades, como meteorologia e telecomunicações, além de geradores de energia eólica e solar.

História

thumb|A estação antártica brasileira Comandante Ferraz antes do incêndio.

Primeira estação (1984-2012) O Brasil aderiu ao Tratado Antártico em 1975 e realizou a Operação Antártica I (OPERANTAR I) em dezembro de 1982, marcando sua presença na Antártida. A operação enfrentou desafios logísticos e climáticos para planejar uma estação científica. O sucesso da OPERANTAR I levou o Brasil a se tornar Parte Consultiva do Tratado. Uma base seria o próximo passo para consolidar a presença brasileira no continente, mas houve uma pequena controvérsia acerca de sua localização. A ilha do Rei George foi escolhida pela segurança e conveniência logística, pois é um dos pontos mais próximos do continente americano, além de distar 3 mil quilômetros do polo sul geográfico; segundo o glaciologista Jefferson C. Simões, a decisão foi prática e não considerou a ciência. Como a ilha faz parte dos setores reivindicados pela Argentina, Chile e Reino Unido, alguns brasileiros temiam que ela fosse interpretada erroneamente como o pretexto para uma reivindicação territorial. Eles sugeriam uma base mais a leste, entre as longitudes do Arroio Chuí e da Ilha de Martim Vaz, que seriam a “Antártica Brasileira” conforme a teoria da defrontação. A implantação da base fora desse setor marcou o abandono dessa teoria.. p. 138-139.. p. 104-105.

Em 6 de fevereiro de 1984, durante a OPERANTAR II, foi inaugurada a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), que cresceu ao longo das operações subsequentes para suportar equipes durante o inverno antártico. A estação foi nomeada em homenagem ao comandante da Marinha Luís Antônio de Carvalho Ferraz, um hidrógrafo e oceanógrafo que visitou duas vezes Antártica a bordo dos navios britânicos. Ele foi fundamental em persuadir o governo desenvolver o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e morreu subitamente em 1982, enquanto representava o Brasil em uma conferência oceanográfica em Halifax, Canadá.

A estação foi construída no mesmo local da antiga "Base de G" britânica e as ruínas de madeira da base antiga fazem um forte contraste com as estruturas de metal verdes e alaranjadas brilhantes da estação brasileira, que teve o primeiro conjunto formado em 6 de fevereiro de 1984. Acima do local da base há um pequeno cemitério, com cinco cruzes: três delas são os túmulos de membros do British Antarctic Survey (BAS); o quarto homenageia um líder da base do BAS que se perdeu no mar e a quinta cruz é o túmulo de um sargento brasileiro operador de rádio, que morreu de um ataque cardíaco em 1990.

A primeira equipe que ocupou lugar era composta por doze homens, que guarneceram os oito módulos originais da Estação pelo período de 32 dias quando da sua inauguração. Ao fim desse período, os ocupantes abandonavam o local e o deixavam desativado. Este procedimento ocorre até 19 de março de 1986, momento em que ocorre a primeira invernação, na qual os ocupantes da Estação lá permaneceram durante todo um ano.

Durante as OPERANTAR III, IV e seguintes, a EACF foi expandida e melhorada, permitindo a permanência de equipes durante o inverno. A partir da OPERANTAR VIII, foram introduzidos módulos de pesquisa avançados, e lançamentos de carga por paraquedas foram realizados para apoiar a Estação durante o inverno. Durante a OPERANTAR XVI, um novo sistema de comunicação foi estabelecido. Em 2001, um diagnóstico estrutural levou ao planejamento de revitalização do local, iniciado durante a OPERANTAR XXII, com melhorias em eficiência e sustentabilidade. Durante a OPERANTAR XXIII, um sistema de telecomunicações nacional foi instalado, seguido por obras de modernização e revitalização nas OPERANTAR XXIV e XXV, incluindo expansões, melhorias em infraestrutura e instalação de novos equipamentos financiados pela Petrobras.

Em meados de 2007, a EACF já ocupava 2 300 metros quadrados, possuindo efetivo de 60 pessoas. Cerca de 20 projetos eram anualmente realizados, o que permitiu a adesão do Brasil ao grupo de Membros Consultivos do tratado da Antártica. Além da Estação, os refúgios Emílio Goeldi, na Ilha Elefante, Astrônomo Cruls, na Ilha Nelson, já existiam. A estrututra também era dotada de coleta seletiva dos resíduos ali gerados. Um incinerador com filtro antipoluente era usado na queima do lixo orgânico, com as cinzas remanescentes sendo retornadas ao continente para o destino adequado. Os resíduos que não eram passíveis de incineração eram embalados e posteriormente levados em navios para reciclagem. Além disso, periodicamente era realizada a Operação Pente Fino, na qual um mutirão de limpeza nas imediações da EACF era realizado, a fim de livrá-la de quaisquer resíduos.

Em geral, o grupo base que ocupava a Estação durante este período consistia em 10 militares, que lá ficariam durante todo o ano, responsáveis por conduzir as atividades administrativas, de apoio e manutenção das pesquisas locais, ao contrário do que ocorria em outras bases. A cada ano um voluntariado era aberto entre os oficiais (para os cargos de Chefe, Subchefe e Médico) e praças (para os cargos de Engarreados de Motores e Lancha, de Viaturas e Tratorista, de Eletricidade, de Embarcações, de Eletrônica, de Comunicações e Cozinheiro) da Marinha. Os voluntários que cumprissem com os requisitos passavam por avaliações médicas e psicológicas. Em seguida, eram conduzidos para o treinamento especial. Assim que os selecionados eram obtidos, uma nova fase de treinamentos era iniciada. Desta vez, o objetivo era desenvolver nos voluntários habilidades atípicas de sua rotina no órgão, tais como: combate a incêndios, administração de agência postal e emergências odontológicas, entre outras.

Ao fim de 2011 e início de 2012, a Estação passou a ocupar 2 600 metros quadrados, possuindo laboratórios, oficinas, heliponto, praça de máquinas com geradores, cozinha industrial, padaria, biblioteca, lavanderia, academia, enfermaria, acomodações, entre outras instalações, contando com 25 a 60 pessoas de efetivo. À época, a estação começou a enfrentar problemas de superlotação e preocupações ambientais começaram a surgir, além de questionamentos com relação às condições da EACF, levantados após um racionamento de água em 2007 e 2009. Em meio a essas preocupações, em 17 de janeiro de 2012, o primeiro motogerador a etanol com tecnologia totalmente brasileira foi instalado na Estação e planos para o controle do crescimento de pessoal na edificação também foram traçados.

Incêndio em 2012

thumb|Fotografia do incêndio que destruiu parte da estação em 2012.

Na madrugada do dia 25 de fevereiro de 2012, com 60 pessoas na base, ocorreu um incêndio iniciado por uma explosão sem causa estimada na praça das máquinas, onde ficam os geradores de energia da estação. Por ser anexa ao restante das instalações, o fogo se alastrou. Um suboficial (Carlos Alberto Vieira Figueredo) e um primeiro-sargento (Roberto Lopes dos Santos) morreram porque não conseguiram deixar a Praça das Máquinas e um sargento foi ferido, mas levado com vida para a estação polonesa onde recebeu primeiros socorros e posterior transferência para uma base chilena. O militar seria mais tarde transportado para o Hospital das Forças Armadas do Chile, em Punta Arenas. Para a base antártica do Chile foram transportados também todos os civis, encaminhados então também para a cidade de Punta Arenas, no Chile, e por fim de volta ao Brasil, em um avião da Força Aérea Brasileira. thumb|Velório no Rio de Janeiro dos dois militares mortos durante o incêndio na EACF

O combate ao incêndio seguiu pelo dia com o grupo de 12 militares que se manteve na base até que a Marinha decidiu interromper o trabalho devido às condições climáticas adversas, características da Antártida. Junto a um navio da Armada Chilena, planejaram voltar ao local para avaliação dos danos e estimaram destruição de 70% da base. O prédio principal, que incluía os alojamentos e alguns laboratórios, foi completamente destruído. As unidades que ficavam isoladas da instalação central salvaram-se: laboratórios de meteorologia, química e estudo da alta atmosfera, além de contêineres com material de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. No ano seguinte, elevadas concentrações de cobre, chumbo e zinco foram encontradas no solo nas ruínas da estação, possivelmente contaminando os lagos nas redondezas.

Os militares Carlos Alberto Vieira Figueredo e Roberto Lopes dos Santos, mortos no incêndio, receberam postumamente o grau de comendador da Ordem do Mérito da Defesa e a Medalha Naval de Serviços Distintos da Marinha. Em dezembro de 2014 foi publicada a lei n.º 13 065/14 que concedeu auxílio especial e bolsa especial de educação aos dependentes dos militares da Marinha falecidos neste acidente.

Reconstrução (2012-2020) thumb|Prédio principal da EACF thumb|Interior do novo prédio da estação O governo federal anunciou dias depois do incêndio de 2012 um programa para a reconstrução da base antártica, com projeto mais moderno, com prazo de conclusão de dois anos. No dia 6 de outubro de 2012 foi iniciada a mais complexa antártica brasileira, com quinhentas pessoas e cinco navios. Cerca de novecentas toneladas de escombros e resíduos foram retirados da EACF e a montagem dos Módulos Antárticos Emergenciais (MAE) foi concluída, o que permitiu a continuidade das pesquisas e o apoio das atividades de construção da nova Estação. A Marinha abriu um processo de licitação, exclusivo para empresas nacionais, para a obra de reconstrução da estação no fim de 2013 e que terminou no fim de fevereiro de 2014. No entanto, nenhuma empresa demonstrou interesse em participar.

Em março de 2014, as pesquisas na estação foram retomadas com os módulos emergenciais. Em julho, a Marinha divulgou o novo edital para a reconstrução da estação, com obras estimadas em cerca de 110,5 milhões de dólares e aberto a empresas brasileiras ou estrangeiras. Três empresas apresentaram proposta na licitação e foi escolhida a empresa ou consórcio que ofereceu o menor preço. Apresentaram propostas a empresa chinesa CEIEC, a finlandesa FCR Finland e o consórcio formado pela brasileira Ferreira Guedes e a chilena Tecno Fast, divulgou o Ministério da Defesa.