Charles John Napier KCB (Falkirk, Stirling, Escócia, 6 de Março de 1786 – Catherington, Hampshire, 6 de Novembro de 1860) foi um almirante das armadas britânica e portuguesa.

Biografia Teve uma carreira naval que ultrapassou os 54 anos de serviço activo. Durante esse período serviu nas Guerras Napoleónicas, na Guerra da Síria, na Guerra da Crimeia e na Guerra Civil Portuguesa, para além de outros conflitos menores.

Em Portugal assumiu em 1833 o comando da esquadra liberal, tendo, então, adoptado o nome de Carlos de Ponza para não perder a sua patente na armada inglesa por combater no estrangeiro sem licença do seu Governo. Ao comando da pequena armada liberal, a 5 de Julho desse ano obteve uma vitória decisiva na Batalha do Cabo de São Vicente, vencendo o almirante Manuel António Marreiros, comandante da esquadra miguelista, o qual morreu no combate. A derrota naval sofrida pela armada miguelista apressou o fim da guerra, permitindo o rápido avanço sobre Lisboa das forças comandadas pelo 1.º duque da Terceira.

Charles Napier ficou conhecido como um inovador, preocupado com novas tecnologias navais então emergentes da navegação a vapor e construção em aço e com a necessidade de humanizar o serviço naval. Envolveu-se activamente na vida política, tendo ingressado no parlamento britânico como deputado radical eleito pelo Partido Liberal.

No fim da sua carreira foi seguramente o oficial naval mais conhecido dos primórdios da Era Vitoriana.

Biografia Charles Napier nasceu em Merchiston Hall, nos arredores de Falkirk, Escócia, a 6 de Março de 1786, filho segundo do capitão da Armada Real Charles Napier. O seu pai pertencia a uma família distinta, com uma larga tradição de serviço imperial, com múltiplos membros a seguir carreira como oficiais navais ou oficiais do exército. O seu avô paterno era Sir Francis Napier, 6.º Lord Napier of Merchistoun, fazendo dele um descendente directo do célebre matemático John Napier, o inventor dos logaritmos neperianos e de um dispositivo mecânico de multiplicação utilizando craveiras.

Na tradição familiar, foi destinado a seguir uma carreira militar como oficial naval, o mesmo percurso que o seu pai tinha feito. Alistou-se na Armada Real, sendo provido guarda-marinha em 1800, embarcando no HMS Renown, o navio almirante de Sir John Borlase Warren. Depois de um período de serviço nesse navio, foi colocado na guarnição da fragata Greyhound, sob o comando do capitão William Hoste, iniciando aí uma longa carreira naval que ultrapassaria o meio século de serviço activo. Ainda embarcado no Greyhound, foi promovido a tenente em 1805.

As Guerras Napoleónicas thumb|350px|O combate do HMS Recruit contra os franceses. No dealbar das Guerras Napoleónicas, já como tenente, foi transferido para a guarnição do HMS Courageux, um navio de 74 peças de artilharia, e enviado para as Caraíbas onde se incorporou num esquadrão naval comandado pelo almirante John Borlase Warren. Integrado nessa força participou nos combates que, a 13 de Março de 1806, redundaram na tomada dos navios franceses Marengo (80 peças) e Belle Poule (40 peças).

Tendo regressado à Grã-Bretanha com as forças comandadas por Warren, regressou pouco depois às Caraíbas como membro da guarnição do HMS St. George. Nas Caraíbas foi nomeado comandante interino do brigue Pultusk, armado com 16 peças. Aquele brigue era o navio corsário francês Austerlitz, que havia sido aprisionado e posto ao serviço da Armada Real britânica.

Em Agosto de 1808 foi nomeado comandante da chalupa Recruit, armada com 18 peças, tendo com ela tomado parte, ao largo da ilha de Antigua, num acesso combate contra a chalupa francesa Diligente, também de 18 peças. Durante este combate foi seriamente ferido ao ser atingido numa perna por uma bala de canhão, o que o deixou coxear durante o resto da sua vida.

Em serviço nas Caraíbas, em Abril de 1809 tomou parte na conquista de Fort Edouard, na Martinica, acção em que se distinguiu na subsequente perseguição e aprisionamento de três navios de guerra franceses que se escaparam ao bloqueio imposto à ilha. Ao comando da pequena chalupa Recruit conseguiu aprisionar o D'Hautpoult, um navio armado com 74 peças e dotado de uma guarnição muito superior. Em consequência, foi promovido a capitão por distinção em combate, posto que lhe foi confirmado pouco depois, passando assim a capitão efectivo da Armada Real.

Apesar da promoção por distinção, quando em finais desse ano regressou à Grã-Bretanha, no comando do HMS Jason em serviço de escolta a um comboio de navios provenientes das Caraíbas, foi colocado na reserva naval com direito apenas a meio soldo.

Decidiu então frequentar alguns cursos na Universidade de Edimburgo, mas, pouco depois, partiu para Portugal, tendo em 1810 participado como voluntário em operações navais na costa da Península Ibérica.

Em Portugal visitou três dos seus primos que então serviam como coronéis no exército comandado por Arthur Wellesley, o futuro duque de Wellington. Um destes primos era o coronel Charles James Napier, o futuro conquistador do Sind, na Índia, que se transformaria numa das figuras militares mais marcantes do século XIX britânico. Durante a sua visita assistiu à Batalha do Buçaco, durante a qual se diz que terá salvo a vida ao seu primo Charles James Napier, tendo sofrido ferimentos na acção.

Regressado a Londres, em 1811 foi nomeado comandante da fragata HMS Thames e enviado para o Mediterrâneo com a missão de causar danos à navegação francesa. Na acções que se seguiram, de Setembro a Novembro de 1811, participou na ofensiva britânica que foi lançada partir da Sicília contra a costa napolitana, tendo comandado a conquista da ilha de Ponza, frente a Gaeta, então um ninho de corsários. Em consequência, foi agraciado por Fernando I das Duas Sicílias com o título de cavaleiro de Ponza. Daí o pseudónimo Carlos de Ponza, na realidade tradução do nome, que depois usaria aquando da sua passagem pela armada liberal portuguesa.

Em 1813 foi transferido para o comando da fragata HMS Euryalus, de 36 peças, então em operação ao largo das costas mediterrânicas da França e Espanha.

A Guerra de 1812 e os "Cem Dias" Após a rendição em 1814 de Napoleão Bonaparte, Napier e o seu navio foram transferidos para a costa atlântica dos Estados Unidos, onde a Guerra de 1812 ainda continuava.

Como imediato do capitão James Alexander Gordon tomou então parte na expedição britânica que sob o comando daquele oficial subiu o rio Potomac até Alexandria, Virgínia. No decurso desta acção, o esquadrão britânico levou 10 dias para subir as 50 milhas que separam o mar daquela cidade, navegando lentamente ao longo do estuário e rio, sofrendo múltiplos encalhes e o efeito de um tornado. Apesar das dificuldades, a 28 de Agosto de 1814, depois de um pesado bombardeamento, capturaram Fort Washington, forçando a capitulação da cidade de Alexandria e aprisionando os navios ali recolhidos.

Depois deste sucesso, e apesar dos ataques lançados pelas forças americanas a partir das margens, o esquadrão conseguiu retirar-se para o mar, levando as suas presas. Durante este percurso, Napier foi ferido no pescoço.

Depois da proeza no Potomac, Napier distinguiu-se no ataque à cidade de Baltimore, Maryland, levado a cabo a 14 de Setembro de 1814 quando um força britânica apoiada por 16 vasos de guerra, sob o comando do almirante Alexander Cochrane, tentou a tomada daquela cidade.

Naquela acção, a fragata Euryalus, com Napier a bordo, esteve envolvida no bombardeamento do Fort McHenry que foi iniciado na madrugada do dia 13 de Setembro, a véspera do ataque principal. O período crítico deste ataque teve lugar por volta da meia-noite daquele dia, quando uma força de elite comandada por Napier embarcou em escaleres e tentou penetrar o flanco oeste das defesas americanas utilizando um dos ramos do rio Patapsco. Acossados pela artilharia do Fort McHenry e de dois fortes menores, os britânicos viram-se obrigados a retirar, com grandes baixas, mas não sem que antes o episódio fosse imortalizado por Francis Scott Key, que observando a batalha de bordo do navio britânico onde estava prisioneiro, compôs o poema The Star-Spangled Banner que se tornaria na letra do hino dos Estados Unidos.

Apesar da dureza da luta e do emprego de artilharia e de foguetes, o poder de fogo dos fortes americanos prevaleceu e, na manhã do dia 14 de Setembro, as forças britânicas foram obrigadas a bater em retirada sem conseguir os objectivos a que se tinham proposto.

Depois da tentativa fracassada de tomada de Baltimore, a Euryalus retirou-se para Halifax (Nova Escócia) para proceder a reparações, reingressando depois na força britânica que tentava manter o bloqueio naval à costa atlântica dos Estados Unidos. Cansado da monotonia do regime de patrulha a que a força era obrigada, Napier resolveu desafiar a fragata Americana USS Constellation, que estava ancorada sob a protecção dos fortes costeiros em Norfolk, Virgínia, para sair do porto e tomar parte num duelo naval com a Euryalus. O desafio foi aceite e a preparação para o combate acordada de forma cavalheiresca, mas antes da data acordada a Euryalus recebeu ordens para se integrar na força que em Dezembro de 1814 o almirante Alexander Cochrane comandou a caminho da Florida e da Luisiana. Integrado naquela força, Napier participou na Batalha de Nova Orleães, travada nas imediações daquela cidade a 8 de Janeiro de 1815. Antes que pudesse regressar às águas da Virgínia para travar o combate acordado com a Constellation chegou a notícia da assinatura do Tratado de Ghent que pôs termo à guerra entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Quando Napoleão Bonaparte escapou da ilha de Elba e retornou ao poder em França, no episódio que ficaria conhecido pelos Cem Dias, a Euryalus voltou a águas europeias. A última missão de Napier nas Guerras Napoleónicas foi proceder a um desembarque de tropas na foz do rio Scheldt para prevenir um avanço de forças francesas para território belga.

A revolução do vapor e dos cascos de aço Charles Napier era um homem voltado para o futuro, de espírito aberto às novas invenções e sensível às injustiças e ineficiências que acreditava existirem na Armada Real britânica. Terminada a guerra, passou à situação de reserva, sentindo-se então mais liberto para iniciar uma campanha em favor da humanização do serviço naval e de advocacia da utilização das novas tecnologias então emergentes: a utilização de máquinas a vapor e a construção de navios com casco em aço.

O fim da guerra trouxe também a Napier a possibilidade de fundar família. Casou com uma sua antiga paixão dos tempos de juventude em Edimburgo, de nome Frances Younghusband (ou Frances Elers, do seu primeiro casamento), que entretanto casara e enviuvara. Francês tinha quatro filhos do seu primeiro casamento, que Napier adoptou. Após o casamento, o casal decidiu viajar pela Europa, aproveitando um valioso legado que Napier recebeu de familiares de sua mãe. Visitaram a Itália, permanecendo em Roma por algum tempo, a Suíça, onde chegou a adquirir terra nas margens do Lago de Genebra, e a França, residindo temporariamente em Paris. Deste casamento nasceriam dois filhos: um rapaz, nascido em Roma e uma filha nascida na Suíça. O filho faleceu aos 5 anos de idade, vítima de um acidente.

Durante esses anos Napier manteve extensa correspondência com o Almirantado britânico, com muitas cartas a serem publicadas na imprensa, com destaque para o The Times de Londres, defendendo a urgência de uma reforma da administração naval e das práticas seguidas a bordo dos navios da Armada Real. Manteria esta tendência reformista durante toda a sua carreira.