Átila (, ; Panônia, c. 400 – março de 453) frequentemente referido como Átila, o Huno, foi rei dos hunos e chefe de uma confederação tribal de hunos e povos germânicos e iranianos, que governou o maior império europeu de seu tempo, cujo território se estendia do sul da atual Alemanha, no oeste, até o rio Ural, no leste; e do mar Báltico, no norte, até o mar Negro, no sul. Durante seu reinado, levou a cabo uma política agressiva de cobrança de tributos e eventualmente de intervenção militar em reinos vizinhos, que viria a torná-lo um dos inimigos mais temidos dos impérios romanos Ocidental e Bizantino.

Após sucederem ao seu tio Ruga, e com o Império Huno unificado sob o seu comando, a partir de 434 Átila e seu irmão Bleda estenderam seu território até os Alpes, o Reno e o Vístula, e buscaram conquistar parte do Império Sassânida. No início da década de 440 voltaram sua atenção para o Império Bizantino, alegando que o Tratado de Margo vinha sendo descumprido. Após atravessarem o Danúbio, saquearam os Bálcãs e a Ilíria e derrotaram os romanos em duas grandes batalhas, mas preferiram negociar um vantajoso acordo a atacar Constantinopla. Após tornar-se rei único dos hunos, entre o final de 444 e o início de 445, Átila iniciou uma nova ofensiva contra o Império Bizantino, aproveitando-se de uma série de calamidades que o fragilizavam e exigindo o cumprimento dos termos acordados anteriormente. Ele avançou sobre a Dácia Aureliana, derrotou os romanos na Batalha do Uto, saqueou as províncias da Mésia, Macedônia e Trácia, mas novamente não atacou Constantinopla, preferindo invadir e pilhar a Grécia, de onde se retirou carregando um imenso espólio.

Até o final da década de 440 Átila e os hunos haviam gozado de boas relações com o Império Romano do Ocidente, mas gradualmente tensões foram se estabelecendo e suas pretensões foram se modificando. Enfim, em 450 Justa Grata Honória, irmã mais velha de Valentiniano III, apelou a Átila, pedindo sua ajuda e possivelmente prometendo-lhe casamento. Esse pedido ofereceu-lhe boa oportunidade para legitimar suas ambições, e em 451 invadiu a Gália Romana, saqueando numerosas cidades antes de ser derrotado na Batalha dos Campos Cataláunicos. Buscando manter sua autoridade e prestígio, Átila organizou outra campanha no ano seguinte. Então adentrou a Itália, devastou parte da planície do Pó e forçou Valentiniano a fugir de sua capital, Ravena. Obrigado a retroceder por conta de questões de abastecimento e de uma epidemia que debilitou suas tropas, ele planejou novas campanhas contra os romanos, mas morreu em março de 453, na região do rio Tisza, na Grande Planície Húngara. Após sua morte, disputas dinásticas entre seus filhos enfraqueceram seu império, e seu conselheiro próximo, Ardarico, liderou uma revolta dos povos germânicos contra o domínio huno, levando-o a desintegrar-se.

A cultura dos hunos e a personalidade de Átila fascinaram seus contemporâneos, e mitos divergentes a seu respeito são encontrados em numerosas culturas e representações artísticas, desde a Antiguidade até a atualidade. Suas campanhas ajudaram a enfraquecer o já combalido Império Romano do Ocidente, e podem ter estimulado as invasões bárbaras, um fator que decididamente contribui para o seu colapso. Por esse motivo e por conta de sua origem étnica e religião, a historiografia cristã construiu uma imagem negativa sua, associando-o à crueldade e à rapina e atribuindo-lhe o epíteto Praga de Deus e Flagelo de Deus. Contudo, outras tradições, principalmente escandinavas e germânicas, retrataram-no como uma figura positiva. Três sagas o incluem dentre seus personagens principais, e os húngaros celebram-no como um herói fundador.

Fontes escritas e arqueologia A historiografia sobre Átila e os hunos enfrenta limitações consideráveis, resultantes da confluência de uma série de fatores. Fontes de informação sobre o período anterior a Átila são particularmente raras, pois os hunos não deixaram quaisquer registros na forma escrita e cronistas estrangeiros da época pouco escreveram sobre a sua chegada à Europa, talvez porque estivessem mais preocupados em registrar ameaças mais imediatas. Ademais, o estilo de vida dos hunos, somado à falta de informações precisas a seu respeito, dificulta a produção de conhecimento histórico e arqueológico.

Embora fontes sobre os hunos e Átila tenham se tornado mais comuns a partir da década de 420 e, sobretudo, da década de 440, elas foram escritas, em grego e latim, por cronistas pertencentes a povos inimigos dos hunos, e que buscaram demonstrar sua oposição às suas campanhas militares, religião e etnia. Dentre esses testemunhos, apenas fragmentos chegaram até a atualidade, destacando-se trabalhos de autoria de Prisco de Pânio, Próspero da Aquitânia e Idácio de Chaves, e também dois documentos de autoria desconhecida (a Chronica Gallica do ano 452 e a Chronica Gallica do ano 511).

Prisco de Pânio foi um diplomata e historiador de língua grega, e, mais do que uma testemunha, foi um ator com participação ativa na história de Átila, enquanto membro de uma embaixada de Teodósio II na corte do soberano huno em 449. É autor de oito livros de história que abrangem o período que vai de 434 a 452, dos quais restam apenas alguns fragmentos. Embora Prisco tenha sido evidentemente influenciado por suas funções, e assim suas percepções devam ser interpretadas à luz de sua posição junto à corte bizantina, seu testemunho permanece uma das principais fontes primárias a respeito de Átila. A maior parte dos trechos sobreviventes dos escritos de Prisco foram conservados em citações nos trabalhos de Jordanes, um historiador godo ou alano de língua latina do que escreveu a Gética, uma obra que contém informações sobre o Império Huno e seus vizinhos. Sua visão reflete a do seu povo um século após a morte de Átila.

Próspero da Aquitânia foi um cronista cristão e discípulo de Agostinho de Hipona, cuja obra mais importante do ponto de vista histórico é o Epitoma chronicorum, em parte uma compilação de escritos de Jerônimo de Estridão, da qual sobreviveram cinco versões distintas. A versão mais extensa dessa crônica cobre o período de 412 a 455, e registra algumas informações sobre Átila, suas campanhas e o destino de seu império após sua morte.

Idácio de Chaves, como seu epíteto indica, foi bispo de Águas Flávias, a atual Chaves, em Portugal. Em sua Continuatio Chronicorum Hyeronimianorum ele cobre o período em que Átila reinou sobre os hunos, registrando suas impressões sobre os eventos da época e relatos que lhe foram transmitidos em primeira mão por altas autoridades militares do Império Romano Ocidental.thumb|210x210px|A Festa de Átila () mostra o embaixador bizantino Prisco de Pânio dentre os hunos (na parte direita, segurando um livro)|esquerda Adicionalmente, um número de fontes secundárias mais ou menos próximas aos eventos foram influentes na historiografia de Átila, com destaque para o próprio Jordanes e um chanceler do imperador bizantino Justiniano, Conde Marcelino, que é fonte de informações sobre as relações dos hunos com o Império Romano do Oriente. Diversas fontes eclesiásticas também contêm informações registradas em épocas relativamente próximas do tempo em que Átila viveu, mas são dispersas e difíceis de autenticar, pois por vezes seu conteúdo acabou distorcido pelo tempo e por monges copistas do ao XVII. Os cronistas húngaros do , por sua vez, considerando os hunos seus ancestrais e, acentuando seu caráter glorioso, mencionam amplamente Átila, mas mesclando elementos históricos e lendas que muitas vezes não podem ser distinguidos uns dos outros.

Dentre os hunos o conhecimento era transmitido de forma oral, através das epopeias e poemas cantados que eram passados de geração em geração. Muito indiretamente, parte dessa história oral foi incorporada pelas culturas nórdicas e germânicas dos povos vizinhos, que a registraram por escrito nos séculos IX e XIII. Átila é personagem central de diversas sagas medievais, como a Canção dos Nibelungos e a Edda poética, dentre outras.

Embora muito pouca evidência material inequívoca tenha sido encontrada a respeito dos hunos até o início do , a arqueologia tem fornecido alguns detalhes sobre o estilo de vida, a arte e as técnicas de guerra desse povo. Notadamente, ouro é um achado arqueológico raro em assentamentos germânicos do período anterior a Átila, e a frequência com que são encontrados objetos em ouro relativos ao período de dominação huna sugere que, além da subjugação militar, os hunos se utilizavam da distribuição das riquezas conquistadas para garantir a fidelidade de seus súditos. Vestígios de batalhas e cercos têm sido encontrados, mas o túmulo de Átila e a capital de seu império permanecem desconhecidos.

Origem étnica e familiar

Etimologia Os hunos foram um grupo nômade da Eurásia, muito provavelmente originário de suas estepes. Mencionados pela primeira vez a leste do rio Volga, eles migraram em direção à Europa Ocidental pelos idos do ano 370 e ali estabeleceram um grande império, subjugando os povos locais e causando grandes ondas de emigração que vieram a se somar a outros grandes movimentos populacionais do período. Sua origem étnica e a de sua língua têm sido objeto de debates há séculos. Na época de seu aparecimento na história ocidental, Amiano Marcelino afirmou que eles seriam originários de uma terra "além do mar de Azov, perto de um oceano gélido", e os descreveu de maneira pejorativa como "prodigiosamente feios", vivendo suas vidas montados a cavalo e alimentando-se de raízes e carnes parcialmente cozidas entre suas coxas e os lombos de seus cavalos. Não muito tempo depois, Jordanes afirmou que o povo huno seria descendente de "espíritos imundos" e "bruxas" de origem gótica, e teria se originado no Pântano Meótico, localizado ao redor do estreito de Querche.

Somente no a questão passou a ser discutida cientificamente por historiadores, filólogos, etnólogos e outros acadêmicos, devido principalmente às implicações contemporâneas das origens dos hunos, sobretudo quanto à sua participação na composição étnica de povos modernos instalados nas áreas controladas pelos hunos na Antiguidade e na Alta Idade Média. Embora a origem dos hunos seja objeto de numerosas hipóteses, existe algum consenso a respeito de resquícios do seu idioma que se perpetuaram na língua dos búlgaros do Volga e na língua da população contemporânea da região de Tavas, na província turca de Denizli.

A maior parte do que se conhece a respeito do idioma huno pôde ser identificado a partir de evidências contidas nos nomes de personalidades hunas registrados por cronistas estrangeiros da época. Pelo período de Átila a língua gótica havia se tornado uma espécie de língua franca do Império Huno, e sabe-se que o nome Átila, pelo qual ficou conhecido o rei huno, foi transmitido por povos germânicos – provavelmente godos – aos romanos, que por sua vez o transcreveram em grego clássico (Ἀττίλα) e latim (Attila). É possível que essa palavra indicasse um pseudônimo ou título honorífico, mas mais provavelmente indicava um prenome. Em língua huna esse nome certamente se aproximava foneticamente de Átila, mas presumivelmente era outro e também possuía um significado distinto. Dito de outro modo, por meio do nome Átila povos germânicos possivelmente reproduziram em sua própria língua um som semelhante e que tinha significado distinto no idioma huno.

Muitos estudiosos argumentaram que o nome germânico Átila seria formado pelo substantivo atta (), "pai", e pelo sufixo diminutivo -ila. Dentre os povos germânicos, que foram vizinhos e vassalos dos hunos, Átila teria sido conhecido, portanto, como "Pai Pequeno". A etimologia gótica desse nome foi inicialmente proposta por Jacob e Wilhelm Grimm no início do , é condizente com o que se conhece do idioma gótico e "não oferece dificuldades fonéticas nem semânticas".