thumb|300px|A Primeira República Eslovaca, de caráter fascista, foi fundada em 1939, poucos meses antes da Segunda Guerra Mundial. Um novo estado eslovaco surgiria apenas após a Revolução de Veludo. A história da Eslováquia diz respeito à trajetória do povo eslovaco do século V aos dias atuais. A população eslava original radicou-se na área onde hoje fica a Eslováquia no século V. A Eslováquia fazia parte do centro do império de Samo no século VII. O ponto mais alto do estado proto-eslovaco do século IX conhecido como Grande Morávia deu-se com a chegada de Cirilo e de Metódio e com a expansão no reinado do rei Zuentibaldo I. A Eslováquia acabou por se tornar parte do reino da Hungria entre os séculos XI e XIV e foi, mais tarde, parte da Áustria-Hungria até 1918. Nesse ano, a Eslováquia juntou-se às regiões da Boémia e da vizinha Morávia para formar a Checoslováquia. Com a separação do país que se seguiu ao Acordo de Munique de 1938, a Eslováquia transformou-se numa república separada, embora debaixo de um controlo firme por parte da Alemanha Nazi.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a Checoslováquia foi reconstituída e passou a estar sob influência da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, de 1945 em diante. Em 1968 ocorre a Primavera de Praga onde ocorre um breve período de tolerância política. O fim da Checoslováquia comunista em 1989 durante a pacífica Revolução de Veludo e as eleições livres em 1990 também significaram um fim para a Checoslováquia e a criação de dois estados sucessores: a Eslováquia e a República Checa seguiram caminhos separados em 1 de Janeiro de 1993. A Eslováquia aderiu à União Europeia a 1 de Maio de 2004.
Antiguidade
thumb|direita|A difusão das culturas arqueológicas associadas aos celtas na Europa: thumb|direita|alt=Milagre da Chuva|O «Milagre da Chuva» representado nos relevos da Coluna de Marco Aurélio, em Roma. Os celtas constituíram a primeira população no território da atual Eslováquia passível de identificação por meio de fontes documentais escritas. Os primeiros grupos celtas chegaram do Ocidente por volta de Assentamentos atribuídos à cultura de La Tène indicam que os celtas colonizaram as planícies e terras baixas ao longo do rio Danúbio e de seus tributários. As populações locais pré-existentes foram subjugadas ou recuaram para as regiões montanhosas setentrionais. Novas levas migratórias celtas, oriundas do norte da península Itálica, alcançaram a região durante o De início, os celtas habitavam pequenas cabanas — com dimensões aproximadas de — dispersas pelos campos ou reunidas em pequenos povoados agrícolas.
Algumas das pequenas fortificações de colina (*oppida*) erguidas no desenvolveram-se como importantes centros econômicos e administrativos regionais. O sítio fortificado de Zemplín, por exemplo, despontou como destacado polo metalúrgico de beneficiamento de ferro; manufaturas vítreas foram desenterradas em Liptovská Mara; e moedas locais eram cunhadas tanto em Bratislava quanto em Liptovská Mara. Os estateres cunhados em Bratislava traziam inscrições com nomes de magistrados ou governantes, como Biatec e Nonnos. O complexo de Liptovská Mara funcionou também como um centro cerimonial e de culto dos portadores da cultura de Púchov nos Cárpatos Setentrionais.
Burebista, rei dos dácios, liderou campanhas militares no vale do Médio Danúbio e subjugou a maioria das tribos celtas da região (destacadamente os boios e os tauriscos) por volta de O domínio dácio desagregou-se após a morte do monarca, cerca de dezesseis anos mais tarde. Sítios arqueológicos contendo cerâmica decorada e artefatos de proveniência dácia sugerem que núcleos dessa população fixaram-se entre as comunidades celtas locais nas bacias dos rios Bodrog, Hron e Nitra. A expansão geográfica da cultura de Púchov, vinculada aos celtas cotinos, evidencia que as populações dessa tradição empreenderam movimento colonizador rumo ao norte durante o mesmo período. thumb|direita|alt=Dácia|A esfera de dominação e influência dos dácios no território da atual Eslováquia e zonas adjacentes.
Os romanos e as tribos germânicas lançaram suas primeiras investidas militares contra os territórios do Médio Danúbio na última década do Legiões romanas comandadas por Tibério transpuseram o rio Danúbio junto a Bratislava para enfrentar os quados germânicos em , mas a eclosão da Revolta Panônica obrigou as forças romanas a recuarem para o sul. Tirando partido de disputas dinásticas internas, Roma assentou em 21 d.C. uma facção de quados nas terras baixas danubianas entre os rios Morava e Váh, alçando Vânio à condição de rei cliente. Os germânicos estabeleciam-se em edificações de planta retangular — diferindo dos formatos quadrados celtas — e praticavam o rito de cremação dos mortos, depositando as cinzas em urnas funerárias cerâmicas.
Embora o curso do Danúbio demarcasse a fronteira defensiva do Império Romano com o Barbaricum, postos militares avançados foram construídos pelas legiões na margem esquerda do rio, a exemplo das fortificações de Iža (Celemância) e do Devín. No mesmo intervalo temporal, os clãs germânicos expandiam seus domínios para o norte ao longo dos vales do Hron, do Ipeľ e do Nitra. Tropas legionárias cruzaram o Danúbio por diversas ocasiões no transcurso das Guerras Marcomânicas entre 160 e 180 d.C. O imperador Marco Aurélio redigiu o primeiro livro de suas Meditações durante a campanha contra os quados no vale do rio Hron em 172. O episódio conhecido como o «Milagre da Chuva» — uma repentina tempestade que socorreu uma legião romana exausta e cercada — sucedeu nas imediações do Danúbio setentrional em 173; autores cristãos da época atribuíram o fato às orações de soldados convertidos. Exércitos romanos penetraram a região pela última vez em 374, durante a expedição punitiva liderada pelo imperador Valentiniano I contra os quados, que haviam se coligado aos sármatas e invadido a província romana da Panônia.
História medieval
Novas migrações thumb|direita|Povos germânicos e outras tribos nas regiões dominadas pelos hunos, c. 450 d.C. No século IV d.C., o Império Romano já não conseguia conter as investidas das populações fronteiriças. As defesas imperiais ao longo do Danúbio começaram a ruir a partir da década de 370. A expansão do Império Huno nas estepes da Eurásia forçou grandes contingentes de povos germânicos, incluindo os quados e os vândalos, a abandonarem seus territórios de origem no Médio Danúbio e no curso superior do rio Tisza no início do século V. Suas terras foram ocupadas por hérulos, ésciros, rúgios e outras etnias germânicas. Contudo, a Bacia dos Cárpatos foi subjugada pelos nômades hunos nas primeiras décadas do século V, convertendo os povos germânicos em vassalos de Átila.
Disputas sucessórias entre os filhos de Átila precipitaram a desintegração de seu império logo após sua morte em 453. As tribos germânicas recuperaram sua autonomia ou debandaram da Bacia dos Cárpatos (como fizeram os hérulos e os ésciros, respectivamente). Sepulturas de guerreiros do século seguinte revelaram grande quantidade de espadas, lanças, pontas de flechas, machados e outros armamentos. Outros achados arqueológicos, como uma taça de vidro descoberta em Zohor, evidenciam que as populações locais mantinham contatos comerciais e culturais com o Reino Franco e com a Escandinávia.
Chegada dos eslavos
A respeito da história recuada dos eslavos, não se conhecem textos ou registros autóctones redigidos antes do final do século IX. As fontes externas coevas (predominantemente gregas e latinas) são frequentemente lacunares e inconsistentes. De acordo com uma corrente historiográfica, os primeiros núcleos eslavos teriam se fixado na porção oriental da atual Eslováquia ainda no século IV. O historiador bizantino do século VI Jordanes registrou que o banquete fúnebre no sepultamento de Átila fora denominado strava. Especialistas que identificam esse vocábulo como de raiz eslava sustentam que o relato de Jordanes comprovaria a presença de populações eslavas na Bacia dos Cárpatos em meados do século V. Em contrapartida, outra teoria postula que strava poderia constituir um termo huno, dado que nenhuma fonte primária relata expressamente a presença de eslavos na corte de Átila.
Assentamentos que delineiam um novo horizonte arqueológico — o chamado «horizonte cultural de Praga-Korchak» — surgiram ao longo das vertentes setentrionais dos Cárpatos por volta do ano 500. Povoamentos semelhantes, datados da segunda metade do século V, foram igualmente escavados na área de confluência do Danúbio com o rio Morava. Os sítios de Praga-Korchak compunham-se habitualmente de cerca de dez cabanas semissubterrâneas, providas de fornos de pedra em um dos cantos. Seus habitantes utilizavam cerâmica modelada à mão e praticavam a incineração dos mortos. A maioria dos historiadores associa a irradiação desses assentamentos à expansão dos primeiros grupos eslavos.
Segundo o historiador Gabriel Fusek, registros documentais atestam a presença de eslavos na Europa Central na primeira metade do século VI. O cronista bizantino Procópio de Cesareia relatou que um contingente de hérulos «atravessou as terras de todos os esclavenos» (eslavos) durante sua migração rumo à distante Tule. O relato de Procópio sugere que os eslavos habitavam as margens do rio Morava, embora a precisão geográfica da narrativa suscite debates. Procópio registrou ainda que o príncipe lombardo no exílio Ildígis buscou refúgio entre os esclavenos e depois entre os gépidas, «levando consigo não apenas os lombardos que o haviam acompanhado, mas também muitos dos esclavenos»,Procópio: História das Guerras (7.35.19.), pp. 461–463. na década de 540. Conforme hipóteses acadêmicas, Ildígis teria recrutado seus guerreiros eslavos no vale do Médio Danúbio.
Os lombardos avançaram em direção ao Médio Danúbio no início do século VI. A arqueologia revela que a expansão lombarda contornou a quase totalidade da Eslováquia, ocupando apenas seu extremo noroeste (Záhorie). Diferentemente da vizinha Morávia, o território eslovaco (salvo Záhorie) não integrou nenhuma entidade política germânica nesse período. Os lombardos e os eslavos locais permaneceram separados pelas barreiras geográficas dos Pequenos Cárpatos e dos Cárpatos Brancos, respeitadas por ambas as partes segundo Ján Steinhübel. O autor acrescenta que os eslavos, preservando a condição de atores neutros no antagonismo entre lombardos e gépidas, evitavam atritos com os vizinhos germânicos e preferiam empreender incursões nas províncias do distante Império Bizantino.
Grão-Canato Ávaro
thumb|direita|Área de povoamento dos ávaros entre os séculos VII e IX, segundo Éva Garam. Os lombardos deixaram a Bacia dos Cárpatos rumo ao norte da Itália após a chegada dos ávaros em 568. Os ávaros eram guerreiros nômades de composição multiétnica. Estabeleceram seu domínio sobre a Bacia dos Cárpatos, subjugaram as populações locais e desfecharam expedições de pilhagem contra os Estados vizinhos ao longo das décadas seguintes. De acordo com Stanislav Kirschbaum, à época da chegada dos ávaros as tribos eslavas já ocupavam a maior parte do território da atual Eslováquia. Vagas migratórias subsequentes reforçaram o povoamento eslavo, com novos grupos cruzando os Cárpatos orientais sob a pressão dos ávaros, apartando-se dos eslavos que prosseguiam rumo à Península Balcânica. Os dialetos da língua eslovaca ainda refletem essa convergência de correntes migratórias distintas do início da Idade Média. O tcheco e o eslovaco compartilham isoglossas com as línguas eslavas do sul, o que os diferencia de outras línguas eslavas ocidentais. Segundo o arqueólogo P. M. Barford, essas semelhanças indicam que os Cárpatos e os Sudetos separavam os ancestrais de eslovacos e tchecos dos grupos eslavos estabelecidos mais ao norte. Os dialetos da Eslováquia Central, em particular, conservaram traços eslavos meridionais arcaicos.