A língua gilbertesa ou língua kiribati (em gilbertês/kiribati: taetae ni kiribati, AFI: /tete ni kiɾibæs/), também conhecida como kiribatiano, é um idioma pertencente à família micronésia do tronco-linguístico das línguas austronésias. Possui aproximadamente falantes, concentrados em sua maior parte nas ilhas do Oceano Pacífico. É língua oficial da República do Kiribati.

Durante o século XIX, momento de intensificação da presença europeia nas Ilhas Gilbert, a língua kiribati recebeu um formato escrito através do alfabeto latino, introduzido por Hiram Bingham II. Anteriormente a esse período, o idioma era transmitido apenas por meio da oralidade.

O idioma gilbertês segue a ordem de frase Verbo-Objeto-Sujeito (VOS). Tempos verbais são demonstrados por meio de partículas ou reduplicação verbal, enquanto numerais são expressos com o acompanhamento de classificadores. Pronomes possuem diversas variações, incluindo animacidade para pronomes demonstrativos.

Etimologia O termo kiribati (pronunciado na língua como: /kiɾibæs/) é derivado da maneira que os nativos das Ilhas Gilbert pronunciavam o sobrenome do capitão da marinha britânica, Thomas Gilbert, um dos primeiros europeus à visitar o arquipélago. Durante a colonização europeia na região, o nome Gilbert foi usado entre a comunidade internacional como exônimo.

Após a independência da República do Kiribati em 12 de julho de 1979, a palavra tornou-se oficialmente um endônimo para se referir ao estado, descartando o termo indígena Tungaru. O nome oficial da língua é te taetae ni kiribati, ou "a língua kiribati". Na língua portuguesa, o idioma também pode ser chamado de gilbertês ou kiribatiano.

Distribuição O kiribati possui aproximadamente falantes que habitam, principalmente, o Kiribati. O restante mora em ilhas próximas como Tuvalu (atol de Nui), Fiji (Ilha Rabi) ou Ilhas Salomão. O idioma possui status oficial na República do Kiribati, junto com o inglês. É considerado uma língua não ameaçada.

+ Países com falantes do kiribatiPaísesFalantes Kiribati (2010) Língua kiribati no Ethnologue. Ilhas Salomão (2012) Fiji (2019) Nova Zelândia (2018)

Dialetos O kiribati tem dois dialetos principais, um setentrional e o outro meridional. As principais diferenças dizem respeito à pronúncia de certas palavras. Exemplos: Matuu e Masuu ("sono"); tenuua e teniua ("três"). Nas ilhas de Butaritari e Makin, existe um dialeto próprio que difere do kiribati setentrional tanto em pronúncia quanto em vocabulário. Exemplo: ngae e buu ("satisfeito").

Dialeto kiribati setentrional (Marakei, Abaiang, Taraua, Maiana, Kuria, Abemama e Aranuka) Dialeto kiribati meridional (Tabiteuea, Onotoa, Nonouti, Beru, Nikunau, Tamana e Arorae) Dialeto de Butaritari/Makin

Línguas relacionadas O idioma kiribati possui relações com o ramo oceânico das línguas austronésias, como analisado na tabela abaixo.

+ Relações entre kiribati e proto-oceânico/proto-micronésio(AFI) Proto-Oceânico Proto-Micronésio Kiribati 1 2

1 Acontece quando reflete da língua proto-micronésia.2 Acontece quando reflete da língua proto-micronésia.

Assim, kiribati se relaciona com línguas ligadas ao proto-micronésio, como marshallês, chuquês, pohnpeiano, caroliniano, e ulithiano. Todas são consideradas línguas da família micronésia nuclear.

História A organização social no Kiribati era feita em kaainga, grupos pequenos de várias famílias ligadas por um ancestral em comum. Eram autossuficientes e dividiam as tarefas principalmente por gênero, com outras sendo separadas por idade. Algumas famílias se destacavam e eram consideradas profissionais em diferentes práticas, incluindo a arte de contar histórias pela oralidade.

Os primeiros contatos europeus com as Ilhas Gilbert aconteceram em 1765 pelo comodoro John Byron, e em 1788 pelo capitão Thomas Gilbert. Por muito tempo, não houve interações significativas do arquipélago com outros continentes. A presença estrangeira na região intensifica-se somente a partir de 1820, momento no qual entende-se que já se estabelecia um intercâmbio linguístico entre europeus e povos nativos. Quando o Império Britânico tomou controle das ilhas em 1892, a população já estava acostumada com a presença europeia e, em sua maioria, não se opôs às novas mudanças de governo. Com a documentação detalhada da gramática kiribati e a introdução do alfabeto latino nesse período, acontece o início da tradição literária no idioma.

A primeira descrição escrita sobre kiribati ocorre em 1846, por Horatio Hale, em uma seção de 24 páginas de seu relatório sobre sua expedição marítima no Pacífico. Foi intitulada Vocabulary of the Tarawan Language e trazia uma lista pequena de palavras kiribati.

Durante a segunda metade do século XIX, Hiram Bingham II trouxe diversas contribuições literárias no idioma, incluindo uma tradução da Bíblia para kiribati.

Após a independência do Kiribati em 1979, literatura adicional foi escrita por diversos autores. Alguns livros, como Iango Mai Kiribati, foram feitos em colaboração com a University of the South Pacific e outras instituições oficiais do Kiribati.

Fonologia Kiribati tem 13 consoantes. O fonema é assibilado para quando aparece antes de . A fricativa labiovelar pode ser vibrante e aproximante, dependendo do contexto. não ocorre no final de sílabas. +ConsoantesBilabialApicalVelarNormalVelarizadaNasal Plosiva Fricativa Vibrante

O idioma possui 10 vogais, 5 curtas e 5 longas. As vogais e podem se tornar semivogais e quando são sucedidas por vogais mais sonoras. Exemplo: → ("vela"). geralmente possui pronúncia mais parecida com , exceto em casos onde aparece depois de e . +Vogais Anteriores Centrais Posteriores Fechadas , , Médias , , Abertas ,

Peso silábico A duração silábica possui caráter distintivo em vogais e consoantes nasais, diferenciando-as entre leves (curtas) e pesadas (longas), sem variação para o restante dos sons. Assim, ana (artigo da terceira pessoa do singular) contrasta com aana ("parte debaixo"), bem como anna ("terra árida"). Outros pares mínimos incluem:

Curta Longa te ben ("coco maduro") te been ("caneta")ti (sujeito na primeira pessoa do plural) tii ("somente")on ("cheio") oon ("tartarugas")te atu ("pacote") te atuu ("cabeça")tuanga ("contar") tuangga ("contar a alguém")

Ortografia A língua kiribati é escrita com o alfabeto latino, que foi introduzido pela primeira vez durante o século XIX por Hiram Bingham II. Após a independência do Kiribati em 1979, vogais e consoantes longas passaram a ser representadas com duplicação de letra. Certos fonemas, como nasais velares (/ŋ/ /ŋː/) e bilabiais velarizadas (/pˠ/ /mˠ/), são indicadas por dígrafos.

+ Tabela grafema-fonema de kiribatiLetrasAFIAproximação fonéticaAamorAASom /a/ alongado.BpenaBWSom não utilizado no português.EdedoEESom /e/ alongado.IiguanaIISom /i/ alongado.KcactoMmatoMMSom /m/ alongado.MWSom não utilizado no português.NnativoNNSom /n/ alongado.NGpinhaNGGSom /ŋ/ alongado.OpoderOOSom /o/ alongado.RpuroTtortaUtatuUUSom /u/ alongado.WSom não utilizado no português.

Gramática

Pronomes Os pronomes podem ser expressos como palavras isoladas ou como afixos. A maioria possui variações apenas de número e pessoa, exceto pelos pronomes demonstrativos e relativos.

+ Tabela de pronomes em kiribati Nominativos (sujeito) Acusativos (objeto) Enfáticos Possessivos Sufixospossessivos 1°pessoa singular i, n -ai ngai au -u plural ti -ira ngaira ara -ra 2°pessoa singular ko -ko ngkoe am -m plural kam -ngkamii ngkamii amii -mii 3°pessoa singular e -a ngaia ana -na, -n plural a -ia, -i ngaiia aia -ia

Os pronomes demonstrativos possuem três graus de distância (proximal, medial e distal) e variações de gênero, número e animacidade. Os demonstrativos femininos não possuem plural. Os demonstrativos "humanos" não possuem singular e podem ser usados com ambos os gêneros.

+ Tabela de pronomes demonstrativosBásicoMasculinoFemininoHumanoObjetoTradução singular plural singular plural singular plural singular pluralsingularpluralProximalaeiaikaiteuaaeiuaakaineieinaakaite baeibaikai“Este/Esta/Isto”“Estes/Estas”Medialanneakanneteuaanneuakanneneiennenaakannete baennebaikanne“Esse/Essa/Isso”“Esses/Essas”Distalareiakekeiteuaareiuaakekeineiereinaakekeite baereibaikekei“Aquele/Aquela/Aquilo"“Aqueles/Aquelas”

Verbos Os verbos não são conjugados por tempo, número, pessoa ou aspecto. Essas categorias são indicadas por partículas auxiliares ou, muitas vezes, identificadas pelo contexto. A partícula na indica futuro, enquanto a tia n(i) demonstra passado. Para expressar um senso de urgência, a é usado de forma geral, enquanto a tib'a e nang(i) são usados apenas no tempo do passado e futuro, respectivamente. Tabe n(i) marca gerúndio. Além dessas partículas básicas, existem outras formadas a partir da combinação entre elas. Todas elas precedem o verbo. Ex: E tabe ni mm'akuri ngkai ("Ele está trabalhando agora"). Na ausência de advérbios ou partículas auxiliares, assume-se que o verbo está no tempo do passado.

Verbos transitivos são formados com a aplicação do circunfixo Ka⟩...⟨a em intransitivos e outras classes de palavras. A voz passiva é indicada pelo sufixo -aki.

A reduplicação verbal é vista em três ocasiões: Quando algo ocorre com certa frequência, há reduplicação parcial. Ex: Nako ("ir") -> Naanako ("ir geralmente"). Quando algo ocorre de forma contínua, há reduplicação total. Ex: Koro ("cortar") -> Korokoro ("cortar continuamente"). Quando existem circunstâncias especiais, há reduplicação mista. Ex: Kiba ("pular") -> Kikibakiba ("pular regularmente").

Sentenças A língua kiribati segue a ordem de frase Verbo-Objeto-Sujeito (VOS).

Orações simples com verbos intransitivos normalmente iniciam-se com um pronome nominativo, seguido de verbo e sujeito. Conteúdo adicional tende à aparecer após o verbo, enquanto advérbios de tempo geralmente vêm no final da oração. Ex: E nakonako nakon te titooa teuaarei ("Aquele homem está andando até a loja").

Quando a oração possui um verbo transitivo, o objeto aparece logo após o verbo. Se houver frases predicativas, elas aparecem seguidas do objeto. A regra dos advérbios permanece a mesma. Ex: E korea te reta teuaarei ("Aquele homem escreveu uma carta").

Vocabulário Na época em que os missionários cristãos chegaram às Ilhas Gilbert, seu principal desafio foi a tradução da Bíblia. Muitas palavras, incluindo algumas da Lista de Swadesh, como "gelo" (te aiti) ou "neve" (te tinoo), não existiam em kiribati. Elas precisaram ser emprestadas de outros idiomas ("montanha" -> te maunga, empréstimo do havaiano maina ou samoano maunga), adaptadas para a fonologia da língua ("fumaça" -> te moko, adaptada do inglês smoke) ou inventadas a partir de palavras já existentes.

A língua gilbertesa usa um sistema de numeração de base 10, com numerais acompanhados de classificadores. O sufixo -ua é um classificador geral comum, mas existem diversos outros sufixos usados na língua para contar coisas mais específicas. RaízCom classificador -ua0akea -1teteuana2uououa3tentenua4aaua5nimanimaua6onoonoua7ititua8wanwanua9ruairuaiua10tetebwina

Os números de 10 a 100 são construídos com a raíz do numeral + bwi (10) + ma ("e/com") + número de 1 a 10 com seu classificador nominal. Quando -ua não é o sufixo usado, a tabela é ligeiramente diferente. NúmeroEm kiribati11tebwi ma teuana12tebwi ma uoua13tebwi ma tenua14tebwi ma aua15tebwi ma nimaua16tebwi ma onoua17tebwi ma itua18tebwi ma wanua19tebwi ma ruaiua20uabwi30tenibwi40abwi50nimabwi60onobwi70itibwi80wanibwi90ruabwi100tebubua

A seguir, uma série de expressões comuns e úteis para turistas que pretendem visitar Kiribati. Expressões Tradução Ko matauninga "Com licença"Ko rab'a "Obrigado"Te raoi "De nada"E rangi ni Kangaanga "É muito difícil"E beebete "É fácil"I aki oota "Eu não entendo"I aki ataia/ngkam "Eu não sei"E kangaa n te taetae ni kiribati te taeka ae __? "Como se diz __ em kiribati?"Teraa? "O quê?"Kab'ara au bure "Perdão"Taiaoka/I a butiiko "Por favor"

Categoria:Línguas do Quiribáti