O rio Piracicaba é um curso de água do estado de Minas Gerais, Região Sudeste do Brasil, pertencente à bacia do rio Doce. Nasce a metros de altitude, em uma das vértices da serra do Caraça, no distrito ouro-pretano de São Bartolomeu, percorrendo até a foz no rio Doce, entre os municípios de Ipatinga e Timóteo. Tem como principais afluentes os rios da Prata, de Peixe, Maquiné e Santa Bárbara e o ribeirão do Turvo. Sua bacia hidrográfica abrange de área de drenagem e um total de 21 municípios.
O povoamento em suas margens foi iniciado no final do século XVII, sob o contexto da exploração do ouro em Minas Gerais, que levou à fundação de arraiais em Ouro Preto e Mariana. Embora a mineração tenha sido desenvolvida no Quadrilátero Ferrífero nos séculos seguintes, a urbanização na área da bacia se consolidou somente no século XX, após a locação da EFVM. A via férrea, próxima ao rio, fez surgir núcleos urbanos. Ao mesmo tempo, a disponibilidade de matas para extração de madeira e a presença do rio para captação de água incentivaram a instalação de empresas siderúrgicas em João Monlevade e no atual Vale do Aço, impulsionando o crescimento demográfico e econômico.
Dessa forma, o rio Piracicaba corta uma região com notável presença da atividade industrial, sobretudo da mineração e da siderurgia, abastecendo algumas das plantas industriais locais e usinas hidrelétricas. Por outro lado, o leito sofre gravemente com o assoreamento, desmatamento, proliferação da monocultura de eucalipto, baixa cobertura por matas ciliares e recebimento de efluentes urbanos sem tratamento, configurando-se como um dos afluentes mais degradados do rio Doce.
Etimologia A versão mais popular da origem do nome do rio é que o termo "Piracicaba" foi herdado do tupi-guarani e interpretado como "lugar onde o peixe para". Seria uma alusão à significativa quantidade de pequenas quedas encontradas em alguns trechos do leito, sobretudo na região de Antônio Dias, interrompendo o tráfego dos peixes. Esse raciocínio também explica a origem do nome do rio Piracicaba paulista. Outra versão popular indica que "Piracicaba" em tupi-guarani significa "rio sem peixe", porém a aplicação dessa interpretação ao rio Piracicaba é questionada, visto que no passado era um rio piscoso.
História Exploração e mineração A região compreendida pelo curso do rio Doce entre as fozes dos rios Piracicaba e Manhuaçu, ou seja, entre Ipatinga e Aimorés, foi originalmente habitada por botocudos. Tentativas de explorar o Vale do Rio Doce em busca de riquezas minerais tiveram início no , mas não obtiveram sucesso, o que acabou por retardar o povoamento da área. A expedição de Sebastião Fernandes Tourinho (1573) adentrou o curso do rio Doce e alguns de seus afluentes, conferido o título de "Vale Verde" à região da foz do rio Piracicaba, em função da mata densa.
Já no final do , a descoberta de ouro nas cabeceiras dos rios das Velhas e Piracicaba, em Ouro Preto, incentivou expedições de bandeirantes paulistas a explorarem aquelas áreas para em seguida desbravarem a jusante dos leitos. Sob o contexto da exploração do ouro foram fundados arraiais em Ouro Preto e Mariana. No começo do também se encontravam povoamentos nas margens do rio Piracicaba nos municípios de Catas Altas, Santa Bárbara, Nova Era (antigo São José da Lagoa), Rio Piracicaba (antigo São Miguel do Rio Piracicaba) e Antônio Dias. Além da extração mineral, podiam ser encontradas no curso do rio fazendas de gado e pequenas fábricas. A mineração era a principal atividade econômica do Brasil no século XVIII, porém sua ascensão deu início aos primeiros impactos ambientais nos rios das áreas envolvidas, inclusive o Piracicaba.
Avanço da colonização thumb|esquerda|Rio Piracicaba no município de Rio Piracicaba, um dos povoamentos mais antigos em suas margens O Vale do Rio Doce se encontrava em uma via de escoamento das pedras preciosas extraídas na região central mineira, que ligava a Estrada Real em Diamantina ao Litoral do Espírito Santo, para ser exportado. Por essa razão, o povoamento e a abertura de novas trilhas pela região chegaram a ser proibidos pela coroa portuguesa, a fim de evitar o contrabando de ouro por meio do rio Doce e seus afluentes, como o Piracicaba. Com a intenção de afastar forasteiros, diziam-se ser terras com vegetação densa e animais peçonhentos, com predominância da ferocidade dos botocudos. No entanto, o povoamento foi liberado em 1755, após Minas Gerais passar por um declínio na produção de ouro. Mesmo com a atenuação da disponibilidade de ouro, a diversidade mineral favoreceu a manutenção da atividade mineradora nos séculos seguintes na região de Ouro Preto, inclusive no leito do rio Piracicaba.
Com a liberação do povoamento, seguiu-se o massacre dos botocudos visando à conquista de terras pelos forasteiros. Sob esse contexto ataques dos indígenas às localidades se tornaram constantes, forçando colonos a abandonarem fazendas e criações. Os nativos, por sua vez, receberam punições militares, a exemplo da expedição de Luís Diogo Lobo da Silva, então governador da Capitania de Minas Gerais, na década de 1760. O administrador e sua tropa de 150 homens navegaram armados pelos rios Piracicaba e Doce até Cuité (atual Conselheiro Pena) em ação de repressão contra os povos originários. No início do , foram criados "quartéis" com o objetivo de fortalecer a proteção aos colonos. Apesar da proibição dos ataques a indígenas em 1831, os nativos já se encontravam praticamente extintos, o que serviu como um incentivo à colonização. Entretanto, esse processo ocorreu de forma relativamente lenta. Cabe ressaltar que em 1821, a jusante de Antônio Dias, o único povoamento antes da foz do rio Piracicaba era o Alegre, atual Timóteo.
Foi somente com a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) que a ocupação da região foi impulsionada. Sua locação foi iniciada em Vitória, no Espírito Santo, e tinha o objetivo inicial de atingir Diamantina, porém o foco foi alterado para Itabira com as obras já em andamento a fim de escoar a extração ferrífera. A implantação de estações ferroviárias deu origem a diversos núcleos urbanos ao longo da primeira metade do século XX. A via férrea, em boa parte de sua extensão, acompanha o curso dos rios Doce e Piracicaba, e por conseguinte gerou crescimento populacional na margem desses leitos. Dessa forma, foram intensificadas as transformações do meio ambiente na região. Esse processo foi agravado a partir da década de 1930, quando vastas extensões de Mata Atlântica nativa da bacia começaram a ser desmatadas para a extração de madeira e produção de carvão destinadas a abastecer o complexo industrial da Belgo-Mineira em João Monlevade. A exploração era gerenciada no Calado, atual Coronel Fabriciano, localizado às margens do rio Piracicaba. A mesma empresa também utilizava o rio para a geração de energia que alimentava a usina.
Urbanização e decadência ambiental thumb|direita|Rio Piracicaba entre Coronel Fabriciano e Timóteo com a Acesita (atual Aperam South America) ao fundo, situada em Timóteo, na década de 1950. A disponibilidade de ferrovia, cursos hídricos e matas para a extração de madeira foram fatores decisivos para a implantação da Acesita em Timóteo em 1944 e da Usiminas em Ipatinga em 1956, vizinhas a Coronel Fabriciano. Em 1951, com o objetivo de fornecer energia elétrica à empresa, a Acesita construiu a Usina Hidrelétrica de Sá Carvalho, situada no curso do rio Piracicaba em Antônio Dias, sendo a maior usina hidrelétrica de Minas Gerais na ocasião. A construção das usinas siderúrgicas acarretou um súbito crescimento urbano e populacional dessa região, que deixou de ser conhecida como Vale Verde e passou a se chamar Vale do Aço. Dessa forma seguiu-se a construção de vilas operárias nas cidades das empresas, infraestrutura e intensificação do desmatamento.
Relatos de moradores antigos indicam fartura de peixes no rio Piracicaba no decorrer do século XX. Próximo à antiga Estação do Calado, no Centro de Fabriciano, por exemplo, pescadores se reuniam todas as tardes e saíam com sacos cheios de peixes. Em algumas ocasiões reuniam-se mais de 300 pessoas. Em Antônio Dias a pesca rendia traíras, piaus, piabanhas, surubins, cascudos e lagostas de água doce. O rio também era popularmente utilizado para transporte e lazer pelas cidades ribeirinhas. Registros apontam batismos coletivos de centenas de membros de igrejas evangélicas nas águas do leito em Coronel Fabriciano até o começo da década de 1970.
Ao longo da segunda metade do século XX houve a continuidade do crescimento dos núcleos urbanos de João Monlevade e do Vale do Aço, em função da industrialização, além da expansão da monocultura de eucalipto destinada a atender à demanda das usinas. Dessa forma, foi intensificado o despejo de efluentes urbanos e industriais nas águas do rio, situação agravada pela construção de novas usinas hidrelétricas ao longo do curso, pelo uso e ocupação extensivos do solo e mineração. Outro problema amplificado foram as enchentes, devido às ocupações desenfreadas em áreas de risco. Por outro lado foram notados alguns esforços para o combate à degradação, como a implantação de mata ciliar pela Usiminas na década de 1990, na região da foz; a criação do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Piracicaba, mediante a política estadual de recursos hídricos, em 17 de fevereiro de 2000; e a construção de estações de tratamento de águas residuais em alguns municípios. Entretanto, a situação seguiu crítica nas primeiras décadas do século XXI, devido ao assoreamento causado pela mineração, poluição e secas severas.
Aspectos geográficos Drenagem e clima thumb|esquerda|Rio Piracicaba entre Timóteo e Coronel Fabriciano durante um período de poucas chuvas O rio Piracicaba nasce em uma das vértices da serra do Caraça a metros de altitude, em área do distrito de São Bartolomeu, pertencente ao município de Ouro Preto. Seu curso possui um total de 241 quilômetros até a foz na margem esquerda do rio Doce, do qual é um dos principais afluentes, entre os municípios de Ipatinga e Timóteo, a de altitude. Na maior parte do curso, o rio percorre a direção nordeste. Sua bacia hidrográfica integra a bacia do rio Doce e abrange quilômetros quadrados (km²) de área de drenagem, que é composta pelas sub-bacias dos rios de Peixe e Santa Bárbara pela margem esquerda e pela sub-bacia do rio da Prata pela margem direita. Também estão entre os principais afluentes o rio Maquiné e o ribeirão do Turvo. Além desses cursos de maior porte, o rio Piracicaba é alimentado por cerca de 100 córregos e ribeirões.
O clima na bacia apresenta transição entre tropical (Aw, segundo a classificação climática de Köppen-Geiger), mesotérmico de verões quentes (Cwa) e mesotérmico de verões brandos (Cwb), sendo influenciado pela continentalidade e altitude. Nos meses de inverno a presença do anticiclone do Atlântico Sul favorece o domínio da alta pressão, impedindo a elevação da umidade e configurando assim a estação seca. Nesse período também ocorre a intrusão de massas de ar polar, que dificultam a elevação das temperaturas e a formação de instabilidades. No verão, por outro lado, a temperatura se eleva e a influência de instabilidades tropicais configura a estação das chuvas. A região da cabeceira, com a classificação climática Cwb, apresenta as maiores médias de precipitação devido à incidência de chuvas orográficas, atingindo os milímetros (mm) ao ano. A classificação Cwa, por sua vez, é encontrada na maior parte da bacia, em sua área central. Já o clima Aw é registrado no Vale do Aço, na foz do rio Piracicaba, acompanhado da menor média anual de precipitação, que é de .