thumb|direita|A rainha Vitória deu o nome para a era histórica. Na história do Reino Unido, a era vitoriana foi o período do reinado da rainha Vitória, de junho de 1837 até sua morte em janeiro de 1901. Localiza-se entre o período georgiano e o eduardiano, e a sua segunda metade coincide com o começo da Belle Époque na Europa continental. Alguns estudiosos poderiam estender o início do período à aprovação do Ato de Reforma de 1832, como a marca do verdadeiro início de uma nova era cultural.
Foi um longo período de paz e relativa prosperidade para o povo britânico, também conhecido como Pax Britannica, com os lucros adquiridos a partir da expansão e domínio do Império Britânico no exterior, bem como o auge e consolidação da Revolução Industrial e o surgimento de novas invenções. Tudo isso permitiu que uma grande e instruída classe média se desenvolvesse. Dos grandes nomes do pensamento moderno foram forjados na época: Charles Darwin e Sigmund Freud. Apesar dos seus impulsos de modernização na ciência, no mergulho do indivíduo e na dinâmica econômica, esta Era foi marcada também por rígidos costumes, moralismo social e sexual, fundamentalismo religioso e exploração capitalista.
Ao final do século, as políticas do novo imperialismo levaram ao aumento de conflitos coloniais e posteriormente, à Guerra Anglo-Zanzibari e a Guerra dos Bôeres na África. Internamente, a política se tornou cada vez mais liberal, com uma série de mudanças graduais na direção de reformas políticas e ao alargamento dos direitos do voto.
Durante a era vitoriana, a população da Inglaterra quase duplicou, passando de 16,8 milhões em 1851 para 30,5 milhões em 1901. A população da Irlanda diminuiu rapidamente, de 8,2 milhões em 1841 para menos de 4,5 milhões em 1901.
No início da era vitoriana, a Câmara dos Comuns foi dominada por dois partidos, os whigs e os tories. A partir de 1850, os whigs são chamados de liberais e os tories ficaram conhecidos como conservadores. Ambas as partes foram lideradas por estadistas proeminentes, incluindo lorde Melbourne, Sir Robert Peel, lorde Derby, lorde Palmerston, William Gladstone, Benjamin Disraeli e lorde Salisbury.
Em 1901, com a morte da rainha Vitória e a ascensão de Eduardo VII, iniciou-se a era eduardiana.Trevelyan, G. M. British History in the Nineteenth Century and After (1782–1901) (1922). online
Economia esquerda|thumbnail|upright=1.2|Abertura da linha ferroviária entre Liverpool e Manchester (1830) Nesta época, a indústria da Grã-Bretanha continuou a ser predominantemente têxtil e, juntamente com a indústria do vestuário empregava quase 40% da mão-de-obra industrial em 1880. A mecanização aconteceu de forma distinta nos setores: alguns, como o do algodão, adotaram-na mais rapidamente, enquanto outros, como o da lã, com um maior atraso.Crouzet F., De la supériorité de l´Anglaterre sur la France (1982), págs 33 e 38 A indústria siderúrgica cresceu de forma bastante rápida, mas perdeu força ao longo da época. O nível de exportações britânicas foi maior na segunda fase da Revolução Industrial, entre 1840 e 1860.W. Schlote, British Overseas Trade (1952), págs. 41-42
No período vitoriano, uma das mais importantes medidas econômicas adotadas foi a revogação dos Atos de Navegação, que foram instituídos por Oliver Cromwell no século XVII. Tal fato deu-se em razão do crescimento naval de outras nações o que estava afetando o comércio e a economia inglesa. O não envolvimento em questões de guerra na Europa também contribuiu para o efetivo desenvolvimento económico que já era acelerado. A participação mundo afora nos transportes públicos, com as companhias de capital, e produtos industrializados terminaram por consolidar o apogeu económico do período.
A revolução ao nível dos transportes, com a introdução do comboio e do barco a vapor, fez com que fossem necessárias maiores quantidades de materiais pesados como o ferro e o aço e ainda o carvão, o que fez com que estes mercados se expandissem. Entre 1850 e 1873, o Reino Unido produziu dois terços do carvão a nível mundial, metade do algodão e quase metade dos produtos metálicos.Crouzet F., De la supériorité de l´Anglaterre sur la France (1982)
Em 1850, a Grã-Bretanha tinha pouco mais de trabalhadores em minas. Este número aumentou e atingiu o meio milhão de pessoas ainda antes do final do século. O elevado número de mineiros em certos distritos tornava este grupo decisivo em alturas de eleições e muitos, motivados pela falta de condições de segurança no trabalho e aos baixos ordenados, acabaram por aderir a sindicatos de ideologia socialista.Segunda fase de la Revolución Industrial em Web de Historia, autor original: Hosbawm Eric J. em "Industria e Imperio". Consultado a 18 de setembro de 2013.
Em meados do século XIX, metade das empresas era de pequena dimensão. No Lancashire, em 1841, apenas 0,5% das empresas tinha mais de 500 trabalhadores e 50% das empresas não chegavam aos 100 trabalhadores. Em 1871, mais de 23 000 fábricas tinham em média 86 trabalhadores.
Os caminhos-de-ferro conheceram um grande crescimento na época. Desde a inauguração da primeira ferrovia, que ligava Liverpool e Manchester em 1830 até 1875, construíram-se mais de 70% das linhas ferroviárias. Em 1850, 19 companhias ferroviárias tinham um capital superior a 3 milhões de libras, sendo que na época poucas empresas ultrapassavam as 500 000 libras.
Também foi durante a era vitoriana que se construíram e desenvolveram as primeiras linhas do metro de Londres.
População na era vitoriana Na era vitoriana houve um aumento demográfico sem precedentes no Reino Unido. A população aumentou de 13,9 milhões em 1831 para 32,5 milhões em 1901. O Reino Unido foi o primeiro país a passar pela transição demográfica e pelas revoluções agrícola e industrial.
A Grã-Bretanha era líder no rápido crescimento económico e populacional. Na época, Thomas Malthus acreditava que a falta de crescimento fora do Reino Unido se devia à “armadilha malthusiana” que dita que a população tem tendência a aumentar mais rapidamente do que os recursos materiais, o que resultava em crises (tais como fomes, guerras ou epidemias) que reduziam a população para números mais sustentáveis. O Reino Unido escapou à “armadilha malthusiana” devido ao impacto positivo da Revolução Industrial nas condições de vida da população.Malthus, An Essay on the Principle of Population: Library of Economics", Liberty Fund, Inc., 2000, EconLib.org As pessoas tinham mais dinheiro e podiam melhorar as suas circunstâncias, portanto o aumento da população era sustentável.
Taxa de fecundidade upright=1.5|thumb|direita|Família vitoriana. Óleo de David Henry Friston A taxa de fecundidade aumentou em todas as décadas da era vitoriana até 1901, ano em que começou a estabilizar. Existem várias razões que justificam o aumento da taxa de natalidade. Uma delas é biológica. Uma vez que as condições de vida melhoraram, a percentagem de mulheres capazes de engravidar aumentou. Uma outra explicação pode ser social. No século XIX, o número de casamentos aumentou e a população em geral casou-se em idades bastante jovens. As razões que levavam as pessoas a casarem-se tão jovens são incertas. Uma das possíveis explicações prende-se ao facto de a prosperidade económica permitir que as pessoas conseguissem pagar o casamento e as novas habitações mais cedo do que era possível anteriormente.
As taxas de natalidade começaram por ser medidas através do método da taxa de natalidade bruta, que media os nascimentos por ano na população por cada mil pessoas. Este método não é considerado o mais preciso uma vez que as taxas de fertilidade dos grupos-chave não é clara. O método também não tem em consideração as mudanças populacionais, tais como o mesmo número de nascimentos numa população mais reduzida (como quando os homens vão para a guerra, etc.).
A estabilização da taxa de fecundidade no início do século XX deveu-se sobretudo a algumas grandes mudanças: certos contraceptivos foram disponibilizados e o comportamento a nível sexual da população alterou-se.Bradlaugh, Charles; Besant, Anne. The Fruits of Philosophy, or the Private Companion of Young Married People
Taxa de mortalidade A taxa de mortalidade no Reino Unido mudou bastante durante o século XIX. Não houve nenhuma catástrofe de fome ou surto epidémico na Inglaterra e na Escócia durante esse século, sendo a primeira vez na História do país que essa situação se verificou. As mortes por cada mil habitantes na Inglaterra e no País de Gales desceram de 21,9 entre 1848 e 1854 para 17 em 1901.Szreter, Simon (1988). The importance of social intervention in Britain's mortality decline c.1850–1914: A re-interpretation of the role of public health. Social History of Medicine 1: 1–37 O estatuto social teve um grande impacto na taxa de mortalidade uma vez que as classes mais elevadas tinham uma taxa mais baixa de morte precoce no início do século XIX do que as classes mais baixas.Robert W. Fogel, The Escape from Hunger and Premature Death, 1700–2100: Europe, America, and the Third World (Cambridge Studies in Population, Economy and Society in Past Time) (2004) p 40
As condições ambientais e de saúde também melhoraram durante a era vitoriana. As melhorias na nutrição também tiveram um papel importante. As redes de esgotos foram melhoradas, assim como a qualidade da água. Com melhores condições ambientais, as doenças espalhavam-se mais dificilmente e as pessoas eram menos contaminadas. Houve também evoluções a nível da medicina uma vez que a população tinha mais dinheiro para gastar em inovações na área médica (tais como técnicas para prevenir a morte durante o parto, pelo que mais mulheres e crianças sobreviviam), o que também levou a que se encontrassem mais curas para as doenças. Porém, houve uma epidemia de cólera em Londres entre 1848 e 1849 que matou 14 137 pessoas e mais 10 738 quando voltou a surgir em 1853. Há quem atribua esta anomalia à substituição das fossas sépticas nos esgotos de Londres.
Sociedade esquerda|thumbnail|upright=1.4|A diferença entre classes expressa na forma de vestir em 1871. Mulher aristocrática e mulher da classe trabalhadora. A sociedade da era vitoriana era pródiga em moralismos e disciplina, com preconceitos rígidos e proibições severas.Licenciada Rosa Aksenchuk De la moral victoriana al goce moderno: Freud, Lacan y Zizek en Revista de Observaciones Filosóficas. Os valores vitorianos podiam classificar-se como “puritanos”, e na época a poupança, a dedicação ao trabalho, a defesa da moral, os deveres da fé e o descanso dominical eram considerados valores de grande importância.Charlot M. y Marx R., 1993, p. 21-22 y Thompson F. M. L., 1988, p. 251
Os homens dominavam, tanto em espaços públicos, como em privado e as mulheres deviam ser submissas e dedicar-se em exclusivo à manutenção do lar e à educação dos filhos. Existem vários exemplos de como a sociedade levava a moralidade ao extremo, mas um dos mais notáveis foi a condenação de Oscar Wilde e de Lord Alfred Douglas a dois anos de trabalhos forçados por sodomia, por terem mantido um caso.Reed, Christopher (2011). Art and Homosexuality: A History of Ideas. Oxford University Press, 2011; pág. 97
Talvez tenha sido esta moralidade acentuada que levou o psicanalista Jacques Lacan a dizer que sem a rainha Vitória não teria existido a psicanálise, uma vez que foi ela que fez com que fosse necessário o que Lacan apelidou de “despertar”.Lacan, Jacques em Seminario 22 - R.S.I.
Certas condições como a preguiça e o vício estavam vinculados à pobreza e o sexo era alvo de repulsa social, uma vez que era associado a paixões baixas e o seu caráter animalesco provinha da carne.Charlot M. y Marx R., 1993 Por estas razões, considerava-se que a castidade era uma virtude que devia ser protegida.Bédarrida François, 1988, p. 38