Epidemiologia genética é um campo emergente com diversos interesses, representa uma importante interação entre as duas disciplinas que o originaram: genética e epidemiologia. Pode se dizer que a epidemiologia genética é o estudo da ação conjunta de genes e fatores ambientais enquanto causa de doenças em populações humanas e dos seus padrões de herança familiar.Duncan C. Thomas. Statistical Methods in Genetic Epidemiology. Oxford University Press. 2004 ISBN 978-0-19515939-4 p.3 A epidemiologia genética difere da epidemiologia por sua explicita consideração aos fatores genéticos e semelhança familiar, ela difere da genética de populações por seu foco sobre a doença e também difere da genética médica por sua ênfase na população investigando simultaneamente o impacto dos fatores ambientais.Khoury, M.J.; Beaty, T.H.; Cohen, B.H. Fundamentals of Genetic Epidemiology. New York, Oxford University Press, 1993 MacMahon & Pugh assinalam que tanto a genética como a epidemiologia dependem da aplicação da estatística e matemáticas para analisar a frequência e padrões de distribuição das doenças MACMAHON B.; PUGH, T.F. Princípios y métodos de epidemiologia. México, La Prensa Médica Mexicana, 1975. p.279

Nas relações acima descritas deve se observar que a genética também possui seu próprio modelo teórico como o exemplo do postulado que define os organismos como a relação de um conjunto de genes entre si e com o seu meio ambiente,Lewontin, Richard C. Genes, organismo y ambiente: las relaciones de causa y efecto en biología. Barcelona, Gedisa, 1998 tal modelo se revela capaz de prever ou explicar relações que não seriam percebidas analisando-se somente a distribuição de patologias, concebidas com o modelo de genética determinística, como por exemplo uma mutação de um gene recessivo com possibilidade "X" de expressão em um casamento, consanguíneo ou não, em uma população com freqüência "Y" daquele gene.McKusic, A. Victor. Mendelian inheritance in man, 1975. apud: Gardner, L.I.;'Neu, R.L. Ortega, C.C. Manual de Genética Humana. RJ, Guanabara Koogan Ed. 1976 Freire-Maia, Newton. Genética de populações humanas. SP, HUCITEC, EDUSP, 1974 Cabe a epidemiologia, por análise de multicausalidade, a determinação da freqüência de doenças na população,Almeida Filho N, Rouquayrol MZ. Introdução à epidemiologia moderna. BR, BA, COOPMED/ APCE/ ABRASCO, 1992. nesse caso de agravos de natureza genética, em sua interação com fatores (causais) mutagênicos e possibilidades de expressão, além de identificar separadamente a frequência de alelos associados à patologias e seu comportamento na população, por associação à genética populacional.

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Aplicações da epidemiologia genética Uma das principais aplicações dessa interdisciplina estendida à toxicologia são às demandas sanitárias e jurídico - políticas decorrentes da agressão tóxico-genética ou seja, dano ao DNA celular e ao aparelho reprodutivo, especialmente os gametas, geralmente por poluição ambientalOttaway, James H.. Bioquímica da poluição. SP, EPU/Ed. da Universidade de S. Paulo, 1982 (especialmente radiativa), acidente nuclear,Freire Maia, Newton. Radiogenética humana, SP, Edgard Blücher Ed. / EUSP, 1972 contaminação de alimentos ou exposição de trabalhadores.Frumkin, H. Carcinogens. in Levy, B.S.; Wegman, D.H. (Ed.) Occupational Health, recognizing and preventing work relatto disease. USA, NY, Little Brown and Company, 1995 Hardy, R.J. A surveilance system for assesing health efects from hazardous exposures. American Jounal of Epidemiology, Vol.132, Suppl nº 1, USA, 1990

Outra aplicação, ainda mais conhecida são os critérios de liberação comercial /seleção de um fármaco no mercado considerando-se a segurança quanto ao risco de mutagênese, carcinogênese e teratogênese.Monteleone Neto, R.; Rabello-Gay, M.N.; Rodrigues, M.A.R. (Org.). Mutagênese, Teratogênese e Carcinogênese, métodos e critérios de avaliação. Ribeirão Preto, Sociedade Brasileira de Genética/Revista Brasileira de Genética , 1991 COSTA, Paulo Pedro P.R. Perspectivas epidemiológicas para avaliação e controle de dano tóxico-genético na população residente em um município próximo a um Polo Petroquímico - Camaçari, Ba 1979 – 1992. Ba, Monografia para conclusão da Especialização em Epidemiologia orientação Naomar de Almeida Filho. Instituto de Saúde Coletiva (ISC) UFBa, 1997 SALZANO, Francisco Mauro. Saúde pública no Primeiro e Terceiro Mundos: desafios e perspectivas. Ciênc. saúde coletiva, São Paulo , v. 7, n. 1, p. 7-16, 2002 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232002000100002&lng=en&nrm=iso>. access on 09 Sept. 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232002000100002.

Os problemas jurídicos de avaliação de risco devem incorporar tal possibilidade na identificação de um dano à população ou da resposta de cada organismo à uma exposição tóxica, constituem-se como problemas de diagnóstico clínico ou interpretação de indicadores consensualmente instituídos.WHO - World Health Organization. Guidelines for the study of genetic efects in human populations. Enviromental Health Criteria 46. Geneva, World Health Organization, 1985

A epidemiologia por sua articulação com distintos campos das ciências médicas, ou sociais (onde a norma jurídica é formalizada), torna-se o instrumento da avaliação técnica do risco ou danos. Além do que, logicamente, se articula com as práticas de avaliação, planejamento, administração das ações de saúde pública.DEVER, G. E. Alan. A epidemiologia na administração dos serviços de saúde. SP, Pioneira, 1988

Além da dimensão epidemiológica ou populacional de um dano a ser legado por herança à gerações futuras (efeito fundador PINTO, Emilia M. et al . Founder effect for the highly prevalent R337H mutation of tumor suppressor p53 in Brazilian patients with adrenocortical tumors. Arq Bras Endocrinol Metab, São Paulo , v. 48, n. 5, p. 647-650, out. 2004 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302004000500009&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 09 set. 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302004000500009.), em nível de indivíduos afetados, a tarefa do pesquisador em epidemiologia genética é o subsídio à informação - aconselhamento genético e incorporação da genética clínica (ou Geneticista) na avaliação p/ laudo pericial da Justiça do Trabalho em Unidades de Saúde do Trabalhador, visando se estabelecer nexo causal entre determinado dano genético e seu ambiente, o que por sua vez também exige a aplicação, por excelência, da genética de populações, para se estabelecer as frequências esperadas no universo de possibilidades (gene pool) de expressão do genoma da população e o risco individual. Não se descarta também o uso de marcadores biológicos de natureza citogenéticaGuidelines for the study of genetic efects in human populations. Enviromental Health Criteria 46. Organização Mundial da Saúde. Geneva, 1985 identificando o dano toxicogenético, que não pode ser caracterizado unicamente por danos ao concepto neonato e lesão cancerígena.

A medida das doenças e da exposição tóxica ambiental

No estudo do efeito tóxico-genético a identificação do dano em nível de população, portanto, se constitui como uma tarefa da epidemiologia. Tal estudo deve incluir a seleção e validação de indicadores de morbi-mortalidade da população, elaborados a partir da estatística vital Hardy, R.J. A surveilance system for assesing health efects from hazardous exposures. American Jounal of Epidemiology, Vol.132, Supl nº 1, EUA, 1990 e inquéritos epidemiológicos.

Em paralelo, ou antes mesmo da monitoração das doenças ou danos, deve-se avaliar indicadores de exposição aos fatores de risco ambientais, inclusive bioindicadores (animais, vegetais, ou aspectos específicos do ecossistema). O conjunto de tais medidas é que vão compor os sistemas de vigilância a saúde ambiental e ocupacional.Maciel Filho, Albertino Alexandre; Góes Junior, Cícero Dedice; Cancio, Jacira Azevedo; Oliveira, Mara Lúcia; Costa, Silvano Silvério. Indicadores de vigiläncia ambiental em saúde. Inf. epidemiol. SUS;8(3):59-68, jul.-set. 1999. PDF Acesso: Out. 2015Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. Saúde ambiental : guia básico para construção de indicadores / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. – Brasília : Ministério da Saúde, 2011. PDF Acesso: Out. 2015Shcheglov, A. I.; Tsvetnova, O. B.; Stolbova, V. V. Bioindication of radioactive contamination of natural ecosystems. Moscow University Soil Science Bulletin October 2013, Volume 68, Issue 4, pp 185-191 Abstract Acesso: Out. 2015

Neste ultimo caso associando sua verificação aos parâmetros das medidas de avaliação da poluição ambiental e LTB - Limites de Tolerância Biológica definidos por lei.OMS – Organizacion Mundial de la Salud. Límites recomendados por razones de salud en la exposición profesional a determinados solventes orgánicos. Ginebra, OMS, série informes técnicos 664, 1982.

Deve-se levar em conta também as frequências normais dos fenômenos observados. Todo polimorfismo ou variação natural da espécie, bem como as doenças genéticas hereditárias onde se incluem alguns tipos de câncer, são decorrentes de mutações na linhagem germinativa, ou seja são hereditárias, transmissíveis para geração seguinte. Hiernaux, Jean. A diversidade biológica humana. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1988 Louro, Iuri D. et al. Genética molecular do câncer. SP, MSG, 2000 ISBN 85-88092-01-8 PEREIRA, Sabrina Bernardez et al . Os polimorfismos dos receptores adrenérgicos na insuficiência cardíaca: o que a genética explica?. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo , v. 94, n. 6, p. 841-849, June 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0066-782X2010000600019&lng=en&nrm=iso>. access on 09 Sept. 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010000600019.

A medida de sua ocorrência ou a taxa de mutação de um gene é expressa como o número de mutações novas pelo local ou posição esperada para o gene "normal" no cromossomo (locus) por geração, situa-se na ordem de 1 X 10 -5 a 10 -6 por locus por geração, ou que significa que uma entre cada 10 pessoas recebeu um gene modificado de um dos seus genitores. As alterações cromossômicas são também freqüentes , estima-se que aproximadamente 60% dos abortos espontâneos e 6% dos Natimortos 0.6% dos Nascidos Vivos apresentam um cariótipo anormal. OPITZ, John M. Tópicos recentes de genética clínica. Ribeirão Preto, Sociedade Brasileira de Genética, 1984 Thompson, Margaret W.; McInnes, R.R.; Willard, H.F.. Thompson & Thompson, Genética Médica. 5ª ed. RJ, Ed. Guanabara Koogan, 1966 (1ª ed.) 1993 Thompson, J.S.; Thomson, M.W..Genética Médica. São Paulo, Livraria Atheneu, 1976 Beckman G.; Beckman, L. Nordenson, I.; Nordenson, S. Studies of espontanneous abortion, malfomations and birth weight in populations exposed to environmental pollutants; theoretical considerations and empirical data. in: Berg, Kare (Editor). Genetic damage in man cause by environmental agents. London Academic Press, 1979

Risco tóxico para disfunções reprodutivas O dano tóxicogenético pode se expressar como formas de câncer, malformação congênita e outras disfunções reprodutivas. Problemas aparentemente distintos exceto quanto ao método da “descoberta” por estudos da manifestação de acúmulos de caso (clusters) Fazzo L.; Belli S, Minichilli F; Mitis F, Santoro M, Martina L; Pizzuti R; Comba P; Martuzzi M; Bianchi F. Cluster analysis of mortality and malformations in the Provinces of Naples and Caserta (Campania Region). [Ann Ist Super Sanita. 2008;44(1):99-111. http://www.iss.it/publ/anna/2008/1/44199.pdf] Aces. Set. 2015 Lowry R.B; Kohut R; Sibbald B, Rouleau J. Anophthalmia and microphthalmia in the Alberta Congenital Anomalies Surveillance System.