Arariboia (do tupi , "araramboia",NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 60. batizado como Martim Afonso de Sousa; Ilha de Paranapuã, – Niterói, 1589) foi um chefe do povo temiminó, pertencente à etnia tupi, que habitava o litoral brasileiro no século XVI.
Ficou conhecido na história devido à sua aliança com os portugueses, fundamental para a conquista da Baía de Guanabara frente aos tamoios e franceses, em 1567. Como recompensa, recebeu da coroa portuguesa a propriedade de terras localizadas na entrada da Baía de Guanabara. Ali foi estabelecida a aldeia de São Lourenço, que futuramente daria origem à cidade de Niterói, da qual é considerado o fundador.
Biografia esquerda|miniaturadaimagem|286x286px|Monumento em homenagem a Arariboia na praça Arariboia, Niterói, Rio de Janeiro, 2026. Filho do chefe Maracajá-Guaçu, principal chefe dos temiminós, Arariboia foi o líder dos temiminós durante o confronto de temiminós e portugueses contra tamoios e franceses pelo controle da Baía de Guanabara. Depois de seu grupo ser expulso do Rio de Janeiro pelos inimigos indígenas e se mudar para o Espírito Santo, fundou a região de Carapina com a aldeia de São João. Ao ser batizado pelos jesuítas, recebeu o nome cristão de Martim Afonso de Sousa, em homenagem ao donatário da Capitania de São Vicente, Martim Afonso de Sousa.
Ao retornarem à Baía de Guanabara juntamente com os portugueses, foram personagens fundamentais na conquista daquele espaço. Ele foi o primeiro a entrar no baluarte inimigo no confronto de 20 de janeiro de 1567, em Uruçumirim, no atual outeiro da Glória. Empunhava uma tocha, com a qual explodiu o paiol de pólvora e abriu caminho para o ataque. Em um episódio com contornos de lenda, Arariboia teria atravessado as águas da baía a nado para liderar a ofensiva. O fato é que, com o seu apoio, a operação portuguesa contra os franceses foi um sucesso, tendo os portugueses obtido assim o controle sobre a Baía de Guanabara. miniaturadaimagem|Estátua de Arariboia no Clube Saldanha da Gama na cidade de Vitória Após a derrota dos tamoios, converteu-se ao cristianismo e adotou o nome de Martim Afonso de Sousa, em homenagem ao homônimo navegador português, que comandou uma exploração portuguesa que tocou a Guanabara em 1530. Como recompensa pelos seus feitos, foi agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem de Cristo, além de receber terras da Coroa Portuguesa. Primeiramente recebeu um terreno no atual bairro de São Cristóvão, que fica próximo à Ilha do Governador. Essa localização foi indicada na Carta da Baía de Guanabara, do cartógrafo Luiz Teixeira, como a Aldea de Martinho. Posteriormente, em 1573, recebeu um terreno no outro lado da Guanabara, onde teria a missão de proteger a entrada da baía, formando a guarnição da Fortaleza de Santa Cruz. "As Relações Étnicas na Conquista da Guanabara: Índios e o domínio do Atlântico Sul" Renato Pereira Brandão . Tal sesmaria recebeu o nome de São Lourenço dos Índios. É apresentada por muitos como a origem da cidade de Niterói. Um dos marcos da relação entre Arariboia e a Coroa Portuguesa é a Igreja de São Lourenço dos Índios, construída posteriormente no território da antiga Aldeia de São Lourenço e é considerada um dos principais marcos históricos de Niterói.
Segundo o padre jesuíta Gonçalo de Oliveira, ele se casou em 1570 na cidade do Rio de Janeiro com uma mulher indígena, referenciada pelos termos da época como mameluca, por ser filha de um português e uma indígena. Essa mulher, também seguindo o costume daquele período, não foi nomeada pelo padre. O casamento foi descrito como acontecimento memorável: uma festa com um banquete, em que Arariboia partiu de sua aldeia com seis grandes canoas, e foi acompanhado por portugueses e temiminós. miniaturadaimagem|244x244px|Quadro "A morte de Estácio de Sá" de Antônio Parreiras, de 1911. Arariboia representado ao centro em trajes indígenas.Terminou os seus dias em conflito com o novo governador-geral da Repartição Sul do Estado do Brasil, Antônio Salema (1575-1577). De acordo com os relatos e observações compostos pelo historiador brasileiro Frei Vicente do Salvador, Arariboia, apesar de ter mantido ligações profundas com a elite portuguesa e o Cristianismo até o final de sua vida, era também um líder de natureza confiante, extremamente consciente tanto de seus títulos e conquistas quanto das hostilidades e desigualdades que a sociedade portuguesa infligia aos indígenas.Niterói 450 anos: Capítulos de sua história Na cerimônia oficial de posse, tendo Arariboia se deslocado de Niterói até o Rio de Janeiro, ele sentou-se de pernas cruzadas. O fato veio a desagradar ao governador, que o repreendeu. Arariboia rebateu tal repreensão retrucando: "Minhas pernas estão cansadas de tanto lutar pelo seu Rei, por isto eu as cruzo ao sentar-me, se assim o incomodo, não mais virei aqui." Para o Frei, o comportamento de Arariboia não é somente uma demonstração de arrogância, mas sim a insatisfação de um chefe indígena que não demonstra estar sendo bem recebido dentro da casa de seus vizinhos portugueses. O já idoso cacique voltou, então, para a sesmaria de Niterói, não tendo mais retornado ao Rio de Janeiro.
A causa da morte de Arariboia é tida como incerta. Por muito tempo, acreditou-se que ele se afogara nas imediações da Ilha de Mocanguê, em 1589. Essa versão passou a ser contestada, no entanto, após o pesquisador Serafim Leite encontrar uma carta jesuítica datada do mesmo ano, que informava que Arariboia falecera vítima de uma epidemia.
Contexto histórico miniaturadaimagem|293x293px|Mapa intitulado “Carta da Baía de Guanabara” do cartógrafo português Luis Teixeira, c. 1574-1578. A iconografia faz parte do manuscrito “Roteiro de Todos os Sinais” localizado na Biblioteca da Ajuda em Lisboa, Portugal. A atual Ilha da Guanabara é identificada como "Ilha do Gato", em referência ao líder temiminó. miniaturadaimagem|O Leopardus wiedii, também conhecido como gato-maracajá, é uma espécie nativa da América Central e da América do Sul. Vive em florestas perenes e decíduas. Os temiminós eram chamados de "índios do gato" em referência ao gato-maracajá, se tornando posteriormente uma informação topográfica. Em 1556, os temiminós que viviam na ilha de Paranapuã (atual Ilha do Governador), foram expulsos de suas terras pelos seus tradicionais inimigos tamoios. Dentre eles, estava o Arariboia. Eles pediram ajuda aos portugueses e o governador Vasco Fernandes Coutinho, aconselhado pelo padre Luís da Grã, convidou os temininós a seguirem para a Capitania do Espírito Santo, enviando quatro embarcações para a viagem. Ao chegarem às terras capixabas, os temiminós reorganizaram a sua aldeia e foram catequizados pelos jesuítas.
Do ponto de vista geopolítico, a Baía de Guanabara era uma região estratégica. O domínio de Portugal sobre ela era essencial para o país controlar a rota rumo ao Oceano Índico, além de impedir possíveis interferências no tráfego das naus portuguesas que passavam pelo litoral brasileiro. No entanto, a esquadra francesa se instalara na baía em 1555, ocupando a ilha de Serigipe (a atual ilha de Villegagnon), onde ergueram o Forte Coligny. Para se contrapor às forças portuguesas, o comandante dos franceses, Nicolas Durand de Villegagnon, firmou uma aliança com os tamoios, que se dispuseram em cerca de 70.000 homens naquela faixa do litoral. O acordo impediu que as forças enviadas de Salvador por Mem de Sá, governador-geral do Brasil, em 1565, conseguissem uma vitória definitiva contra os franceses. Com a unidade da colônia correndo perigo, Mem de Sá mandou vir do reino seu sobrinho Estácio de Sá e o incumbiu de adotar a mesma estratégia dos franceses: arregimentar apoio indígena.
Quando a Coroa de Portugal enviou ao Brasil o seu terceiro governador-geral, Mem de Sá, com um contingente de soldados bem armados para retomar a Baía de Guanabara dos franceses, os portugueses estabeleceram aliança com Arariboia, que havia sucedido a seu pai como líder dos temiminós. Nesse sentido, o conflito já existente entre as duas etnias indígenas (tamoios e temiminós) favoreceu os interesses lusos, que precisavam de apoio para reconquistar a baía. Os lusitanos conseguiram, desse modo, reforçar os seus efetivos em cerca de 8.000 indígenas conhecedores do território e inimigos tradicionais dos tamoios, que os ajudaram a expulsar os franceses e a etnia indígena rival da Guanabara.ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
O confronto mais violento ocorreu em 20 de janeiro de 1567, em Uruçumirim, no atual outeiro da Glória, onde os franceses e tamoios estavam aquartelados. Durante a luta, uma flecha envenenada raspou o rosto de Estácio de Sá, que morreu posteriormente, vítima de infecção. Ao ataque, seguiu-se uma matança noturna, da qual as forças portuguesas e temiminós saíram vitoriosas. A partir daí, a cidade do Rio de Janeiro, que, nesse meio-tempo, havia sido fundada por Estácio de Sá em 1565 no sopé do morro Cara de Cão, teve assegurada sua sobrevivência.
Nesse mesmo período, a monarquia portuguesa passou a conceder benefícios aos indígenas que contribuíram para a realização dos seus objetivos, como foi o caso de Arariboia. Tendo vivido nas fases iniciais da colonização portuguesa no Brasil, na segunda metade do século XVI, Arariboia teve um papel crítico para a vitória lusitana na luta pelo controle da Baía de Guanabara, frente a oposição dos tamoios e seus aliados franceses. Por ter sido um importante personagem no estabelecimento do domínio português sobre o atual território do estado do Rio de Janeiro, teve sua contribuição recompensada com a concessão de hábitos e comendas das ordens militares, recebendo também o título de capitão-mor de sua aldeia e sesmaria na margem oposta à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Tal sesmaria recebeu o nome de São Lourenço dos Índios, e posteriormente desenvolveu-se na atual cidade de Niterói.
Arariboia, assim como outros indígenas, foram decisivos para as conquistas portuguesas no território brasileiro. Para os indígenas, a relação com os europeus não visava somente a concessão de benefícios. Em muitos casos, eles buscavam estabelecer as relações com objetivo de conquistar aliados para somar o seu contingente no combate contra seus inimigos. No episódio de Arariboia, a aliança inicial trouxe benefícios mútuos aos temiminós e aos portugueses, sobretudo no contexto das disputas militares contra os franceses e grupos indígenas rivais. Para os temiminós, o apoio português representava uma possibilidade de sobrevivência política e militar diante da pressão exercida pelos tamoios. Entretanto, a longo prazo, essa relação tornou-se consideravelmente desigual. Enquanto os portugueses consolidaram sua ocupação territorial, expandiram a colonização e fortaleceram seu controle sobre a região da Guanabara, os indígenas aliados passaram progressivamente por processos de dependência, redução de seus territórios, catequização e desestruturação social. Desse modo, embora Arariboia e sua liderança tenham recebido reconhecimento da Coroa Portuguesa, a aliança acabou beneficiando de maneira mais duradoura o projeto colonial português do que os próprios temiminós.
Descendentes Os descendentes de Arariboia formaram uma importante linhagem de lideranças indígenas, com capital político e econômico durante o período colonial. Dentre seus descendentes figuram:
Violante do Céu Soares de Souza miniaturadaimagem|Placa comemorativa da igreja de São Domingos de Gusmão, fundada nas terras doadas por Violante do Céu, descendente de Arariboia.