A Estação Ferroviária do Rossio ou Gare do Rossio (nome anteriormente grafado como "Rocio"), também chamada Estação Central de Lisboa e Estação de Lisboa-Rossio (ou de Lisboa Rossio, ou de Lisboa - Rossio), é uma interface da Linha de Sintra, sendo uma das principais estações de Lisboa, capital de Portugal. Está situada junto às praças do Rossio e dos Restauradores, no centro da cidade. left|thumb|upright|Entrada principal, à noite. left|thumb|upright|Aspeto da gare. left|thumb|upright|Acesso lateral e zona pedonal anexa à estação.
Descrição
Localização e acessos Situa-se na cidade de Lisboa, na freguesia de Santa Maria Maior (até 2013, Santa Justa), tendo acessos pela Rua 1.º de Dezembro e Praça D. João da Câmara, contígua à praças dos Restauradores e do Rossio, e, a um nível mais elevado, pela Calçada do Carmo (via Largo Duque de Cadaval).
Infraestrutura A gare do Rossio tem cinco vias de circulação (I, II, III; IV, e V), com comprimentos entre os 85 e 196 m; as plataformas tinham 134 a 208 m de extensão, e apresentavam todas 90 cm de alturaDiretório da Rede 2024. I.P.: 2022.12.09 — estes valores permanecem essencialmente inalterados desde pelo menos 2011.
Edifício left|thumb|Foyer superior da estação. O edifício de passageiros situa-se ao topo da via, já que esta foi concebida como estação terminal. Edificado em finais do século XIX em estilo neomanuelino, do risco do arquitecto José Luís Monteiro, está classificado desde 1971 como imóvel de interesse público,Classificação do edifício como imóvel de interesse público (Decreto 516/71) estando igualmente integrado numa zona de protecção conjunta dos imóveis classificados da Avenida da Liberdade e área envolvente.Integração em zona de protecção conjunta de imóveis classificados (Portaria 529/96)
Originalmente, o complexo incluía o edifício da estação com a cobertura metálica, um prédio anexo que albergava o hotel, o Túnel do Rossio, e as rampas de acesso ao Largo do Carmo.REIS et al, 2006:37 A nave da gare, de grandes dimensões, é coberta por um alpendre de ferro e vidro e tem 130 m de comprimento e 21 m de altura, tendo nove vias em 1989.
O complexo da estação compreende-se por vários níveis, vencendo, através de pisos intermédios, o grande desnível entre a altura das vias férreas e a cota do Rossio e dos Restauradores, incluindo também no seu subsolo o acesso à do Metropolitano de Lisboa, de construção mais recente.(anon.): Uma estação não é uma ilha. Metropolitano de Lisboa, Lisboa: 1996.10: 4 p. Folheto informativo distribuído conjuntamente pelo M.L. e pela C.P. Este tipo de estação elevada é raro em Portugal, sendo o Rossio o principal exemplo no país.MARTINS et al, 1996:139
left|thumb|Entrada do Túnel do Rossio, visto a partir da gare. Túnel do Rossio
O acesso dos comboios à estação faz-se, a partir da estação de Campolide, por um túnel em via dupla com 2613 m de comprimento e com um perfil abobadado de 8 m de largura por 6 m de altura máxima. Entre a boca do túnel em Campolide e o seu final na Estação do Rossio este desce 24,26 m, o que corresponde a um declive de aproximadamente 1%. Possui um poço de escapatória para a superfície a meio do percurso, com saída próxima do cruzamento com a Rua Alexandre Herculano.
Entre 2004 e 2008 o túnel esteve encerrado para obras de reabilitação, levando também à desativação da Estação do Rossio por igual período.Estação do Rossio. Grupo Infraestruturas de Portugal IP • Unidade de Património Histórico Cultural e Direção de Comunicação, Imagem e Stakeholders: 2017. Colab. Arquivo Histórico da C.P. (folheto desdobrável)
Enquadramento
Serviços A estação do Rossio integra-se na família de serviços da Linha de Sintra, parte da rede de comboios urbanos de Lisboa, operada pela empresa Comboios de Portugal — não se efetuando aqui atualmente quaisquer outros serviços ferroviários regulares.
Esta interface foi frequentemente servida pelo Sud Expresso, ao longo do século XX,REIS et al, 2006:36 desde 1930. Também recebeu comboios de mercadorias, dispondo em 1940 de um serviço de despacho próprio para este tipo de transporte.REIS et al, 2006:109 Também serviu como um entreposto para o correio transportado por via ferroviária, tendo albergado um serviço de triagem com carimbos próprios.MARTINS et al, 1996:54
História thumb|left|Estação em construção em 1886.
Século XIX Planeamento e construção Um alvará de 7 de Julho de 1886 autorizou a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses a construir uma via férrea entre a Linha do Leste, em Xabregas, à Linha do Oeste, em Benfica, e em 9 de Abril de 1887 outro alvará autorizou a Companhia Real a construir e explorar um ramal urbano, em via dupla, que ligasse a Linha do Oeste a uma interface no centro de Lisboa, que serviria para passageiros e mercadorias. Um terceiro alvará, publicado no dia 23 de Julho, autorizou a Companhia a construir dois ramais na futura Linha de Cintura, de forma a ligar à nova gare ferroviária, denominada originalmente de Estação Central de Lisboa (posterior Estação do Rossio).
A estação começou a ser planeada e construída na década de 1880, como um ramal da Linha de Cintura. A sua nave foi planeada entre 1886 e 1887,PEREIRA, 1995:365 pelo arquitecto José Luís Monteiro,VITERBO, 1899:385 tendo a construção sido executada pelas firmas DuParcly & Bartissol, Papot & Blanchard, e E. Beraud.SANTOS, 1989:329 Nesse ano, iniciou-se a demolição de vários prédios, para libertar o espaço onde deveria ser construída a estação, tendo-se planeado que o edifício teria cerca de 43,5 por 23 m, e o corpo lateral, 45 por 19 m.
Em 1888, já estava em construção a linha até à estação,MARTINS et al, 1996:29 e em Abril de 1889 já tinham sido concluídos o Túnel do Rossio e a Estação Central, e a primeira composição atravessou o túnel a 8 de abril.
left|thumb|Obras de construção da Gare do Rossio (Largo Duque de Cadaval). Década de 1890 A cerimónia de inauguração ocorreu em 18 de Maio de 1890.MARTINS et al, 1996:251 Devido à sua situação como estação central na cidade de Lisboa, tornou-se o ponto terminal dos mais importantes comboios internacionais de passageiros, incluindo (desde 1930) o Sud Expresso, que antes partia de Lisboa-Santa Apolónia. Um despacho de 6 de Junho desse ano determinou a instalação de um sistema de sinalização no Rossio, no esquema Saxby & Farmer. Apesar de ter sido inaugurada, a estação ainda não estava concluída, tendo as obras da fachada só terminado em Setembro desse ano. Em 16 de Maio de 1891, já tinha sido anunciado que os comboios-correio do Norte e Leste iriam passar a ter o seu terminal na gare do Rossio.
Em 1 Novembro de 1893, a Gazeta dos Caminhos de Ferro informou que tinha sido aberto o concurso para o fornecimento e instalação de iluminação eléctrica na estação e no túnel, com equipamentos próprios para a geração de electricidade. Em Junho de 1894, já tinham entrado ao serviço os sistemas de iluminação eléctrica. Em Fevereiro de 1895, os elevadores foram suspensos para manutenção, tendo os serviços de venda de bilhetes e despacho de bagagens, que normalmente se realizavam no vestíbulo inferior, sido passados para o vestíbulo superior, ao nível da gare. Em Maio de 1896, estava a ser construída uma cabina para a venda de bilhetes para o elevador e acesso à gare.
Em 1899, a Companhia Real introduziu as locomotivas da Série 261 a 272, que foram postas nos comboios rápidos entre o Rossio e a cidade do Porto.
thumb|upright|Assassinato de Sidónio Pais na Gare do Rossio, em 14 de Dezembro de 1918 (bilhete postal).
Século XX Décadas de 1900 e 1910 Em 16 de Janeiro de 1902, a Gazeta dos Caminhos de Ferro noticiou que estava prevista a instalação de novos relógios, de grandes dimensões, da casa Garnier, na gare e nos vestíbulos superior e inferior. A 1 de Agosto desse ano, o mesmo órgão relatou que a Companhia Real tinha contratado a firma francesa Hallé & Cie, para substituir os permutadores hidráulicos nesta estação, por uns eléctricos, prevendo-se, nesta altura, que também os elevadores, monta-cargas, sinais e os aparelhos de mudança de via fossem adaptados à energia eléctrica. Em Setembro de 1903, já tinham entrado ao serviço os novos permutadores.
Em 4 de Dezembro de 1909, o rei D. Manuel II chegou ao Rossio, depois de uma viagem ao Reino Unido. Em 1910 é instalado um sistema de informação sobre as partidas e chegadas iminentes, colocado na parede do vestíbulo.
Nos princípios de 1914, ocorreu uma das maiores greves de ferroviários em Portugal; no primeiro dia da greve, em 14 de Janeiro, foram destacados soldados para guardar a Gare do Rossio, onde se encontrava a administração da empresa, e não circularam comboios na Linha de Sintra devido a actos de sabotagem por parte dos trabalhadores.MARQUES, 2014:119-120 No dia seguinte, as forças militares e policiais estabeleceram a sua base de operações na estação, e saiu um comboio, carregado de soldados e polícias, que no entanto foi forçado a parar em Campolide devido aos protestos dos grevistas.MARQUES, 2014:121 Nos dias seguintes, a greve começou a dar sinais de abrandar, mas voltou a acender-se no dia 22 de Janeiro, quando a polícia dispersou uma multidão que se tinha juntado na estação ferroviária para apoiar a greve.MARQUES, 2014:125 No dia 23, voltaram a ser feitos vários actos de sabotagem, e a presença policial e militar voltou a ser reforçada nas estações da Linha de Sintra, mas na madrugada do dia 24 ainda rebentaram duas bombas na estação, e uma terceira foi encontrada junto à boca do túnel.MARQUES, 2014:126-129
Em 1916 entraram ao serviço as locomotivas a vapor da série 070-097,MARTINS et al, 1996:87-88 encomendadas para servir especificamente no serviço tranvia entre Lisboa-Rossio e , via Túnel do Rossio. Em 14 de Dezembro de 1918, Sidónio Pais foi assassinado na Gare do Rossio.MACHADO, 2000:398 Em 1919, esta foi uma das estações em que foi utilizado o vagão fantasma, um sistema de segurança utilizado para impedir actos de sabotagem por parte dos grevistas.REIS et al, 2006:59
thumb|left|Acidente ocorrido na estação do Rossio, em 1922. Décadas de 1920 e 1930 Em 1925, entraram ao serviço as locomotivas a vapor da Série 501 a 508, que começaram desde logo a rebocar os comboios rápidos entre a gare do Rossio e Vila Nova de Gaia. Em 1923 realizaram-se obras no edifício, tendo o vestíbulo superior sido dotado de bilheteiras.
Em 1 de Julho de 1926, relatou-se que a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses já tinha iniciado um concurso para a electrificação da Linha de Sintra, incluindo o troço até ao Rossio. A 25 de junho de 1932, parte desta estação o primeiro Comboio Mistério, um comboio especial promovido pelo Serviço de Turismo. Em 1934, a estação do Rossio foi alvo de obras de reparação.