thumb|upright|350px|A morte de Júlio César, por V. Camuccini (1804-1805) thumb|right|222px|Bruto enfrenta o fantasma de César. Gravura de Edward Scriven (1802) Júlio César (The Tragedie of Julius Caesar, no original em inglês) é uma tragédia de William Shakespeare, provavelmente escrita em 1599. Retrata a conspiração contra o ditador romano Júlio César, seu assassinato e suas consequências. É uma das diversas peças romanas que ele escreveu, baseada na verdadeira história romana, que incluem também Coriolano e Antônio e Cleópatra.
Embora o título da peça seja Júlio César, César não é a personagem central de sua ação; ele aparece em apenas três cenas, e é morto no início do terceiro ato. O protagonista da peça é Marco Júnio Bruto, por fornecer um psicodrama e um conflito íntimo entre sua honra, seu patriotismo e sua amizade.
Data e texto. thumb|260px|Frontispício da primeira página de Júlio César, do First Folio, publicado em 1623 Júlio César foi primeiramente publicada no First Folio, em 1623, mas a peça foi mencionada por Thomas Platter em um diário seu, em Setembro de 1599. E a obra não é mencionada na lista das peças de Shakespeare publicado por Francis Meres em 1598. Com base nestes dois pontos, assim como na série de alusões contemporâneas de que a peça é semelhante à Hamlet no que diz seu vocabulário, sugere-se que foi escrita em 1599. O texto de Julius Caesar no First Folio é a única fonte de autenticidade do texto da peça. O texto do First Folio é notável pela sua qualidade e consistência; os estudiosos crêem que tenha sido composto a partir de um guião teatral.Wells e Dobson, ibid.
A peça contem muitos elementos anacrónicos da era isabelina. As personagens referem objetos como chapéus e casacas que não existiam na Roma antiga. É referido César a usar uma casaca isabelina em vez de uma toga romana. Num determinado momento ouve-se o bater de um relógio e Bruto sublinha-o com "Toca o relógio".
Personagens
Júlio César
Triúnviros após a morte de César César Augusto Marco António Lépido
Conspiradores contra César Marco Bruto Cássio Servílio Casca Décimo Bruto Cina Metelo Cimber Trebónio Caio Ligário
Tribunoss Flávio (Lúcio Cesécio Flavo) Marulo (Caio Epídio Marulo)
Senadores Cícero Públio Popílio Lenas (Caio Popílio Lenas)
Cidadãos Calpúrnia – esposa de César Pórcia – esposa de Bruto Adivinho Artemidoro – sofista de Cnidos Cina (Hélvio Cina|) – poeta Sapateiro Carpinteiro Poeta (que se crê seja baseado em Marco Favônio)Referido em Vidas Paralelas e citado em Lucius – ajudante de Bruto
Leais a Bruto e Cássio Volúmnio (Públio Volúmnio) Ticínio Marco Pórcio Catão (filho de Catão, o Jovem) – irmão de Pórcia Messala – mensageiro Varro Clito Cláudio Dardânio Estrato Lucílio Labeu (papel não falante) Flávio (papel não falante) Estacílio (papel não falante) Píndaro – Servo de Cássio
Outros Criado de César Criado de António Criado de Otávio Mensageiro Outros soldados, senadores, plebeus, e criados
Resumo
A peça começa com os plebeus de Roma a celebrar o regresso triunfal de César após a derrota dos filhos de Pompeu na Batalha de Munda. Dois tribunos, Flávius e Marrullus, encontram os plebeus a comemorar, insultam-nos pela mudança da sua lealdade de Pompeu para César e dispersam a multidão. Também planeiam remover todas as decorações das estátuas de César e terminar quaisquer outras festividades. Na cena seguinte, durante o desfile de César na festa da Lupercália, um adivinho adverte César para ter "Cuidado com os Idos de março", um aviso que ele ignora. A ação então vira-se para a discussão entre Bruto e Cássio. Nesta conversa, Cássio tenta convencer Bruto de que César deve ser morto, pretendendo que Bruto se juntasse à sua conspiração para matar César. A seguir, eles ouvem de Casca que Marco António ofereceu a César a coroa de Roma três vezes, e todas vezes César recusou, desmaiando após a última recusa. Mais tarde, no segundo ato, Bruto junta-se à conspiração, embora depois de um longo debate moral, acabando por decidir que César, apesar de seu amigo e nunca ter feito nada contra o povo de Roma, devia ser morto para o impedir de fazer algo contra o povo de Roma se chegasse a ser coroado. Ele compara César a "um ovo de serpente/ que eclodindo, como a sua espécie, cresceria malevolamente,/ pelo que o urge matar na casca" e decide juntar-se a Cássio para assassinar César.
O assassinato de César é uma das mais famosas cenas da peça, ocorrendo no Ato 3, Cena 1 (a outra é a oração fúnebre de Marco António "Amigos, romanos, compatriotas"). Depois de ignorar o adivinho, bem como as premonições da sua própria esposa, César chega ao Senado. Os conspiradores criam um motivo superficial para se aproximarem o suficiente para assassinar César através de uma petição trazida por Metellus, que intercede em nome do seu irmão que havia sido banido. Previsivelmente, César rejeita a petição, Casca atinge César na nuca, e os outros apunhalam-no sendo o último. É neste ponto, que Shakespeare faz César proferir a famosa frase "Também tu, Bruto?".Julius Caesar, Ato 3, Cena 1, Linha 77 Shakespeare fá-lo acrescentar "Então cai, César", sugerindo que tal traição destruiu a vontade de César de viver.
Os conspiradores deixam claro que cometeram este ato a favor de Roma, não pelos seus próprios objetivos e não tentam fugir do local. Após a morte de César, Bruto faz um discurso defendendo as suas ações e, no momento, a multidão está do lado dele. No entanto, Marco António, com um discurso eloquente e sutil sobre o cadáver de César — começando com a muito citada Amigos, Romanos, Compatriotas, emprestem-me os vossos ouvidosJulius Caesar, Ato 3, Cena 2, Linha 73.— habilmente vira a opinião pública contra os assassinos manipulando as emoções dos cidadãos comuns, em contraste com o tom racional do discurso de Bruto, havendo, no entanto, método no seu discurso retórico e gestual: ele recorda-lhes o bem que César tinha feito a Roma, a sua solidariedade com os pobres e a sua recusa em ser coroado na Lupercal, assim questiona a acusação de Bruto sobre a ambição de César; ele mostra à multidão o corpo ensanguentado e sem vida de César para os sensibilizar e ganhar a simpatia deles para o seu herói; e lê o testamento de César, pelo qual cada um dos cidadãos romanos receberia 75 dracmas. Marco António, mesmo que afirme que seja contra tal, incita a multidão a afastar os conspiradores de Roma. No meio da violência, uma poeta inocente, Cina, é confundido com o conspirador Lúcio Cina e é assassinado pela multidão.
O início do Ato Quatro é marcado pela cena da discussão, em que Bruto ataca Cássio por sujar o nobre ato de regicídio ao aceitar subornos ("Não sangrou o grande Júlio pela justiça ? / Que vilão tocou o seu corpo, que o esfaqueou, / e não pela justiça?").Julius Caesar, Ato 4, Cena 3, Linhas 19–21. Os dois reconciliam-se, especialmente após Bruto revelar que a sua amada esposa, Pórcia, se suicidou angustiada pela sua ausência de Roma; eles preparam-se para uma guerra civil contra Marco António e o filho adotivo de César, César Augusto. Nessa noite, o fantasma de César aparece a Bruto com um aviso da derrota ("Vais ver-me em Filipos"Julius Caesar, Ato 4, Cena 3, Linha 283.).
Na batalha, Cássio e Bruto, sabendo que provavelmente irão ambos morrer, sorriem entre si e seguram as mãos um do outro. Durante a batalha, Píndaro, servo de Cássio, mata o seu senhor depois de saber a captura do melhor amigo dele, Titínio. A seguir, Titínio, que realmente não tinha sido capturado, vê o cadáver de Cássio, e comete suicídio. No entanto, Bruto vence esta fase da batalha - mas a vitória não é definitiva. Com o coração apertado, Bruto vai para a batalha de novo no dia seguinte. Mas é derrotado e comete suicídio com a sua própria espada, que é segura por um soldado chamado Strato.
A peça termina com uma homenagem a Bruto por Marco António, que proclama que Bruto foi sempre "o mais nobre de todos os Romanos"Julius Caesar, Ato 5, Cena 5, Linha 68. porque foi o único conspirador que agiu, segundo crê, pelo bem de Roma. Há então uma pequena indicação do atrito entre Marco António e César Augusto que irá caracterizar outra peça de Shakespeare sobre Roma, António e Cleópatra.
Fontes A principal fonte de Shakespeare para a criação da peça terá sido a tradução por Thomas North da obra Vidas Paralelas de Plutarco.
Desvios relativamente a Plutarco Shakespeare situa o regresso triunfal de César no dia da Lupercalia (15 de Fevereiro) em vez de seis meses antes. ' Para enfatizar o dramatismo, situa no Capitólio o local do assassínio de César em vez de na Cúria Pompeia. A morte de César, o funeral, a oração de Marco António, a leitura do testamento e a chegada de César Augusto ocorrem na peça todos no mesmo dia. Contudo, historicamente, o assassínio ocorreu em 15 de março (Idos de março), o testamento foi publicado em 18 de Março, o funeral a 20 de março, tendo César Augusto chegado apenas em Maio. Shakespeare situa o encontro dos Triúnviros em Roma em vez de perto de Bononia para evitar um local adicional. Juntou as duas Batalhas de Filipos embora tenha havido um intervalo de 20 dias entre elas. Shakespeare atribui a César como últimas palavras Et tu, Brute? (Também tu, Bruto?). Plutarco e Suetónio não relatam que ele as tenha dito, tendo Plutarco acrescentado que ele puxou a sua toga sobre a sua cabeça quando viu Bruto entre os conspiradores,Plutarco, Caesar 66.9 embora Suetónio registe outros relatos de que César disse em Greek "καὶ σὺ, τέκνον;" (Kai su, teknon?, "E tu, filho?".Suetónio, Julius 82.2Suetónio, The Twelve Caesars, traduzido por Robert Graves, Penguin Classic, p.39, 1957. As palavras em latim Et tu, Brute?, contudo, não foram pensadas por Shakespeare para esta peça dado que elas foram atribuídas a César em anteriores obras Isabelinas e que se tornaram convencionais em 1599.
Shakespeare desviou-se destes factos históricos para reduzir o tempo e comprimir os fatos para que a peça pudesse ser encenada mais facilmente. A força da tragédia é condensada em algumas cenas para reforçar o seu efeito.
Análise e crítica Historicismo Maria Wyke tem escrito que a peça reflete a ansiedade geral na Inglaterra isabelina acerca da sucessão da rainha solteira. No momento da sua criação e da primeira representação, a Rainha Isabel I de Inglaterra, uma governante forte, já não era jovem e recusara-se a nomear um sucessor, gerando preocupações de que uma guerra civil semelhante à de Roma pudesse ocorrer após a sua morte.
Debate sobre o protagonista thumb|left|Pintura do final do Séc. XIX do Ato IV, Cena 3: Bruto vê o fantasma de César