thumb|right|300px|Pelo Ruch contra dois adversários, em 1937

Ernst Otto Willimowski para os alemães e Ernest Othon Wilimowski para os poloneses (Kattowitz, 23 de junho de 1916 — Karlsruhe, 30 de agosto de 1997) foi um futebolista silesiano, que jogou pela Polônia e Alemanha. Ficou famoso como o jogador que mais gols conseguiu marcar em uma única partida contra a seleção brasileira, ao marcar quatro em histórico duelo pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo FIFA de 1938,GEHRINGER, Max (novembro de 2005). Polonês goleador. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 3 - 1938 França. Editora Abril, p. 31 em uma das partidas consideradas entre as maiores da história da competição. Apesar do desempenho do atacante, a Polônia perdeu, por 6–5.CASTRO, Robert (2014). Capítulo IV - Francia 1938. Historia de los Mundiales. Montevidéu: Editorial Fín de Siglo, pp. 56-78

Wilimowski também foi o primeiro jogador a marcar quatro vezes em uma só partida de Copa do Mundo FIFA, e a marca só foi superada em 1994, por Oleg Salenko.

Mesmo sem ser muito alto, medindo 1,72 metros, possuía boa impulsão e ótima colocação dentro da grande área, sendo um grande finalizador e habilidoso driblador dotado de grande frieza e oportunismo. Tinha polidactilia no pé direito, cujos seis dedos eram descritos por ele como um talismã. Sua carreira terminou bastante afetada pela Segunda Guerra Mundial, a transforma-lo em traidor perante os poloneses por ter passado a defender a Alemanha e por priva-lo de jogar, no auge de forma, a hipotética Copa do Mundo FIFA de 1942.

Antes do futebol Seu nome de batismo era Ernst Otto Pradella (o que possivelmente denotaria alguma origem italiana), filho de um soldado alemão, Ernst-Roman, que morreu na Primeira Guerra Mundial. Aos 13 anos, quando sua mãe, Paulina Florentyna, casou-se novamente, adotou o sobrenome de seu padrasto e adquiriu cidadania polonesa. Sua cidade natal, Kattowitz, que fazia parte do Império Alemão, passara em 1922 a fazer parte da Segunda República Polonesa e mudara de nome para Katowice.

Carreira em clubes Campeonato Polonês Wilimowski começou a carreira no Kattowitz, clube de jogadores de origem alemã na renomeada cidade de Katowice. Em 1933, quando ainda tinha 17 anos, foi para o Ruch Wielkie Hajduki (atual Ruch Chorzów), onde logo se destacou com impressionante habilidade goleadora e no drible. Foi campeão polonês já em 1934, em campanha com sete pontos de diferença para o segundo colocado. Wilimowski também foi o artilheiro do campeonato, com 34 gols em um campeonato de 22 rodadas. O vice-artilheiro foi seu colega Teodor Peterek. Naquele mesmo ano, ele estreou pela seleção polonesa.

Em 1935, o Ruch foi bicampeão seguido, dessa vez com um ponto de vantagem para o segundo colocado. Wilimowski jogou somente sete partidas dessa campanha, mas marcou oito vezes; o tricampeonato seguido veio em 1936, dois pontos acima do segundo; nessa campanha, a dupla Wilimowski-Peterek obteve conjuntamente a artilharia do campeonato, com cada um marcando dezoito vezes em um torneio de dezoito rodadas. Wilimowski, porém, atravessou um ano suspenso por conduta extracampo considerada imprópria, marcada por festas e bebedeiras.

O Ruch acabou caindo para a terceira colocação em 1937, recuperando o título em 1938, a seis pontos do vice-colocado. Wilimowski marcou dezenove vezes, ao longo de dezoito rodadas, embora não tenha sido o artilheiro e sim o colega Peterek, que marcou 21.

Convocado à Copa do Mundo FIFA de 1938, seu desempenho contra o Brasil fez com que dirigentes deste país sondassem-no como propostas que chegaram a interessar-lhe, mas a transferência foi impedida pela Associação Polonesa de Futebol. Também recebeu ofertas de clubes franceses.A conquista da Taça do Mundo (11 jun 1938). O Imparcial, p. 1 O campeonato de 1939 terminou não finalizado em decorrência do início da Segunda Guerra Mundial, deflagrada pela invasão da Polônia pela Alemanha Nazista em setembro daquele ano. O Ruch liderava a competição, com 18 pontos, ainda que com até duas partidas a mais em relação a alguns concorrentes. Wilimowski era o artilheiro, com 25 gols, ao longo de quatorze rodadas. O campeonato polonês só voltaria a ser disputado após a guerra, retomado em 1946, já sem o atacante.

Dos jogadores que marcaram entre cem e 130 gols no campeonato polonês, Wilimowski, que acumulou 112, é aquele que precisou de menos tempo, com cinco temporadas; a maioria dos demais precisou de dez anos ou mais. O Ruch, embora não seja campeão desde 1989, seguia à altura de 2017 como maior vencedor do campeonato, obtendo na década de 1930 cinco de seus quatorze títulos poloneses.

Futebol alemão de guerra

As autoridades da ocupação alemã na Polônia planejaram formar um grande time na Silésia com jogadores regionais para insuflar uma identidade alinhada com o novo poder. A equipe tratou-se do Kattowitz, onde Wilimowski havia começado. Ele, que recobrara a cidadania alemã, retornou ao clube de origem. Os clubes locais passaram a disputar o campeonato alemão, então disputado inicialmente em grupos regionais que incluíam territórios anexados também na Áustria, Alsácia e Sudetos. Somente os líderes avançavam a jogos eliminatórios nacionais.

Wilimowski, porém, não ficou muito tempo regressado ao Kattowitz. Já em 1940, deixou definitivamente a Polônia. Sua vinda ao futebol brasileiro, como refugiado da Segunda Guerra Mundial, chegou a ser especulada; o Fluminense teria lhe convidado através de um cônsul. O embarque do jogador no navio Raul Soares foi inclusive noticiada,O passe do polonez dará grande trabalho ao Fluminense (4 set 1940). Diário da Noite, p. 6 O goleiro tricolor Batatais, que sofrera os quatro gols do polonês na Copa do Mundo FIFA de 1938, inclusive pronunciou-se, mas com desdém: "estão exagerando o valor deste rapaz. É apenas um bom atacante, como dos muitos que temos aqui. A circunstância de ele ter assinalado quatro gols contra os brasileiros não é motivo para se atribuir qualidades de grande artilheiro. Naquela tarde, jogamos praticamente sem zagueiro direito. Domingos ardia em febre e só entrou em campo porque Pimenta insistiu. Daí ter Wilimowski agido quase à vontade. Em condições normais, afirmo, ele não teria marcado nem um goal contra o meu arco".É um jogador comum o atacante polonez que vem ahi (5 set 1940). Diário da Noite, p. 6 O America também estaria interessado no jogador.Nenhum entendimento com Willimowski (6 set 1940). A Noite, p. 7

Contudo, a notícia do embarque logo provou-se inverídica;Chegou o "Raul Soares" (8 set 1940). A Noite, p. 7 esclareceu-se que ele encontrava-se em Breslau e o anúncio da chegada do astro foi reconhecida como "o maior 'bluf' dos últimos tempos nos meios esportivos. Depois de um farto noticiário em torno do famoso meia-esquerda polonês, verificou-se a tremenda decepção dos que o foram recepcionar no cais, quando da chegada do 'Raul Soares', no dia 7".Willimowski cidadão alemão (14 set 1940). A Noite, p. 7 Mesmo assim, no mês seguinte ainda chegou a ser divulgado que ele enfim conseguira ver-se livre da Alemanha, estando na Espanha aguardando regularizar documentos para embarcar ao Brasil.Notas cariocas (22 out 1940). Correio Paulistano, p. 8

Wilimowski seguiu carreira por um time da região da Saxônia, o Polizei Chemnitz. Na temporada 1940–41, o clube ficou em terceiro no torneio saxão, liderado pelo Dresdner. Tal clube era uma potência na época, liderado pelo artilheiro Helmut Schön, posteriormente técnico da Alemanha Ocidental campeã da Copa do Mundo FIFA de 1974. Mesmo com a eliminação na fase inicial, em 1941 Wilimowski passou a defender a seleção alemã - segundo sua filha, porque não queria morrer.

Na temporada 1941–42, o vencedor saxão foi o Planitz, mas Wilimowski continuou em paralelo sendo assiduamente usado pela seleção. Ele logo ingressou no Munique 1860, na época ainda uma equipe de porte similar ao do vizinho Bayern Munique, então um clube modesto.VIGNOLI, Leandro (2017). 3. O incrível fracasso do Munique 1860. À sombra de gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu. São Paulo: L. Vignoli, 2017, pp. 38-45 Wilimowski foi ainda em 1942 campeão da Copa da Alemanha pelo time celeste, abrindo o placar aos 35 minutos do segundo tempo na vitória por 2–0 sobre o Schalke 04, outra grande potência alemã na época; com seis títulos e três vice-campeonatos entre 1933 e 1942, gerava percepção de que seria inclusive o time pelo qual torceria Adolf Hitler. Foi o primeiro dos dois títulos do 1860 na Copa.

O 1860 também foi o vencedor do torneio regional do sul da Baviera na temporada 1942–43, caindo no segundo mata-mata da fase nacional. Na temporada seguinte, o vencedor regional foi o Bayern. O agravamento da Segunda Guerra Mundial em solo alemão suspendeu as disputas do campeonato entre 1944 e 1945; em meio ao conflito, a influência de Wilimowski salvou a vida de sua mãe, que havia sido enviada a Auschwitz após se envolver com um judeu russo.

Carreira alemã pós-guerra

Após a guerra, Wilimowski inicialmente tentou voltar à Polônia, mas foi impedido em permanecer, considerado um traidor. Acabou se mantendo no futebol alemão; porém, considerado um pária, teve de recomeçar em clubes modestos. Inicialmente, no Chemnitzer, clube que disputava o campeonato da Alemanha ocupada pelos soviéticos, futura Alemanha Oriental, na qual a cidade de Chemnitz mudou de nome para Karl-Marx-Stadt.

Ainda na temporada 1947–48, Wilimowski rumou ao Augbsurgo, que por sua vez jogava no Grupo Sul do campeonato do que seria a Alemanha Ocidental. Ali ficou até 1950, com o clube terminando em penúltimo em 1949 e em décimo de dezesseis times em 1950. Seu clube seguinte, a partir da temporada 1950–51, foi o Offenburgo. Nela, sua ex-equipe do Augsburgo foi rebaixada no Grupo Sul. O Offenburgo jogava no Grupo Sul-Sudoeste, descontinuado em 1950, absorvido pelo Grupo Sudoeste a partir de então. O clube, porém, não veio a disputa-lo na primeira divisão.

Após dois anos no Offenburgo, Wilimowski passou a temporada 1952–53 no Singen 04, também um clube ausente da elite; havia sido rebaixado na temporada 1950–51 do Grupo Sul, sem voltar. Veio a se estabelecer em seguida no VfR Kaiserslautern, equipe secundária da cidade de Kaiserslautern; a principal era o 1. FC Kaiserslautern, justamente a equipe base da seleção alemã-ocidental que adiante venceria a Copa do Mundo FIFA de 1954. Na temporada 1953–54, o rival venceu o Grupo Sudoeste enquanto a equipe de Wilimowski foi a última das não-rebaixadas na chave, em antepenúltimo. Apesar do porte do clube, Wilimowski seguia destacando-se individualmente, conseguindo acumular setenta gols em noventa jogos pelo time, tendo plena capacidade para também estar naquela seleção.

Wilimowski permaneceu na equipe até 1956, com ela não indo além do 12º lugar enquanto o time vizinho sempre liderava o grupo.Seguiu carreira no Kehl, onde parou de jogar em 1959.

Seleção Polônia thumb|right|300px|Polônia e Brasil perfilados antes da partida de estreia de ambos na Copa do Mundo FIFA de 1938. Ambos usavam camisas brancas e por sorteio definiu-se que os brasileiros usariam uma camisa azul celeste

Wilimowski estreou pela seleção polonesa em 21 de maio de 1934, em derrota amistosa por 4–2 para a Dinamarca em Copenhague. Dois dias depois, jogou novamente e marcou pela primeira vez, em nova derrota de 4–2, para a Suécia em Estocolmo. Jogou outras três vezes pela Polônia naquele ano, sem vencer, mas marcando outras duas vezes: perdeu por 4–1, marcando, para a Iugoslávia em Belgrado; de 5–2 para a Alemanha dentro de Varsóvia, também marcando sobre sua outra pátria; e empatou em 3–3 com a Romênia em Leópolis.