O debate da natureza versus criação (em inglês, nature vs. nurture), ou inato e adquirido, é clássico desde o surgimento da psicologia. Ele discute a que grau uma característica comportamental é inata (por exemplo, herdada geneticamente) ou adquirida através da interação com o ambiente físico e sociocultural.

História Origens A combinação complementar dos dois conceitos é um conceito antigo (em grego: ἁπό φύσεως καὶ εὐτροφίας, "da natureza e nutrição/cultivo", conforme a frase aparece no diálogo platônico Protágoras).No diálogo Protágoras 351b de Platão, uma oposição é feita pelo personagem de Protágoras entre arte por um lado e constituição e nutrição adequada (natureza e criação) da alma de outro, arte (bem como ira e loucura; ) contribuindo à audácia (), mas natureza e nutrição se combinam para contribuir à coragem (). "Protagoras, in spite of the misgiving of Socrates, has no scruple in announcing himself a teacher of virtue, because virtue in the sense by him understood seems sufficiently secured by nature and nurture." Mackay, Robert W. (1869). "Introduction to the 'Meno' in comparison with the 'Protagoras'." p. 133–50. In: Plato's Meno: A Dialogue on the Nature and Meaning of Education. Londres: Williams and Norgate. p. 138. Natureza é o que as pessoas pensam como pré-programado e é influenciada pela herança genética e outros fatores estruturais biológicos. A criação é geralmente considerada como a influência de fatores externos após a concepção, por exemplo, o produto da exposição, experiência e aprendizagem de um indivíduo, mas também pode se estender ao ambiente pré-natal.

Na China antiga também há dois exemplos em que o par conceitual do inato versus o adquirido são tratados. Xunzi (310-238 a.C.), filósofo com obra homônima, apresenta principalmente no seu capítulo 23 "Xìng è 性惡 (A natureza humana é odiosa)" que o ser humano tem uma natureza (xìng 性) que pode ser chamada em termos atuais de "biológica", por um lado, mas pode se transformar por meio de uma construção ou esforço consciente (wěi 偽) em que, por meio das suas capacidades inatas e desse esforço explícito, adquiri habilidades sociais que o tornam um ser mais realizado. Para o Xunzi, caso as pessoas se comportem apenas a partir das necessidades da sua natureza biológica haveria a tendência de comportamentos individualistas, pois as necessidades biológicas são sempre individuais. Mas conseguindo transformar essa natureza biológica socialmente problemática por meio de esforço consciente para uma direção mais educada do comportamento, o ser humano ser mais sábio, vivendo tanto a sua natureza quanto a sua sociabilidade de forma mais completa. Depois, de acordo com os Registros do Grande Historiador (94 a.C.) por Sima Qian, durante a revolta de Chen Sheng Wu Guang em 209 a.C., Chen Sheng fez a pergunta "como reis, nobres, generais e ministros podem ser geneticamente determinados?" (王侯將相寧有種乎) para chamar à revolução.Sima Qian. Records of the Grand Historian. 048 – via Wikisource. Embora Chen tenha sido obviamente negativo quanto à pergunta, a frase tem sido frequentemente citada como uma das primeiras pesquisas sobre o problema da natureza versus criação.李盟编,DNA密码,中国言实出版社,2012.04,第133页

A expressão aliterativa "nature and nurture" em inglês tem sido usada pelo menos desde o período elisabetanoEm inglês, pelo menos desde Shakespeare (The Tempest 4.1: a born devil, on whose nature nurture can never stick) e Richard Barnfield (Nature and nurture once together met / The soule and shape in decent order set.); no século XVIII foi usada por Philip Yorke, 1º Conde de Hardwicke (Roach v. Garvan, "I appointed therefore the mother guardian, who is properly so by nature and nurture, where there is no testamentary guardian.") e remonta ao francês medieval.O uso inglês é baseado em uma tradição que remonta à literatura medieval, na qual a oposição de nature ("instinto, inclinação") norreture ("cultura, morais adotadas") é um motivo comum, famosamente no Perceval de Chretien de Troyes, em que o esforço do herói de suprimir seu impulso natural de compaixão em favor do que ele considera como comportamento cortês apropriado leva à catástrofe. Lacy, Norris J. (1980) The Craft of Chrétien de Troyes: An Essay on Narrative Art, Brill Archive, p. 5. A frase em seu sentido moderno foi popularizada pelo polímata vitoriano Francis Galton, o fundador moderno da eugenia e da genética comportamental quando ele estava discutindo a influência da hereditariedade e do ambiente no avanço social. Galton foi influenciado pelo Origem das Espécies, escrito por seu meio-primo, o evolucionista Charles Darwin.

A visão de que os humanos adquirem todos ou quase todos os seus traços comportamentais da "criação" foi denominada tabula rasa ('lousa em branco, raspada'), termo encontrado no Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690) de John Locke, frequentemente citado como o documento fundamental dessa visão. No Ensaio, Locke critica especificamente a afirmação de René Descartes da existência de ideias inatas, tal como a de Deus, que seriam universais para a humanidade. A opinião de Locke foi duramente criticada em sua própria época. Anthony Ashley-Cooper, 3º Conde de Shaftesbury, reclamou que, ao negar a possibilidade de quaisquer ideias inatas, Locke "expulsou toda ordem e virtude do mundo", levando ao relativismo moral total. No século XIX, a perspectiva predominante era contrária à de Locke, tendendo a se concentrar no "instinto". Leda Cosmides e John Tooby observaram que William James (1842–1910) argumentou que os humanos têm mais instintos do que os animais, e que uma maior liberdade de ação é o resultado de ter mais instintos psicológicos, não menos.Cosmides & Tooby, Evolutionary Psychology: A Primer. psych.ucsb.edu

A questão das "ideias inatas" ou "instintos" teve alguma importância na discussão do livre arbítrio na filosofia moral. Na filosofia do século XVIII, isso foi lançado em termos de "ideias inatas" estabelecendo a presença de uma virtude universal, pré-requisito para a moral objetiva. No século XX, esse argumento foi de certa forma invertido, já que alguns filósofos (como J. L. Mackie) agora argumentavam que as origens evolutivas dos traços comportamentais humanos nos força a admitir que não há fundamento para a ética, enquanto outros (Thomas Nagel) tratavam da ética como um campo de afirmações cognitivamente válidas em completo isolamento de considerações evolutivas.

Atualidade Reconhece-se atualmente que natureza e ambiente contribuem conjuntamente em interação à formação do indivíduo e sua mente, sem exclusão um do outro. Há características que possuem uma porcentagem maior de um componente do que de outro, como visto em estudos de herdabilidade, e o conceito atual de instinto é utilizado para tendências comportamentais inatas, tal como as habilidades adaptativas da espécie em seus módulos cognitivos. As áreas contemporâneas que sintetizam esses níveis de análise são as ciências cognitivas e a sociobiologia, as quais utilizam conhecimentos da psicologia evolucionista, genética do comportamento e epigenética do comportamento.

Uma visão de "lousa em branco" na psicologia do desenvolvimento humano, que assume que os traços comportamentais humanos se desenvolvem quase exclusivamente atribuídos às influências ambientais, foi amplamente defendida durante grande parte do século XX. O debate entre a negação "tábula rasa" da influência da herdabilidade e a visão que admite ambas as características ambientais e hereditárias muitas vezes é lançado em termos de natureza versus criação. Essas duas abordagens conflitantes do desenvolvimento humano estiveram no centro de uma disputa ideológica sobre as agendas de pesquisa ao longo da segunda metade do século XX. Como os fatores da "natureza" e da "criação" contribuem substancialmente, muitas vezes de maneira inextricável, essas visões são consideradas ingênuas ou desatualizadas pela maioria dos estudiosos do desenvolvimento humano a partir da década de 2000.Esposito, E. A.; Grigorenko, E. L.; Sternberg, Robert J. (2011). "The Nature–Nurture Issue (an Illustration Using Behaviour-Genetic Research on Cognitive Development)." In: Slater, A.; Bremner, G. (Orgs.). An Introduction to Developmental Psychology. 2ª ed. British Psychological Society Blackwell. p. 85.Dusheck, Jennie. 2002. "The Interpretation of Genes". Natural History.Carlson, N. R. et al. 2005. Psychology: the science of behaviour (3rd Canadian ed.). Pearson. .Ridley, M. 2003. Nature via Nurture: Genes, Experience, & What Makes Us Human. HarperCollins. .

Steven Pinker, em sua obra Tábula Rasa, abordou os extremos de determinismo biológico ou determinismo ambiental, criticando-os com base no conhecimento atual e sobre como levaram a prejuízos quando aplicados fora da ética. O behaviorismo na década de 1920 propunha um ambientalismo radical, como no enunciado de John B. Watson:"Dêem-me uma dúzia de recém-nascidos sadios, bem formados, e um mundo pacificado por mim para criá-los, e garanto escolher qualquer um ao acaso e prepará-lo para tornar-se qualquer tipo de especialista que eu possa selecionar - médico, advogado, artista, comerciante e, sim, até mesmo mendigo e ladrão, independentemente de seus talentos, pendores, tendências, capacidades, vocações e raça de seus ancestrais"Pinker discorreu historicamente que o determinismo ambiental também predominou nas ciências sociais e na antropologia cultural do século XX, bem como teve aplicação em ideologias autoritárias de esquerda que manipularam o conceito de tábula rasa para a engenharia social. Por outro lado, ideologias como o nazismo e de progressistas da primeira metade do século XX apelaram ao extremo do inatismo, aplicando doutrinas como o darwinismo social, racismo científico e eugenia. Em meio a isso, o debate científico quanto à contribuição dos fatores inatos e ambientais foi combatido por cristãos conservadores, de modo que, embora tenham combatido as doutrinas de eugenia, pelo fundamentalismo religioso rejeitaram todas as tentativas científicas de explicação biológica do comportamento humano, por medo de infringir temas como a alma, o livre-arbítrio e determinações sobrenaturais divinas.

No auge da controvérsia, durante os anos 80 e 90, o debate era ainda altamente ideologizado. Em Not in Our Genes: Biology, Ideology and Human Nature (1984), Richard Lewontin, Steven Rose e Leon Kamin criticaram o "determinismo genético" a partir de uma estrutura marxista, argumentando que "A ciência é o legitimador final da ideologia burguesa ... Se o determinismo biológico é uma arma na luta entre as classes, então as universidades são fábricas de armas e seu corpo docente e de pesquisa são os engenheiros, projetistas e trabalhadores da produção." O debate, portanto, mudou de se os traços herdáveis existem para se era politicamente correto ou eticamente permitido admitir sua existência. Os autores a negavam, requerendo que as inclinações evolutivas sejam descartadas nas discussões éticas e políticas, independentemente de existirem ou não.Kohn, A. (2008) The Brighter Side of Human Nature. Basic Books. Essa defesa da tábula rasa como dogma ideológico foi considerada por Steven Pinker como emocionalmente motivada pelo mito do bom selvagem e do fantasma na máquina. Apenas a partir dos anos 90 ocorreu uma virada, quando livros sumarizaram a grande quantidade de evidências acumuladas até então e as estimativas de herdabilidade estavam mais fáceis de serem realizadas com o avanço dos estudos genéticos.