é um dos três tipos de peste, doença causada pela bactéria Yersinia pestis. Este tipo se caracteriza pela infecção da bactéria nos gânglios linfáticos, formando bubões, que podem encontrar-se inchados, dolorosos e, em alguns casos, abrirem-se. Entre 1 a 7 dias após a exposição à bactéria começam-se a manifestar sintomas semelhantes aos da gripe, incluindo febre, dores de cabeça, e vômitos.
A peste bubónica é transmitida principalmente por pulgas entre animais de pequeno porte. Pode também ser o resultado da exposição aos fluidos corporais de um animal infectado com a peste. Na forma bubónica da peste, as bactérias penetram na pele pela mordedura da pulga e deslocam-se pelos vasos linfáticos até um gânglio linfático, fazendo com que inflame. O diagnóstico é confirmado com a detecção da bactéria no sangue, no escarro ou no líquido dos gânglios linfáticos.
A prevenção consiste em medidas de saúde pública, como não manusear carcaças de animais em regiões onde a peste é comum. As vacinas não têm demonstrado utilidade na prevenção da doença. Estão disponíveis vários antibióticos eficazes para o tratamento de peste bubónica, como a estreptomicina, gentamicina e doxiciclina. Sem tratamento, a doença causa a morte de 30% a 90% das pessoas infectadas. Nos casos em que ocorre, a morte geralmente dá-se no prazo de dez dias. Com tratamento adequado o risco de morte é de 10%. Em todo o mundo estão documentados cerca de 650 casos por ano, que resultaram em cerca de 120 mortes. No , a doença é mais comum em África.
A primeira grande pandemia de peste bubónica foi a Praga de Justiniano, que se estima ter matado entre 25 a 50 milhões de pessoas no . Acredita-se que a peste bubónica tenha sido a causa da Peste Negra, que assolou a Europa, Ásia e África no . Estima-se que a Peste Negra tenha resultado na morte de cerca de 50 milhões de pessoas, entre as quais um número correspondente a 25–60% da população europeia na época. Uma vez que a peste matou grande parte da força de trabalho, a procura de mão de obra fez subir os salários. Alguns historiadores consideram este evento um momento de virada no desenvolvimento económico europeu. A terceira e última grande pandemia de peste surgiu no e matou mais de 12 milhões de pessoas na Índia e China. O termo "bubónica" deriva da palavra grega βουβών, que significa "virilha". O termo "bubão" é usado para se referir aos gânglios linfáticos inchados.
Sinais e sintomas
Após a picada, os sintomas podem ser variados e normalmente aparecem após um período de incubação de 1-7 dias. Inicialmente surgem lesões cutâneas junto à zona onde ocorreu a picada da pulga, acompanhados por dor acentuada e constante. Nos estádios seguintes, em 2 ou menos dias, ocorre uma infeção nos gânglios linfáticos para onde a bactéria é drenada. Os gânglios ficam inflamados, tensos e dolorosos e são chamados de “bubões”. Esses abcessos aparecem sobretudo nas axilas, virilhas e região cervical.
As pessoas infetadas desenvolvem sinais e sintomas como febre elevada, dor de cabeça, calafrios, dores generalizadas no corpo e fraqueza, vómitos, náuseas e, nalguns casos, delírio, confusão mental ou descoordenação motora.
Nos estádios avançados da infecção, os gânglios linfáticos inflamados podem se transformar em feridas abertas e supurativas, e a dor na zona deixa de ser acentuada. No entanto, o perigo de contração de uma nova infecção nesta fase é muito elevado. Se as bactérias atingirem a corrente sanguínea, qualquer órgão pode ser afetado. A forma mais grave da doença é a peste pulmonar, que é quase sempre fatal.
Causas
A peste bubónica, tal como as outras formas de peste, é causada pela bactéria Yersinia pestis, uma bactéria zoonótica que afeta roedores e as suas pulgas (Xenopsylla cheopis). Esta bactéria é transmitida de roedor para roedor, e destes passa para os seres humanos através das picadas das pulgas infectadas. A infecção pode também resultar da exposição aos fluidos corporais de um animal infectado com a peste. No caso da forma bubónica, a transmissão de humanos para humanos é rara.
Na forma bubónica da peste, as bactérias penetram na pele pela picada da pulga e são transportadas pelos vasos linfáticos até um gânglio linfático, onde se multiplicam e desenvolvem infecções.
Diagnóstico
O diagnóstico de peste pode ser confirmado com a detecção da bactéria em amostras de sangue, de muco das vias respiratórias ou no líquido dos gânglios linfáticos inflamados (bubões). Nos casos suspeitos de peste bubónica, é recolhida uma amostra de líquido dos bubões por aspiração com uma agulha. Nos casos suspeitos de peste pneumónica, é aspirado muco das vias respiratórias com um tubo fino e flexível inserido pelo nariz ou boca. Geralmente a bactéria só está presente no sangue nos casos de peste septicémica.
As amostras podem ser testadas com testes imunológicos, bacteriológicos ou sorológicos. Os testes imunológicos recorrem a ensaios imunocromatográficos e moleculares identificam o antígeno F1 da Yersinia Pestis através de PCR em tempo real. Os testes bacteriológicos permitem o isolamento e identificação do microrganismo causador da peste e técnicas de deteção do antígeno F1.
A peste bubónica assemelha-se clinicamente a outras doenças podendo ser confundida como, por exemplo, infeções sexualmente transmissíveis, toxoplasmose, histoplasmose aguda, neoplasia, hérnia, rickettsioses ou febre tifoide
Paleopatológico
A peste não deixa marcas visíveis nos ossos, mas existem algumas formas para detectar a doença em vestígios ósseos arqueológicos.
O contexto funerário é uma delas; a peste provocou grandes epidemias em todo o mundo e a forma mais recorrente e mais fácil de enterrar as inúmeras vítimas era através de enterramentos em valas comuns. Os estudos demográficos também podem fornecer informação relativamente a este assunto, visto que determinados grupos etários podem ser mais afetados.
O método mais eficaz de detetar a presença de peste é o molecular, utilizado para identificar a Yersinia pestis com recurso a amostras de restos osteológicos antigos Um destes métodos, o teste de diagnóstico rápido (TDR), foi desenvolvido e testado em 2003. Bianucci et al. (2008) realizou uma investigação aplicando este método em amostras ósseas de locais de enterramento de indivíduos com peste, utilizando osso esponjoso e/ou dentes erupcionados. Os resultados foram positivos e concluíram que de facto este e outros métodos genéticos são eficazes e uma mais-valia para estudos paleopatológicos em que informações arqueológicas e históricas estão incompletas ou ausentes e quando as doenças infecciosas do passado não afetam o esqueleto.
Prevenção
A prevenção consiste em medidas de saúde pública, como não manusear carcaças de animais em regiões onde a peste é comum. As vacinas não têm demonstrado utilidade na prevenção da doença.
Tratamento
O tratamento da peste consiste na administração de antibióticos específicos. Os antibióticos de eleição tanto para adultos como para crianças são os aminoglicosídeos como a estreptomicina ou gentamicina. Em surtos onde há um grande número de pessoas infectadas ou em risco, a administração oral dos antibióticos é a mais utilizada e dá-se preferência à doxiciclina.
Epidemiologia miniaturadaimagem|Distribuição geográfica de potenciais focos de peste com base em dados históricos e informações do ano de 2016.
A peste bubónica é a forma mais comum de infeção por peste nos humanos, encontrando-se em todos os continentes, exceto na Oceânia. Desde os anos 90 que grande parte dos casos humanos ocorre em África. Atualmente, a distribuição da peste é generalizada geograficamente, encontrando-se na América do Norte e do Sul, África e Ásia (Figura 1). Estes locais de foco de infeção são sobretudo regiões tropicais ou subtropicais, e ocasionalmente regiões temperadas mais quentes.
Os três países endémicos são a República Democrática do Congo, Madagáscar e Peru. Em Madagáscar quase todos os anos há casos novos de infeção da peste bubónica entre setembro e abril. Em novembro de 2017, o Ministério da Saúde de Madagáscar declarou à OMS (Organização Mundial da Saúde) um crescente número de casos com um total de 2 348 casos confirmados, prováveis e suspeitos de peste, incluindo 202 mortes (taxa de mortalidade de casos: 8,6%), estes valores foram os mais altos de surtos recentes no país. Excecionalmente, a maioria dos casos era da forma pneumónica e não bubónica. De 2010 a 2015, foram comunicados 3248 casos em todo o mundo, incluindo 584 mortes. Nos últimos anos, a diminuição dos casos de peste em humanos reflete os esforços do controlo desta praga.
Enquanto a população humana e os focos naturais da peste (a bactéria, um hospedeiro e um vetor) coexistirem existirá o risco de peste humana. Segundo a OMS, as medidas preventivas incluem informar as pessoas quando a peste está presente no seu ambiente e aconselhá-las a tomar precauções contra picadas de pulgas e a não manusear carcaças de animais. Estudos epidemiológicos da peste, modernos e históricos, melhoraram a nossa compreensão da transmissão, distribuição e controlo da doença. Em julho de 2020, foi reportado novo caso da peste bubônica em Bayan Nur, na Mongólia Interior, China, havendo a emissão de alerta nível 3, avisando a população no cuidado durante a caça, a ingestão ou transporte de animais potencialmente infectados — como marmotas — e relatarem a presença de roedores mortos ou doentes.
História
Ao analisar a história da peste surge frequentemente um problema, isto é, nos registos históricos, encontram-se várias descrições de epidemias que são atribuídas à peste, como é o exemplo da Peste dos Filisteus (1320 a.C.). No entanto, as descrições desses surtos não mencionam sintomas específicos da peste bubónica. Assim sendo, várias doenças infeciosas como a varíola, o sarampo, febre tifoide, entre outras, podem ter causado a mortalidade elevada que se registou nesses períodos. A primeira pandemia em que se identifica claramente descrições da forma bubónica da peste surgiu no século VI d.C.
Em 541 d.C., na cidade portuária egípcia de Pelusium, eclodiu um surto de peste que rapidamente se alastrou por todo o império Bizantino, sendo que nenhuma das terras que rodeavam o Mediterrâneo escaparam ao seu alcance. Em 544 tinha chegado tão longe quanto as ilhas Britânicas. Esta pandemia foi denominada de Praga de Justiniano, pois ocorreu durante o domínio do Imperador Justiniano e pensa-se que matou cerca de 25% da população do Império Bizantino. A peste continuou a afetar estes territórios durante cerca de dois séculos, surgindo entre intervalos que variavam de seis a vinte anos, sendo que não se estabelecia nas regiões durante muito tempo seguido.
Em 1331 uma guerra civil e a peste eclodiram na China, tendo devastado a região. A doença espalhou-se, seguindo para oeste, pela Rússia e chegou à Crimeia em 1346. Através de vias marítimas e terrestres alcançou territórios que circundavam o Mediterrâneo e posteriormente o resto da Europa. Em 1348 já tinha dominado grande parte de França e da Suíça e rapidamente atingiu a Alemanha, a Polónia e a Inglaterra. A peste era transportada por exércitos e navios, mercadores e viajantes. Os ratos e as pulgas viajavam em carregamentos de grão, pólvora, pêlos, roupas, etc. As rotas de peregrinação, comércio e feiras eram os percursos naturais da doença (O’Neill, 1993). E assim se disseminou a pandemia conhecida por Peste Negra, que se pensa ter matado um terço da população Europeia, entre os anos de 1346 e 1350. A mortalidade foi tão elevada que os corpos eram abandonados nas ruas ou amontoados uns em cima dos outros e queimados, porque não havia capacidade de gerir os números elevados de enterramentos.