thumb|250px|O Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci é comumente apontado como representante do ideário clássico e humanista do Renascimento Renascimento, Renascença ou Renascentismo é um período da história da Europa marcado pelo resgate do pensamento clássico greco-romano e pela sua aplicação inovadora em diversas áreas da atividade humana. Embora não haja consenso sobre a extensão desse período, considera-se, em geral, o intervalo entre meados do século XIV e o final do século XVI. O termo Rinascita foi registrado pela primeira vez pelo historiador Giorgio Vasari no , que se empenhou em estabelecer a cidade de Florença como a protagonista das inovações mais importantes da época — uma visão que a historiografia contemporânea relativiza, embora seus escritos tenham exercido influência decisiva na crítica de arte por séculos. A terminologia faz referência à intensa revalorização das referências da Antiguidade Clássica, que nortearam o progressivo abrandamento do dogmatismo religioso e do misticismo medieval, promovendo a exaltação da racionalidade, do empirismo e da natureza. Esse processo esteve associado a profundas mudanças sociais e transformações em disciplinas como as artes plásticas, a arquitetura, a política, a literatura, as ciências e as grandes explorações marítimas.
É durante o Renascimento que a Europa Ocidental teria transitado ou começado a transição do feudalismo para o capitalismo e presenciado transformações na cultura, na sociedade, na economia, na política e na religião que marcam o declínio das estruturas da Idade Média. O termo é comumente mais empregado em referência aos efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências. Durante o Renascimento o ser humano foi revestido de nova dignidade e colocado no centro da Criação. Por essa revalorização, deu-se à principal corrente de pensamento desse período o nome de humanismo. Não obstante, a ruptura necessária para a emergência do verdadeiro renascimento ocorreu no século XIV, quando artistas retornaram às formas antigas como uma crítica às tradições medievais correntes do românico e gótico, superando as artes figurativas que haviam se tornado cada vez mais abstratas nos séculos anteriores. Embora o naturalismo e o lirismo tenham atingido o seu ápice no estilo gótico maduro da primeira metade do século XIII, essa produção ainda era influenciada por uma matriz gótica tardia ou pela experiência da arte gótica contemporânea, como no caso de Giotto di Bondone. O ressurgimento renascentista diferenciou-se por não apenas reunir fontes antigas para fins políticos ou religiosos, mas por recuperar dos princípios da tradição pagã greco-latina e das regras das artes nobres, permitindo que os artistas derivassem a nova arte da observação da natureza mais do que do simples estudo de modelos antigos.
O movimento manifestou-se primeiro na região da Toscana, sobretudo nas cidades de Florença e Siena, de onde se difundiu para o resto da península Itálica, e, posteriormente, para a maioria dos países da Europa Ocidental. A sua difusão tem íntima relação com o desenvolvimento da imprensa e a circulação de obras e artistas. Também é notável o envolvimento de famílias de banqueiros e mecenas, como os Médici. Na Itália, o movimento apresentou sua expressão mais típica por todo o período, porém, manifestações renascentistas de grande importância também ocorreram na Inglaterra, na França, na Alemanha, nos Países Baixos e na Península Ibérica. Em termos artísticos, a difusão europeia dos referenciais classicistas italianos resultou em produções regionais muito diferentes dos seus modelos, pois foram influenciadas por tradições locais derivadas principalmente de uma matriz gótica tardia. Essas produções regionais e o questionamento e reinterpretação dos referenciais clássicos na própria Itália por fim deram origem a uma nova corrente estética, o Maneirismo. Algumas das figuras renascentistas mais destacadas são Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante Alighieri, Nicolau Maquiavel, Giordano Bruno, Nicolau Copérnico, Erasmo de Roterdã e Johannes Gutenberg.
Por muito tempo, o período foi visto nos Estados Unidos e na Europa como um movimento homogéneo, coerente e sempre progressivo, como o período mais interessante e fecundo desde a Antiguidade. Uma das suas fases, a Alta Renascença, chegou a ser consagrada como apoteose de uma longa busca pela mais sublime expressão e pela mais perfeita imitação dos clássicos; seu legado artístico foi considerado um insuperável paradigma de qualidade. Porém, estudos realizados nas últimas décadas têm revisado essas opiniões tradicionais, considerando-as pouco substanciais ou estereotipadas, e têm visto o período como muito mais complexo, diverso e contraditório do que se supôs ao longo de gerações. O novo consenso que se firmou reconhece o Renascimento como um marco importante na história da Europa, como uma fase de mudanças rápidas e relevantes em muitos domínios, como uma constelação de signos e símbolos culturais que definiu muito do que a Europa foi até a Revolução Francesa, e que permanece exercendo larga influência ainda nos dias de hoje, em muitas partes do mundo, tanto nos círculos acadêmicos como na cultura popular.
Ideias principais thumb|Modelos e proporções para a reconstrução das ordens clássicas, ilustração em L'architettura, de Leon Battista Alberti, edição de 1565
O humanismo pode ser apontado como o principal valor cultivado no Renascimento, fundamentado em conceitos que tinham uma origem remota na Antiguidade Clássica. Segundo Lorenzo Casini, "uma das bases do movimento renascentista foi a ideia de que o exemplo da Antiguidade Clássica constituía um inestimável modelo de excelência no qual os tempos modernos, tão decadentes e indignos, podiam se mirar para reparar os estragos produzidos desde a queda do Império Romano". Entendia-se, também, que Deus havia dado apenas uma Verdade ao mundo, aquela que produzira o cristianismo e que só ele preservara integralmente, mas fragmentos dela haviam sido concedidos a outras culturas, destacando-se entre todas a greco-romana, e por isso o que restara da Antiguidade em bibliografia e outras relíquias era tido em alta consideração.
Vários elementos concorreram para o nascimento na Itália do humanismo em sua forma mais típica. A memória das glórias do Império Romano preservada nas ruínas e monumentos, e a sobrevivência do latim como língua viva são aspectos relevantes. Obras de gramáticos, comentaristas, médicos e outros eruditos mantinham em circulação referências do classicismo, e o preparo de advogados, secretários, notários e outros oficiais exigia em geral o estudo da retórica e legislação latina. A herança clássica nunca desaparecera inteiramente para os italianos, e a Toscana estava fortemente associada a ela. Mas enquanto havia sobrevivido ali esse cultivo dos clássicos, ele era pobre quando comparado ao interesse gerado pelos autores antigos na França e outros países nórdicos pelo menos desde o . Quando a moda classicista começa a declinar na França, no fim do , é que ela começa a se aquecer no centro da Itália, e ao que parece isso se deveu em parte à influência francesa. Petrarca (1304–1374) é tradicionalmente chamado de fundador do humanismo, mas considerando a existência de vários precursores dignos de nota, como Giovanni del Virgilio em Bolonha, ou Albertino Mussato em Pádua, antes do que um fundador, ele foi o primeiro grande expoente do movimento.Schmitt, Charles B. et al. (eds.). The Cambridge History of Renaissance Philosophy. Cambridge University Press, 1988, pp. 127-135 thumb|Fólio do Comentário sobre O Banquete de Platão, de Marsilio Ficino, 1468
Mais do que uma filosofia, o humanismo foi também um movimento literário e um método de aprendizado que tinha um amplo leque de interesses, no qual a filosofia não era o único e talvez nem o predominante. Dava um maior valor ao uso da razão individual e à análise das evidências empíricas, ao contrário da escolástica medieval, que se limitava basicamente à consulta às autoridades do passado, principalmente Aristóteles e os primeiros Padres da Igreja, e ao debate das diferenças entre os autores e comentaristas. O humanismo não descartou essas fontes, e parte não insignificante de sua formação deriva de bases medievais, mas passou a reexaminá-las à luz de proposições novas e de uma quantidade de outros textos antigos que foram redescobertos. Na descrição da Enciclopédia Britânica,
"Atualmente o conhecimento é convencionalmente dividido entre ciências naturais, ciências sociais e humanidades. No Renascimento, contudo, os campos de conhecimento ainda não haviam sido tão delimitados, e cada uma dessas divisões se integrava em uma filosofia larga e inclusiva. À medida que o Renascimento foi cultivando sua revolta contra o império da religião e, portanto, contra a Igreja, contra a autoridade, contra o escolasticismo, contra Aristóteles, surgiu um súbito interesse pelos problemas centrais da sociedade civil, da humanidade e da natureza, que correspondem aos três principais eixos de investigação filosófica renascentista: a filosofia política, o humanismo e a filosofia da natureza"."Western Philosophy: Renaissance Philosophy". In: Encyclopadedia Britannica online, consulta em 17/10/2017
O humanismo se consolidou a partir do , principalmente através dos escritos de Marsilio Ficino, Lorenzo Valla, Leonardo Bruni, Poggio Bracciolini, Erasmo de Roterdão, Rudolph Agricola, Pico della Mirandola, Petrus Ramus, Juan Luis Vives, Francis Bacon, Michel de Montaigne, Bernardino Telesio, Giordano Bruno, Tommaso Campanella e Thomas More, entre outros, que discorreram sobre variados aspectos do mundo natural, do homem, do divino, da sociedade, das artes e do pensamento, incorporando uma pletora de referenciais da Antiguidade posta em circulação através de textos antes desconhecidos — gregos, latinos, árabes, judeus, bizantinos e de outras procedências — que representavam escolas e princípios tão diversos como o neoplatonismo, hedonismo, otimismo, individualismo, ceticismo, estoicismo, epicurismo, hermetismo, antropocentrismo, racionalismo, gnosticismo, cabalismo, e muitos outros. Junto a isso tudo, a retomada do estudo da língua grega, inteiramente abandonado na Itália, possibilitou reexaminar textos originais de Platão, Aristóteles e outros autores, gerando novas interpretações e traduções mais exatas, que modificaram a impressão que se fazia do seu corpo de ideias.Casini, Lorenzo. "Renaissance Philosophy". In: Internet Encyclopedia of Philosophy — A Peer-Reviewd Academic Resource. Mas se o humanismo foi notável pelo que influiu nos campos da ética, lógica, teologia, jurisprudência, retórica, poética, artes e humanidades, pelo trabalho de descoberta, exegese, tradução e divulgação dos textos clássicos, e pela contribuição que deu para a filosofia do Renascimento nas áreas da filosofia moral e política, segundo Smith et alii, a maior parte do trabalho especificamente filosófico do período foi levado a cabo por filósofos treinados na antiga tradição escolástica e seguidores de Aristóteles e por metafísicos seguidores de Platão. thumb|Um astrolábio, uma esfera armilar e livros, símbolos do conhecimento e da ciência, detalhe dos painéis de intársia no gabinete de Federico da Montefeltro, 1473-1476