A rubéola, do latim rubella, é uma doença infetocontagiosa causada pelo vírus da rubéola e pode ser transmitida entre seres humanos por via aérea através do contacto direto com secreções de indivíduos infetados.Atkinson, W. 2011. Epidemiology and Prevention of Vaccine-Preventable Diseases. 12ª edição. Washington. The Public Health Foundation.Centers for Disease Control and Prevention. 2014. Rubella (German Measles, Three-Day Measles). Retirado de http://web.archive.org/web/20150402175306/http:/www.cdc.gov/rubella/about/index.html.Frey, T. K. 2008. Rubella Virus In Encyclopedia of Virology. Mahy, B. W. J.; Van Regenmortel, M. H. V. (eds.) Cambridge, Massachusetts. Academic Press: 514-522.Lambert, N.; Strebel, P.; Orenstein, W.; Icenogle, J.; Poland, G. A. 2015. Rubella. The Lancet. 385 (9984): 2297-2307.
Em alguns casos, os sintomas desta doença são ligeiros, o que faz com que os indivíduos infetados não se apercebam de que estão infetados.World Health Organization. 2011. Rubella vaccines: WHO position paper. Weekly epidemiological record. 86 (29): 301-316. Cerca de duas semanas após o contacto com o vírus da rubéola, é frequente o aparecimento de erupções cutâneas de tonalidade avermelhada que tendem a desaparecer ao fim de três dias. Na maioria dos casos, o aparecimento destas erupções cutâneas tem início na cara, alastrando-se posteriormente para o resto do corpo. O risco de contágio é mais elevado uma semana antes e uma semana depois do aparecimento das erupções cutâneas.
A rubéola foi descrita pela primeira vez em meados do século XVIII por dois médicos alemães que a denominaram por roteln, no entanto, a doença ficou globalmente conhecida como sarampo alemão.Best, J. M.; Banatvala, J. E. 2000. Rubella In Principles and Practice of Clinical Virology. Zuckerman, A. J.; Banatvala, J. E.; Pattison, J. R. (eds.) New Jersey. John Wiley & Sons: 387-418.
Os sintomas da rubéola eram frequentemente confundidos com os do sarampo, uma vez que o aparecimento de erupções cutâneas de tonalidade avermelhada é comum a ambas as doenças. As erupções cutâneas podem causar prurido e as que resultam da infeção pelo vírus da rubéola adquirem uma coloração menos avermelhada do que as que resultam da infeção pelo vírus do sarampo.
A rubéola foi oficialmente reconhecida como uma doença distinta do sarampo em 1881 durante o International Congress of Medicine que decorreu em Londres.Shmaefsky, B. R. 2009. Rubella and Rubeola: Deadly diseases and epidemics. New York. Chelsea House Publishers.
A linfadenopatia é caracterizada pelo tamanho, consistência ou número anormais dos nódulos linfáticos e encontra-se comummente associada à rubéola.Patel, M. K.; Gibson, R.; Cohen, A.; Dumolard, L.; Gacic-Dobo, M. 2018. Global landscape of measles and rubella surveillance. Vaccine. 36 (48): 7385-7392. O aumento do tamanho dos nódulos linfáticos é o sintoma mais comum e tende a durar algumas semanas. É também possível que ocorra febre, garganta inflamada e cansaço.Morales, M.; Lanzieri, T.; Reef, S. E. 2020. Travel: Related Infectious Diseases In CDC Yellow Book 2020: Health Information for International Travel. Atlanta, Georgia. Centers for Disease Control and Prevention: 78. Em indivíduos adultos são também comuns as dores nas articulações. Entre as complicações que a infeção pelo vírus da rubéola pode causar estão problemas hemorrágicos, inchaço dos testículos e inflamação dos nervos.
A infeção pelo vírus da rubéola é particularmente preocupante no início da gestação, podendo resultar na morte do feto ou no desenvolvimento da síndrome da rubéola congénita (SRC) no recém-nascido, no entanto, a evolução do estado gestacional tende a estar relacionada com a diminuição do risco de desenvolvimento de defeitos congénitos.
A estratégia mais eficiente para a prevenção da infeção pelo vírus da rubéola é a vacinação dos indivíduos durante a infância a uma escala global.Seppälä, E. M.; López-Perea, N.; Torres de Mier, M. V.; Echevarría, J. E.; Fernández-García, A.; Masa-Calles, J. 2018. Last cases of rubella and congenital rubella syndrome in Spain, 1997-2016: The success of a vaccination program. Vaccine. 37 (1): 169-175. A vacina contra a rubéola é combinada com a vacina contra o sarampo e a vacina contra a parotidite epidémica.Direção Geral da Saúde. 2020. Programa Nacional de Vacinação. Retirado de https://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/programa-nacional-de-vacinação/vacinas-do-pnv/rubeola.aspx. Esta combinação é denominada por VASPR e a administração de uma única dose tem uma eficácia superior a noventa e cinco porcento, no entanto, o Programa Nacional de Vacinação (PNV) recomenda a administração de duas doses, a primeira aos doze meses e a segunda aos cinco anos de idade.
A rubéola é uma doença comum em várias regiões do mundo, sendo que ocorrem cerca de cem mil casos de síndrome da rubéola congénita por ano, no entanto, a incidência da doença diminuiu significativamente em diversas áreas do globo como resultado da vacinação. Estão atualmente a ser desenvolvidos esforços no sentido de erradicar totalmente a doença. Em Portugal, a eliminação da rubéola e do sarampo foi confirmada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 29 de outubro de 2015.Serviço Nacional de Saúde. 2018. Sarampo e Rubéola mantêm-se eliminadas em Portugal. Retirado de http://www.insa.min-saude.pt/sarampo-e-rubeola-mantem-se-eliminadas-em-portugal/.
Sintomas Em alguns casos, a infeção pelo vírus da rubéola não produz qualquer manifestação clínica percetível, contudo, os sintomas mais comuns são:
O aparecimento de erupções cutâneas de tonalidade avermelhada; O aumento do tamanho dos nódulos linfáticos; O aumento da temperatura corporal; A ocorrência de dor ou irritação na garganta.
Outros sintomas são o cansaço, a dor articular, a inflamação ocular, a dor de cabeça, a dor aquando da deglutição de alimentos sólidos e líquidos, a desidratação cutânea, a congestão nasal e a esternutação.
Síndrome da rubéola congénita O oftalmologista australiano Norman McAlister Gregg foi quem reportou a síndrome da rubéola congénita pela primeira vez em 1941 depois de ter ocorrido uma epidemia de rubéola no ano anterior que provocou a opacidade reticular nas crianças cuja mãe foi infetada pelo vírus da rubéola durante a gravidez.Gregg, N. M. 1941. Congenital cataract following German measles in the mother. Epidemiology & Infection. 107 (1): iii-xiv.
Na síndrome da rubéola congénita, o vírus da rubéola passa do sangue da mãe para a placenta através do cordão umbilical, podendo provocar deficiências auditivas, problemas oculares, defeitos cardíacos ou craniofaciais, bem como defeitos temporários, tais como púrpura, meningoencefalite, dilatação do fígado ou do baço e doenças ósseas associadas à radiolucidez dos ossos longos do recém-nascido.
Vírus da rubéola Taxonomia:
Reino: Orthornavirae Filo: Kitrinoviricota Classe: Alsuviricetes Ordem: Hepelivirales Família: Matonaviridae Género: Rubivirus Espécie: Rubella virus
O vírus da rubéola foi isolado pela primeira vez em 1962 por Parkman e Weller. Este agente patogénico pertence à família Matonaviridae em homenagem ao médico e botânico britânico William George Maton que reconheceu a rubéola como uma doença distinta do sarampo pela primeira vez em 1814.Chen, R.; Mukhopadhyay, S.; Merits, A.; Bolling, B.; Nasar, F.; Coffey, L. L.; Powers, A.; Weaver, S. C.; Smith, D.; Simmonds, P.; Siddell, S. 2018. Create a new family Matonaviridae to include the genus Rubivirus, removed from the family Togaviridae. February: 1-7. Até 2018, o vírus da rubéola era classificado como membro da família Togaviridae. Esta mudança taxonómica foi levada a cabo pelo International Committee on Taxonomy of Viruses (ICTV), uma vez que a rubéola é considerada uma doença exclusiva dos seres humanos e os restantes membros da família Togaviridae infetam tanto insetos como mamíferos.
A base molecular desta doença ainda não é totalmente conhecida.Megyeri, K.; Berencsi, K.; Halazonetis, T. D.; Prendergast, G. C.; Gri, G.; Plotkin, S. A.; Rovera, G.; Gönczöl, E. 1999. Involvement of a p53-Dependent Pathway in Rubella Virus-Induced Apoptosis. Virology. 259 (1): 74-84. Estudos in vitro revelaram que o vírus da rubéola tem um efeito apoptótico em determinadas células, contudo, este mecanismo depende da proteína p53, responsável pela regulação do ciclo celular e supressão tumoral.
A replicação do vírus da rubéola está associada a danos mitocondriais. As mitocôndrias são os componentes celulares responsáveis pela produção de energia, assim sendo, ao serem danificadas, o desempenho das suas funções fica comprometido, fazendo com que as células não sejam capazes de desempenhar processos vitais, o que pode culminar na morte celular.
Este agente patogénico é relativamente instável, pelo que fica num estado de inatividade em meios cujo pH seja baixo, cuja temperatura seja elevada e onde haja incidência de radiação ultravioleta.
Diagnóstico em laboratório Tendo em conta a generalidade dos sintomas, a única evidência com total fiabilidade é a deteção do vírus da rubéola através da reação em cadeia da polimerase, do inglês Polymerase Chain Reaction ou PCR.
O vírus da rubéola pode ser isolado a partir do muco nasal, do sangue, da urina e do líquido cefalorraquidiano, no entanto, apesar da cultura viral constituir um importante meio de diagnóstico, este não é utilizado com muita frequência, uma vez que não é prático, na medida em que exige um trabalho intensivo.
Atualmente o meio de diagnóstico utilizado com mais frequência é o Enzyme-Linked Immunosorbent Assay (ELISA), uma vez que é um método de fácil e rápida realização, baseado numa análise serológica sensível ao aumento significativo da produção de anticorpos contra a rubéola.
Vacinação
A vacina contra a rubéola é composta por vírus da rubéola enfraquecido e pode ser produzida em associação com o sarampo (dupla viral) ou com o sarampo e a parotidite epidémica (tríplice viral).
A vacina contra a rubéola não deve ser administrada a mulheres grávidas e as mulheres vacinadas devem evitar engravidar durante o mês seguinte à vacinação, uma vez que, mesmo enfraquecido, o vírus da rubéola pode passar do sangue da mãe para a placenta e infetar o feto.
A prevenção dos efeitos da rubéola nos fetos é o principal objetivo da vacinação, uma vez que estes contribuem significativamente para a ocorrência de abortos espontâneos ou para o desenvolvimento da síndrome da rubéola congénita. O risco de desenvolvimento da síndrome da rubéola congénita é mais elevado em países cuja vacina não consta no programa de vacinação ou cujas mulheres em idade fértil apresentam um elevado nível de suscetibilidade.
A atual política de vacinação contra a rubéola é bastante eficaz no que diz respeito à manutenção dos níveis de anticorpos produzidos pelos indivíduos de uma determinada população, no entanto, é importante destacar que a resposta à vacina é extremamente variável.Crooke, S. N.; Haralambieva, I. H.; Grill, D. E.; Ovsyannikova, I. G.; Kennedy, R. B.; Poland, G. A. 2019. Seroprevalence and durability of rubella virus antibodies in a highly immunized population. Vaccine. 37 (29): 3876-3882.
Tratamento Não existe um tratamento específico para a infeção pelo vírus da rubéola, assim sendo, é comum que o tratamento se restrinja ao controlo dos sintomas enquanto o organismo dos indivíduos infetados desenvolve resistência ao vírus. A utilização de analgésicos e antipiréticos, tais como o paracetamol ou o metamizol, pode amenizar a dor e a febre. Durante a gravidez é frequente a administração de gamaglobulinas como forma de prevenir problemas futuros.
Tendo em conta a dificuldade de tratar doenças causadas por vírus, as políticas de saúde estão focadas na prevenção através da administração da vacina contra a rubéola.