Fídias (em grego Φειδίας; Atenas, c. — Olímpia ?, c. Károly Simonyi. A Cultural History of Physics. CRC Press; 2012. ISBN 978-1-56881-329-5. p. 612.) foi um célebre escultor da Grécia Antiga.
As fontes primitivas sobre sua biografia são lacônicas e contraditórias, e sua memória foi carregada de mitos e folclore. O que se tem como certo é que ele foi o autor de duas das mais famosas estátuas da Antiguidade, a Atena Partenos e o Zeus Olímpico, e, segundo a tradição, sob a proteção de Péricles encarregou-se da supervisão de um vasto programa construtivo em Atenas, devastada pelos persas em , mas hoje se pensa que seu papel tenha sido bem mais limitado e concentrado na reedificação e decoração do Partenon, localizado na Acrópole da cidade.
Nenhuma das suas obras originais sobreviveu até o presente, salvo os grupos escultóricos do Partenon, mas parece pouco provável que ele tenha esculpido pessoalmente qualquer dos seus elementos. Algumas partes em particular lhe têm sido atribuídas, sem qualquer garantia, e a considerar a quantidade de peças, a relativa rapidez com que foram esculpidas e seu envolvimento concomitante e direto com a gigantesca Atena Partenos, o mais plausível é que sua própria mão pouco as tenha tocado, ainda que a homogeneidade dos conjuntos sugira fortemente uma única personalidade criadora na concepção geral da decoração. Outras obras que lhe foram atribuídas sobrevivem através de cópias romanas, e fragmentos de originais a ele atribuídos modernamente, o são em bases também conjeturais.
Igualmente as circunstâncias da sua morte são obscuras e controversas. Apesar da quase total ausência de dados concretos seguros sobre sua vida, através de sua obra Fídias ganhou uma fama grande e duradoura, tido como um dos fundadores e um dos mais perfeitos expoentes do Alto Classicismo na escultura, e como um dos mais importantes escultores do ocidente.
Seu contexto e estilo
Fídias viveu no chamado Século de Péricles, uma fase de intensa atividade política, militar e cultural em Atenas. A democracia se consolidava como uma forma de governo para eles racional, liberal e equilibrada, essencialmente humanista e oposta ao odiado totalitarismo encarnado pelos persas, que estavam engajados em uma longa série de atritos contra os gregos, as Guerras Médicas, desde meados do , só encerrados com a vitória final grega em na Batalha de Plateias. Com a ascensão de Péricles ao poder a partir de c. o foco de atenção mudou, e foi selada a paz definitiva com os persas no intuito de concentrar forças para combater a rivalidade de Esparta, a expensas de seus aliados da Liga de Delos.Castriota, David. Myth, Ethos, and Actuality: Official Art in Fifth-Century B.C. Athens. University of Wisconsin Press, 1992. pp. 134-135 Tais eventos foram seguidos de uma reorientação no programa de edificações civis e comemorativas desenvolvido na cidade. Os persas haviam saqueado Atenas em e destruído muitos de seus templos e monumentos. De início os edifícios foram deixados deliberadamente em ruínas, como uma lembrança perene da barbárie estrangeira, mas a paz com o antigo inimigo possibilitou uma revisão política nessa atitude, e já parecia natural que a cidade fosse restaurada, especialmente seus santuários na Acrópole, como forma de expressão da sua posição política dominante e como um sinal de gratidão a Atena, a deusa tutelar da Ática. Para administrar esse impulso construtivo Fídias foi contratado como o supervisor geral das obras.Castriota, David. pp. 134-137
thumb|Kouros Krosios, c. Exemplo do estilo arcaico thumb|O Diadúmeno atribuído a Fídias, muito semelhante à composição de Policleto de mesmo nome. Cópia romana
Fídias encontrou a escultura grega atravessando um período de profunda e rápida transformação, e ele na verdade foi um dos principais motores desse processo. Os antecedentes dessa mudança estavam na escultura arcaica, que produzira um estilo formalista e rigoroso privilegiando convenções generalistas e abstratizantes. Essas convenções permaneceram quase inalteradas por quase duzentos anos, espelhavam a hierarquização estática da sociedade e permaneciam alheias à representação de particularismos anatômicos naturalistas. Com os arcaicos se iniciara a identificação da beleza física com a virtude moral, num conceito conhecido como kalokagathia, e na tipologia do kouros, a mais importante dessa fase, o orgulho e autoconfiança aristocratas, bem como a sua coragem guerreira e seu espírito de grupo, ficavam já bem expressos. Na virada do para o o rigor arcaico começou a se dissolver, nascendo o que se denominou estilo Severo ou pré-Classicismo, em vista do declínio da sociedade aristocrática e oligárquica que lhe servira de justificativa, e do florescimento do sistema democrático, onde idealmente os propósitos coletivos coincidem com os individuais. Uma nova ênfase no individual, quando já se via o homem como o centro do universo, fez com que na representação do corpo humano se dissolvessem as abstrações formais arcaicas em direção a um estilo mais próximo da natureza. Em meados do Míron, Policleto e Fídias entraram em cena reformulando definitivamente o cânone de proporções arcaico e fundando o Classicismo escultórico, retratando o corpo humano de forma muito mais naturalista, mas continuando a buscar nele o reflexo de valores morais coletivos.Pollitt, Jerome (1972). Art and experience in classical Greece. Cambridge University Press, 1972. pp. 96-97Hemingway, Colette & Hemingway, Seán. The Art of Classical Greece (ca. 480–323 B.C.). In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, January 2008
Mesmo com o triunfo do naturalismo, não se deve imaginar que a escultura clássica tenha sido realista, no sentido de se fixar em detalhes individuais ou pretender a exatidão de um retrato. Enquanto que procurou elaborar as relações entre mundo espiritual e mundo material através de uma arte cujo caráter era mais mimético do que a arcaica, com uma anatomia mostrada com crescente correção e verossimilhança, se revelou tão generalizante quanto a outra, pois esse maior detalhamento anatômico ignorava as idiossincrasias individuais para construir um modelo ideal de forma. Permanecia desse modo altamente simbólica, pois uma boa escultura era vista como muito mais do que simples ornamento belo ou exibição de virtuosismo técnico, era principalmente instrumento de educação cívica e ética, servindo para ilustração visual de princípios de moralidade, patriotismo, coragem, harmonia e espírito público. Essas qualidades eram eternizadas na escultura através de seu idealismo, e podiam ser apreendidas pela sua contemplação e emuladas pelos cidadãos que desejavam ascender a uma posição destacada na pólis,Steiner, Deborah. Images in mind: Statues in Archaic and Classical Greek Literature and Thought. Princeton University Press, 2001. pp. 26-49 onde a crença nos valores de grupo, na sociedade, se carregou de tal significado que o civismo passou a ser venerado quase como uma deidade.Pollitt, Jerome (1972). p. 97 Ficava fortemente enfatizado assim o papel pedagógico da arte, que foi uma das preocupações centrais do Classicismo e que foi defendido por Sócrates e em seguida por Platão e Aristóteles, numa discussão que lançou as bases da Estética como ramo independente da Filosofia.Steiner, Deborah. pp. 26-49
Infelizmente só se pode analisar o estilo pessoal de Fídias por vias indiretas, já que nenhuma de suas estátuas colossais sobreviveu, e o que se tem hoje à mão concretamente são cópias romanas de originais a ele atribuídos, de autenticidade nem sempre segura, e os grupos decorativos do Pártenon, de quem foi o com toda probabilidade o idealizador mas dificilmente o escultor prático. É lícito inferir os elementos constituintes do seu estilo, porém, da tendência geral da escultura de seu tempo, como descrita acima, que em suma se baseava no naturalismo mas buscava expressar a harmonia e equilíbrio entre corpo e espírito, a beleza ideal e um ethos elevado. Se fossem desconhecidos os relatos históricos sobre seu imenso talento, e sobre a impressionante aparência e o profundo significado das suas melhores criações para seus contemporâneos, pelo que permanece do Pártenon bastaria para se afirmar com segurança que foi um inventor de formas altamente dotado, inspirado pela solenidade, pela austeridade, pelo dinamismo e força, pelo monumental e pelo épico, que o levaram para longe do arcaísmo e abriram um novo mundo para a representação da figura humana.Argullol, Rafael. Tres miradas sobre el arte. Icaria Editorial, 1985. p. 119
Primeiros anos
Acontece com muitos nomes célebres da Antiguidade que haja um marcante contraste entre o que se sabe de sua fama e obras e o que se conhece sobre sua vida, e Fídias pertence a esta categoria de artistas de renome universal mas quase sem quaisquer detalhes confiáveis sobre sua biografia, substituída que foi por uma coleção de lendas e narrativas apócrifas e não raro contraditórias, de valor histórico muito duvidoso.Smith, William. Dictionary of Greek and Roman biography and mythology. Boston: Little, Brown & Co., 1850. pp. 243 A sua situação se complica quando se sabe que as maiores fontes de dados para a reconstrução de sua existência, Plínio, Pausânias e Plutarco, fizeram seus relatos vários séculos depois de sua morte. Plínio disse que ele era filho de um certo Cármides. De acordo com um comentarista de Aristófanes, ele havia se formado como pintor, mas depois teria sido instruído na escultura por Ageladas, da Escola de Argos, e, segundo Dião Crisóstomo, também pelo ateniense Hegias.The British Museum. Elgin and Phigaleian Marbles. The British Museum. London: Charles Knight, 1833. p. 116
Iniciou sua carreira no tempo de Címon, logo após o encerramento das Guerras Médicas, e nesta época seu estilo devia evidenciar a influência dos escultores Severos com quem aprendera. Fontes antigas atribuem a ele em seus primeiros anos 13 figuras em bronze para o santuário de Apolo em Delfos, incluindo o deus, Atena e heróis; uma estátua de Atena em ouro e marfim para Pelene; um grande acrólito da Atena Areia para Plateias, com trajes de ouro, apenas um pouco menor do que a colossal Atena Promacos, feita para Atenas.Waldstein, Charles. Essays on the Art of Pheidias. Kessinger Publishing, 1885-2005. pp. 66-67 Atualmente também se credita aos seus primeiros anos o original do Hermes Ludovisi, mas sem grande certeza.Boardman, John. "Three Greek Gem Masters". In: The Burlington Magazine, 1969; 111 (799).
Atena Promacos
thumb|left|A Atena Promacos sobre a Acrópole mostrada em uma moeda
A Atena Promacos ("a que guerreia na vanguarda") foi possivelmente a primeira obra de vulto de Fídias. Elaborada em bronze com o espólio da Batalha de Maratona e dedicada a Atena em agradecimento pelo sucesso militar, tinha cerca de 10 m de altura e, instalada na Acrópole de Atenas em c. , podia ser vista desde o mar. Ali permaneceu até que Constantino I a levou para Constantinopla, onde foi destruída pela massa do povo em 1204, crendo que ela havia conjurado a aproximação da esquadra da IV Cruzada.Tritle, Lawrence A. p. 119