Maria da Conceição Sayão Pessoa, mais conhecida como Mary Pessoa (Rio de Janeiro, 3 de junho de 1878 — Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1958), foi uma filantropa, autora de literatura devocional católica e primeira-dama do país durante a presidência de seu marido, Epitácio Pessoa, 11.º presidente do Brasil, entre 28 de julho de 1919 e 15 de novembro de 1922.

Sua atuação pública ficou especialmente associada à criação da Casa de Santa Ignez, instituição fundada na Gávea, em 1919, para prevenir o adoecimento por tuberculose entre moças pobres e trabalhadoras consideradas fisicamente enfraquecidas. Mary foi a idealizadora, doadora inicial e primeira presidente da entidade, cuja proposta combinava assistência médica preventiva, repouso, alimentação, higiene e formação religiosa. Também foi presidente de honra da Legião da Mulher Brasileira, associação inserida nas redes femininas de beneficência, educação cívica e debate sobre os direitos das mulheres no início do século XX.

Estudos recentes situam Mary entre as mulheres de elite que ampliaram sua presença no espaço público por meio da filantropia e do associativismo religioso. Embora sua ação seja apontada como uma das raízes do posterior primeiro-damismo assistencial, a historiografia distingue essas iniciativas da institucionalização política do fenômeno, ocorrida sobretudo nas décadas de 1930 e 1940.

Primeiros anos e família

Mary nasceu no Rio de Janeiro em 3 de junho de 1878. Era filha do médico José Francisco Manso Sayão e de Maria Olímpia Manso Sayão e cresceu no ambiente da alta sociedade carioca do final do Império e dos primeiros anos da República. A documentação arquivística do Museu da República registra como forma autorizada de seu nome completo Maria da Conceição de Manso Sayão da Silva Pessoa e como forma paralela Mary Pessoa.

Em 1898, conheceu Epitácio Pessoa, então deputado e jurista, viúvo desde 1895. O casamento ocorreu em 8 de novembro daquele ano, na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. O casal teve três filhas: Laura, conhecida na família como Laurita, Angelina e Helena.

miniatura|esquerda|Mary e Epitácio Pessoa com a filha Laura, em fotografia familiar da década de 1910.

Antes de ocupar a posição de primeira-dama, Mary já acompanhava o marido em ocasiões sociais vinculadas à vida política. Um relato biográfico reproduzido pela historiadora Dayanny Rodrigues registra que, durante a visita do presidente argentino Julio Argentino Roca ao Brasil, ela abriu uma quadrilha de honra no Palácio do Catete, substituindo na representação social a então primeira-dama Ana Gabriela de Campos Sales, que se encontrava de luto. O episódio foi interpretado como uma iniciação nos deveres cerimoniais que passariam a fazer parte de sua vida pública.

Atuação pública

Primeira-dama do Brasil

Epitácio Pessoa foi eleito presidente em abril de 1919, quando se encontrava na Europa como chefe da delegação brasileira à Conferência de Paz de Paris. Mary integrou a comitiva no retorno ao Brasil, viagem durante a qual a família presidencial passou por países europeus e pelos Estados Unidos. Fotografias, correspondências e documentos desse percurso estão preservados no arquivo de Epitácio Pessoa no Museu da República.

Mary tornou-se primeira-dama em 28 de julho de 1919, aos 41 anos, permanecendo na função até o encerramento do mandato presidencial, em 15 de novembro de 1922. Nesse período, participou de cerimônias, recepções diplomáticas e atividades beneficentes. O acervo presidencial conserva, entre outros documentos, correspondência trocada por Mary e sua família com o rei Alberto I da Bélgica e a rainha Isabel, além de registros da visita oficial do casal real belga ao Brasil, em 1920.

Em 1921, por ocasião do traslado para o Brasil dos restos mortais do imperador Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina, o governo organizou comissões destinadas a acompanhar as cerimônias. Mary foi designada presidente de honra da comissão de senhoras, cuja direção efetiva coube à baronesa de Loreto. A participação feminina integrou o esforço oficial de conferir caráter cívico e nacional às homenagens à antiga família imperial.

Em 17 de junho de 1922, na chegada ao Rio de Janeiro dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, responsáveis pela primeira travessia aérea do Atlântico Sul, Mary batizou de Santa Cruz o hidroavião Fairey 17 empregado na etapa final da viagem. O acontecimento foi registrado em fotografia preservada no acervo do Real Gabinete Português de Leitura.

Casa de Santa Ignez

A principal iniciativa filantrópica associada a Mary foi a Casa de Santa Ignez. Segundo declarações suas publicadas na imprensa católica em 1919 e posteriormente analisadas pelo historiador Deilson Barbosa da Silva, a origem do projeto remontava à recuperação de uma prima de compleição frágil, considerada em risco de desenvolver tuberculose, em uma residência da família na Gávea. Mary afirmou ter feito um voto religioso de dedicar recursos e parte de sua vida à proteção de trabalhadoras pobres ameaçadas pela doença. Para viabilizar a instituição, doou a casa e uma quantia em dinheiro.

A entidade foi fundada em 21 de agosto de 1919, na Gávea, tendo Mary como idealizadora e presidente da primeira diretoria. Evelina Ribeiro Burlamaqui ocupou a vice-presidência; Lavínia de Sousa Ribeiro Guimarães e Laura Pederneiras exerceram funções de secretaria; Henrique Carneiro Leão Teixeira foi o tesoureiro; e o médico sanitarista Amaury de Medeiros assumiu a direção médica.

A Casa de Santa Ignez foi concebida como um preventório, e não como um hospital ou sanatório para pessoas já acometidas de tuberculose. Destinava-se a moças pobres, empregadas e operárias classificadas, na terminologia médico-social da época, como “enfraquecidas” ou “pré-tuberculosas”: mulheres expostas ao contágio doméstico ou consideradas vulneráveis devido à alimentação insuficiente, ao excesso de trabalho e às condições precárias de moradia. Seu objetivo era afastá-las temporariamente dos ambientes de risco e fortalecer sua saúde por meio de repouso, alimentação, higiene, acompanhamento médico e vida ao ar livre.

As atividades não começaram imediatamente após a fundação. O estabelecimento foi instalado em 1921, inicialmente com dezoito internas, em terreno adquirido no mesmo bairro e aprovado pelos médicos Miguel Couto e Edgar de Abranches. A inauguração oficial ocorreu em 21 de janeiro de 1922, data dedicada a Santa Inês, padroeira da instituição.

A administração e o cotidiano da Casa refletiam simultaneamente concepções sanitárias, filantrópicas, religiosas e de gênero vigentes nas primeiras décadas do século XX. Mulheres ocupavam a maior parte dos cargos de direção, enquanto o atendimento incluía supervisão médica e a colaboração das religiosas da Congregação das Filhas de Sant'Ana. Além de proteger as residentes contra a tuberculose, o regime institucional procurava inculcar hábitos de higiene, disciplina doméstica, trabalho e moral cristã, elementos então considerados parte da preparação feminina para a vida familiar.

A pesquisa histórica mais recente corrige, assim, a descrição recorrente de que a Casa teria sido criada para tratar trabalhadoras já tuberculosas. As fontes contemporâneas e os estudos especializados indicam que sua finalidade original era preventiva e profilática. A iniciativa também evidencia as possibilidades e os limites da ação pública de mulheres da elite: por meio da caridade, elas conquistavam espaço de organização e intervenção social, embora reproduzissem valores paternalistas, religiosos e higienistas de seu tempo.

A instituição permaneceu em funcionamento na Gávea e, em períodos posteriores, redirecionou suas atividades para projetos de assistência social e educação de crianças e adolescentes. A rua onde está localizada recebeu o nome de Rua Mary Pessoa, preservando a ligação entre a fundadora e a entidade.

Legião da Mulher Brasileira e debate sobre o sufrágio

Mary foi presidente de honra da Legião da Mulher Brasileira, associação formada no Rio de Janeiro no ambiente de expansão do associativismo feminino após a Primeira Guerra Mundial. A entidade reunia mulheres interessadas em beneficência, educação, civismo e direitos femininos. As organizações desse período não constituíam um bloco homogêneo: conviviam nelas católicas, feministas, educadoras e mulheres de diferentes orientações políticas e religiosas.

Entre as reivindicações compartilhadas por diferentes ramos do movimento estava o sufrágio feminino. A condição de presidente de honra não permite concluir que Mary tenha dirigido as ações cotidianas da Legião, mas sua vinculação colocou a primeira-dama em contato com redes que discutiam a cidadania e a presença pública das mulheres. A proximidade da organização com a Igreja Católica e com figuras da elite política também foi alvo de críticas: o escritor Lima Barreto ironizou o caráter oficial e socialmente restrito de parte desse associativismo.

Para a historiografia das mulheres, a presença de Mary nessas redes demonstra que a filantropia conservadora e o feminismo do início do século XX nem sempre ocupavam campos inteiramente separados. Mulheres movidas por valores católicos podiam defender a beneficência como dever cristão e, ao mesmo tempo, colaborar com associações nas quais circulavam propostas de ampliação de direitos e de participação feminina na vida pública.

Religiosidade e produção escrita

O catolicismo ocupou lugar central na vida privada e na atuação pública de Mary. O fundo documental preservado pelo Museu da República contém cartas trocadas com religiosas carmelitas, integrantes da Congregação do Sagrado Coração, padres e instituições assistenciais no Brasil e no exterior. A correspondência trata de práticas devocionais, doações, recomendações pessoais e iniciativas de caridade, revelando uma rede de sociabilidade religiosa que ultrapassava o período presidencial.

Mary também se dedicou à escrita religiosa. Uma carta inacabada conservada no arquivo informa que ela havia publicado dois livretos de sua autoria, embora as descrições arquivísticas não identifiquem ambos os títulos. Um deles foi Espiraes de incenso, publicado no Rio de Janeiro pelos Irmãos Pongetti em 1934. A imprensa da época o apresentou como obra de inspiração católica composta de meditações e textos devocionais.

A associação entre escrita religiosa e trabalho assistencial aproximava Mary de outras filantropas católicas de sua geração. Em estudos sobre essas mulheres, a benemerência aparece formulada como dever cristão e, simultaneamente, como uma via socialmente legitimada para que elas organizassem instituições, administrassem recursos e atuassem fora do espaço doméstico.

Últimos anos, morte e trasladação

Depois do término do governo, Mary continuou ligada à família, à religiosidade e às atividades beneficentes. Ficou viúva em 13 de fevereiro de 1942, quando Epitácio Pessoa morreu em sua propriedade de Nova Betânia, em Nogueira, no município de Petrópolis.

Em 1958, pouco antes de morrer, Mary doou ao Museu Histórico Nacional um conjunto de documentos e objetos relacionados à trajetória pública e familiar de Epitácio Pessoa. O material foi posteriormente transferido para o Museu da República, onde constituiu a base do fundo Epitácio Pessoa. A coleção recebeu acréscimos feitos por sua filha Helena, em 1965, e por uma descendente da família, em 1998.

Mary morreu no Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1958, aos 80 anos. Foi inicialmente sepultada na mesma cidade. Em maio de 1965, seus restos mortais e os de Epitácio Pessoa foram trasladados para a Paraíba. Em 23 de maio, centenário de nascimento do ex-presidente, as urnas foram solenemente inumadas no Museu e Cripta de Epitácio Pessoa, instalado no subsolo do Palácio da Justiça, em João Pessoa, onde permanecem.

Legado e historiografia