thumb|300px|Augusto de Prima Porta, Museus Vaticanos

A escultura da Roma Antiga foi uma das mais importantes expressões artísticas dos antigos romanos. Desenvolveu-se em toda a área de influência romana, tendo seu foco disseminador na capital, num período que vai do ao . A tradição grega de escultura permaneceu uma referência constante ao longo de toda a trajetória da arte escultórica em Roma, recebendo influência primeiro através da escultura etrusca, fortemente devedora dos gregos do período arcaico, e a partir do período helenístico o contato passou a ser direto e ainda mais intenso e fecundo. Mas contradizendo uma antiga e generalizada opinião de que os romanos foram apenas meros copistas, hoje se reconhece que foram capazes não só de assimilar e elaborar suas fontes com maestria, mas também de dar importante contribuição original a essa tradição, visível em especial na retratística, gênero que gozou de prestígio singular e deixou exemplos de suma perícia técnica e elevada expressividade, e na escultura decorativa dos grandes monumentos públicos, onde se desenvolveu um estilo narrativo de grande força e caráter tipicamente romano.Harris, William H., & Levey, Judith S. (eds.) "Etruscan Art". In: The New Columbia Encyclopedia. Nova Iorque and London: Columbia University Press, 1975Toynbee, Jocelyn M.C. "Western Sculpture: Roman and Early Christian". In Encyclopaedia Britannica on line

Depois da consolidação do império, outras influências estrangeiras, mormente orientais, determinaram um lento mas progressivo afastamento do cânone grego em direção a uma simplificação formal de tendência abstrata, que estabeleceu as bases da arte bizantina, paleocristã e medieval. Esse processo, não obstante, foi entremeado de diversos períodos de revivescência classicista, que além de fortalecerem o elo simbólico com o passado foram úteis na manutenção da coesão política e cultural do vasto território. Nem mesmo a cristianização do império pôde determinar a exclusão das referências clássico-pagãs da escultura romana, e no , quando a unidade política se rompe definitivamente, modelos clássicos ainda continuavam sendo emulados, embora adaptando-se aos temas próprios da nova ordem social, política e religiosa que se instaurava.Kousser, Rachel M. Hellenistic and Roman Ideal Sculpture. Oxford University Press, 2008. pp. 111-114

Mesmo que este resumo tente se manter em uma cronologia mais ou menos ordenada e procure estabelecer a especificidade de cada fase, o estudo da escultura romana tem-se provado um desafio para os pesquisadores, pois sua evolução foi tudo menos linear e lógica. Apesar das divergências entre os estudiosos sobre muitos pontos, já se tem uma ideia mais ou menos clara sobre as características gerais de cada etapa, mas o modo como elas evoluíram e como se transformaram de uma para outra evidenciou ser um processo muito complexo que ainda está longe de ser bem compreendido. Uma duradoura inclinação para o historicismo e o ecletismo, ainda mais pronunciada do que a que se observou na escultura helenística, junto com a presença de estilos bem diferenciados na escultura produzida num mesmo momento histórico para as diferentes classes sociais, e mesmo dentro de uma única classe, atendendo a necessidades de cada tema e situação, tornam o assunto ainda mais intrincado.Fullerton, Mark D. The Archaistic Style in Roman Statuary. Leiden: E. J. Brill, 1990. p. 190

Além do grande mérito intrínseco da produção romana, o hábito generalizado da cópia de obras gregas mais antigas e a permanência de alusões ao classicismo grego ao longo de toda sua história, mesmo através do Cristianismo primitivo, manteve vivas uma tradição e uma iconografia que de outra forma poderiam ter-se perdido. Devemos a Roma, assim, boa parte de nosso conhecimento da cultura e da arte da Grécia Antiga, e mais, a escultura romana - junto com a grega - teve fundamental importância na formulação da estética do Renascimento e do Neoclassicismo, atestando sua vitalidade e significância até nos tempos modernos, além de ser considerada hoje como um dos corpos artísticos mais importantes da cultura ocidental, como o provam a imensa quantidade de estudos especializados de que é objeto e o fascínio que ainda exerce sobre o grande público.

O papel da escultura na sociedade romana thumb|300px|Reconstrução conjetural da Via Ápia, na antiga Roma

Roma foi uma sociedade eminentemente visual. Com a maior parte de sua população analfabeta e incapaz até de compreender o latim erudito que circulava entre a elite, as artes visuais funcionaram como uma espécie de lingua franca acessível a todos, confirmando ideologias e divulgando a imagem de personalidades eminentes. Nesse contexto, a escultura desfrutou de uma posição privilegiada, ocupando todos os espaços públicos e privados e povoando as cidades com inumeráveis exemplos em várias técnicas. Boa parte da escultura produzida em Roma pertence à esfera religiosa ou a ela está relacionada de alguma forma. Até mesmo os retratos tinham frequentemente associações com o sagrado, e assim como em todas as culturas, Roma não divergiu na prática de produzir imagens propriamente de culto, que estavam presentes nos grandes templos públicos até nas mais modestas das habitações. Não só os grandes gêneros escultóricos em bronze e mármore se tornaram comuns - a estatuária, os grandes sarcófagos, os relevos arquiteturais - mas mais ainda as estatuetas em terracota, os relevos funerários simples, as máscaras mortuárias em cera, cujo custo estava dentro do alcance das classes mais baixas.Elsner, Jaś. Imperial Rome and Christian triumph. Oxford University Press, 1998. pp. 11-13 Jaś Elsner diz que thumb|esquerda|100px|Lar romano, Museu do Prado

"Tais imagens, encontrando os súditos imperiais em todas as formas de suas vidas sociais, econômicas e religiosas, contribuíam para construir uma unidade simbólica entre os povos diversificados que compunham o mundo romano, concentrando seu senso de hierarquia em um indivíduo supremo. Quando um imperador morria, seus herdeiros podiam louvar suas estátuas como as de um deus - proclamando uma continuidade na sucessão e erguendo templos em sua honra. Quando um imperador era derrubado, suas imagens eram violentamente erradicadas numa damnatio memoriae, uma abolição de toda lembrança sua, que informava a população, visual e convincentemente, das mudanças na autoridade política maior.... O antigo politeísmo não era uma religião de escrituras e doutrinas, sob a estrutura de uma igreja hierárquica e centralizada, mas era antes um conglomerado de lugares de culto, rituais e mitos, administrados pelas comunidades e muitas vezes por sacerdotes hereditários. Era eclético e diversificado, amplo, pluralista e tolerante. Assim as imagens e mitos forneciam as principais formas da 'teologia' no mundo antigo".

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do império, o papel da arte mudou radicalmente, embora não tenha perdido sua importância central. O deus cristão não era conhecido através de imagens, mas de escrituras e seus profetas e comentadores. Mesmo assim, a escultura e seu repertório de representações naturalistas convencionais foi adotada pela igreja nascente para composição de alegorias, e continuou sendo praticada na esfera laica pública e privada como decoração, registro histórico e para o retrato até a ruptura final do império, ainda como uma forma enfatizar a herança clássica compartilhada por todos e a fim estabelecer alguma unidade cultural, num período em que as periferias começavam a desenvolver culturas próprias com largo grau de independência e se tornava cada vez mais complicada a tarefa de manter o território unificado.

Antecedentes

thumb|150px|O Hipogeu dos Volumni, em Perúgia, arte etrusca da transição para o domínio romano

A origem de Roma é controversa, provavelmente tenha sido fundada em meados do por uma mistura de povos itálicos que viviam na região do Lácio desde o Alguns defendem a tese de que foi fundada pelos etruscos, que viviam ao norte, e o mito diz que a sua fundação se deve a Rômulo e Remo, descendentes de Eneias, herói de Troia. Outras evidências sugerem fortemente a presença de levas de imigrantes transalpinos, os celtas e germânicos, que teriam deixado seus traços físicos em algumas famílias da aristocracia romana, como os Flávios (nome que significa louro), e sido a causa da presença de nomes como Rufo e Rutílio (ruivo e arruivado, respectivamente) num povo de tez basicamente morena.Forsythe, Gary. A critical history of early Rome: from prehistory to the first Punic War. Berkeley: University of California Press, 2005Mommsen, Theodor. The History of Rome, vol. I. Classic Literature Library, 1894"Ancient Italic people: The Etruscans". In: Encyclopædia Britannica Online. 07 Out. 2009Owen, Francis. The Germanic people: their Origin Expansion & Culture. [S.l.: s.n.], 1960, p. 49

A tradição etrusco-romana

Entre os os etruscos dominaram a região centro-norte da península Itálica, e pelos menos alguns dos semilendários reis de Roma foram etruscos. Sua arte, que já era em larga medida uma interpretação do estilo grego do período arcaico, passou a ser a arte dos romanos. Assim como fariam mais tarde com a arte grega, os romanos não apenas imitaram os modelos formais etruscos, mas em suas guerras com eles se apropriaram de suas obras de arte e as levaram para adorno da sua própria capital. As primeiras esculturas realizadas em Roma de que se tem notícia datam do e seu estilo é inteiramente etrusco. O célebre Apulu de Veios, dessa época, nos dá uma boa informação sobre as tendências estéticas então vigentes. Os etruscos foram hábeis em vários gêneros escultóricos, desde a estatuária fúnebre e sarcófagos até grupos monumentais, e em muitos pontos anteciparam a estética do prosaico que os romanos desenvolveriam mais tarde. Foram mestres nas "cenas de gênero", retratando a vida comum, pessoas do povo em atividades características, e também no retrato se mostraram artífices capazes. Mas foi na arte fúnebre onde talvez tenham sido mais originais. Desenvolveram uma tipologia específica para as urnas funerárias, consistindo de uma caixa decorada com relevos e fechada por uma tampa sobre a qual se apresentava um retrato reclinado do morto, de corpo inteiro, às vezes acompanhado de seu cônjuge, modelo que os romanos adotariam em muitos de seus sarcófagos. O Sarcófago dos Esposos, hoje no Museu Nacional Etrusco, e o Hipogeu dos Volumni, uma cripta em Perúgia com vários sarcófagos, são exemplos bem conhecidos. A despeito do progressivo abandono da tradição etrusca durante a fase helenística que viria mais adiante, traços dela ainda seriam encontráveis até mesmo na época de Augusto.Briguet, Marie-Françoise. "Art". In Bonfante, Larissa (ed). Etruscan life and afterlife: a handbook of Etruscan studies. Wayne State University Press, 1986. pp. 92-173Strong, Eugénie Sellers. Roman sculpture from Augustus to Constantine. Gerald Duckworth & Co. p. 30Hall, John Franklin. "Etruscan Italy: A rediscoverable history?" In: Hall, John Franklin (ed). Etruscan Italy: Etruscan influences on the civilizations of Italy from antiquity to the modern era. Seth and Maurine Horne Center for the Study of Arts scholarly series. Indiana University Press, 1996. pp. 3-16Pallottino, Massimo. Etruscologia: Storia, filosofia e religione. Hoepli, 1984. p. 365-375Gardner, Helen; Kleiner, Fred S. & Mamiya, Christin J. Gardner's art through the ages: the western perspective. Cengage Learning, 2006, p. 156

Helenismo e Neoclassicismo