thumb|right|Homero, por Antoine-Denis Chaudet (1806): o poeta grego Homero é frequentemente apontado como o autor dos hinos. Os Hinos homéricos (Ὁμηρικοὶ Ὕμνοι), de autoria anônima – que celebram várias divindades da mitologia grega – são uma coleção de 33 hinos em língua grega, atribuídos a Homero, e de estrutura hexâmetra.Ribeiro Jr, Wilson A. "Hinos Homéricos ". greciaantiga.org. Acesso: 6 de setembro, 2008.

Pela heterogeneidade, contudo, os estudiosos admitem que os poemas foram escritos por diversos autores antigos de diferentes épocas e, mais amplamente, de regiões distintas entre si.

Os antigos rapsodos, que declamavam versos que não eram de sua própria autoria em festas e concursos, recitavam frequentemente os hinos homéricos – e também outras epopéias de Homero, que constituíam seu repertório principal – em ocasiões religiosas como meio de invocar deuses e celebrá-los, em desempenhos que lembravam atores, às vezes, com o uso de instrumentos como o bastão.Ribeiro Jr, Wilson A. "O Íon de Platão". greciaantiga.org. Acesso: 6 de setembro, 2008.

Conteúdo e performance

Os hinos variam consideravelmente em tamanho, entre 3 e 580 versos remanescentes. Geralmente considera-se que funcionavam originalmente como prelúdios () para recitações de obras mais longas, tais como poemas épicos. Muitos dos hinos terminam com um verso indicando que outra canção se seguirá, às vezes especificamente uma obra de épica heroica. Com o tempo, no entanto, pelo menos alguns podem ter-se alongado e sido recitados independentemente de outras obras. Os hinos que atualmente sobrevivem como obras mais curtas podem, de igual modo, ser resumos de obras mais longas, retendo a introdução e a conclusão de um poema cuja narrativa central se perdeu.

As primeiras fontes conhecidas que se referem aos poemas como "hinos" () datam do primeiro século a.C. Em conceito, um hino antigo era uma invocação de uma divindade, frequentemente conectada com um culto específico ou santuário associado a essa divindade. Os hinos frequentemente cobrem o nascimento da divindade, a sua chegada ao Olimpo e as suas relações com os seres humanos. Vários discutem as origens do culto do deus ou a fundação de um grande santuário dedicado a eles. Alguns são relatos etiológicos de cultos religiosos, rituais específicos, aspetos da iconografia e responsabilidades de uma divindade, ou de aspetos da tecnologia e cultura humanas. Os hinos têm sido considerados como , ou presentes oferecidos às divindades em nome de uma comunidade ou grupo social. Nesta capacidade, Claude Calame referiu-se a eles como "contratos", pelos quais o louvor da divindade no hino convida à reciprocidade por parte dessa divindade na forma de favor ou proteção para o cantor ou para a sua comunidade.

Pouco se sabe sobre os arranjos musicais dos Hinos Homéricos. As composições musicais gregas antigas mais antigas que sobreviveram datam do final do século V a.C., após a composição de quase todos os hinos. Originalmente, os hinos parecem ter sido executados por cantores acompanhando-se a si mesmos num instrumento de cordas, como uma lira; mais tarde, podem ter sido recitados, em vez de cantados, por um orador segurando um bastão. O Hino a Apolo faz referência a um coro de donzelas na ilha de Delos, as Delíades, que cantavam hinos a Apolo, Leto e Ártemis. Referências a instrumentos da família da lira (conhecidos alternadamente como ) ocorrem ao longo dos Hinos Homéricos e de outros textos arcaicos, como a Ilíada e a Odisseia. Estas liras geralmente tinham quatro cordas no período inicial da composição dos hinos, embora versões de sete cordas se tenham tornado mais comuns durante o século VII a.C. Um peã, provavelmente escrito em 138 a.C., menciona o acompanhamento do canto hímnico com uma cítara (um instrumento de sete cordas da família da lira), e contrasta este estilo de música com o do aulos, um instrumento de sopro de palheta. É improvável que a música grega primitiva tenha sido escrita; em vez disso, as composições eram transmitidas oralmente e passadas através da tradição. Até ao século IV a.C., poucas composições parecem ter sido destinadas à repetição de performances ou à transmissão a longo prazo.

Os Hinos Homéricos podem ter sido compostos para serem recitados em festivais religiosos, talvez em concursos de canto: vários pedem direta ou indiretamente o apoio do deus na competição. Alguns aludem ao culto da divindade num lugar específico e podem ter sido compostos para performance dentro desse culto, embora este último não decorresse necessariamente do primeiro. Parece provável que tenham sido executados frequentemente em vários contextos ao longo da antiguidade, tais como em banquetes ou simpósios. Foi sugerido que o quinto hino, a Afrodite, poderia ter sido composto para performance numa corte real ou aristocrática, talvez de uma família na Tróade que reivindicava descendência de Afrodite através do seu filho Eneias. A voz narrativa dos hinos foi descrita por Marco Fantuzzi e Richard Hunter como "comunal", geralmente fazendo apenas referências generalizadas ao seu local de composição ou à identidade do orador. Isto tornava os hinos adequados para recitação por diferentes oradores e para diferentes públicos. Jenny Strauss Clay sugeriu que os Hinos Homéricos desempenharam um papel no estabelecimento de uma conceção pan-helénica do panteão olímpico, com Zeus como o seu chefe, e, portanto, na promoção da unidade cultural dos gregos de diferentes politias.

Hinos A relação de hinos abaixo encontra-se em ordem alfabética de acordo com a divindade homenageada. O número romano em parênteses indica a posição do hino em questão nos manuscritos:

Afrodite (V, VI, X) Apolo (III, XXI) Ares (VIII) Ártemis (IX, XXVII) Asclépio (XVI) Atena (XI, XXVIII) Deméter (II, XIII) Dionísio (I, VII, XXVI) Dióscuros (XVII, XXXIII) Gaia (mitologia) (XXX) Hefesto (XX)

Hélio (XXXI) Hera (XII) Héracles (XV) Hermes (IV, XVIII) Héstia (XIV, XXIX) Musas e Apolo (XXV) Pã (XIX) Posidão (XII) Reia-Cibele (XIV) Selene (XXXII) Zeus (XXIII)

Estrutura Na edição de 1936 de Humbert, existem 33 hinos, de extensão e qualidade desiguais, e que ocupam 190 páginas. Os hinos mais extensos são os de homenagem a Deméter (II), Apolo (III), Hermes (IV) e Afrodite (V). Os hinos a Deméter, Apolo e Afrodite datam do fim do século VII, enquanto que o Hino a Hermes é do início do século VI, sendo os primeiros, portanto, os mais antigos. Quanto aos hinos curtos, existem diversos, entre eles o Hino a Dionísio, a Ares, e o Hino a Pã.

Manuscritos, edições e traduções Os hinos homéricos chegam até a modernidade em diversos manuscritos, sendo que nenhum deles contém os hinos completos e os documentos se encontram em más condições.

As mais antigas edições são a do estudioso ateniense Demétrio Calcondilas de1488, e a da Aldina, de 1504. As principais edições modernas são as de Baumeister (de 1860), Gemoll (de 1886) e Allen & Sikes (de 1904), e a mais recente é a de Humbert (o.c.).

A língua portuguesa conta com traduções de Malhadas, para o Hino a Deméter (1970), a de Malhadas e Moura Neves para o Hino a Apolo Délio (de 1976), e a de Machado Cabral para o Hino a Apolo Pítio (1998), e também a de Marquetti, para os Hinos a Afrodite (2001). A Universidade Estadual Paulista possui um projeto de tradução em desenvolvimento de todos os hinos, através do seu Departamento de Lingüística.

Importância Em geral, os hinos homéricos auxiliam os estudiosos modernos na compreensão da mitologia grega e suas criaturas, bem como possuem valores acerca do ser humano, de seu contato com a terra (Hino a Gaia), e com outros sentimentos (Hino a demais deuses), e também de suas relações com a arte (Hino a Hermes, Hino a Apolo) e com outras áreas da vida. Notas

Leitura adicional Hinos Homéricos: tradução, notas e estudo / Edvanda Bonavina da Rosa... [et al.]; edição e organização Wilson Alves Ribeiro Jr. São Paulo: Editora UNESP, 2010, 576p. MALHADAS, D. & CARVALHO, S.M.S. O Hino homérico a Demeter e os mistérios eleusinos. Cadernos de Ensaio e Literatura, São Paulo, n. 10, p. 66-99, 1970. J. Humbert, Homère / Hymnes. Paris: Les Belles Lettres, 1936. L.A. Machado Cabral, O Hino Homérico a Apolo. Cotia e Campinas: Ateliê e Ed. UNICAMP, 2004. F.R. Marquetti, Da sedução e outros perigos: o mito da deusa mãe. Araraquara: tese de Doutoramento, FCLAr-UNESP, 2001.

Ver também Antigos poemas gregos: Teogonia Odisseia Ilíada

Ligações externas

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