A língua córnica ou córnico (Kernewek ou Kernowek ) é uma língua céltica insular do grupo britônico, falada na península da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, Reino Unido.
O córnico se desenvolveu do britônico aproximadamente durante o século V. Foi a língua das comunidades locais até ser extinto no final século XVIII. Desde o início do século XX vem-se tentando revitalizar o idioma, e atualmente é falado como língua principal por 567 pessoas e em algum nível de inteligibilidade por aproximadamente 8000 indivíduos. Apesar dos esforços, a UNESCO classifica o córnico como Criticamente Ameaçado no .
Etimologia
O nome "Kernewek" é composto de duas partes:
Kernow- ("Cornualha"): tem origem no protocelta "*kernos" ("cabo" ou "ponta"). -ek (adjetivo sufixado): equivalente a "-ês", "-ano" e "-ico" no português.
Distribuição
esquerda|miniaturadaimagem|208x208px|Placa de boas vindas na estação de trem de Penzance em inglês e córnicoHistoricamente, o córnico era falado em toda península da Cornualha e nas Ilhas Scilly, que pertencem ao Condado da Cornualha. Por ser uma língua do ramo britônico, o córnico está relacionado principalmente ao galês e ao bretão.
O córnico possui dois dialetos principais reconhecidos pela Forma Escrita Padrão: Revived Middle Cornish ou RMC () (): Baseado no córnico médio (1200-1575). Revived Late Cornish ou RLC () (): Baseado no córnico tardio (1575-1800). Além dessas, existem outras variações do córnico revivido como o Tudor Cornish (TC) e o Kernewek Kemmyn (KK).
História
Córnico Primitivo (600 - 800) Estágio inicial do córnico, não existem registros escritos desse período, mas é lógico pensar que o córnico ainda era bem semalhante aos outros dialetos britônicos da região, como o galês primitivo e o devônico. A origem do córnico está relacionada com a chegada das tribos germânicas na Grã-Bretanha, que restringiram os celtas à região a oeste de Gloucester, assim, a maior parte dos povos celtas ficou na região conhecida como Weallas ("terra dos estrangeiros") pelos saxões, enquanto a outra parte permaneceu na região conhecida como Dummonia, atual Devon e Cornualha.
Córnico Antigo (800 - 1200)
É desse período o registro escrito mais antigo de córnico já encontrado, uma glosa em um manuscrito em latim de Consolatio Philosophiae de Boécio. O registro mais importante desse período é o Vocabularuim Cornicum datado de c. 1100, aparentemente, é baseado no "Léxicon Inglês-latim" de Ælfric de Eynsham. Esse maunscrito apareceu sob o título Vocabularium Wallicum, por causa disso, durante muitos anos acreditou-se que se tratava de um texto em galês antigo, somente em 1707 que Edward Lhyud identificou o texto como sendo córnico antigo. Com o passar dos anos, as hordas saxãs continuaram a avançar no território da Dummonia, e até o ano de 936, o Rei Etelstano havia confinado a Weallas Ocidental à península a oeste do rio Tamar, que corresponde ao território atual do Condado da Cornualha. Isso fez com que boa parte da população abandonasse sua terra natal e fugisse para locais como as Astúrias e a Galiza, onde eles fundaram o condado da Britônia, e para a Armórica, que foi renomeada Bretanha ou Breten Vyhan ("Pequena Bretanha").
Córnico Médio (1200 - 1575)
Esse período pode ser subdivido em duas partes: a primeira de 1200 a 1497, considerada a época mais produtiva do idioma, sendo que aproximadamente 75% de todo o corpus tradicional data desse período. O segundo período se inicia em 1497, ano da rebelião contra a Monarquia Inglesa, e vai até 1575, é marcado principalmente pelo início do declínio da língua. Apesar da perda de território e falantes nativos, a cultura da Cornualha ainda continuava viva, com peças de mistério sendo performadas em teatros ao ar livre chamados de plenys an gwary ("local de atuação"). thumbnail|direita|Primeiros versos de Origo Mundi, primeira parte de OrdinaliaAlgumas das peças sobreviveram até hoje, entre elas está a trilogia Ordinalia, que consiste nas partes: Ordinale de Origine Mundi ou Origo Mundi (A Origem do Mundo), Passio Domini Nostri Jhesu Christi ou Passio Christi (A Paixão de Cristo) e Ordinale de Resurrexione Domini ou Resurrexio Domini (A Ressureição do Senhor). Outros exemplos de peças córnicas são Beunans Ke (A Vida de São Ké), Beunans Meriasek (A Vida de São Meriasek) e Gwreans an Bys (A Criação do Mundo).Essas peças refletem a influência da Igreja Católica na região, que permaneceu fiel à Igreja de Roma até o surgimento da Igreja Anglicana, que ajudou a implantar a política dos Tudors. Em 1549 havia ocorrido outra rebelião, dessa vez em resposta à introdução do livro inglês "Livro de Oração Comum" por Henrique VII em 1547, que obrigou a população a usá-lo independentemente do seu conhecimento em inglês, o que foi crucial pro início do declínio da língua.
Córnico Tardio (1575 - 1800)
Durante esse período, a Cornualha e a Inglaterra ainda eram tratados como países diferentes, apesar disso a língua córnica já havia chegado num ponto sem retorno. Dois séculos foram suficientes para que o córnico fosse de língua primária falada por aproximadamente metade da população para uma "língua de curiosidade" para linguistas. O córnico era tido como uma "língua atrasada" e era associado com católicos. A nobreza da Cornualha abandonou seu uso completamente e posteriormente a população comum fez o mesmo, o córnico se tornou uma língua das classes mais baixas e dos pescadores na parte mais a oeste da península. O inglês adquiriu o status de língua dominante na região, e poucos textos em córnico foram escritos durante esse período.miniaturadaimagem|180px|direita|Dorothy Pentreath (1692-1777)Apesar disso, alguns intelectuais da classe média, percebendo a situação terminal da sua língua materna, começaram a traduzir textos. Mesmo com os esforços de parte da população local, e até de outras pessoas não nativas, como o esstudioso galês Edward Lhyud, que chegou na cornualha em 1700 e tentou descrever a língua e o seu status naquela época, o córnico já estava condenado, e até o final do século XVIII a língua já havia sido reduzida a alguns remanescentes isolados. Um dos últimos falantes mais conhecidos é Dorothy Pentreath que morreu em 1777 e é conhecida como a última falante monoglota de córnico.
Córnico Revivido (1904 - atualmente)
A primeira tentativa de reviver a língua ocorreu em 1904 quando Henry Jenner lançou o livro A Handbook of the Cornish Language. Em contraste com trabalhos anteriores sobre a língua, o livro era direcionado "principalmente às pessoas de nacionalidade córnica que queriam aprender sobre a língua antiga da região, a ler, escrever e até mesmo falar". Um dos principais problemas dessa primeira tentativa é que não havia uma ortografia padronizada, o que dificultava a comunicação entre os poucos falantes de córnico dessa época. Por isso, em 1929, Morton Nance publicou o livro Cornish for All, onde ele definiu uma norma padrão para língua referida como Kernewek Unys ("Córnico Unificado"), Nance baseou sua ortografia no córnico médio, principalmente em Ordinalia. Apesar da intenção de Nance de ser uma solução para o problema da ortografia, ele não conseguiu agradar a todos e durante muitas décadas houve uma falta de concordância entre os falantes.Somente em 1991, Richard Gendall produziu uma nova ortografia para o córnico, Nowedga ou "Córnico Tardio". Quase ao mesmo tempo, Ken George criou o Kernewek Kemmyn ("Córnico Comum"), baseado na pronunciação que o córnico médio supostamente teria. Essa versão acabou se tornando a mais popular, e foi adotada pelo Kesva an Taves Kernewek ou Conselho da Língua Córnica. Ainda assim, alguns falantes assim como algumas organizações, ainda mantinham o uso do Córnico Unificado e Córnico Tardio. Foi quando em 2008, após várias reuniões com representantes das diversas ortografias existentes, que o córnico finalmente possuiu uma ortagrafia oficial, universalmente aceita, a Forma Escrita Padrão ().Hoje em dia a presença da língua ainda é bem forte, apesar de não ser tão falada, muitas toponímias da região possuem nomes em córnico e a língua é utilizada em muitos eventos culturais.
Fonologia
Vogais
No geral, existe uma grande diferença entre os fonemas vocálicos do Córnico Médio Revivido e do Córnico Tardio Revivido, além disso vale destacar a presença de vogais curtas e longas em ambos os dialetos.
+Fonemas vocálicos do RMCAnteriorPosteriorFechada Semifechada Semiaberta Aberta
+Fonemas vocálicos do RLCAnteriorPosteriorFechada SemifechadaSemiaberta Aberta Quando //, //, //, // e // forem átonos, eles podem ser pronunciados como // no Córnico Tardio Revivido.
Ditongos
Assim como nas vogais, os ditongos de ambos os dialetos variam bastante, abaixo temos duas tabelas indicando os ditongos de cada variante.
+ Ditongos do RMC Ponto inicial Ponto final Anterior Posterior Fechada Média Aberta
+ Ditongos do RLC Ponto inicial Ponto final Anterior Posterior Fechada Média Aberta O ditongo [] é alofone de [] em pronunciações mais conservadoras de palavras monossilábicas como oy ("ovo") e moy ("mais") tanto no Córnico Médio Revivido quanto no Córnico Tardio Revivido.
Consoantes
Em contraste com as vogais e ditongos, as consoantes do Córnico Médio Revivido e Córnico Tardio Revivido são basicamente as mesmas, a principal diferença está na presença de consoantes geminadas exclusivamente no Córnico Médio Revivido e de aspiração e consoantes pré-oclusivas no Córnico Tardio Revivido.
+Consoantes do RMCBilabialLabiodentalDentalAlveolarPós-AlveolarPalatalLabiovelarVelarGlotalPlosiva Africada NasalVibranteFricativa AproximanteLateral
+Consoantes do RLCBilabialLabiodentalDentalAlveolarPós-AlveolarPalatalLabiovelarVelarGlotalPlosiva Africada Nasal VibranteTepe/Flepe Fricativa Aproximante Lateral
Mutações
Assim como em todas as línguas célticas modernas, no córnico algumas consoantes sofrem mutação a depender da palavra que as precede. A forma básica, isto é, a palavra sem nenhuma alteração, é chamada de 1º estado. Existem cinco tipos de mutação possíveis, numeradas 2º, 3º, 4º, 5º e 6º estado.
1º estado: forma básica da palavra. 2º estado: lenição 3º estado: aspiração 4º estado: fortição 5º estado: mutação mixa I 6º estado: mutação mixa II. Ocorre após o pronome pessoal "′th"
+Tabela de MutaçõesRadical 1º estadoLenição 2º estadoAspiração 3º estadoFortição 4º estadoMixa I 5º estadoMixa II 6º estadoBVPFVChJDDhTTTG + a G + e G + i G + y⌀KHHG + l G + r⌀KGwWKwHwWG + o G + u G + ro G + ruWKHwWKGHMVFVPBFTDTh Ortografia
A Forma Escrita Padrão () foi criada em 2008 com objetivo de ser uma base comum para todas as diferentes variantes de córnico faladas atualmente, ela não tem o intuito de substituir as ortografias já existentes, mas sim de oferecer aos órgãos públicos e ao sistema de ensino uma ortografia universalmente aceita, inclusiva e neutra.Ela incorpora elementos de inúmeras ortografias de córnico, incluindo: Unified Cornish, Kernewek Kemmyn, Modern Cornish, Unified Cornish Revised, Kernowek Standard e Kernewek Dasunys.
Alfabeto
A Forma Escrita Padrão utiliza como sistema de escrita o alfabeto latino básico sem as letras "q" e "x", alguns grafemas representam fonemas diferentes para falantes de Córnico Médio Revivido e Córnico Tardio Revivido.
+GrafemaFonemaAproximação com o portuguêsAa//RMC //RLCcasa "é" mas mais abertoBb//bonitoCc//centroDd//dadoEe//, //RMC //RLCpé mesaFf// //RLCfase vezGg//gatoHh//HondaIi//RMC, // //RLCvida cineJj//job (em inglês)Kk//comerLl//lataMm//medoNn//nadaOo// // //RLCmoda "ó" com os lábios não arredondados poçoPp//patoRr//RMC //RLC //RLCperro (em espanhol) marketing caroSs// //seu casaTt//tatoUu // //RMC //RLC //RLCcine über (em alemão) vida semelhante ao "io" em fioVv//vezWw//qualYy//iodoZz//casa Legenda: RMC: fonema exclusivo do Córnico Médio Revivido. RLC: fonema exclusivo do Córnico Tardio Revivido.
Dígrafos