Ana Belisário Peçanha, mais conhecida como Anita Peçanha, (Campos dos Goytacazes, 22 de março de 1873 — Rio de Janeiro, 9 de abril de 1960) foi a primeira-dama do país entre 1909 e 1910, durante a presidência de seu marido, Nilo Peçanha, o 7.º presidente do Brasil. Também acompanhou o marido durante períodos em que ele exerceu a presidência do estado do Rio de Janeiro, a Vice-presidência da República e o Ministério das Relações Exteriores.
Integrante de uma família tradicional fluminense, Anita enfrentou a oposição de parentes ao seu casamento com Nilo Peçanha, cuja origem social, identificação racial e participação nos movimentos republicano e abolicionista contrariavam convenções mantidas por setores das elites regionais do final do século XIX. Décadas mais tarde, acompanhou o marido em atividades da campanha presidencial da Reação Republicana. Após ficar viúva, participou de iniciativas assistenciais e dedicou-se à preservação da biblioteca, da correspondência e da memória política de Nilo Peçanha.
Primeiros anos e família
Ana de Castro Belisário Soares de Sousa era filha do advogado João Belisário Soares de Sousa e de Anna Ribeiro de Castro e Sousa. Seu nome aparece nos registros arquivísticos sob diferentes formas: a Casa de Oswaldo Cruz adota “Ana Belisário Peçanha” como forma autorizada, “Ana de Castro Belisário Soares de Sousa” como forma paralela e “Anita Peçanha” como denominação alternativa. Nasceu em Campos dos Goytacazes, no norte da então província do Rio de Janeiro.
As fontes divergem quanto ao dia exato de seu nascimento. O Museu da República registra 22 de março de 1873, enquanto o registro de autoridade da Fundação Oswaldo Cruz informa apenas o intervalo entre 1873 e 1960. Algumas publicações secundárias apresentam datas diferentes, razão pela qual o registro da instituição responsável pelo principal fundo documental da família é adotado com ressalva.
A família Belisário Soares de Sousa estava relacionada aos círculos tradicionais da sociedade campista. Segundo Francisco José Ribeiro de Vasconcellos, João Belisário pertencia a uma família ligada à magistratura e a personagens da elite política e intelectual do Império, enquanto a família materna de Anita possuía vínculos com o visconde de Santa Rita.
De acordo com o biógrafo Brígido Tinoco, citado pelo Instituto Histórico de Petrópolis, Anita recebeu uma educação doméstica compatível com os padrões das famílias abastadas da época. Teria aprendido francês, alemão e piano, além de praticar equitação sob a orientação de uma governanta. Não são conhecidos, entretanto, registros escolares que permitam reconstruir detalhadamente sua formação.
Casamento com Nilo Peçanha
Anita conheceu Nilo Peçanha durante uma viagem de trem ao Rio de Janeiro, na qual estava acompanhada de seu pai. Nilo havia nascido em Campos dos Goytacazes em 2 de outubro de 1867, era filho de Sebastião de Sousa Peçanha e Joaquina Anália de Sá Freire e, depois de formar-se em Direito, participou dos movimentos republicano e abolicionista na região.
O casamento foi realizado em 6 de dezembro de 1895, no Rio de Janeiro, então capital federal. Segundo o Instituto Histórico de Petrópolis, a cerimônia religiosa ocorreu na Igreja de São João Batista da Lagoa e foi celebrada pelo padre José Severino de Azevedo, conhecido como padre Pelinca. Anita tinha 22 anos e Nilo, 28.
A união enfrentou forte oposição de integrantes da família de Anita. Seu pai já havia falecido, e sua mãe e suas irmãs não compareceram à cerimônia. A resistência é relacionada, pelas fontes, à origem econômica de Nilo, ao racismo dirigido contra sua ascendência e aparência e à sua atuação no movimento abolicionista, que se chocava com os valores e interesses de setores da elite agrária fluminense.
Diante da resistência familiar, Anita deixou a residência materna e permaneceu na casa de uma tia antes de efetivar o casamento. O episódio tornou-se recorrente nas biografias de Nilo Peçanha e passou a ser interpretado como uma manifestação das barreiras raciais e de classe existentes na sociedade brasileira do final do século XIX.
A historiografia mais recente procura analisar Anita como sujeito histórico, e não somente como personagem secundária da trajetória do marido. A pesquisadora Dayanny Rodrigues aponta que, apesar dos relatos sobre sua personalidade e sua participação na vida de Nilo, ainda há uma expressiva lacuna historiográfica sobre sua atuação individual.
As fontes divergem quanto ao número e aos nomes dos filhos do casal. A tese de Dayanny Rodrigues, fundamentada em estudo de Avelino Ferreira, menciona três filhos, chamados Nilo, Zulma e Mário. Outras publicações acrescentam uma filha chamada Íris. As fontes convergem ao indicar que o casal não teve descendentes sobreviventes, pois os filhos morreram no nascimento ou durante a infância.
Presença na vida pública
Governo do estado do Rio de Janeiro
Nilo Peçanha assumiu a presidência do estado do Rio de Janeiro em 1903, permanecendo no cargo até 1906, quando tomou posse como vice-presidente da República. Durante esse período, Anita participou da vida social associada ao governo estadual e acompanhou o marido em recepções e compromissos públicos. Ela voltou à posição social de primeira-dama estadual entre 1914 e 1917, durante o segundo governo fluminense de Nilo.
Documentos preservados na Coleção Nilo Peçanha, como cartões de visita, convites e registros de eventos dirigidos conjuntamente ao casal, mostram que Anita era incluída na representação social do governo. Sua participação, entretanto, não correspondia a um cargo público formal, pois as funções das esposas dos governantes não possuíam definição administrativa ou legal durante a Primeira República.
Vice-presidência e Presidência da República
Com a posse de Afonso Pena em 15 de novembro de 1906, Nilo Peçanha tornou-se vice-presidente da República. Após a morte do presidente, em 14 de junho de 1909, Nilo assumiu a Presidência e completou o mandato constitucional até 15 de novembro de 1910. Anita passou, assim, a ocupar a posição convencionalmente denominada primeira-dama do Brasil.
Sua atuação esteve ligada principalmente às dimensões sociais e cerimoniais da Presidência, incluindo recepções, encontros com autoridades e compromissos diplomáticos. A documentação disponível não demonstra que tenha exercido cargo administrativo ou participado formalmente da formulação das políticas governamentais.
A imagem pública do casal foi influenciada pelos preconceitos raciais dirigidos contra Nilo Peçanha. Sua ascensão política provocou comentários e representações hostis em determinados círculos sociais e na imprensa. Nesse contexto, o casamento com Anita, oriunda de uma família socialmente tradicional, foi frequentemente destacado por biógrafos como símbolo da superação de barreiras sociais, embora essa interpretação também possa reduzir Anita a um elemento da trajetória masculina do marido.
Permanência no Palácio Rio Negro
No verão de 1910, o casal presidencial permaneceu por aproximadamente cinquenta dias no Palácio Rio Negro, em Petrópolis. A viagem, inicialmente planejada para janeiro, foi adiada em razão de problemas de saúde de Anita e das recomendações médicas contrárias ao seu deslocamento durante o período de mau tempo. O casal chegou a Petrópolis em 20 de fevereiro.
Durante a temporada, Anita participou de compromissos cerimoniais e recepções. Em 7 de março, o casal recebeu representantes do corpo diplomático. Em 2 de abril, foi realizada uma grande recepção no Palácio Rio Negro, para a qual, segundo a imprensa histórica consultada pelo Instituto Histórico de Petrópolis, foram distribuídos cerca de trezentos convites.
A recepção reuniu ministros, diplomatas, autoridades e integrantes das sociedades do Rio de Janeiro e de Petrópolis, incluindo apresentações musicais e uma quadrilha de honra. O casal deixou o Palácio Rio Negro em 10 de abril de 1910, retornando à capital federal.
Anos posteriores à Presidência
Depois de deixar a Presidência, Nilo voltou ao Senado e, em 1914, assumiu novamente o governo do estado do Rio de Janeiro. Em 1917, deixou o governo fluminense para ocupar o Ministério das Relações Exteriores, função que exerceu até 1918.
Fotografias conservadas pelo Museu da República documentam momentos públicos e privados do casal, incluindo viagens, recepções, atividades políticas e períodos de lazer. O catálogo do acervo também reúne imagens de Nilo e Anita em viagens ao exterior e durante a campanha presidencial da Reação Republicana.
Campanha da Reação Republicana
Em 1921, Nilo Peçanha tornou-se candidato à Presidência da República pela Reação Republicana, movimento de oposição à candidatura oficial de Artur Bernardes. A Reação reuniu dissidências políticas do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, apresentando o baiano José Joaquim Seabra como candidato a vice-presidente.
O movimento defendia maior equilíbrio entre os estados da Federação, mudanças nos costumes políticos, ampliação da educação pública, diversificação da agricultura e medidas de enfrentamento da crise financeira. A campanha procurou mobilizar setores urbanos, lideranças regionais, militares, intelectuais e grupos descontentes com a sucessão presidencial conduzida pelas principais oligarquias da Primeira República.
Anita acompanhou o marido em parte das viagens eleitorais. Fotografias preservadas pelo Museu da República mostram o casal a bordo do navio Íris, utilizado durante a campanha. Sua presença demonstra que sua participação pública não se limitou às recepções realizadas durante os mandatos oficiais de Nilo.
A excursão percorreu diversos estados das regiões Norte, Nordeste e Sudeste, passando por Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Espírito Santo, além do Distrito Federal. A campanha foi marcada por comícios, recepções nos portos, encontros com lideranças locais e manifestações populares.
Não há, nas fontes consultadas, evidência de que Anita tenha realizado discursos públicos ou ocupado função formal na organização partidária. Sua presença, contudo, integrava a representação familiar e social do candidato e é apontada por estudos sobre o primeiro-damismo como um dos momentos mais significativos de sua participação na trajetória política do marido.
A eleição ocorreu em 1.º de março de 1922 e terminou com a vitória de Artur Bernardes. A Reação Republicana denunciou fraudes, recusou-se inicialmente a reconhecer o resultado e propôs a formação de um tribunal de honra para examinar o processo eleitoral.
Nos anos seguintes, Nilo Peçanha afastou-se progressivamente das atividades políticas em razão do agravamento de sua saúde. Morreu no Rio de Janeiro em março de 1924.
Viuvez e preservação da memória
Nilo Peçanha morreu no Rio de Janeiro em 31 de março de 1924. Após sua morte, Anita tornou-se uma das principais destinatárias das manifestações de pesar e das homenagens dirigidas ao ex-presidente. A Coleção Nilo Peçanha conserva cartas, cartões, bilhetes e telegramas enviados por autoridades, correligionários, instituições e admiradores.
O arquivo conserva 220 cartas, cartões e bilhetes enviados a Anita entre 31 de março de 1924 e 2 de outubro de 1956, predominantemente com condolências e pêsames pela morte do marido.
O acervo também reúne 941 telegramas enviados a Anita entre 1924 e 1952. As mensagens incluem condolências, manifestações de saudade e lembranças relacionadas aos aniversários de nascimento e morte de Nilo Peçanha.
Entre os documentos preservados encontra-se ainda uma relação de alunos matriculados, em abril e maio de 1924, em uma instituição denominada Escola Dona Anita Peçanha. O inventário comprova a existência da homenagem, mas não apresenta informações suficientes sobre a localização, o funcionamento ou uma eventual participação de Anita na administração da escola.