A Segunda Guerra Latina, conhecida apenas como Guerra Latina (340–338 a.C.), foi um conflito entre a República Romana e as tribos latinas vizinhas. Ele terminou com a vitória total dos romanos, com a dissolução da Liga Latina e a incorporação dos seus territórios à esfera de influência romana. Os latinos conseguiram direitos parciais e variados graus de cidadania de acordo com a participação de cada cidade na guerra.

Fontes A fonte mais completa sobre a Guerra Latina é o historiador romano Lívio (59 a.C.–17 d.C.), que narrou a guerra no oitavo livro de sua "História de Roma" ("Ab Urbe Condita"). Duas outras importantes narrativas também sobreviveram: um fragmento das "Antiguidades Romanas", de Dionísio de Halicarnasso ( 60 a.C.–depois de 7 a.C.), um grego contemporâneo de Lívio, e um sumário feito pelo cronista bizantino João Zonaras da "História Romana" de Dião Cássio (150–235)Oakley (1998), pp. 425-426. Historiadores modernos consideram os relatos antigos da Guerra Latina como uma mistura de fatos e ficção. Todos os autores de que dispomos viveram séculos depois dos eventos narrados e se basearam em obras de escritores anteriores. Diversos deles viveram a Guerra Social entre Roma e seus aliados italianos e parecem ter interpretado a Guerra Latina nos termos dela, o que introduziu elementos claramente anacrônicos no registro históricoOakley (1998), p. 410.

Contexto

Os latinos não tinham um governo central e estavam divididos em diversas cidades auto-governados que compartilhavam uma mesma língua, cultura e algumas instituições legais e religiosasForsythe (2005), p. 184. No século V a.C., estas cidades-estado formaram uma aliança militar de proteção mútua com os romanos chamada Foedus Cassianum, cujo objetivo principal era resistir aos raides e invasões de dois povos vizinhos, os équos e os volscosForsythe (2005), pp. 186-188. Como a maior cidade latina, Roma naturalmente tinha uma posição de relevo nesta aliançaForsythe (2005), p. 187. No início do século IV a.C., com a ameaça das invasões debelada, sobreveio um temor cada vez maior do poderio romano. Diversas guerras entre Roma e as cidades latinas, geralmente aliadas aos seus antigos inimigos, os volscos, foram registradas na primeira metade do século IV a.C.Cornell (1995), pp. 322-323. No fim, latinos e volscos não conseguiram evitar que Roma estabelecesse seu controle sobre o Ager Pomptinus (o território dos Pântanos Pontinos e os Montes Lepinos) e, em 381 a.C., de anexar a cidade latina de TúsculoCornell (1995), p. 322; Forsythe (2005), p. 258. A ameaça das invasões gaulesas parece ter convencido pelo menos algumas cidades latinas a restaurar a aliança com Roma em 358 a.C.Oakley (1998), p. 5; Forsythe (2005), p. 258, mas entre elas não estavam Tibur e Preneste, as duas maiores cidades latinas que só fizeram as pazes com Roma em 354 a.C. depois de duras guerrasOakley (1998), pp. 5-6; Forsythe (2005), p. 258. Durante a década de 340 a.C., as relações romano-latinas pioraram novamenteOakley (1998), pp. 13-15. Lívio relata que, em 349 a.C., enfrentando novamente uma iminente invasão gaulesa, os latinos se recusaram a entregar sua parte das tropasLívio, Ab Urbe Condita VII 25.5-6 e, em 343 a.C., chegaram a planejar um ataque a Roma, o que só foi evitado pelas notícias das vitórias romanas contra samnitas, o que os levou a atacaram Paeligni no lugarLívio, Ab Urbe Condita VII 38.1.

Os samnitas eram uma federação tribal que vivia nos Apeninos centrais. Em 354 a.C., eles firmaram um tratado de amizade com RomaDiodoro Sículo, xvi.45.8Lívio, Ab Urbe Condita VII 19.3–4., provavelmente fixando o rio Liris como fronteiras de suas respectivas esferas de influênciaSalmon (1967), pp. 187-193, mas, apesar deste tratado, a Primeira Guerra Samnita irrompeu entre Roma e os samnitas pelo controle da Campânia. Segundo Lívio, esta guerra começou com um ataque samnita a uma tribo menor, os sidicínios. Incapazes de resistir, eles apelaram aos campânios, liderados pela cidade-estado de Cápua, famosa por sua riqueza, mas eles também foram derrotados e os samnitas invadiram a Campânia. Neste ponto, os campânios decidiram se render incondicionalmente aos romanos, o que os obrigou a intervir para proteger seus novos súditos contra os samnitasLívio, Ab Urbe Condita VII 29.3-32.1–2. Historiadores modernos discutem se essa rendição de fato aconteceu ou se foi inventada para absolver Roma da quebra do tratado, mas geralmente se concorda que Roma formou alguma espécia de aliança com CápuaSalmon (1967), p. 197; Cornell (1995), p. 347; Oakley (1998), pp. 286–9; Forsythe (2005), p. 287.

A Primeira Guerra Samnita terminou em 351 com uma negociação de paz e a renovação do tratado anterior. Roma manteve sua aliança com os campânios, mas aceitou que os sidicínios passassem para a esfera de influência samnitaLívio, Ab Urbe Condita VIII 1.8-2.3Salmon (1967), p. 202; Forsythe (2005), p. 288. Segundo Lívio, assim que a paz com Roma foi fechada, os samnitas atacaram os sidicínios com as mesmas forças que haviam utilizado contra Roma. Enfrentando uma inevitável derrota, os sidicínios tentaram se render a Roma, mas a rendição foi rejeitada pelo Senado com o argumento de que ela teria vindo tarde demais. Os sidicínios então se voltaram aos latinos, que já se preparavam para a guerra. Os campânios se juntaram à guerra e, liderado pelos latinos, um grande exército invadiu Sâmnio. A maior parte dos danos provocados aos samnitas foi resultado de raides e não de batalhas e, embora os latinos terem levado a melhor em vários encontros com os samnitas, eles próprios recuaram do território inimigo. Os samnitas enviaram embaixadores a Roma para reclamar e exigir que, se latinos e campânios realmente eram povos súditos de Roma, Roma deveria utilizar sua autoridade sobre eles para evitar novos ataques ao territórios samnitas. Os campânios haviam se rendido a Roma e estavam obrigados a obedecer, porém não havia nada no tratado com os latinos que os impedisse de declarar guerra com quem quer que fosseLívio, Ab Urbe Condita VIII 2.4-13. O resultado desta resposta foi uma completa revolta dos campânios contra Roma, o que encorajou os latinos a agirem. Com a desculpa de estarem preparando uma guerra contra os samnitas, os latinos tramaram em segredo com os campânios para lutar contra Roma. Porém, o plano vazou e, em Roma, os cônsules de 341 a.C. receberam ordens de deixarem seus postos antes do final de seus mandatos para que novos cônsules pudessem assumir no início dos preparativos de uma grande guerra que se avizinhava. Os cônsules eleitos para 340 a.C. foram Tito Mânlio Imperioso, pela terceira vez, e Públio Décio MusLívio, Ab Urbe Condita VIII 3.1-5.

Historiadores modernos não dão muito crédito a esses eventos que supostamente ocorreram depois do final da Primeira Guerra Samnita, defendendo que seriam em grande parte inventados. Há diversas similaridade com os eventos que supostamente teriam dado início à Guerra Samnita, com os samnitas mais uma vez em guerra contra os sidicínios e uma oferta de rendição feita a Roma, uma duplicação que quase certamente não é históricaOakley (1998), p. 394; Forsythe (2005), p. 289. Desta vez a rendição foi recusada, o que revela a superioridade moral do Senado Romano na épocaOakley (1998), p. 394. O suposto complô entre latinos e campânios também é provavelmente uma invenção, inspirada por conversas secretas similares dos italianos antes da Guerra Social (91-88 a.C.), na qual os planos também vazaramForsythe (2005), p. 289.

Guerra Relato antigo Lívio escreveu que, quando os romanos souberam das conversas secretas dos latinos com os campânios, eles ordenaram que dez lideranças entre os latinos viessem a Roma para receber instruções, simulando uma preocupação com os samnitas. Nesta ocasião, os latinos contavam com dois dois pretores, Lúcio Ânio, de Sétia, e Lúcio Numísio, de Circeii, ambas colônias. Através de seus esforços, as colônias de Signia e Velitras, além dos volscos, foram convencidas a irem a guerra contra RomaLívio, Ab Urbe Condita VIII 3.8-9. Como não poderia haver dúvidas sobre as reais intenções desta convocação a Roma, os latinos realizaram uma assembleia para decidir o que seus líderes deveriam responder às perguntas que eles esperavam que os romanos fossem perguntarLívio, Ab Urbe Condita VIII 3.10. Neste encontro, Ânio reclamou que Roma estava tratando os latinos como súditos e não como aliados e propôs que os latinos deveriam exigir que, dali em diante, um cônsul e metade dos senadores romanos deveriam ser eleitos pelos latinos, o que daria aos latinos um poder equivalente ao de Roma no governo. Esta medida foi aceita e Ânio foi nomeado porta-voz pelos latinosLívio, Ab Urbe Condita VIII 4.1-12. O Senado recebeu a delegação latina no Templo de Júpiter Ótimo Máximo, no Capitólio, e recomendou que os latinos não deveriam ir à guerra contra os samnitas por causa do tratado com Roma. Em um discurso no Senado, Ânio apresentou as demandas dos latinos e recebeu uma furiosa resposta do cônsul Tito Mânlio TorquatoLívio, Ab Urbe Condita VIII 5.1-12. Lívio conta que, segundo a tradição, enquanto os senadores invocavam os deuses como guardiões de seus tratados com os latinos, Ânio teria sido ouvido desprezando o poder divino de Júpiter. Porém, quando saía furioso do templo, Ânio escorregou na escada e ficou inconsciente ou, segundo alguns autores, morreu. Quando Torquato viu Ânio deitado ali, jurou atacar os exércitos dos latinos da mesma forma que os deuses atacaram o enviado latino. Este discurso foi aplaudido pelo povo romano e a guerra foi declaradaLívio, Ab Urbe Condita VIII 6.1-7.

Visão moderna