Grande Tibete reivindicado por grupos de exilados tibetanos   Áreas autônomas tibetanas, conforme designadas pela China  Região Autônoma do Tibete, na China Área controlada pela China, mas reivindicada pela Índia como parte da região do Ladaque Áreas controladas pela Índia, partes reivindicadas pela China como Tibete do SulOutras áreas historicamente dentro da esfera cultural tibetana

O Tibete (; Wylie: bod, ; ; pinyin: Xī Zàng) é uma região de planalto da Ásia, um território disputado situado ao norte da cordilheira dos Himalaias, habitado pelos tibetanos e outros grupos étnicos como os monpas e os lhobas, além de grandes minorias de chineses han e hui. O Tibete é a região mais alta do mundo, com uma altitude média de de altitude, e por vezes recebe a designação de "o teto do mundo" ou "o telhado do mundo".

A UNESCO e a Encyclopædia Britannica consideram o Tibete como parte da Ásia Central, enquanto outras organizações a veem como parte do Sul Asiático.

Durante a sua história, o Tibete existiu como uma região composta por diversas áreas soberanas, como uma única entidade independenteBeckwith 1987, pp. 11–36 e como um Estado vassalo, sob suserania ou soberania chinesa. Foi unificado pela primeira vez pelo rei Songtsän Gampo, no . Por diversas vezes, da década de 1640 até a de 1950, um governo nominalmente encabeçado pelos Dalai Lamas (uma linhagem de líderes políticos espirituais tidos como emanações de Avalokiteśvara — Chenrezig, Wylie: [spyan ras gzigs] em tibetano — o bodisatva da compaixão) dominou sobre uma grande parte da região tibetana. Durante boa parte deste período a administração tibetana também esteve subordinada ao império chinês da Dinastia Qing.

Em 1913, o 13.º Dalai Lama expulsou os representantes e tropas chinesas do território formado atualmente pela Região Autónoma do Tibete. Embora a expulsão tenha sido vista como uma afirmação da autonomia tibetana, esta independência proclamada do Tibete não foi aceita pelo governo da China nem recebeu reconhecimento diplomático internacionalBarry Sautman e June Teullfel Dreyer, Contemporary Tibet: Politics, Development, and Society in a Disputed Region, Nova York: M.E.Sharpe (2006), p. 3Clark, Gregory, "In fear of China", 1969, afirmou: Tibet, although enjoying independence at certain periods of its history, had never been recognised by any single foreign power as an independent state. The closest it has ever come to such recognition was the British formula of 1943: suzerainty, combined with autonomy and the right to enter into diplomatic relations.Grunfeld, A. Tom, "The Making of Modern Tibet", Appendix B; Independence: Third-party views. p. 258 e, em 1945, a soberania da China sobre o Tibete não foi questionada pela Organização das Nações Unidas.

Após uma invasão contundente e uma batalha feroz em Chamdo, em 1950, o Partido Comunista da China assumiu o controle da região de Kham, a oeste do alto rio Yangtzé; no ano seguinte o 14.º Dalai Lama e seu governo assinaram o Acordo de Dezessete Pontos. Em 1959, juntamente com um grupo de líderes tibetanos e de seus seguidores, o Dalai Lama fugiu para a Índia, onde instalou o Governo do Tibete no Exílio em Dharamsala. Pequim e este governo no exílio discordam a respeito de quando o Tibete teria passado a fazer parte da China, e se a incorporação do território à China é legítima de acordo com o direito internacional. Ainda existe muito debate acerca do que exatamente constitui o território do Tibete (ver mapa à direita), e de qual seria sua exata área e população.

Nomes thumb|A cordilheira do Himalaia, ao sul do planalto Tibetano

Os nomes e definições referentes ao Tibete estão carregados de simbolismo linguístico e político.

O endônimo (ou 'autônimo') moderno no tibetano padrão Bod (བོད་) significa "Tibete" ou "Planalto Tibetano", embora originalmente se referisse apenas à região central de "Ü-Tsang". A pronúncia padrão de Bod, , costuma ser transliterada como Bhö ou Phö. Alguns acadêmicos acreditam que a primeira referência escrita a Bod estaria no antigo povo dos "Bautai", registrado no Périplo do Mar Eritreu (século I) e na Geographia, de Ptolomeu ().Beckwith (1987), pg. 7

A palavra ocidental "Tibete" (Tibet ou Thibet) é um termo de origem turca ou árabe para a região; do turco, seria originada de Tübat; provavelmente seria derivado do árabe Tibat ou Tobatt (طيبة، توبات), embora não exista consenso acerca da sua etimologia exata; a maior parte das fontes propõe que viria do tibetano Stod-bod (pronunciado tö-bhöt), "Alto Tibete",G. W. S. Friedrichsen, R. W. Burchfield e C.T. Onions. (1966). The Oxford Dictionary of English Etymology. Oxford University Press, p. 922 enquanto outros sugerem que viria do turcomano Töbäd, "As Alturas" (plural de töbän),Behr, Wolfgang, (1994). "Stephan V. Beyer The Classical Tibetan Language (book review)", Oriens 34, pp. 558–559 e alguns poucos favorecem a tese de uma origem no chinês Tǔbō ou Tǔfān.Partridge, Eric, Origins: A Short Etymological Dictionary of Modern English, Nova York, 1966, p. 719

Porém os primeiros nomes utilizados para o Tibete em português foram "Potente" ou "Botente", a partir dos escritos do jesuíta António de Andrade, o primeiro europeu a visitar o Tibete, e de outros missionários. Assim, na antiga nomenclatura portuguesa referia-se ao "reino do Potente", o que derivava da etimologia hindi, que chama a região de Bhotanta, diretamente oriundo do endônimo tibetano.Soalheiro, Bruna (2018). A viagem da cruz ao teto do mundo: Encontros culturais e diálogo inter-religioso nas missões da Companhia de Jesus na Índia e no Tibete (Séc. XVI-XVIII). Jundiaí: Paco. p. 174, nota 115, e outras páginas. Citando Didier, Hughes (2000). Os portugueses no Tibet. Os primeiros relatos dos jesuítas (1624-1635). Lisboa: Comissão Nacional para Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. p. 23. Citação: A palavra Tibet é de origem turco-árabe. Em árabe: Tubbat e em turco Tübat. Em hindi, Bhotanta é o mesmo que Tibete, o que muitas vezes foi traduzido como "Botente" ou "Potente" e daí para as demais línguas ocidentais: 'le puissant, the powerfull, das mächige' A partir desse uso inicial em português, diversos tradutores europeus em outros idiomas traduziram o nome da região também como "le Puissant" (em francês), "the Powerfull" (em inglês) e "das Mächtige" (em alemão), com um duplo sentido de "poderoso" que evocava as intenções missionárias religiosas e lendas do Preste João. O Tibete também foi associado e referido com o nome lendária terra perdida de Catai, em uma onda de traduções a diversos idiomas na Europa que surgiu a partir da divulgação dos relatos missionários em Lisboa, em 1627.Gandolfo, Romolo (2004). Bhutan and Tibet in European Cartography (1597-1800). Centre for Bhutan Studies. p. 99

Os dois exônimos para o Tibete no mandarim padrão são os clássicos Tǔbō (土蕃) ou Tǔfān (吐蕃) e o moderno Xīzàng (西藏), que designa especificamente a Região Autônoma do Tibete. Tubo ou Tufan, antigos nomes para o Tibete, foram primeiro transliterados para o chinês como 土番 no século VII (Li Tai) e como 吐蕃 no (Livro de Tang, que descreveu a chegada de 608–609 emissários do rei tibetano Namri Songtsen ao Imperador Yang de Sui). No chinês médio, falado naquele período, a pronúncia de Tǔbō ou Tǔfān foi reconstruída (por Bernhard Karlgren) como T'uopuâ e T'uop'i̭wɐn, respectivamente. Xizang (西藏) foi um termo cunhado durante o período da dinastia Qing, do Imperador Jiaqing (r. 1796–1820). A República Popular da China considera equivalentes os termos Xīzàng e Xīzàng Zìzhìqū (西藏自治区, "Região Autônoma do Tibete").

Língua tibetana

thumb|Mulher tibetana em Lhassa

A língua tibetana é falada em todo o vasto planalto tibetano, no Butão, em partes do Nepal e no norte da Índia (como em Sikkim). É, normalmente, classificada como uma língua tibeto-birmanesa, da família das línguas sino-tibetanas. A língua tibetana inclui numerosos dialetos regionais, que, em geral, são inteligíveis entre si.

A diferenciação entre o tibetano e outras línguas himalaias são, muitas vezes, indefinidas. Em geral, os dialetos da parte central do Tibete, como o lassa, o kham, o amdo e outras áreas próximas, são considerados dialetos tibetanos, enquanto outras, como o dzonga, o siquimês, a língua sherpa e a língua ladakhi são consideradas separadas por razões políticas. Tendo em vista esse entendimento dos dialetos e formas do tibetano, o tibetano padrão é falado por cerca de de pessoas no planalto tibetano, bem como por mais de falantes em exílio na Índia e em outros países.

A língua tibetana possui sua própria escrita, que deriva da escrita devanágari.

História

A história do Tibete teve início há cerca de

Acredita-se que a colonização humana do planalto tibetano de alta altitude tenha sido confinada às últimas centenas de anos do Holoceno. Uma investigação do sítio arqueológico de Nwya Devu no Tibete central, 4 600 m acima do nível do mar, com ocupação paleolítica de 40–30 000 anos atrás.

Em , uma dinastia militar fixou-se no vale de Yarlung e passou a comandar a região, perdurando-se esta situação por oito séculos. Por centenas de anos "belicistas" o Tibete investiu sobre terras vizinhas.

Este comportamento mudou em 617, quando o imperador Songtsen Gampo — 33º rei do Tibete — começou a transformar a civilização feudo-militar em um império mais pacífico. Seu reinado durou até 701, e seu legado foi imenso: criou o alfabeto tibetano; escreveu e estabeleceu o sistema legal tibetano (baseado no princípio moral segundo o qual é valorizada a proteção do meio-ambiente e da natureza); favoreceu o livre exercício religioso do budismo, e; construiu vários templos (dentre eles destacam-se o Jokhang e o Ramoche).

Seus sucessores continuaram a transformação cultural, custeando traduções e criando instituições. O próximo rei do Tibete foi Tride Tsukden (704–754), o qual deixou seu filho como sucessor, o rei Trisong Detsen.

A partir do século VII a região tornou-se o centro do lamaísmo, religião baseada no budismo, transformando o país num poderoso reinado. Antigo objeto de cobiça dos chineses, no o Tibete é declarado incluído no território soberano da China. A partir daí seguem-se dois séculos de luta do Tibete por independência, conquistada — temporariamente — em 1912.

Em 1950, o regime comunista da China ordenou a invasão da região, que foi anexada como província. A oposição tibetana foi derrotada numa revolta armada em 1959 (ver: Protestos e dissidência na China). Como consequência, o 14° Dalai Lama, Tenzin Gyatso, líder espiritual e político tibetano, retirou-se para o norte da Índia, onde instalou em Dharamsala um governo de exílio.

left|thumb|180px|Escultura do "Leão das Neves" guarda a entrada do Palácio Potala no Tibete Em setembro de 1965, contra a vontade popular de seus habitantes, o país torna-se região autônoma da China. Entre 1987 e 1989, tropas comunistas reprimiram com violência qualquer manifestação contrária à sua presença. Há denúncias de violação dos direitos humanos pelos chineses, resultantes de uma política de etnocídio (genocídio cultural — ver: Sinização do Tibete).

Em agosto de 1993 iniciaram-se conversações entre representantes do Dalai Lama, laureado com o prêmio Nobel da Paz em 1989, e os chineses, mas mostram-se infrutíferas. Em maio de 1995, foi anunciado pelo Dalai Lama o novo Panchen Lama, Choekyi Nyima, de 6 anos, o segundo na hierarquia religiosa do país. O governo de Pequim reagiu e afirmou ter reconhecido Gyaincain Norbu, também de 6 anos, filho de um membro do Partido Comunista da China, como a verdadeira encarnação da alma do Panchen Lama.

Ugyen Tranley, o Karmapa Lama, terceiro mais importante líder budista tibetano, reconhecido tanto pelo governo da China como pelos tibetanos seguidores do Dalai Lama, fugiu do país em dezembro de 1999 e pede asilo à Índia. A China tentou negociar seu retorno, mas Tranley, de catorze anos, critica a ocupação chinesa no Tibete.