O nheengatu (, ), também conhecido como tupi moderno, é uma língua indígena pertencente à família tupi-guarani, mais especificamente do tronco tupi. Esse idioma, surgido no século XIX, tem origem na língua geral amazônica, que, por sua vez, proveio do tupi antigo. O nheengatu também é referido em menor grau por uma grande variedade de nomes, incluindo nenhengatu, nhengatu, nyengatu, tupi amazônico, waengatu, ñe'engatu (este último em espanhol), entre outros.

O nheengatu desenvolveu-se originalmente como língua franca em aldeamentos nos estados do Maranhão e do Pará. Ele começou a se formar naturalmente por meio do contato entre os tupinambás, falantes da língua tupi antiga, e indígenas de outros idiomas e etnias, além dos missionários jesuítas, responsáveis por seus aldeamentos. Em sua evolução, sofreu diversas transformações por influência do português e de outras línguas indígenas, as quais implicaram, a título de exemplo, a perda de alguns fonemas exclusivos do tupi antigo.

O idioma é atualmente falado por milhares de indígenas e ribeirinhos na Amazônia, principalmente na bacia do rio Negro. O nheengatu está, de acordo com a Unesco, severamente ameaçado.

Em 2023, foi declarada língua oficial do Amazonas, juntamente com outras 15 línguas indígenas.

Etimologia

Seu nome procede da composição entre as palavras tupis nhe'enga ("língua", "idioma", "linguagem") e katú ("bom", "boa"), significando portanto "língua boa", devido à sua importância como língua franca na região Norte do Brasil durante o período colonial. A língua passou a ser referida por este nome apenas no século XIX, possivelmente a partir da obra de Couto de Magalhães em 1876; antes disso, a língua era chamada de tupinambá, língua geral ou língua brasílica.

Distribuição

O nheengatu está presente em toda a região do Rio Negro entre os povos baníua, baré e warekena, entre outros, principalmente no território do municipio de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, no Brasil, onde, desde 2002 é um dos idiomas oficiais (juntamente de baníwa, tukano e português). Além disso, é falado também na região do Baixo Amazonas (no estado do Amazonas), entre os povos sateré-maué, maraguá e mura, e no Baixo Tapajós (no estado do Pará) onde está sendo revitalizado entre os diversos povos da região, como o povo borari e o povo tupinambá, e também entre os próprios ribeirinhos.

O nheengatu compartilha semelhanças com um grupo de línguas e dialetos da família tupi-guarani, tais como tupinambá, cocama, cocamilla, omaguá e paulista (a língua paulista, apesar das semelhanças, possui influências da língua espanhola e mais proximidade com o guarani do que com o nheengatu). Este grupo é caracterizado principalmente pelos seguintes fenômenos em relação ao proto-tupi-guarani:

conservação de consoantes finais; fusão de tx e ts, manifestados como ts ou s; conservação de pw; conservação de pj; conservação de acentos.

História

A formação da Língua Geral Amazônica está ligada ao início da colonização nas terras do Grão-Pará em 1616, ano em que as primeiras tropas portuguesas estabeleceram-se na região da Costa do Salgado, fundando o Forte do Presépio. Chegando lá, os colonizadores tiveram contato com a variante do tupinambá falada na região. Assim, os aldeamentos jesuítas no estado do Grão-Pará e Maranhão tomaram essa variante como língua franca de seus aldeamentos e do seu catecismo. Assim, a língua acabou servindo como língua de contato entre povos indígenas de diversas etnias, caboclos e brancos.

miniaturadaimagem|352x352px|Primeira página da Arte de Gramática da Língua Brasílica.

Conforme os aldeamentos passaram a subir os rios amazônicos e a reduzir os diferentes grupos indígenas (ou seja, conduzi-los às reduções jesuíticas), a língua foi perdendo o caráter de idioma étnico dos tupinambás e transformando-se num vernáculo supraétnico. Com isso, o idioma teve sua tipologia gradativamente afastada daquela do idioma dos tupinambás, devido, justamente, às influências resultantes de constantes contatos com outros sistemas linguísticos. Esse processo foi paralelo ao desenvolvimento, no litoral do centro-sul, da língua geral paulista.

A língua geral amazônica foi inicialmente fomentada pela Coroa Portuguesa e tomada como língua oficial na Capitania no período 1689–1727, apos o que começaram as tentativas de portugalização. Uma carta régia de 1727, por exemplo, proíbe o uso da língua nas povoações e aldeias de repartição, determinando que tanto os moradores quanto os missionários organizassem o ensino do português a indígenas. Após a Guerra dos Cabanos (1835 e 1840), o processo de supressão da língua tornou-se especialmente violento: metade da população masculina do Grão-Pará (Amazônia) foi assassinada na guerra e quem era flagrado falando em nheengatu era castigado; se fosse indígena não contatado, era batizado por padres e ganhavam seus sobrenomes portugueses em certidões, uma vez que os próprios padres eram seus padrinhos. Foi também neste processo que os nomes de muitos lugares tiveram seus nomes trocados de nheengatu para nomes de lugares e cidades de Portugal, tais como Belém (antiga Tupinambá Mairi), Santarém (antiga Aldeia dos Tapajós), Aveiro (antiga Aldeia dos Mundurucus), Barcelos (antiga Missão de Mariuá), Óbidos (antiga Missão dos Pauxis), Faro (antiga Aldeia dos Jamundás) e Alenquer (antiga Surubiú).

O Diretório dos Índios, principal legislação de administração lusitana dos povos originários no século XVIII, publicado em 1757 por ingerência do Marquês de Pombal, o nheengatu tornou a ser proibido. O parágrafo 7 dessa legislação apontava que "[...] Não consentindo por modo algum, que os Meninos e as Meninas, e todos aqueles Índios que forem capazes de instrução usem da língua própria de suas Nações, ou a chamada geral, mas unicamente da Portuguesa". A imposição da Língua Portuguesa e a proibição do nheengatu, a “língua geral”, não mais se constituiu em um ferramenta de salvação da alma do nativo, e sim na afirmação da soberania metropolitana em um período de consolidação das fronteiras nortistas.

Todo esse esforço, contudo, gerou pouco efeito prático. O número de falantes de outras línguas superava imensamente os colonos portugueses na Amazônia, tanto que os próprios portugueses se adequaram a língua nativa. Para se falar ou conversar na colônia do Grão Pará tinha que usar o nheengatu, caso não o fizesse, ficaria falando sozinho uma vez que ninguém usava o português, a não ser no palácio governamental em Belém e entre os próprios portugueses.

Assim, ao longo do século XVIII, a também conhecida como língua brasílica se expandiu ao longo de diferentes rios e se desenvolveu em diferentes variedades. Foi a partir do século XIX que passou a ser utilizado o nome nheengatu, possivelmente criado por Couto de Magalhães em 1876.

Baseando-se na análise de documentos do século XIX, Felix reconhece 11 variedades da língua na época: Solimões, Juruá, Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Tapajós, Baixo Tocantins, Monte Alegre, Ereré, Santarém, Mudurukú e Mawé. O nheengatu continuou a evoluir, quando se expandiu na região do Alto Rio Negro. Houve contato com outros idiomas como marawá, baníua, warekana, tucano e dâw.

No final do século XIX, a conquista da língua portuguesa se consolidou, mas o nheengatu não desapareceu.NAVARRO, Eduardo & ÁVILA, Marcel & TREVISAN, Rodrigo. (2017). O Nheengatu, entre a vida e a morte: a tradução literária como possível instrumento de sua revitalização lexical. Revista Letras Raras. 6. 9. 10.35572/rlr.v6i2.768. Ficou enraizado no linguajar do amazônida, no sotaque dos ribeirinhos e nos povos indígenas do rio negro, baixo amazonas ainda que em risco de desaparecer. Mas com o projeto Motorola para a tradução da língua na telefonia, a língua retornou ao engajamento protagonista e em 2020, professores e ativistas da língua nas três variantes se uniram em prol da criação de uma academia, a Academia da Língua Nheengatu, para regularizá-la, padronizá-la em três vertentes e assim reconquistar parte do espaço perdido e em busca do lugar que lhe foi tirado, o de língua mãe que é a cara a identidade da Amazônia.

Uso Atualmente, o nheengatu ainda é falado por cerca de 73,31% dos 29,9 mil habitantes de São Gabriel da Cachoeira, no Brasil (Censo IBGE 2000), cerca de pessoas na Colômbia e 2 000 pessoas na Venezuela, especialmente na bacia do rio Negro (rios Uaupés e Içana).. Para além disso, é a língua materna da população cabocla e mantém o caráter de língua de comunicação entre indígenas e não-indígenas, ou entre indígenas de diferentes línguas. Constitui, ainda, um instrumento de afirmação étnica de povos indígenas amazônicos que perderam suas línguas nativas, como os barés, os arapaços, os baniuas, os uarequenas e outros.

O nheengatu é uma das quatro línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do estado do Amazonas, no Brasil.

É possível a existência de cerca de falantes de nheengatu em todo o mundo, de acordo com The Ethnologue (2005), embora alguns jornalistas tenham relatado até . A linguagem recuperou recentemente algum reconhecimento e destaque depois de ter sido suprimida por muitos anos. É falado na região do Alto Rio Negro, no estado do Amazonas, na Amazônia brasileira e em partes vizinhas da Colômbia e Venezuela. É a língua nativa da população rural da área e também é usada como uma linguagem comum de comunicação entre indígenas e não-indígenas e entre indígenas de diferentes povos.

Em 1998, Eduardo de Almeida Navarro, professor da Universidade de São Paulo, fundou a organização Tupi Aqui, dedicada a promover o ensino do tupi e nheengatu históricos em escolas de ensino médio de São Paulo e em outros lugares do Brasil. O professor Navarro escreveu um livro didático para o ensino de nheengatu que o Tupi Aqui disponibiliza, juntamente com outros materiais didáticos, em um site hospedado pela Universidade de São Paulo.

Em dezembro de 2002, o nheengatu ganhou o status de idioma oficial ao lado do português no município de São Gabriel da Cachoeira, Brasil, onde muitos falantes estão concentrados, de acordo com a Lei Municipal n.º 145/2002.

O nheengatu no nordeste brasileiro Sabe-se que o nheengatu teve origem no tupinambá amazônico, variante tupi localizada mais precisamente no Maranhão, que durante a colonização portuguesa, fez parte do estado do Grão Pará e Maranhão. Desde então, se entende o nheengatu também como cultura maranhense. O que poucos citam é a presença do nheengatu no nordeste brasileiro propriamente falando. Principalmente Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Assim surgiu o caso do município de Monsenhor Tabosa que oficializou o idioma nheengatu como língua cooficial no município e planejar adotar a língua nas escolas municipais. Como diz o jornal local: "A câmara municipal de Monsenhor Tabosa aprovou por unanimidade um projeto de lei que reconhece a língua nativa tupi-nheengatu como língua cooficial do município. O texto legal já foi sancionado pelo prefeito Salomão de Araújo Souza, que é descendente dos povos indígenas".

Para Teka Potiguara, líder comunitária e antropóloga, a decisão valoriza o reconhecimento das identidades, da memória e da história dos povos indígenas do Ceará.

"Aqui em Monsenhor Tabosa, nós temos cerca de 4 mil descendentes de povos indígenas das etnias Potiguara, Tabajara, Gavião e Tubiba Tapuia e sei que esta ação tem um reflexo muito importante, tanto para o tempo presente quanto para as próximas gerações", pontua Teka, que pesquisa e escreve sobre a língua Tupi-nheengatu há mais de 20 anos. "Nós, povos indígenas, estamos sistematizando uma língua que nunca morreu e que, inclusive, é de onde vem a maioria dos nomes dos municípios cearenses. É uma grande conquista do nosso povo oficializar a língua Tupi-nheengatu e conseguir levar seu ensino também para as escolas da rede municipal, para além das escolas indígenas".

Projetos de documentação do idioma