Olímpio Mourão Filho (Diamantina, – Rio de Janeiro, ) foi um militar brasileiro conhecido como o autor do Plano Cohen, documento utilizado para justificar o golpe do Estado Novo em 1937, e, à frente da 4.ª Região Militar/Divisão de Infantaria (4ª RM/DI), como precipitador do golpe de Estado de 1964. Atingiu a patente de general-de-exército e terminou a carreira presidindo o Superior Tribunal Militar (STM) em 1967–1969.
Como chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, redigiu sob ordem de Plínio Salgado o roteiro de uma fantasiosa tomada de poder por comunistas. Nas mãos do governo, o texto foi divulgado e falsamente atribuído à Internacional Comunista como plano real de insurreição, com a finalidade de justificar a adoção de poderes ditatoriais por Getúlio Vargas. As acusações de ter servido à implantação do Estado Novo prejudicaram sua carreira e criaram desconfiança duradoura entre os outros oficiais, mesmo tendo sido absolvido num Conselho de Justificação do Exército em 1955.
Serviu na logística da Força Expedicionária Brasileira e trabalhou nas telecomunicações no governo Juscelino Kubitschek. Após defender a posse de João Goulart na Presidência em 1961, nos anos seguintes considerou-o ameaça ao sistema político e conspirou pela sua derrubada enquanto servia em Santa Maria, Rio Grande do Sul, São Paulo e Juiz de Fora, Minas Gerais. Reivindicava ter constituído a “maior conspiração das Américas”, mas suas articulações eram apenas uma parte da atividade conspiratória e outros conspiradores buscavam controlá-lo. Em Minas Gerais, teve como aliados seu subordinado, o general Carlos Luís Guedes, e o governador Magalhães Pinto. Concretizou a deposição de Goulart ao, antes da data prevista pelos outros conspiradores, deslocar sua 4.ª RM/DI de Minas Gerais na Operação Popeye, dando início ao golpe.
Seu papel na continuação e vitória do golpe foi menor. Na ditadura militar resultante, foi escanteado das posições de poder pelos demais golpistas e relegado à posição de ministro do STM. Durante a ditadura criticou os governos de Castelo Branco e Costa e Silva, tendo posição política errática, a princípio de linha-dura e depois crítica ao autoritarismo. Em 1979, anos após sua morte, a publicação de suas memórias pelo jornalista Hélio Silva criou grande polêmica, pois atacavam duramente os demais militares.
Vida pessoal Filho de Olímpio Júlio de Oliveira Mourão, deputado e senador estadual, e Mariana Correia Rebelo Mourão, professora catedrática da Escola Normal de Diamantina, cursou o Colégio Diocesano da cidade até ser expulso. Abandonou o estudo da engenharia em Belo Horizonte para se matricular na Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro, em abril de 1918., MOURÃO FILHO, Olímpio. Seu pai, político situacionista importante em Diamantina, ajudou no início da carreira política de Juscelino Kubitschek na cidade.
Teve duas filhas com Almira Linhares Mourão, falecida em 6 de julho de 1955. Depois se casou com Maria Tavares Bastos. Sua filha Laurita Mourão (nascida em 1926)Livronautas – Laurita Mourão. Consultado em 31 de dezembro de 2020. trabalhou no Ministério das Relações Exteriores e publicou vários livros, entre eles Mourão, o General do Pijama Vermelho (2002) sobre o pai. Chama-o de incompreendido em 1937 (“serviu de bode expiatório e foi enganado”) e 1964 (“nunca foi a favor do fechamento do Congresso”).Pinheiro, Daniela (Fevereiro de 2009). A amiga do hipotálamo. Piauí n. 29. Consultado em 31 de dezembro de 2020.
Seu hábito de fumar o cachimbo refletiu no nome da Operação Popeye.
Carreira político-militar Anos 20 e 30 Ingressou no Exército Brasileiro em 30 de abril de 1918, na Escola Militar do Realengo, onde foi declarado aspirante a oficial em 18 de janeiro de 1921. Sua turma era conhecida como "turma da alfafa", a mesma de Castelo Branco, Costa e Silva, Amaury Kruel, Octacílio Terra Ururahy e Macedo Soares. Em 1963 chamou-a de "cursinho para débeis mentais" – todos, inclusive os reprovados, passaram ao segundo período para preencher as vagas tornadas ociosas pela gripe espanhola, e as matérias difíceis foram retiradas pelo Congresso – e notou que produziu um número de Ministros da Guerra, interventores e outros ilustres. Ao terceiro ano foi o oitavo classificado de 98 cadetes de infantaria.
Foi servir no 14º Batalhão de Caçadores, em Florianópolis, onde foi promovido a segundo tenente em 11 de maio de 1921 e a primeiro tenente em 31 de outubro de 1922. Nesse período, combateu os rebeldes que se apossaram de São Paulo na Revolução de 1924.
O Exército esforçava-se para qualificar a oficialidade, e assim, a formação militar adicional era necessária para sua progressão de carreira. No Rio de Janeiro Mourão cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, em 1926, e a Escola de Estado-Maior, de 1928 e 1930, ficando em oitavo lugar de sua turma. Em seguida estagiou no Estado-Maior da 1ª Região Militar. Enquanto cursava a EEM no Rio tomou o partido da Aliança Liberal e dos revolucionários de 1930, participando da conspiração que lançou o golpe de 24 de outubro na capital. A junta militar resultante enviou Mourão a Minas Gerais para avisar seu Presidente Olegário Maciel da transferência do poder a Getúlio Vargas.
Foi promovido a capitão em 15 de agosto de 1931 e a major em 25 de dezembro de 1937. Até 1936 seu desempenho foi elogiado por seus superiores e mesmo pelo próprio Ministro da Guerra. Provavelmente nesse período assumiu seu lado político, adormecido em 1924; em 1932 esteve novamente do lado de Vargas, combatendo a Revolução Constitucionalista desde 19 de julho no Vale do Paraíba. Como recompensa foi até 1936 comissário de ligação entre os Ministérios da Guerra e da Viação na Estrada de Ferro Central do Brasil. Era um cargo de caráter mais civil e ampliou seus contatos na sociedade.
Integralismo direita|miniaturadaimagem|A milícia: Mourão chefiava o Estado-Maior Militância Motivado menos pela doutrina e mais pelo sentimento contra o comunismo, que via infiltrado no Exército desde Santa Catarina, em 1932 entrou na Ação Integralista Brasileira. No ano seguinte fez propaganda do movimento em Minas Gerais junto a Plínio Salgado, Olbiano de Melo e Gustavo Barroso. Este último tornou-se em 1934 chefe do departamento nacional da milícia, na qual Mourão foi chefe de Estado-Maior, organizando-a em moldes militares com seu conhecimento da EEM. Em Santa Catarina (retornou ao 14º BC como subcomandante, de 1936 a abril de 1937) teve contato com muitos integralistas – 39 dos 43 municípios tinham um núcleo. Em 1937 entrou na Câmara dos Quatrocentos, órgão consultivo da chefia nacional da AIB.
Na sua "Instrução da Milícia" explicou os conceitos de Nação, Estado, Forma de Governo e Regime; dedicou-se a explanar e distinguir, em princípios fundamentais, bases filosóficas, bases políticas e bases econômicas, a liberal-democracia (liberalismo), o marxismo e o integralismo. Por fim, disserta sobre a função das Forças Armadas em um Estado Integralista, afirmando que seriam os dois lados do triângulo sobre o qual repousaria o Estado e a Nação: Exército, Marinha, e Milícia Nacional. "O triângulo é a base da pirâmide, que é o Estado e cujo vértice é Deus". Em "Do liberalismo ao Integralismo" declarou que a liberal-democracia, "sistema absolutamente falido", deveria dar lugar à Democracia Integral, e a ordem econômica deveria ser sujeita à moral e promotora da justiça social, traços ausentes na economia liberal.A Revolução de 31 de Março e o General Olympio Mourão Filho. Frente Integralista Brasileira. Consultado em 1 de janeiro de 2021. Seu pensamento à época transparece também em “Rumos do Estado moderno”’, publicado em A Defesa Nacional: sufrágio econômico ou profissional (uma ditadura seria inviável) e intervenção estatal na economia e, para repelir o comunismo, na educação.
Quando a AIB foi sucedida pelo Partido de Representação Popular no pós-guerra, já havia deixado o integralismo. Para não deixar dúvida de sua distância do PRP, filiou-se ao Partido Orientador Trabalhista, “partideco” que existia apenas na imaginação“”, elegeu um vereador no Distrito Federal e teve a legenda cassada. Refere-se nas suas memórias ao integralismo como “coisa muito superada”. Logo após o golpe ainda teve contato com Plínio Salgado, que agiu em seu favor no Congresso.
Plano Cohen
Chefe do serviço secreto da AIB e chamado de Santa Catarina ao Estado-Maior do Exército no Rio, em agosto de 1937 Plínio Salgado solicitou-o que escrevesse o "Boletim de Informações nº4" sobre táticas de guerrilha e revolucionárias comunistas, de forma a concentrar as atenções dos integralistas no anticomunismo e não na disputa presidencial de 1938. O texto resultante começava com um preâmbulo esclarecendo tratar-se de material para debate e não um plano real do Komintern. Em seguida, baseado num artigo sobre a tomada de poder pelos comunistas na Hungria em 1919, descrevia como seria feita uma revolução comunista no Brasil e a reação integralista.
Plínio Salgado reprovou o texto, com seus "massacres, incêndios, sequestros, confisco de propriedades privadas, ataques ao clero, apelo à sexualidade", como exagerado e irreal. Mourão era subordinado de Gustavo Barroso na milícia e Salgado possivelmente associou o conteúdo ao antissemitismo de Barroso, ponto de contenção entre os dois. Desapontado, Mourão levou o plano ao general Álvaro Guilherme Mariante, ministro do Supremo Tribunal Militar, que sugeriu que o mostrasse a Góis Monteiro, chefe do EME, mas Mourão não queria mostrá-lo a quem não fosse integralista. Mas Mariante ficou com o documento por vários dias até devolvê-lo., PLANO COHEN.
Enquanto em setembro Vargas armava seu golpe, o plano entrou em circulação nos círculos do poder e pouco depois os jornais anunciaram a descoberta, confirmada pelas autoridades (especialmente o EME), do plano de um iminente golpe comunista. O preâmbulo explicativo não foi exposto ao público. Em 1º de outubro Vargas solicitou o estado de guerra. O falso plano comunista criou aceitação a seu golpe, efetuado em 10 de novembro e seguido da institucionalização da ditadura.
O golpe já era preparado desde muito antes e não necessariamente precisaria do Plano Cohen para ocorrer. Como outros golpistas, Eurico Gaspar Dutra posteriormente não deu valor ao documento como fator histórico. Mas os integralistas não desmentiram o plano, criando a impressão de que ajudaram a implantar o Estado Novo, e de fato Plínio Salgado havia dado seu apoio em setembro. Suspeitou que o plano divulgado fosse aquele que solicitara, mas não quis desmoralizar o Exército pois era necessário contra o comunismo. Já Mourão confrontou Góis, que o mandou ficar calado. Como visto adiante, a questão do Plano Cohen teve sérias implicações na sua carreira nos vinte anos seguintes. Após o golpe do Estado Novo, saiu da cena política. Vargas proibiu a AIB em dezembro de 1937, e o Levante Integralista em reação foi sufocado. Mourão não participou da revolta.
Anos 40 e 50 Promovido a tenente-coronel em 15 de abril de 1943, comandou o 15º Batalhão de Caçadores, em Curitiba, entre 1943 e 1944. Em seguida, foi Chefe de Gabinete da Diretoria de Recrutamento, no Rio de Janeiro. Sua promoção a tenente-coronel foi por antiguidade, pois a mácula do Plano Cohen retardou sua progressão de carreira; pesava também sua personalidade dura. Dizia-se inocente de ter trabalhado em prol de Vargas, mas era malvisto na oficialidade.
Em 1941, fez curso no Centro de Instrução motomecanizada, no Rio de Janeiro. Em artigos publicados em A Defesa Nacional nos anos 40, participou do debate sobre a mecanização do Exército. Notou a importância das forças mecanizadas na Segunda Guerra Mundial. Argumentou que no Brasil elas deveriam distinguir-se da arma de cavalaria, com a qual pouco tinham em comum, em contraposição à linha de raciocínio que prevaleceu: as forças mecanizadas como sucessoras das hipomóveis.