Sergei Vasilievich Rachmaninoff (1 de abril de 1873 – 28 de março de 1943) foi um compositor, pianista e maestro russo, considerado um dos maiores compositores do final do período romântico na música erudita. Suas composições abrangem concertos para piano, sinfonias, obras corais e peças para piano solo, muitas das quais permanecem referências centrais no repertório pianístico mundial. Como intérprete, Rachmaninoff também influenciou gerações de músicos, sendo reconhecido por sua técnica virtuosa, sensibilidade interpretativa e profundidade expressiva.
Rachmaninoff é tido como um dos pianistas mais influentes do século XX.Thiollet, Jean-Pierre (2015), 88 notes pour piano solo, "Solo nec plus ultra", Neva Editions, p.50. ISBN 978 2 3505 5192 0. Seus trejeitos técnicos e rítmicos são excelentes, e suas mãos largas eram capazes de cobrir um intervalo de uma 13ª no teclado (um palmo esticado de cerca de 30 centímetros). Especula-se se ele era ou não portador da Síndrome de Marfan, já que se pode dizer que o tamanho de suas mãos correspondia à sua estatura, algo entre 1,91 e 1,98 m. Ele também possuía a habilidade de executar composições complexas à primeira audição. Muitas gravações foram feitas pela Victor Talking Machine Company, com Rachmaninoff executando composições próprias ou de repertórios populares.
Sua reputação como compositor, por outro lado, tem gerado controvérsia desde sua morte. A edição de 1954 do Grove Dictionary of Music and Musicians notoriamente desprezou sua música como "monótona em textura... consistindo principalmente de melodias artificiais e feias" e previu seu sucesso como "não duradouro". Harold C. Schonberg, em seu livro A Vida dos Grandes Compositores, considerou que a referência "figura entre as mais esnobes e estúpidas jamais encontradas em um livro que supostamente deve ser objetivo". De fato, não apenas os trabalhos de Rachmaninoff tornaram-se parte do repertório padrão, mas sua popularidade tanto entre músicos quanto entre ouvintes vem, no mínimo, crescendo desde a segunda metade do Século XX, com algumas de suas sinfonias e trabalhos orquestrais, canções e músicas de coral sendo reconhecidas como obras-primas ao lado dos trabalhos para piano, mais populares.
Suas composições incluem, dentre várias outras: quatro concertos para piano; a famosa Rapsódia sobre um tema de Paganini; três sinfonias; duas sonatas para piano; três óperas; uma sinfonia para coral (The Bells, ou Os Sinos, baseado no poema de Edgar Allan Poe); vinte e quatro prelúdios (incluindo o famoso Prelúdio em Dó Sustenido Menor); dezessete études; muitas canções, sendo as mais famosas a V molchanyi nochi taynoi (No Silêncio da Noite), Lilacs e a sem-letra Vocalise; e o último de seus trabalhos, as Danças Sinfônicas. A maioria de suas peças é carregada de melancolia, um estilo romântico tardio lembrando Tchaikovsky, embora apareçam fortes influências de Chopin e Liszt. Inspirações posteriores incluem a música de Balakirev, Mussorgsky, Medtner (o qual ele considerou o maior compositor contemporâneo e que, de acordo com o Lives de Schonberg, retornou ao complemento por imitá-lo) e Henselt.
Biografia Início de vida e juventude Rachmaninov nasceu em Semyonovo, perto de Novgorod, no noroeste da Rússia. Sua família era de origem moldava. Seus pais foram ambos pianistas amadores, e ele teve suas primeiras lições de piano com sua mãe; entretanto, seus pais não notaram nenhum talento extraordinário no jovem. Por causa de problemas financeiros, a família se mudou para São Petersburgo, onde Rachmaninov estudou no Conservatório da cidade antes de ir para Moscou. Lá, ele estudou piano com Nikolai Zverev e Alexander Siloti (que era seu primo e ex-estudante de Liszt). Ele também estudou harmonia com Anton Arensky, e contraponto com Sergei Taneyev. Deve-se observar que, no início, Rachmaninov era considerado preguiçoso, faltando muito às aulas para ir patinar. Foi o rigoroso regime da casa de Zverev (que hospedou vários músicos jovens, como Scriabin) que o disciplinou.
Ainda jovem começou a mostrar grande habilidade em suas composições. Enquanto ainda era estudante, ele escreveu uma ópera de um ato, Aleko (que lhe rendeu uma medalha de ouro em composição), seu primeiro concerto para piano, um conjunto de peças para piano, Morceaux de Fantaisie (Op. 3, 1892), incluindo o popular e famoso Prelúdio em Dó Sustenido Menor. (De acordo com as anotações de Francis Crociata na caixa com 10 CDs de gravações de Rachmaninov da RCA, o compositor ficou confuso com a fascinação do público por essa peça, composta quando ele tinha apenas 19 anos de idade. Ele muitas vezes importunou pessoas da plateia perguntando "Oh, será que precisa?" ou dizendo não se lembrar.) Rachmaninov confidenciou a Zverev seu desejo de compor mais, pedindo uma sala privativa onde ele poderia compor em silêncio, mas Zverev via nele apenas um pianista e estreitou suas relações com o garoto. Após o sucesso de Aleko, entretanto, Zverev o aceitou de volta como compositor e pianista. Na verdade, suas primeiras peças sérias para piano foram compostas e executadas ainda como estudante, aos treze anos, durante sua residência com Zverev. Em 1892, aos 19 anos, completou seu Concerto para Piano No. 1 (Op. 1, 1891), que ele revisou em 1917.
thumb|left|O jovem Rachmaninov
Primeiras composições A Sinfonia No. 1 (Op. 13, 1896) estreou em 27 de março de 1897 junto com uma longa série de "Concertos Sinfônicos Russos", mas foi deixado de lado pela crítica. Num comentário pitoresco de César Cui, ela foi comparada à descrição das dez pragas do Egito e sugerido que ela seria admirada pelos "inatos" de um conservatório de música no inferno. (Note-se, César Cui é o único membro do grupo nacionalista de compositores russos conhecido como o Grupo dos Cinco cuja música é raramente executada hoje em dia.) Tais críticas são geralmente atribuídas à inadequação da performance; a condução de Alexander Glazunov é geralmente lembrada como um problema: ele gostou da peça, mas era um maestro fraco e estava faminto na hora da execução. A esposa de Rachmaninov, mais tarde, sugeriu que Glazunov parecia bêbado e, apesar disto nunca ter sido dito por Rachmaninov, este não parecia alterado. A recepção desastrosa, combinada com a preocupação da objeção da Igreja Ortodoxa contra o casamento com sua prima, Natalia Satina, contribuiu para um colapso mental seguido de um período em depressão.
Ele escreveu pouca música nos anos seguintes, até começar um curso de Terapia Auto-Sugestiva com o psicólogo Nikolai Dahl, que coincidentemente havia sido um músico amador; Rachmaninov rapidamente recuperou sua autoconfiança. Um importante resultado dessas sessões foi a composição do Concerto para Piano No. 2 (Op. 18, 1900-01), que foi dedicado ao Dr. Dahl. A peça foi bem recebida em sua estreia, na qual o próprio Rachmaninov foi o solista, e continua sendo até os dias de hoje uma de suas composições mais populares.
O espírito de Rachmaninov se acalmou mais tarde quando, após anos de tentativas, ele finalmente conseguiu permissão para se casar com Natalia. Eles se casaram num subúrbio de Moscou com um padre militar em 29 de abril de 1902, e a união durou até a morte do compositor. Após várias apresentações como maestro, foi oferecido a Rachmaninov o cargo de maestro do Teatro Bolshoi em 1904, embora razões políticas o levaram a se resignar em março de 1906, após o que ele foi para a Itália (em Florença e depois em Marina di Pisa) até julho. Ele passou os três invernos seguintes em Dresden, na Alemanha, trabalhando intensivamente como compositor e retornando à familiar Ivanovka apenas nos verões.
thumb|right|250px|Rachmaninov fez várias gravações
Emigração para os EUA Rachmaninoff fez suas primeiras apresentações nos Estados Unidos como pianista em 1909, um evento para o qual ele compôs o Concerto para Piano Nº 3 (Op. 30, 1909). Estas apresentações bem-sucedidas fizeram dele uma figura popular na América.
Após a Revolução Russa de 1917, que significou o fim da velha Rússia, Rachmaninoff junto com sua esposa e duas filhas deixou San Petersburgo e foi para Estocolmo em 22 de dezembro de 1917. Eles nunca retornariam para casa novamente. Rachmaninoff então se estabeleceu na Dinamarca e passou um ano fazendo concertos pela Escandinávia. Ele saiu de Oslo (então Kristiania) para Nova Iorque em 1 de novembro de 1918, o que marcou o início do período americano da vida do compositor. Após a partida de Rachmaninoff, sua música foi banida na União Soviética por muitos anos. Sua produção musical diminuiu, em parte porque ele teve que passar parte de seu tempo com sua família, mas principalmente por causa da saudade de sua terra natal; ele sentiu que deixar a Rússia foi como deixar para trás sua inspiração.
O declínio nas composições de Rachmaninoff foi dramático. Entre 1892 e 1917 (vivendo principalmente na Rússia), ele escreveu trinta e nove composições com números opus. Entre 1918 e sua morte em 1943, enquanto vivia nos Estados Unidos, ele completou apenas seis.
Instalando-se nos Estados Unidos, Rachmaninoff começou a fazer gravações para Thomas Edison em 1919, usando um piano vertical o qual o inventor admitiu ser de qualidade inferior; entretanto, os discos renderam fama ao compositor. No ano seguinte ele assinou um contrato exclusivo com a Victor Talking Machine Company e continuou a fazer gravações com a Victor até fevereiro de 1942.
Em 1931, junto com outros exilados russos, ele ajudou a fundar uma escola de música em Paris que posteriormente ganharia seu nome, o Conservatoire Rachmaninoff. Sua Rapsódia Sobre um Tema de Paganini, um de seus trabalhos mais conhecidos hoje em dia, foi escrito na Suíça em 1934. Ele voltou a compor na Sinfonia No. 3 (Op. 44, 1935-36) e as Danças Sinfônicas (Op. 45, 1940), seu último trabalho completo. Eugene Ormandy e Philadelphia Orchestra estrearam as Danças Sinfônicas em 1941 na Academy of Music. Rachmaninoff caiu doente durante uma turnê de concertos em 1942, e foi subsequentemente diagnosticado com um melanoma maligno.
Rachmaninoff e sua esposa tornaram-se cidadãos americanos em 1 de fevereiro de 1943. Seu último recital, em 17 de fevereiro de 1943 no Alumni Gymnasium da Universidade de Tennessee em Knoxville, profeticamente tocando a Sonata No. 2 em Si Bemol Menor de Chopin, que contém a famosa marcha fúnebre. Uma estátua comemorativa do último concerto de Rachmaninov existe no Parque de World's Fair, em Knoxville.
À medida que Rachmaninoff teve cada vez mais certeza de que não voltaria mais à sua terra natal, ele foi sendo tomado pela melancolia. Muitas pessoas que chegaram a conhecê-lo somente nesta época o descreveram como o homem mais triste que eles já haviam visto. Numa entrevista em 1961, o maestro Ormandy declarou:
Morte Rachmaninov morreu em 28 de março de 1943, em Beverly Hills, na Califórnia, apenas alguns dias antes de seu 70º aniversário, e foi enterrado em 1 de junho no cemitério de Kensico, em Valhalla. Nas horas finais de sua vida, ele insistia que podia ouvir música tocando em algum lugar por perto. Após ser repetidamente assegurado de que não era o caso, ele declarou: "então a música está na minha cabeça".
Características artísticas
Composições
Rachmaninoff escreveu cinco trabalhos para piano e orquestra: quatro concertos e a Rapsódia Sobre um Tema de Paganini. Dos concertos, o Segundo e o Terceiro são os mais populares, e são considerados do mais alto nível dos concertos para piano do Romantismo. O Terceiro é largamente considerado um dos concertos para piano mais difíceis do mundo, sendo assim favorito entre muitos pianistas virtuosos, embora o próprio Rachmaninoff tenha dito que sentia o Terceiro "fluir mais facilmente nos dedos" do que o Segundo. As performances definitivas do Terceiro foram executadas por Vladimir Horowitz, e o próprio compositor elogiou o domínio com o qual Horowitz executava a peça – "ele a engoliu inteira!", observou Rachmaninoff.