The Firebrand é um romance de fantasia histórica escrito pela autora estadunidense Marion Zimmer Bradley. A história se passa na cidade antiga de Troia e é uma recontagem da epopeia Ilíada, de Homero. O livro é narrado a partir do ponto de vista de Cassandra, uma profetisa e filha do rei Príamo, também tendo a aparição de vários outros personagens importantes da mitologia grega. Cassandra prevê que uma catástrofe cairá sobre Troia, porém poucas pessoas a levam a sério. Bradley apresenta a personagem como uma mulher forte e perspicaz, diferentemente de suas representações tradicionais como alguém com insanidade.
Bradley escreveu The Firebrand após o sucesso de seu livro The Mists of Avalon de 1983, em que recontou lendas arturianas do ponto de vista feminino. Ela incluiu menos elementos de fantasia em The Firebrand do que suas obras anteriores com o objetivo de deixar o livro mais atrativo para um público maior, sendo o único de seus romances ambientado na Grécia Antiga. Seu marido Walter Breen, que tinha conhecimento de história e língua gregas, a ajudou nas pesquisas. The Firebrand foi descrito por acadêmicos como pertencendo aos gêneros de revisionismo histórico e literatura feminista, abordando temas como gênero, religião e poder.
The Firebrand foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos no dia 1º de outubro de 1987 pela editora Simon & Schuster em uma edição em capa dura, com uma edição em brochura estreando em setembro do ano seguinte. O romance foi ofuscado pela popularidade de The Mists of Avalon, recebendo menos atenção e elogios da crítica. Avaliações na época de sua publicação ficaram entre mistas e positivas, com muitos críticos elogiando a habilidade de Bradley de dar novas caracterizações a personagens lendários. O livro já foi traduzido para mais de dez idiomas, com os primeiros tendo sido português e francês em 1989.
Personagens A protagonista de The Firebrand é a princesa Cassandra de Troia, com a história sendo contada a partir da sua perspectiva. Ela começa com uma Cassandra idosa concordando relutantemente em corrigir a versão homérica da Guerra de Troia contada por um bardo viajante. Ela relembra suas experiências vivendo em Troia e na Cólquida, como passou a se rebelar contra os papéis de gênero ditados pela cultura troiana e seu conflito interno sobre servir à Deusa ou servir ao deus Apolo.
Cassandra era conhecida na sua infância dentre sua família como "a inteligente", enquanto sua irmã mais velha Polixena era "modesta" e "a bonita". A intenção de seus pais era que Cassandra fosse criada como uma dama e se casasse com um nobre, uma ideia que a desagrada cada vez mais. Ela frequentemente entra em conflito com seu pai, o rei Príamo, que é caracterizado como cruel, violento e sedento de poder. Cassandra e sua mãe, a rainha Hécuba, não são próximas, com a segunda frequentemente depreciando a primeira por suas profecias. Hécuba cresceu como uma amazona, mas gradualmente adotou os costumes patriarcais de Troia.
Seu irmão Heitor é próximo de Polixena, sendo descrito por Cassandra como um "intimidador". Ele desaprova o desejo de Cassandra de ser uma guerreira, mas é amado pela cidade. Cassandra, quando adulta, reflete que "de todos os filhos [de Príamo e Hécuba], Heitor era o mais querido no coração dos pais, e Cassandra, a menos amada. Era apenas por ter sido sempre tão diferente dos outros?" Cassandra sente-se mais feliz com as amazonas, cuja líder Pentesileia se torna uma figura materna.
Andrômaca, esposa de Heitor, é a filha mais velha da rainha Imandra da Cólquida; Andrômaca fica feliz em adotar a cultura patriarcal de Troia e ser subserviente ao seu marido apesar de ter crescido no meio da cultura matriarcal da Cólquida. Ela e Cassandra tornam-se próximas, assim como Cassandra e Helena, apesar de sua insatisfação pelos problemas que Helena causa à Troia. Páris não gosta de Cassandra, apesar de ser seu gêmeo. Ela rapidamente percebe que a principal falha de caráter do irmão é "uma total falta de interesse em qualquer coisa que não se relacionasse com ele ou não contribuísse de alguma forma para seu próprio conforto e satisfação".
Enredo Volume Um thumb|esquerda|250px|O Julgamento de Páris, de Enrique Simonet; Páris escolhe Afrodite como a mais bela em troca do amor de Helena Na rica a poderosa cidade de Troia, a rainha Hécuba, grávida, tem um sonho profético que a deixa perturbada. Uma sacerdotisa da Deusa diz a Hécuba e seu marido, o rei Príamo, que a rainha dará à luz uma criança que trará destruição para Troia. Príamo decreta que o menino deverá ser morto, mas volta atrás três dias depois quando a criança nasce e concorda com os pedidos de Hécuba de enviar o recém-nascido para ser criado por um pastor nas encostas do Monte Ida. Príamo nomeia o menino da Alexandros (depois renomeado Páris), enquanto a menina gêmea é chamada de Alexandra, porém Hécuba decide chamá-la de Cassandra.
Cassandra, aos seis anos de idade, visita o templo do deus Apolo com sua mãe e tem uma visão dele lhe dizendo para se tornar sua sacerdotisa. Ela tem mais visões nos anos seguintes. Cassandra aos doze anos tem uma visão de Páris, agora vivendo como pastor, e pergunta ao pai sobre o menino, porém Príamos fica furioso. Ela então é enviada para viver com Pentesileia, irmã de Hécuba e chefe das amazonas, uma tribo exclusivamente feminina de guerreiras nômades. Cassandra passa a amar seu estilo de vida enquanto continua a ter visões do irmão, inclusive o Julgamento de Páris, quando ele escolhe a deusa Afrodite como mais bela do que as deusas Atena e Hera. Afrodite o recompensa com o futuro amor de Helena de Esparta, filha de Leda e do deus Zeus.
Na Cólquida, Cassandra passa pelos rituais de uma sacerdotisa e é informada que seu destino é servir à Deusa. Ela volta para Troia aos quinze anos em tempo de acompanhar um festival em que Páris vence vários torneios e é revelado como o verdadeiro filho do rei e da rainha. Príamo e Hécuba o acolhem, mesmo com a profecia. Entretanto, Heitor sente ciúmes da atenção e realizações de Páris e sugere que ele seja enviado para tratar com o rei Agamemnon de Micenas. Páris concorda. Enquanto isso, Cassandra começa seu treinamento como sacerdotisa de Apolo, apesar de dúvidas sobre abandonar a Deusa; parte de seus deveres incluem cuidar das serpentes do templo. Páris retorna com Helena, esposa do rei Menelau de Esparta. Cassandra avisa que Helena destruirá Troia, mas é ignorada e Páris a acusa de ser louca. Helena é acolhida pela cidade.
Volume Dois Cassandra é abusada por Crises, outro sacerdote de Apolo que tenta se disfarçar do deus para seduzi-la. Ela percebe o truque e luta contra ele, porém Apolo sente-se insultado e faz os troianos pararem de acreditar em suas profecias. Agamemnon, irmão de Menelau, usa a fuga de Helena como pretexto para uma guerra e logo começa a lançar ataques contra Troia, iniciando a Guerra de Troia. Cassandra passa cada vez mais tempo com sua família para ajudar em tarefas diárias enquanto os homens, liderados por Heitor, lutam contra os aqueus. A guerra prossegue esporadicamente apesar das tentativas de Odisseu, um pirata e amigo de Príamo, de tentar negociar um fim do conflito.
Cassandra retorna para a Cólquida depois de dois anos de guerra para aprender mais sobre serpentes. No caminho encontra Pentesileia, mas fica infeliz ao descobrir que a vida nômade das amazonas e dos centauros está morrendo e que a tribo de Pentesileia está com números cada vez menores. Cassandra tem uma visão assustadora de Apolo disparando flechas indiscriminadamente contra troianos e aqueus, um sinal de sua ira, decidindo retornar para casa. No caminho ela encontra uma criança recém-nascida abandonada, adotando-a e nomeando-a de Mel. Cassandra chega em Troia e descobre que a guerra não está indo bem para os troianos.
Crises é tomado por Apolo e espalha uma praga pelo acampamento aqueu em retaliação por Agamemnon se recusar a devolver Criseida, filha de Crises, que está sendo mantida como prisioneira e concubina do rei por três anos. Criseida é relutantemente devolvida para Crises e Agamemnon pega a concubina do jovem guerreiro Aquiles como reparação. Aquiles fica furioso e se recusa a continuar lutando. Menelau e Páris travam um duelo, mas Páris foge com uma intervenção de Afrodite na forma de Helena.
Volume Três thumb|250px|Vista de Troia em Chamas, de Johann Trautmann; os aqueus invadem Troia A maior parte da família de Cassandra passa achá-la louca e fica furiosa quando ela sente-se compelida a vocalizar suas profecias sobre o fim de Troia. A exceção é Eneias, marido de sua meia-irmã Creusa, com quem Cassandra começa um romance depois de Creusa e seus filhos serem enviados para fora da cidade. Um terremoto enviado pelo deus Poseidon acerta Troia e mata os três filhos de Páris e Helena, apesar dos avisos de Cassandra. O guerreiro Pátroclo, amigo próximo de Aquiles, é morto por Heitor e Aquiles volta para a luta em busca de vingança. Heitor e seu irmão caçula Troilo são mortos, causando luto por toda Troia. Aquiles também mata Pentesileia, porém pouco depois é morto por Cassandra, que usa as vestes de Apolo e acerta uma flecha envenenada em seu calcanhar.
Poseidon envia outro terremoto e isto derruba as defesas de Troia. Os aqueus invadem a cidade, com Mel sendo morta e Cassandra estuprada pelo guerreiro Ájax. As mulheres sobreviventes são divididas entre os aqueus, com Cassandra se tornando a concubina de Agamemnon. Ela engravida dele e dá luz um menino, nomeado Agatão. Cassandra e o filho são libertados pela rainha Clitemnestra, esposa de Agamemnon, que o mata assim que ele finalmente retorna para Micenas. Cassandra volta para a Cólquida, mas permanece apenas brevemente, partindo para tentar fundar uma cidade no estilo antigo, uma governada por uma poderosa mulher.
Desenvolvimento
The Mists of Avalon, o romance anterior da autora estadunidense Marion Zimmer Bradley, era uma recontagem das lendas arturianas a partir do ponto de vista da personagem de Morgana das Fadas, a antagonista do rei Artur. Bradley escreveu The Firebrand alguns anos após publicar The Mists of Avalon em 1983. Segundo John Clute e John Grant, Bradley passou a escrever histórias após The Mists of Avalon que tinham grande apelo literário com o objetivo de trair um público leitor amplo em vez de se concentrar no gênero fantasia. As obras posteriores da autora frequentemente focavam-se em protagonistas fortes em "ambientações mito-históricas" com poucos elementos de fantasia. Por exemplo, em The Firebrand os centauros são representados como uma tribo nômade formada por cavaleiros baixos e nus, diferentemente das criaturas meio humana e meio cavalo das lendas tradicionais.
The Firebrand foi a segunda vez que Bradley recontou uma lenda famosa e seu único romance ambientado na Grécia Antiga. Ela quis repensar lendas a partir da perspectiva feminina pois tinha interesse em "ouvir mais sobre as realidades humanas" de histórias bem conhecidas, mas não acreditava que isto era uma forma de escrita feminista. Também comentou que enxergava a lenda da Guerra de Troia como um exemplo de cultura masculina dominando e obscurecendo pontos de vista e contribuições femininas. Ela disse: