Fritigerno ou Fridigerno () foi um líder tervíngio do , ativo na fronteira romana do Danúbio e províncias dos Bálcãs no reinado dos imperadores Valente e . Rival do juiz tervíngio Atanarico, não aceitou a perseguição aos cristãos realizada por ele e confrontou-o numa guerra civil. A cronologia dessa guerra civil é desconhecida, mas sabe-se que Fritigerno foi auxiliado pelo imperador Valente e o exército coligado foi capaz de derrotar Atanarico.

Em 376, devido a pressão militar imposta pela chegada dos hunos à porção sul do mar Negro, bem como a migração dos grutungos, Fritigerno iniciou negociações para assentar os tervíngios em solo imperial. Valente concedeu permissão para que os tervíngios sob seu comando e sob comando de Alavivo fossem assentados na Mésia Secunda, porém devido aos maus-tratos dos oficiais Lupicino e Máximo, uma guerra eclodiu entre romanos e godos, culminando na morte de Valente na Batalha de Adrianópolis em 378.

Vida Origens e migração

thumb|upright=1.05|Retrato de Atanarico segundo o livro de 1782 Retratos dos Reis de Espanha desde Atanarico até nosso monarca católico Dom Carlos III

As origens e infância de Fritigerno são desconhecidas. Aparece pela primeira vez no final da década de 360, no contexto das lutas entre o juiz tervíngio Atanarico e a porção oriental do Império Romano sob o imperador Valente . Nessa época Fritigerno emergiu como seu rival e advogado da política pró-romana e pró-cristã, uma vez que, segundo o historiador Sozômeno, era cristão e, portanto, opôs-se à perseguição deflagrada contra os cristãos sob Atanarico. O historiador Luis A. Garcia Moreno sugeriu, com base na onomástica de seu nome, que provavelmente Fritigerno pertencia a um ramo cadete da dinastia dos Baltos, quiçá podendo explicar seu conflito com Atanarico.

Fritigerno possuía estatuto de rei () ou duque () e como tal era um comandante militar com estatuto para realizar conversações diplomáticas com outros nobres góticos e com o imperador. Sua base de poder era centrada nessa época no kuni situado a oeste do rio Prute. É impossível precisar a data dos eventos da guerra civil resultante com as fontes sobreviventes, mas Ian Hughs estima que Fritigerno foi derrotado em batalha em 372, impelindo-o a solicitar ajuda militar de Valente. O imperador atendeu ao pedido e em retribuição o godo converteu-se com seus seguidores, pagãos e cristãos, ao arianismo. Os aliados venceram e aparentemente a guerra foi concluída antes dos hunos chegarem em 375/376.

Em meados dos anos 370, as invasões hunas desencadearam novos distúrbios entre os tervíngios, com os invasores pressionando-os militarmente e obrigando os grutungos, outro ramo dos godos, a dirigirem-se à fronteira tervíngia. Apesar de sua derrota na guerra civil, Atanarico ainda era comandante da maior parte dos tervíngios e reuniu um exército para confrontar os invasores. Utilizando-se disso, Fritigerno se recusou a enviar reforços para a expedição. Isso levaria à derrota das forças de Atanarico, que foram forçadas a se retirar à Caucalândia, ao passo que gerou uma crise decorrente da devastação huna. A desolação seria também agravada pela devastação consequente dos conflitos anteriores.

thumb|upright=1.05|esquerda|Panorama político do Danúbio Inferior no . As incursões hunas resultaram na migração dos tervíngios em direção à fronteira romana no Danúbio e sua posterior inserção em solo romano

No verão de 376, Fritigerno persuadiu muitos dos seguidores de Atanarico a abandoná-lo e então propôs aos tervíngios que solicitassem ajuda aos romanos. Alavivo, outro nobre tervíngio, é mencionado nas fontes como líder da negociação, possivelmente por possuir um estatuto aristocrático maior. Ele conseguiu a permissão de Valente para assentarem-se no império, segundo Amiano Marcelino, como deditícios ("suplicantes" ou "rendidos"), porém não antes de assegurar que seu povo seria inteiramente convertido ao arianismo antes de cruzar o Danúbio.

Segundo a resposta de Valente, que à época estava estacionado em Antioquia, os godos seriam assentados na Mésia Secunda e Dácia Ripense e receberiam assistência romana durante a migração através do rio e antes de tornarem-se autossuficientes e serem capazes de prover seu próprio sustento. Por estar em guerra com o Império Sassânida, Valente esperava poder recrutar boa parte dos tervíngios como soldados para fortificar as cidades orientais, bem como esperava que os demais seriam assentados como fazendeiros e então pagariam impostos. O plano, contudo, acabou frustrado.

Os imigrantes atravessaram próximo de Durostoro (atual Silistra, na Bulgária) e seu número excedeu a quantidade prevista, tornando insuficiente os suprimentos recolhidos (DeVries sugere suprimentos para 50 mil pessoas), situação agravada pela demora de quase dois meses para a chegada da resposta imperial do Oriente. Outrossim, tirando proveito da consequente fome sentida pelos recém-chegados, os oficiais romanos Lupicino e Máximo conseguiram muito dinheiro com a venda de miúdas porções de alimentos e carcaças de cachorros pelo preço da escravização de crianças tervíngias, inclusive aquelas de origem nobre.

Revolta

thumb|esquerda|upright=1.05|Soldo do imperador Valente thumb|upright=1.05|esquerda|Soldo de Graciano

Como forma de controlar os contingentes tervíngios inquietos, Lupicino ordenou que as tropas da Trácia escoltassem os imigrantes para um acampamento nas cercanias de Marcianópolis. Utilizando-se disso, os taifalos da Valáquia uniram-se aos grutungos de Farnóbio para tentarem forçar passagem pelo Danúbio, mas acabariam derrotados pelo general Frigérido. Outro grupo grutungo liderado por Alateu e Safrax, os regentes do rei infante Viderico, também aproveitou-se da conjuntura e entrou em contato com Fritigerno, que segundo Marcelino alegadamente atrasou a marcha para permitir o encontro; Ian Hughs desconsiderou essa afirmação, alegando que o atraso deveu-se à enorme quantidade de famílias, o que incluiria crianças e idosos. Em Marcianópolis, provavelmente no outono de 376 ou inverno de 376/377, Lupicino convocou os reis (; como Marcelino estiliza-os) Fritigerno e Alavivo para um banquete reconciliatório. Durante a reunião, um grupo de godos famintos atacou as proximidades do assentamento e o oficial romano, interpretando como golpe, mandou que seus homens matarem os guardas dos líderes tervíngios. Para Jordanes, Alavivo foi morto em meio à confusão enquanto Fritigerno escapava; para Marcelino, Fritigerno convenceu Lupicino a deixá-lo ir sob pretexto de poder acalmar seu povo.

Fritigerno formou exército com o qual começou a saquear vilas e fazendas próximas à cidade e incendiou tudo em seu caminho. No começo de 377, Lupicino reuniu todas as tropas disponíveis para suprimir a revolta, mas foi severamente derrotado pelos rebeldes a 14 quilômetros do acampamento em Marcianópolis, quase custando sua vida e destruindo o exército provincial trácio inteiro. Isso abriu caminho para a depredação das províncias balcânicas sem oposição pelos meses consecutivos e motivou os mineiros trácios, os romanos subalternos sobretaxados e os escravos de origem goda a unirem-se à revolta, bem como um destacamento romano de origem tervíngia liderado por Colias e Suérido que realizou um cerco malsucedido contra Adrianópolis. Apesar disso, Ian Hughs afirmou que o pequeno número de tervíngios registrados como batalhando ao lado dos rebeldes nas batalhas posteriores é fruto duma cisão, provavelmente decorrente pelo receio de que seu líder por parte dos godos, que no passado foi pró-romano e, na mentalidade de alguns líderes tribais, poderia estar envolvido no assassinato de Alavivo em Marcianópolis.

thumb|upright=1.05|Diocese da Trácia ca. 400, o palco do conflito com os tervíngios de Fritigerno

Os rebeldes novamente enfrentariam os romanos na Batalha nos Salgueiros, quando derrotaram um exército conjunto do Oriente e Ocidente. Apesar desta nova vitória, Fritigerno viu-se numa situação delicada, pois os romanos com sucesso cortaram as rotas de suprimentos dos tervíngios pelos passos montanhosos no triângulo entre o Danúbio, os Bálcãs e o mar Negro. Neste cenário crítico, conseguiu convencer os grutungos de Alateu e Safrax a unirem-se à causa tervíngia e firmou uma aliança com contingentes hunos e alanos sob promessa de butim. Ademais, no inverno de 377/378, fortificou a Porta de Trajano, próximo de Sérdica (atual Sófia) e Filipópolis (atual Plovdiv), para deter as investidas imperiais.

Nos meses subsequentes, ambos os lados continuaram realizando ações militares na Trácia e províncias vizinhas. Em junho de 378, um destacamento gótico foi obrigado a retroceder perante a pressão romana, um fato acelerado pela reconvocação das tropas por Fritigerno, que estava estabelecendo nova base em Cábila. Ao longo de 378, Valente e o imperador ocidental Graciano reuniram um exército de infantaria e cavalaria de 30 a 40 mil soldados para lidar com a ameaça. Valente, contudo, não quis esperar Graciano para que ambos liderassem suas forças e se recusou a atender os esforços de paz de Fritigerno.

Batalha de Adrianópolis e rescaldo

thumb|upright=1|esquerda|Soldo de thumb|upright=1|esquerda|Diocese da Macedônia ca. 400

Em 9 de agosto, Valente encontrou-se com os godos em Adrianópolis. Fritigerno enviou-lhe um presbítero como emissário na tentativa de firmar a paz. Segundo Amiano Marcelino, neste infrutífero encontro foram entregues ao imperador duas cartas, a primeira repetindo os termos do acordo de 376 entre o governo imperial e os imigrantes góticos, e a segunda sugerindo uma estratégia contra os grupos antirromanos ao propor seu reconhecimento por Valente como "rei sócio e amigo" (). Peter Heather sugeriu que Fritigerno pretendia conseguir compromisso imperial no qual tornar-se-ia líder único de todos os imigrantes godos (grutungos e tervíngios), marginalizando Alateu e Safrax e seus rivais tervíngios no processo.

Com o fim das negociações deu-se início uma batalha desastrosa para os romanos, que custou a vida do imperador e vários oficiais e generais, bem como destruiu do exército reunido. Apesar de sua esmagadora vitória, Fritigerno foi incapaz de aproveitar-se da situação e gradualmente perdeu relevância no cenário geral. No rescaldo da batalha, o líder gótico enfrentou divisões dentre os soldados em suas fileiras e não pôde deter os raides realizados pelos godos para obtenção de pilhagem. Aproveitando-se da vitória em Adrianópolis, os godos sitiaram a cidade e depois disso dirigiram-se para Constantinopla, que também foi atacada, mas foram repelidos em ambas.

Os romanos, agora sob comando conjunto de Graciano e , tomaram medidas para evitar a destruição gótica em curso como, por exemplo, a execução do efetivo gótico presente nas fileiras romanas da Ásia Menor e a admissão dos partidários de Atanarico. Em resposta a isso, os godos se voltaram para Fritigerno, que teve seus poderes aumentados e então coordenou novos ataques contra o Império Romano. Em 380, ele moveu-se para sul pelo segmento Morava-Vardar em direção a Salonica, onde travou nova batalha contra o exército imperial, e as províncias de e Tessália, onde conseguiu moderado tributo das cidades locais. Conseguiu derrotar um exército recrutado por Teodósio, obrigando-o a se dirigir para Sirmio, enquanto também teria feito incursões tão longe quanto o Epiro Novo e Acaia. Além disso, Fritigerno foi capaz de arquitetar uma conspiração que provocaria o exílio de Atanarico.