Públio Cornélio Tácito ou Caio Cornélio Tácito (; – 117) foi um senador e historiador romano nomeado cônsul sufecto para o nundínio de novembro a dezembro de 97 com Marco Ostório Escápula. As porções sobreviventes de suas duas maiores obras — "Anais" e "Histórias" — tratam dos reinados dos imperadores Tibério, Cláudio, Nero e os imperadores do ano dos quatro imperadores (69), um período de tempo que se estende da morte de Augusto, em 14, até a Primeira guerra romano-judaica em 70. Há muitas lacunas nos textos, incluindo uma em "Anais" que corresponde a quatro livros inteiros.

As outras obras de Tácito discutem oratória (no formato de diálogo, Diálogo dos Oradores), a Germânia (Germânia) e a vida de seu sogro, Cneu Júlio Agrícola, o famoso general romano responsável por boa parte da conquista romana da Britânia (Agrícola).

Tácito é considerado um dos grandes historiadores romanos,Van Voorst (2000), p. 39-42Ferguson (2003), p. 116 um dos grandes representantes da Idade da Prata da literatura latina, e é conhecido tanto por sua concisão e pela forma compacta de sua prosa em latim quanto pela sua capacidade analítica dos jogos de poder na política romana de sua época.

Os "Anais" são um dos primeiros registros históricos seculares a mencionarem Jesus Cristo, que Tácito menciona em relação às perseguições aos cristãos de Nero — veja Tácito e os cristãos.

História Detalhes sobre sua vida pessoal são escassos. O pouco que se sabe é inferido a partir de pistas espalhadas por toda a sua obra, das cartas de seu amigo e admirador Plínio, o Jovem, e de uma inscrição encontrada em Milasa, na Cária.OGIS 487, Bulletin de correspondance hellénique, 1890, pp. 621–623

Tácito nasceu entre 56 ou 57 em uma família equestre em alguma das províncias do norte da Itália ou na Gália Narbonense. O local exato e a data do nascimento são desconhecidos e até mesmo o seu prenome (primeiro nome) é incerto; nas cartas de Sidônio Apolinário, seu nome é "Caio" (Gaius), mas no maior manuscrito sobrevivente de sua obra o seu nome é "Públio" (Publius). Uma opinião acadêmica sugerindo "Sexto" (Sextus) não obteve aprovação de nenhum dos pares.

Família e primeiros anos A maior parte das antigas famílias aristocráticas romanas não sobreviveu às sucessivas proscrições ocorridas no final do período republicano e Tácito deixa claro que ele devia seu status aos imperadores flavianos.Tácito, Histórias I.1 A tese de que ele seria descendente de um liberto deriva de um discurso preservado em sua obra que afirma que muitos senadores e equestres eram descendentes de libertos,Tácito, Anais XIII.27 mas é geralmente disputada.Syme (1958), pp. 612–613Gordon (1936), pp. 145–146 thumb|direita|Estátua de Tácito no Parlamento de Viena, Áustria. Seu pai pode ter sido o Cornélio Tácito que serviu como procurador da Gália Bélgica e Germânia; Plínio, o Velho, menciona que este Cornélio teve um filho que "envelheceu rapidamente",Plínio, História Natural VII.76 o que geralmente significa que morreu jovem. Não há menção de Tácito ter sofrido uma doença similar a esta, mas é possível que seja uma referência a um irmão se Cornélio de fato for o seu pai.Syme (1958), p. 60, 613Gordon (1936), p. 149Martin (1981), p. 26 A amizade entre Plínio, o Jovem, e Tácito levou alguns estudiosos a sugerirem que eles eram ambos filhos de ricas famílias provinciais.Syme, 1958, p. 63

A província de seu nascimento permanece indeterminada, embora várias conjecturas sugiram Gália Bélgica, Gália Narbonense ou Gália Cisalpina.Grant (2006), p. 17Benario (1999), p. 1. Seu casamento com a filha de um senador narbonense, Cneu Júlio Agrícola, favorece a tese de que ele veio daquela província. A dedicação de "Dialogus" a Lúcio Fábio Justo, por outro lado, pode indicar uma relação com a Hispânia e, finalmente, sua amizade com Plínio sugere a Gália Cisalpina.Syme, 1958, pp. 614–616 Contudo, não há evidências de que os amigos de Plínio no norte da Itália conhecessem Tácito e nem as cartas de Plínio sugerem que tiveram um passado comum.Syme (1958), pp. 616–619 O próprio Plínio relataPlínio, o Jovem, Epístolas 23 que, quando foi perguntado se ele era italiano ou provincial, ele deu uma resposta ambígua e recebeu de volta a pergunta se ele falava de Tácito ou dele próprio. Como Plínio era italiano, alguns inferem, com base nisto, que ele era provavelmente oriundo da Gália Narbonense.Syme (1958), p. 619Gordon (1936), p. 145

Sua ancestralidade, sua habilidade oratória e seu tratamento simpático em relação aos bárbaros que resistiam ao jugo romanoComo em Tácito, Anais II.9 são características que levaram alguns a sugerirem que ele era de origem celta, os ocupantes da Gália antes da chegada dos romanos e famosos por sua oratória.Gordon (1936), pp. 150–151Syme, 1958, pp. 621–624

Vida pública, casamento e carreira literária Ainda jovem, Tácito estudou retóricaTácito, Diálogos II em Roma para se preparar para uma carreira em direito e na política. Como Plínio, é possível que também tenha estudado com Quintiliano.Syme, 1958, pp. 114–115 Em 77 ou 78, Tácito se casou com Júlia Agrícola, filha do famoso general Cneu Júlio Agrícola.Tácito, Agrícola, IX Pouco se sabe da vida doméstica do casal, exceto que Tácito adorava caçar e o campo.Plínio, o Jovem, Epístolas I.6, IX.10Benario (1975), pp. 15, 17Syme (1958), pp. 541–542 Sua carreira começou depois que ele foi admitido no Senado Romano (adlectio)Syme (1958), p. 63Martin, 1981, pp. 26–27 por VespasianoTácito, Histórias I.1 e seu primeiro cargo foi o de questor em 81 ou 82, no reinado de Tito. Como esperado, Tácito avançou gradualmente pelo cursus honorum, tornando-se pretor em 88; na mesma época, foi admitido entre os quindecênviro dos fatos sagrados, um dos mais prestigiosos colégios sacerdotais de Roma. Além disto, Tácito também foi ganhando fama como advogado e orador.

Depois do pretorado, Tácito serviu nas províncias entre 89 e 93, seja como tribuno de uma legião ou num posto civil.Syme (1958), p. 68Benario (1975), p. 13Dudley (1968), pp. 15–16Martin (1981), p. 28Mellor (1993), p. 8 Tácito conseguiu sobreviver às perseguições durante o reinado de Domiciano (r. 81-96) com sua fortuna intacta, mas a experiência o deixou exausto e possivelmente um pouco envergonhado de sua própria cumplicidade, traços evidentes no ódio à tirania atestado em suas obras.Dudley (1968), p. 14Mellor (1993), pp. 8–9 Uma citação de "Agrícola" é ilustrativa:

No começo do reinado de Nerva (97), Tácito foi nomeado cônsul sufecto, o primeiro de sua família a chegar ao posto. Durante seu mandato, atingiu o ápice de sua fama como orador quando discursou no funeral do famoso general Lúcio Vergínio Rufo.Plínio, o Jovem, Epístolas II.1

No ano seguinte, Tácito escreveu e publicou "Agrícola" e "Germânia", os primeiros passos de uma carreira literária que ocuparia seus anos finais, e anuncia sua retirada da vida pública, que, contudo, seria retomada durante o reinado de Trajano (r. 98-117). Em 100, ele e Plínio processaram Mário Prisco, ex-procônsul da África, por corrupção. Ele foi considerado culpado e exilado. Plínio escreveu poucos dias depois que Tácito havia falado "com toda majestade que caracteriza seu estilo usual de oratória".Plínio, o Jovem, Epístolas II.11

Uma longa ausência da política e do direito se seguiu enquanto ele escrevia "Histórias" e "Anais". Em 112 ou 113, Tácito foi nomeado para um dos dois mais altos cargos disponíveis para a carreira senatorial, o de procônsul da Ásia (o outro é o de procônsul da África), como atesta uma inscrição encontrada em Milasa, na Cária. Uma passagem em "Anais" fixa 116 como terminus post quem para sua própria morte, que pode ter sido em datas tão distantes quanto 125 ou até mesmo 130. Ele sobreviveu a Plínio (m. 113) e, possivelmente, Trajano (m. 117).Benario (1999), p. 2

Permanece incerto se Tácito teve filhos. A "História Augusta"História Augusta Tacitus X menciona que o imperador Marco Cláudio Tácito (r. 275-276) alegava ser um descendente de Tácito e ordenou que suas obras fossem preservadas, mas esta história pode ser mais uma invenção do autor desta obra. Sidônio ApolinárioSidônio Apolinário, Epístolas IV.14 relata que Polêmio, um aristocrata galo-romano, é descendente de Tácito, mas o historiador Ronald Syme afirma que esta alegação é pouco crível.

Obras Cinco obras atribuídas a Tácito sobreviveram (com lacunas). As datas são aproximadas: 98 – "Agrícola" () 98 – "Germânia" () 102 – "Diálogo dos Oradores" () 105 – "Histórias" () 117 – "Anais" ()

Anais e Histórias

Os "Anais" e as "Histórias", publicados separadamente, tinham como objetivo formar uma única edição com trinta livros. Apesar de "Histórias" ter sido escrita antes de "Anais", os eventos desta precedem os daquela; juntas elas formam uma narrativa que vai da morte de Augusto (14) até a morte de Domiciano (96). Apesar de a maior parte ter se perdido, o que restou é um registro inestimável da história do século I em Roma. A primeira metade dos "Anais" sobreviveu num único manuscrito da Abadia de Corvey e a segunda, num único manuscrito da Abadia de Monte Cassino, o que torna incrível que a obra tenha sobrevivido. thumb|direita|Incipit da Germânia no Codex Aesinas. thumb|direita|Capa de uma edição das obras completas de Tácito em 1598 thumb|direita|Final do livro 11 e começo do livro 12 de "Anais" (séc. XI). No primeiro capítulo de "Agrícola", Tácito afirma que queria escrever sobre os anos de Domiciano, Nerva e Trajano. Nas "Histórias", o escopo mudou; Tácito afirma que irá tratar dos reinados destes dois últimos em uma obra posterior e tratou de cobrir o período que vai da guerra civil conhecida como Ano dos quatro imperadores até o final despótico da dinastia flaviana. Apenas os primeiros quatro livros e 26 capítulos de um quinto sobreviveram, cobrindo o ano de 69 e a primeira parte de 70. Acredita-se que obra teria continuado até a morte de Domiciano em 18 de setembro de 96. O quinto livro contém — como prelúdio ao relato da supressão da Grande Revolta Judaica por Tito — uma curta análise etnográfica dos judeus antigos e é um registro inestimável da atitude romana em relação a eles.

Tácito escreveu pelo menos dezesseis livros dos "Anais", mas os livros 7 a 10 e partes dos livros 5, 6, 11 e 16 se perderam. O livro 6 termina com a morte de Tibério e os livros 7 a 12 presumivelmente cobriram os reinados de Calígula e Cláudio. Os livros restantes tratam do reinado de Nero, talvez até sua morte em junho de 68 ou até o final daquele ano como ligação com o começo de "Histórias", mas não sabemos por que segunda metade do livro 16 se perdeu, terminando com os eventos de 66. Também não se sabe se Tácito chegou a completar a obra. Ele certamente morreu antes de conseguir completar seu plano de escrever sobre os reinados de Nerva e Trajano e não há registros de uma obra sobre o reinado de Augusto ou do começo do Império Romano, que ele planejava escrever depois. Os "Anais" são um dos primeiros registros históricos seculares a mencionarem Jesus Cristo, que Tácito menciona em relação às perseguições aos cristãos de Nero — veja Tácito e os cristãos.

Germânia

"Germânia" () é uma obra etnográfica sobre as tribos germânicas que viviam fora do Império Romano e se encaixa numa tradição etnográfica clássica que inclui autores como Heródoto e Júlio César. O livro começa (capítulos 18 a 27) com uma descrição das terras, leis e costumes das várias tribos. Os capítulos finais focam na descrição das próprias tribos, começando com as que viviam mais perto do Império e terminando com uma descrição das que viviam na costa do mar Báltico, como os fenni. Em "Agrícola", Tácito escreveu um texto similar, mas mais curto (capítulos 10 a 13).

Agrícola