Gavial (nome científico: Gavialis gangeticus, de gavial, corruptela francesa do termo hindustani para crocodilo, ghaṛyiāl,FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 841. e gangeticus, relativo ao rio Ganges) é a única espécie extante de crocodilo do gênero Gavialis, família Gavialidae. Pode ser encontrado nos rios da Índia e Nepal, e historicamente também habitava os rios do Paquistão, Butão, Bangladesh e Mianmar.
A espécie difere dos demais crocodilianos pelo focinho estreito e alongado, e pela presença de uma protuberância nos machos adultos, caracterizando um dimorfismo sexual visível. Outra característica única é a exteriorização dos dentes da metade anterior da maxila e da mandíbula quando a boca do animal está fechada. Com registros de espécimes medindo até seis metros de comprimento, é uma das maiores espécies dentro da ordem Crocodylia.
Essa espécie é considerada uma das mais ameaçadas de extinção atualmente. Atualmente, sua população não ultrapassa 250 animais, além de seu habitat vir sendo degradado continuamente pelo humano, que, em constante expansão, tanto urbana quanto na agropecuária, se apropria de zonas ciliares, onde os gaviais se reproduzem e passam uma parte de suas vidas.
Evolução e taxonomia Os primeiros registros fósseis do clado Gavialoidea datam do Cretáceo Superior da América do Norte, representando dois gêneros: Eothoracosaurus do Maastrichtiano e Thoracosaurus do Campaniano. No Oligoceno da África e de Porto Rico, aparecem os primeiros representantes da família Gavialidae, Eogavialis e Aktiogavialis, respectivamente. Restos fósseis são abundantes do Mioceno Superior ao Quaternário nas montanhas Sivalik no Paquistão. Alguns desses espécimes são referidos como sendo G. gangeticus por Steel (1973), entretanto, essa identificação é rejeitada por alguns pesquisadores. Espécies do gênero Gavialis foram descritas dos períodos Mioceno e Plioceno na Índia, principalmente no Grupo Sivalik. A espécie Gavialis gangeticus aparece apenas no Holoceno (Recente).
Johann Friedrich Gmelin descreveu o gavial em 1789 com o nome de Lacerta gangetica.Gmelin,J.F. 1789. In: Linnaeus, C. Systema Naturae per regna tria naturae secundum classes, ordines, genera, species, cum characteribus, differentiis, synonymis, locis. Tomus 1, Pars III. Editio decima tertia, aucta, reformata. Leipzig: Imprensis Georg. Emanuel Beer, pp. 1788-1793. Em 1811, Nicolaus Michael Oppel, descreveu o gênero Gavialis, e em 1831 John Edward Gray recombinou a espécie para Gavialis gangeticus. O gavial é o único membro ainda existente do gênero Gavialis e, junto com o Tomistoma schlegelii, representa as linhagens sobreviventes da família Gavialidae. Estudos morfológicos posicionavam o gênero Tomistoma na família Crocodylidae, entretanto, análises moleculares demonstraram que o Gavialis e Tomistoma são grupos relacionados entre si. Estudos moleculares também sugerem o grupo Gavialis/Tomistoma como grupo-irmão dos demais crocodilos, e todos formando uma única família, a Crocodylidae sensu lato. Entretanto, alguns pesquisadores continuam se referindo a Gavialis/Tomistoma como uma família distinta.
Distribuição geográfica e habitat thumb|esquerda|180px|Gaviais nas margens do rio Karnali, no Nepal O gavial originalmente estava distribuído nos rios Indo, Ganges, Bramaputra e Mahanadi no Paquistão, Índia, Nepal, Bangladesh e Butão. Sua presença no rio Irrawaddy, em Mianmar, é confirmada por apenas dois registros científicos. O rio Kaladan na fronteira Índia-Mianmar também possui registro de ocorrência para a espécie. A distribuição do gavial é simpátrica com a do Crocodylus palustris. As populações do Paquistão, Butão e Mianmar, e provavelmente do Bangladesh, foram extintas. Três populações viáveis ocorrem no Nepal (rio Rapti/Narayani) e na Índia (rios Chambal e Girwa); e outras populações não viáveis são encontradas nos rios Karnali, Babai e Koshi, no Nepal, e Mahanadi, Son, Ken e Ramganga, na Índia. Pequenas populações ainda podem ocorrer no Bramaputra, no nordeste da Índia, apesar de os últimos registros confirmados serem de 1993. Habita, principalmente, rios caudalosos profundos e rápidos com poços naturais e bancos de areia nas margens. Com a exceção de um possível registro histórico para uma lagoa salobra, os gaviais não são encontrados em água salgada.
Características Ficha técnica Comprimento 3,5 – 4 m (fêmeas) 4 - 4,5 m (machos) Peso 159 – 181 kg Tamanho de ninhada 30 - 60 ovos Período de incubação 60 - 80 dias Maturidade sexual 7 - 8 anos (fêmeas) 15 - 18 anos (machos) Longevidade 29 anos (em cativeiro) thumb|direita|180px|Detalhe da boca fechada com os dentes exteriorizados thumb|180px|Esqueleto de um gavial adulto
O gavial tem o focinho mais longo entre todos os crocodilianos, e é uma das maiores espécies em comprimento.Whitaker, R.E.; Whitaker, N. "Gharials". in Hutchins, M.; Murphy, J.B., Schlager, N. (eds.). Grzimek's Animal Life Encyclopedia. 2ª ed. vol. 7 Reptiles. Farmington Hills: Gale Group, 2003. p. 166-170. Os machos são maiores que as fêmeas, medindo em média 4,5 a 5 metros, enquanto as fêmeas alcançam na média 3,5 a 4 metros. Registros históricos reportam espécimes com mais de seis metros de comprimento. O maior exemplar conhecido foi morto em janeiro de 1924 no rio Kosi ao norte de Bihar e media 7,1 metros. O peso de um adulto varia entre 159 e 181 quilogramas. Os adultos têm coloração marrom-escura a oliva no dorso, e branca a amarela no ventre. Os filhotes são marrom-acinzentados com cinco faixas transversais irregulares no corpo e nove na cauda.
O focinho é alongado e estreito, tornando-se mais fino com a idade do animal. Os dentes da metade anterior da maxila e da mandíbula ficam exteriorizados quando a boca do animal está fechada, uma característica única da espécie.Zug. G.R.; Vitt, L.J.; Caldwell, J.O. Chapter 19: Crocodylians. in _________. (eds.) Herpetology: An introductory biology of amphibians and reptiles. 2ª ed. San Diego: Academic Press, 2001. pp. 457-464. A dentição do gavial é composta por cinco dentes pré-maxilares, de vinte e três a vinte e quatro dentes maxilares, e de vinte e cinco a vinte e seis dentes mandibulares. A fórmula dentária é . As glândulas linguais estão ausentes ou são pouco desenvolvidas com seus poros excretores pequenos, limitando a capacidade secretória do sal.Taplin, L.E.; Cricg, G.C.; Beard, L. "Salt gland funcion in freshwater crocodiles: evidence for a marine fase in eusuchian evolution?" in Cricg; G.; Shine, R.; Ehmann, H. (eds.). Biology of Australian Frogs and Reptiles. Royal Zoological Society of New South Wales: 1985. p. 403-410. A superfície da língua não é queratinizada e é relativamente curta se comparada com outros crocodilianos.
O G. gangeticus é a única espécie de crocodilo que possui dimorfismo sexual visível. Os machos adultos possuem uma protuberância cartilaginosa na ponta do focinho, que produz um zumbido ressonante durante a expiração, utilizado durante a época de acasalamento para fazer a corte à fêmea. Esta saliência é denominada de "ghara" que significa "pote" em hindi.
Os ossos nasais são curtos em relação ao focinho, e amplamente separados dos ossos pré-maxilares; a abertura nasal é menor que a fossa supratemporal; e a margem anterior da órbita inferior (osso jugal) é proeminente. A sínfise mandibular é extremamente longa, estendendo-se para trás até o nível do dente 23º ou 24º.Pough, F.H.; Janis, C.M.; Heiser, J.B. Capítulo 14 - Os Diapsida da era Mesozóica: Dinosauria, Crocodylia e Outros. in _________. (eds.) A Vida dos Vertebrados. São Paulo: Atheneu, 2003. p. 367-406. O processo anterior do palatino é longo e se estende até a fenestra supraorbital, e cada parietal contém um seio que se abre no sistema pneumático cranial. A coluna vertebral contém um largo e compacto pró-atlas e um áxis com uma crista espinhal e uma discreta ou não demarcada hipapófise.
Comportamento e ecologia thumb|esquerda|180px|Dois gaviais no zoo de Praga Gaviais são os mais aquáticos dos crocodilianos existentes, e os adultos aparentemente não têm a capacidade de andar em uma postura semi-ereta como outros crocodilianos. Os machos adultos desta espécie se destacam por apresentar um apêndice bulboso na ponta do focinho, parecido com um "pote", chamado de ghara. Embora a função do ghara não seja bem compreendida, ele é indicativo de dimorfismo sexual na espécie, e pode ser utilizado como um ressonador de som ou para a formação de bolhas ou outros comportamentos associados ao acasalamento.
A longevidade dos gaviais atinge em média de quarenta a sessenta anos, e sua maturidade sexual pode variar entre os sexos, normalmente três anos para as fêmeas e dez anos para os machos. Gavial life O gavial é tipicamente residente da profundidade, mas dentro desses rios prefere áreas onde a corrente é reduzida. Locais de bancos de areia nas proximidades das margens são usados para a nidificação.
As fêmeas podem não atingir a maturidade sexual até que estejam com quase três metros de comprimento. A nidação é feita durante a estação seca em buracos escavados em bancos de areia. Diferentemente da maioria dos crocodilianos, que carregam seus filhotes pequenos na boca, o gavial parece não fazer isso por causa da morfologia incomum de suas mandíbulas. No entanto, o cuidado materno já foi observado. Gavial fêmea normalmente deixa trinta a cinquenta ovos, e os ovos são os maiores dos crocodilos, com 160g de peso.
Locomoção Muitos dos músculos que não são usados na expiração, são usados na locomoção ágil debaixo da água pelos gaviais, principalmente quando eles vão atacar alguma presa. Antes de dar a investida nos animais seu movimento é leve, e em conjunto com seu focinho muito estreito e longo, traz adaptação para um movimento que passe por despercebido por outros animais, como os peixes.
Em terra o gavial passa a maior parte do tempo imóvel. É mal adaptado para a locomoção terrestre quando adulto - a musculatura da perna não é adequada para levantar o corpo da terra, necessário para movimentação - por ser capaz na maioria das vezes de apenas de empurrar o corpo para frente arrastando-o sobre o chão ("barriga-deslizante"), embora possa andar com maior velocidade quando necessário. É, no entanto, muito ágil na água - a cauda é bem desenvolvida e achatada lateralmente, e as patas traseiras são adaptadas ao nado.
Alimentação Esse crocodiliano parece ser essencialmente piscívoro, mas os indivíduos muito grandes podem comer outras presas. Gaviais jovens comem insetos, larvas e pequenas rãs. Sua morfologia do focinho é ideal para predar peixes. Gaviais muitas vezes usam seu corpo para encurralar peixes contra as margens onde eles podem ser mais facilmente capturados. O gavial por norma não ataca humanos. Apesar de seu tamanho imenso, suas mandíbulas finas e frágeis tornam-no fisicamente incapaz de consumir um animal de grande porte, especialmente um ser humano. Os restos humanos encontrados no estômago de gaviais são explicados, provavelmente, pelo seu hábito de se alimentar de cadáveres. Foi também sugerido que os gaviais podem por vezes ingerir objetos duros com a função de gastrólitos.
Reprodução thumb|direita|180px|A protuberância presente no focinho dos gaviais machos As fêmeas adultas, que atingem a maturidade e se tornam sexualmente receptivas em torno de dez anos de idade, são defendidas em áreas por indivíduo do sexo masculino. O Ghara é utilizado em momentos de namoro entre gaviais, comumente são vistas bolhas saindo de dentro dele.