Gustave Flaubert (Rouen, 12 de dezembro de 1821A data do nascimento confirma-se a 13 de dezembro "´Du Jeudi, Treize Décembre, mil huit cent vingt-un` mais il précise que l'enfant est né la veille, donc le 12 ("Lequel m'a déclaré, que le jour d'hier, à quatre heures du matin, est né, en son domicile précité et de son mariage contracté, en cette ville, le dix février, mil huit cent douze, un enfant du sexe masculin, qu'il m'a présenté et auquel il a donné le prénom de Gustave)." – Croisset, 8 de maio de 1880A data da morte confirma-se a 12 de dezembro ("Du lundi dix mai mil huit cent quatre-vingt à midi acte de décès de Gustave Flaubert, âgé de cinquante-huit ans, homme de lettres, né à Rouen le douze décembre mil huit cent vingt-un)) foi um escritor francês, geralmente reconhecido como o fundador do realismo e do romance moderno na literatura por conta da sua obra Madame Bovary. Marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, pelo seu senso de realidade, pela sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869), Salammbô (1862), mais os seus contos, nomeadamente os Trois contes (1877).
Biografia
Infância Gustave Flaubert foi o segundo dos seis filhosDocuments familiaux Famille Flaubert do médico Achille Cléophas Flaubert (1784-1846), cirurgião-chefe do Hospital de Ruão, e sua esposa Anne Justine, nascida Fleuriot (1793-1872). Passa a infância ao lado dos irmãos no Hospital onde o pai trabalha.
Estuda no Colégio Real, onde faz amigos para a vida inteira, tais como Louis Boulhiet (1829-1869), poeta; Maxime Du Camp (1822-1894), futuro editor e jornalista, e Alfred Le Poittevin, morto prematuramente. Interessado em literatura, dirige o semanário escolar, “Arte e Progresso”.
Aos quinze anos, interessa-se por teatro, e compõe um drama em cinco atos, em prosa, “Luís XI”. Em 1837, escreve seu primeiro romance, “Rêve d'enfer”, uma obra ainda imatura e juvenil, mas que já vislumbra os traços que caracterizariam suas futuras heroínas. Também aos 15 anos se apaixona, por uma mulher casada e onze anos mais velha do que ele, Elisa Schlesinger, a qual amará, talvez, pela vida toda; só declara, porém, o seu amor trinta anos mais tarde, através de uma carta. Embora viúva, Elisa já não quis desposá-lo. Elisa terminou sua vida em um asilo para doentes mentais.Os Imortais da Literatura Universal. Abril Cultural, V.I, Cap. 9, p. 148
O amor impossível, em especial por Elisa Schlesinger, inspira vários de seus livros: “Mémoires d'un fou”, em 1838, “Novembre”, em 1842, e as duas versões de A Educação Sentimental, esboçado em 1845 e concluído em 1869. thumbnail|esquerda|229px|Retrato feito por Eugène Giraud
Treinamento Inicia os estudos de direito, em Paris, para contentar o pai, porém não consegue se interessar pelas aulas, levando uma vida boêmia, gastando todo o dinheiro que o pai mandava despreocupadamente. Após ter sido reprovado nos exames de direito na Universidade de Paris, começa a ter crises nervosas, com alucinações e perdas de consciência, que os médicos diagnosticam como histérico-epilépticos. Seu pai o trata com sangrias e dietas, isolando-o em um sítio em Croisset, às margens do Sena. Há uma melhora das crises, que só iriam retornar no fim da vida. Durante esse seu retiro, falece seu pai e a irmã Caroline, aos 22 anos, após dar à luz uma menina.
200px|miniatura|direita|Flaubert em 1850 sobre uma das cabeças de uma estátua de Ramessés II em Abul-Simbel, fotografado por Maxime Du Camp
Em 1846 Flaubert conheceu Louise Collet, separada do marido e mãe de uma jovem de 16 anos, amante do filósofo Vitor Cousin, iniciando um romance com ela. Louise era considerada pelos amigos presunçosa e afetada, pouco espontânea, exatamente o oposto da recatada Elisa Sclesinger.
Flaubert rompe com Louise em 1848 e, mergulhado na literatura, não percebe as transformações da França, tais como a revolução desse mesmo ano, que derruba o rei Luís Filipe e entrega o poder a Napoleão III, proclamado imperador em 1852.
Nesse período Flaubert perde o amigo Le Poittevin, companheiro de infância, e sua saúde se abala. Gustave organiza, com o amigo Maxime du Camp, uma longa viagem ao Oriente, entre 1849 e 1852; viaja ao Egito e à Jerusalém e, ao retornar, passa por Constantinopla e Itália. Colhe informações para escrever, mais tarde, Salammbô, uma reconstituição da civilização Cartaginense na época das guerras púnicas.
Primeiros Romances Em 1851, tem início Madame Bovary, obra realista que o tornaria célebre e que levaria 5 anos para concluir.
Em 1866, recebe a Legião de Honra do governo francês.
Entre 1870-1871, os prussianos ocupam uma parte da França, e Flaubert se refugia com sua sobrinha, Caroline, em Ruão; sua mãe morre em 6 de abril de 1872 e, nessa época, passa por dificuldades financeiras.
Em 1874, termina e publica a terceira versão de La tentation de Saint Antoine (A tentação de Santo Antão - 1874), inspirada num quadro de mesmo nome de Bruegel. Em 1877, aos 55 anos, publica “Trois Contes” ("Três Contos"), volume contendo três novelas: sua obra-prima, “Un cœur simple” ("Um coração simples"), a história de uma criada bondosa e ingênua, Félicité,Felicidade na tradução brasileira incluída no quarto volume da antologia Mar de Histórias de Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai. inspirada em Julie, empregada que servira Flaubert e sua família até morrer; La Légende de saint Julien l'Hospitalier (A Lenda de São Julião, o Hospitaleiro), conto hagiográfico da época medieval escrito em cinco meses em 1875; e Hérodias (Herodíade), em torno da figura de São João Batista, escrito no inverno de 1875-76. O volume foi bem recebido pela crítica.
Sua obra Bouvard e Pécuchet fica inacabada e foi publicada posteriormente.
thumb|Medalha com a efígie de Flaubert, Gaston Bigard, bronze 50mm|99x99px Morte Pouco antes de sua morte, vende suas propriedades para evitar a falência do marido de sua sobrinha, e passa a viver de um salário como conservador da Biblioteca Mazarine.
Seus últimos anos são marcados por dificuldades financeiras. Morre subitamente, provavelmente de AVC, e é sepultado no Cemitério Monumental de Ruão, em presença daqueles que o reconheciam como seu mestre: Émile Zola, Alphonse Daudet, Edmond de Goncourt, Théodore de Banville e Guy de Maupassant.l'enterrement de Flaubert vu par Zolathumb|Revers di la Medalha, "Pavillon-musée à Croisset" (1921)|97x97px
Obras Flaubertianas Flaubert é contemporâneo de Charles Baudelaire e, como o poeta das Flores do Mal, ocupa uma posição crucial na literatura do século XIX. Ambos são contestados (por razões morais) e admirados (por suas forças literárias). Hoje Flaubert é considerado um dos maiores romancistas do séc. XIX, com Madame Bovary, fundadora do bovarismo; e A Educação Sentimental, meio termo entre o romance psicológico (Stendhal) e o movimento naturalista (Zola e Maupassant).
Fortemente influenciado pela obra de Balzac, cujos termos ele assumirá de maneira muito pessoal (Educação Sentimental é outra versão do Lírio do Vale; e Madame Bovary da Mulher de Trinta Anos),— C. Gothot-Mersch, Dictionnaire des littératures de langue française, Bordas, p. 810 segue o caminho do romance realista. Ele também era muito preocupado com a estética - daí o longo trabalho de elaboração das suas obras. Flaubert testava os seus textos submetendo-os a um famoso teste, que consistia em lê-los em voz alta, por horas a fio, até alcançar a completude e o prazer estético que almejava.Le gueuloir de Flaubert : explications du mythe [archive].Jean-François Foulon, «Polémique: Flaubert savait-il écrire? » [archive], sur http://salon-litteraire.com [archive] (consulté le 14 février 2016).« Expositions de la BnF - Brouillons d`écrivains » [archive], Bibliothèque nationale de France (consulté le 14 février 2016).
A disposição de Flaubert para fugir à estética novelesca, ao escrever um "roman de la lenteur" (ou "um romance de lentidão"), é fortemente enfatizada pelos críticos.Régis Messsac analisa assim o romance de Flaubert :— Le Roman policier, em Le Detective Novel et l'influence de la pensée scientifique, ed. revista e anotada, Paris, Les Belles Lettres, coll. « Encrage/travaux », 2011, pp. [553-557] ; 557
Para além disso, a sua visão irónica e pessimista da humanidade faz dele um grande moralista - é só dar uma vista de olhos no Dicionário das Ideias Feitas.
A sua correspondência com Louise Colet, George Sand, Maxime du Camp e outros foi publicada em cinco volumes na Bibliothèque de la Pléiade.
Madame Bovary
Acusação miniaturadaimagem|Madame Bovary, romance de Gustave Flaubert, 1857. Edição Oeuvres Complètes, livraria Louis Conard, 1910 “Madame Bovary”, sua mais famosa obra, é impressa na “Revue de Paris”, por Laurent Pichat e Maxime Du Camp, em outubro de 1856. Resultado de cinco anos de trabalho, o romance é uma dura depreciação dos valores burgueses. Segundo alguns críticos conservadores, Flaubert ridiculariza sua própria condição social.
Mal o livro começa a ser publicado, porém, Ulbach, secretário da “Revue de Paris”, faz objeções sobre a cena do fiacre, que foi “omitida” do número da edição. Apesar da suspensão da cena, a censura decide suspender a publicação da obra e processar o autor, sob a acusação de “imoralidade”.Procès intenté à M. Gustave Flaubert devant le tribunal correctionnel de Paris (6 Chambre) sous la présidence de M. Dubarle, audiences des 31 janvier et 7 février 1857 : réquisitoire et jugement Na verdade, a sociedade burguesa “sentiu a força do ataque, e seus representantes desde 1848, trataram de punir o acusado”.Os Imortais da Literatura Universal. Abril Cultural, V.I, Cap. 9, p. 146
Em janeiro de 1857, Flaubert senta no banco dos réus, mas é absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena, em Paris, em 7 de fevereiro de 1857, através da argumentação do advogado Sénard.
Mediante a curiosidade da época em saber quem era “Emma Bovary”, Flaubert responde apenas: “Madame Bovary sou eu”.Os Imortais da Literatura Universal. Abril Cultural, V.I, Cap. 9, p. 149
Note-se ainda que Flaubert recebeu um forte apoio de Victor Hugo que lhe havia escrito: «Vous êtes un de ces hauts sommets que tous les coups frappent, mais qu’aucun n’abat».Gustave Flaubert, Correspondance, Paris, Gallimard, 1973, p. 1367. O romance foi um grande sucesso nas livrarias.
Estrutura e Enredo Honoré de Balzac também havia abordado o mesmo assunto n`A Mulher de Trinta Anos em 1831, na forma de romance que apareceu em 1842 n`A Comédia Humana, sem causar nenhum escândalo.
A história pode resumir-se desta maneira:Depois estudar numa escola provincial, Charles Bovary estabelece-se como oficial de saúde e casa-se com uma viúva que os seus pais achavam que era rica. Quando ela morre, Charles casa-se com uma jovem - Emma Rouault - criada num convento, que vive numa quinta do seu pai (um lavrador rico, paciente do jovem médico). Emma deixa-se seduzir por Charles e casa-se com ele. Enfeitiçada pelas suas leituras românticas na adolescência, vive sonhando com uma nova vida - desprezar o seu marido, abandonar o seu papel materno, e conhecer amantes sem intento. As dívidas que ela assume acabariam por arruinar a sua família e causar a sua morte. Quanto a Charles, morre de dor e deixa a sua filha Berthe órfã.É impossível analisar todas as sutilezas da montagem do livro num único artigo ― a técnica das camadas, as imagens, perfis, cenários, hesitações, jogos de vozes, etc. ―, logo abordar-se-á apenas a história, desprovida de todo o resto, observando a seguir o ordenamento cronológico. Descartar-se-á também a causalidade e subjetividade dos acontecimentos de Madame Bovary. Vejamos o que acontece se aplicarmos o diagrama de Freytag:PARTE Iminiaturadaimagem|Ilustração de Madame Bovary de Gustave Flaubert (1821-1880): Primeiro dia de Charles Bovary na turma[Apresentação]
1- Infância de Charles Bovary: o dia do estudante.