Os Mutantes são uma banda brasileira de rock psicodélico, formada em São Paulo, no ano de 1966. A banda é considerada um dos principais grupos do rock brasileiro, tendo participado ativamente do movimento tropicalista.THEDY, Pedro de Castro. A revolução tecnológica do áudio no Brasil: um estudo sobre a discografia dos Mutantes. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Comunicação - Habilitação em Radialismo) - Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021. Foi fundada por Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias. Posteriormente, Liminha e Dinho Leme foram incluídos à banda.

Assim como grande parte dos grupos da época, Os Mutantes foram fortemente influenciados por The Beatles, Jefferson Airplane, The Mamas & the PapasContracapa do álbum. Tropicália ou Panis et Circensis. São Paulo: 1968. Philips., The Rolling Stones e Jimi Hendrix. No entanto, os músicos brasileiros também referenciavam sua cultura local, com influências brasileiras. O grupo também é reconhecido por exercer sua criatividade na utilização de efeitos de estúdio, como feedback e distorção, como era feito pelos Beatles e pelo grupo The Beach Boys. Foram pioneiros na mescla do rock and roll com elementos musicais e temáticos brasileiros. Além disso, eram conhecidos pelo estilo irreverente, com bastante experimentalismo em suas músicas e performances.

O grupo se tornou um dos principais expoentes do rock brasileiro, em uma época onde o uso da guitarra elétrica ainda não era tão aceito no país. Continuaram em atividade até o ano de 1978. Ao longo dos anos, foram gravados nove álbuns, sendo que dois deles - O A e o Z e Tecnicolor - só foram lançados na década de 1990, quando o grupo passou a ser reconhecido como um dos mais criativos e inventivos da história do rock mundial.

Em 2006, a banda se reuniu novamente, com a participação de Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Dinho Leme como membros de sua formação clássica, também contando com Zélia Duncan nos vocais. No ano seguinte, Arnaldo e Zélia se desligaram da banda. A banda, nos anos seguintes, foi recomposta com outros músicos e continua a fazer shows sob a liderança de Sérgio Dias, único membro restante da formação original.

Atualmente, a banda conta com Sérgio Dias (guitarra e vocais), Esméria Bulgari (vocais), Vinícius Junqueira (baixo), Claudio Tchernev (bateria), Henrique Peters (teclados) e Camilo Macedo (guitarra).

História

1962–1966: Formação

Os irmãos Dias Baptistas e suas bandas No início da década de 1960, os irmãos Dias Baptista (Cláudio César, Arnaldo e Sérgio), moradores da rua Venâncio Aires, no bairro da Pompeia, em São Paulo, começaram a se interessar em fazer música, no começo da popularização do rock no país. O interesse partiu primeiro do amigo de Cláudio César, Raphael Vilardi. Em 1962, Raphael, inspirado nos grupos que tocavam rock na televisão, juntou dinheiro para comprar sua primeira guitarra, uma Giannini. Cláudio não se entusiasmou muito com a ideia. No entanto, seu irmão mais novo, Arnaldo, se animou com a ideia de tocar como as bandas de twist que eram populares na época e vendeu uma moeda de ouro de 10 dólares, e com o dinheiro obtido comprou um baixo elétrico, um Del Vecchio sem trastes.

Arnaldo e Raphael acabaram convencendo Cláudio César, que decidiu comprar um saxofone, inspirado no grupo de twist Jet Blacks. Porém, o saxofone precisava ser importado, o que demoraria alguns meses. Enquanto o saxofone não chegava, decidiu começar a tocar guitarra e logo ganhou uma Fender Jaguar azul de seu pai, César Dias Baptista. O pai dos irmãos Dias Baptista era poeta, jornalista e cantor amador de ópera e na época, secretário pessoal do então governador do estado de São Paulo, Ademar de Barros. A mãe era Clarisse Leite, pianista e professora de música. Desde cedo, ensinou os filhos a tocarem e entender música e teoria musical, também os encorajando a tocarem instrumentos.

Poucos meses depois, formaram o grupo The Thunders, com Raphael Vilardi (guitarra solo), Cláudio César (guitarra base), Arnaldo (baixo) e "Gaguinho" (bateria), apelido de José Roberto Rocco. Logo, começaram a tocar em festas de colégios e igrejas da Pompeia. Com a saída de Gaguinho, entrou Luiz Pastura, baterista.

Notando a falta de qualidade sonora das guitarras da banda, Cláudio César decidiu começar a fazer instrumentos e passou a ser aprendiz de Vitório Quintílio, ex-funcionário da Del Vecchio e que fazia captadores para a Giannini. Depois disso, passou a fazer suas próprias guitarras: durante alguns meses, Cláudio apenas copiou modelos de grandes marcas internacionais de guitarras, o que ajudou a desenvolver habilidade manual. Logo, criou sua marca, Regvlvs, e passou a vender seus próprios modelos de guitarra, assim como pedais de efeitos e amplificadores pequenos.

O baterista Luiz Pastura decidiu convidar Arnaldo e Raphael para um show da banda The Wooden Faces no Teatro João Caetano, grupo formado por quatro jovens que tocavam nos bailes da região da Vila Mariana. Raphael e Arnaldo gostaram muito do som deles e decidiram passar a assistir os ensaios da banda. Nessa época, havia tensões entre os membros do The Thunders, com uma disputa entre Cláudio e Raphael para poder fazer solos. Logo, Raphael foi convidado a tocar no The Wooden Faces, e conseguiu convencer os outros membros a chamar Arnaldo para entrar na banda. Já em 1964, o The Wooden Faces era formado por Arnaldo (baixo), Raphael (guitarra), Tobé (guitarra), Roberto (bateria) e Sérgio Orlando (piano). Durante essa época, o irmão mais novo de Arnaldo, Sérgio, começou a ser reconhecido pelo seu talento musical, por conseguir repetir tudo que os irmãos e Raphael faziam nas guitarras, às vezes até com mais velocidade. Porém, por ser mais novo que os outros, nem sempre era incluído para participar dos ensaios e shows.

Rita Lee e as The Teenage Singers Em 1963, Rita Lee, aos quinze anos de idade na época, descobriu que aconteceria um concurso para novos conjuntos, patrocinado pelo programa de Miguel Vaccaro Netto, na Rádio Record. Se juntou com sua amiga, Suely Chagas, e convenceu mais duas amigas, Jean e Beatrice, para criarem um conjunto para o programa, onde iriam apresentar "Will You Love Me Tomorrow?", do grupo The Shirelles. O quarteto adotou o nome The Teenage Singers. Se apresentaram algumas vezes em festas domésticas e bailes de formatura, em colégios da Zona Sul de São Paulo. Como as The Teenage Singers eram um grupo vocal, passaram a se apresentar junto com outros conjuntos. No entanto, o grupo se desfez devido à pressão da família de Jean e Beatrice para não participarem. Com a Beatlemania, as Teenage Singers passaram a querer tocar os próprios instrumentos, adicionando mais duas conhecidas à banda, que agora era formada por Rita Lee (baixo), Eliane (bateria), Suely (violão) e Rosa (piano). O grupo realizou algumas apresentações, até que Rosa e Eliane passaram a tocar em outro conjunto.

No início de 1964, depois de uma apresentação do The Wooden Faces no Teatro João Caetano, Rita e Suely conheceram Raphael, Arnaldo, Tobé e Roberto. Os dois grupos criaram uma amizade e logo, Rita e Arnaldo começaram a se encontrar, com Arnaldo ensinando ela a tocar contrabaixo em troca de dicas vocais. Os dois começaram a namorar. Além de frequentarem as apresentações um do outro, os The Wooden Faces foram acompanhados algumas vezes pelas Teenage Singers.

Em 1964, o clima entre no The Wooden Faces piorou, porque antes da entrada de Raphael e Arnaldo, o grupo tocava um som mais eclético. Ao serem pedidos para tocar uma seleção de jazz e bossa nova, Arnaldo e Raphael se negaram a tocar com a banda. Isso se tornou um hábito e logo, Tobé, Roberto e Sérgio Orlando decidiram sair do The Wooden Faces e formar um trio chamado Samba Novo Trio, que passou a ser mais requisitado para os bailes, também por conta do declínio do twist.

The Six Sided Rockers e O'Seis Com o fim dos The Wooden Faces e notando os fracos vocais do grupo, Raphael decide convidar Rita e Suely para tocar junto com ele e Arnaldo, convidando Luiz Pastura, com quem tinham tocado no The Thunders, para a bateria. Logo, também convidaram Sérgio, irmão mais novo de Arnaldo, para participar como guitarrista solo. Sérgio queria bastante entrar no conjunto e decidiu se comportar para poder entrar no conjunto, aos 13 anos de idade. Com seis membros, decidiram utilizar o nome Six Sided Rockers.

No entanto, Suely decidiu sair da banda, após ganhar uma bolsa de estudos para estudar nos Estados Unidos. Em seu lugar, foi escolhida "Moggy" (apelido de Maria Olga Malheiros), colega de Rita no colégio Liceu Pasteur. Ao tentar se consolidar como um grupo autoral, decidiram compor as próprias músicas e parar de tocar suas versões cover. Em 1966, eles gravaram um compacto simples pela gravadora Continental com as composições "Suicida" (de Raphael e Roberto) e "Apocalipse" (de Raphael e Rita), que vendeu menos de duzentas cópias, vendidas sem o consentimento do conjunto e sob o nome O'Seis, que a gravadora afirmava que seria mais comercial.

O grupo chegou a participar dos programas Show em Simonal e Corte Rayol Show, na TV Record. Começaram também a praticar um estilo chamado "clássico beat", criando arranjos modernos de peças eruditas, por exemplo, tocando música clássica com guitarras elétricas. Na época, o grupo era empresariado por Antonio Peticov. Descontente com o trabalho do empresário, Arnaldo argumentou em trocar por Asdrúbal Galvão, que já empresariava outros grupos. Ele chegou a criar um contrato, mas Moggy, Raphael e Pastura acharam algumas partes inaceitáveis. Arnaldo, Rita e Sérgio decidiram assinar o contrato e continuaram a tocar sem os outros membros, marcando o fim do O'Seis. Posteriormente, Raphael passou a tocar na banda de Erasmo Carlos, os Tremendões. Em 1968, com a volta de Suely Chagas dos Estados Unidos, Raphael formou com ela a banda Suely e os Kantikus.

1966–1969: Tropicália e os primeiros álbuns

Primeiras apresentações Os Mutantes iniciaram suas atividades no dia 15 de outubro de 1966, como um trio, quando se apresentaram no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, da TV Record. Na véspera da estreia do programa, o trio tinha o nome de "Os Bruxos", mas nem Rita Lee nem os irmãos Baptista (Arnaldo e Sérgio) estavam satisfeitos com esse nome e queriam mudá-lo. De acordo com Carlos Calado, a ideia do nome "Os Mutantes" veio de uma brincadeira irônica de Alberto Helena Júnior, produtor do programa, com Ronnie Von, que, na época, andava lendo O Império dos Mutantes, de Stefan Wul,WUL, Stefan. O Império dos Mutantes. Coleção Argonauta, nº 107. Lisboa: Livros do Brasil, 1966. e não falava de outro assunto. Alberto teria proposto: "Vocês ainda estão procurando um nome para o conjunto dos meninos? Por que não Os Mutantes?". Ronnie Von gostou da ideia e levou-a ao grupo, que a aprovou imediatamente. O grupo fez sucesso e foi convidado a fazer parte do elenco fixo do programa. Também participaram das gravações do álbum Ronnie Von - nº 3. No mesmo ano, demitiram o empresário Asdrúbal Galvão, que ameaçou registrar o nome do conjunto como sua propriedade.

No início de 1967, as mudanças na direção artística do programa de Ronnie Von começaram a reduzir as apresentações dos Mutantes e a liberdade dos artistas. Por discordar das novas diretrizes, eles deixaram a Record, passando a se apresentar também em outras emissoras. À convite do maestro Chiquinho de Moraes, da Rede Bandeirantes, Os Mutantes tocaram no programa Quadrado e Redondo, apresentado por Sérgio Galvão. Nessa época, conheceram também o maestro Rogério Duprat. Apadrinhados por Duprat, Os Mutantes começaram a participar dos grandes Festivais de Música Popular, que viviam sua fase áurea na época.

Aproximação com o movimento tropicalista e lançamento de Os Mutantes