Samba de partido-alto, partido-alto ou simplesmente partido, é um estilo de samba, surgido no início do século XX dentro do processo de modernização do samba urbano do Rio de Janeiro. Tem suas origens nas umbigadas africanas e é a forma de samba que mais se aproxima da origem do batuque angolano, do Congo e regiões próximas. Apesar de ser um dos subgêneros de samba mais tradicionais, não existe um consenso entre praticantes e estudiosos, menos ou mais eruditos, para definir o que seria essa derivação do samba,LOPES, Nei. Partido-alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas, 2005. muito também pelas mudanças pelo qual ele passou de sua origem até os dias atuais.
Em linhas gerais, o partido-alto do passado seria uma espécie de samba instrumental e ocasionalmente vocal (feito para dançar e cantar), constante de uma parte solada, chamada "chula" (que dava a ele também o nome de samba raiado ou chula-raiada), e de um refrão (que o diferenciava do samba corrido). Já o partido-alto moderno seria uma espécie de samba cantado em forma de desafio por dois ou mais contendores e que se compõe de uma parte de coral (refrão ou "primeira") e uma parte solada com versos improvisados ou do repertório tradicional, os quais podem ou não se referir ao assunto do refrão. Atualmente, costuma ser acompanhado por violão, cavaquinho, pandeiro, surdo, agogô e outros instrumentos de percussão.DOURADO, Henrique Autran. Dicionário de termos e expressões da música. Editora 34, 2004 - ISBN 9788573262940 Sob essa rubrica se incluem, hoje, várias formas de sambas rurais, as antigas chulas, os antigos sambas corridos (aos quais se acrescenta o solo), os refrões de pernada (batucada ou samba duro), bem como os chamados "partidos cortados", em que a parte solada é uma quadra e o refrão é intercalado (raiado) entre cada verso dela. Entretanto, transcendendo qualquer aspecto formal, partido-alto é, sobretudo, o samba da "elite dos sambistas", bem-humorado, encantador e espontâneo.
De acordo com a Enciclopédia da Música Brasileira, "samba de partido-alto é um gênero do samba surgido no início do século XX conciliando formas antigas (o partido-alto baiano, por exemplo) e modernas do samba-sança-batuque, desde os versos improvisados à tendência de estruturação em forma fixa de canção, e que era cultivado inicialmente apenas por velhos conhecedores dos segredos do samba-dança mais antigo, o que explica o próprio nome do partido-alto (equivalente da expressão moderna "alto-gabarito"). Inicialmente caracterizado por longas estrofes ou estâncias de seis e mais versos, apoiados em refrões curtos, o samba de partido-alto ressurge a partir da década de 1940, cultivado pelos moradores dos morros cariocas, mas já agora não incluindo necessariamente a roda de dança e reduzido à improvisação individual, pelos participantes, de quadras cantadas a intervalos de estribilhos geralmente conhecido de todos".MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira - erudita, folclórica e popular. 1. ed. São Paulo: Arte Editora/Itaú Cultural, 1977 - ISBN 85-7161-031-2.
O partido-alto da década de 1970 sofreria outras modificações até servir de combustível para o movimento conhecido por pagode de raiz, movido a banjo e tantã.Partido-Alto no Cliquemusic Antes, pagode era o nome dado no Brasil, pelo menos desde o século XIX, a habituais reuniões festivas, regadas a música, comida e bebida. E nos pagodes, a música tocada era o samba, especialmente a vertente partido-alto. Mas com o passar do tempo, estes encontros ganharam outra feição. No início da década de 1980, os pagodes eram febre no Rio de Janeiro e o termo logo compreenderia um novo estilo de samba, rapidamente transformado em produto comercial pela indústria fonográfica. E, neste processo, o estilo pagode se distanciou do partido-alto, samba caracterizado por elaboração, elegância e refinamento. O samba de partido-alto no século XXI é uma vasta gama de sambas apoiados em um estribilho e com segunda, terceira e quarta partes soladas, desenvolvendo o tema proposto na letra. O estilo de partido-alto com versos realmente improvisados vem caindo em desuso, não só pela diminuição de rodas de samba, como pela facilidade de repetir versos pré-elaborados, gravados e difundidos via álbuns, rádio, televisão, entre outros. Não obstante, a tradição se mantém com alguns sambistas absorvidos pela indústria fonográfica, como Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Arlindo Cruz, ou por compositores como Nei Lopes, que constroem sambas a partir de um solo em forma de chamada e resposta e remetendo, na letra, ao tema proposto no refrão ou na "primeira".
Tentativa de conceituação O que hoje se conhece como partido-alto é uma modalidade de cantoria. E cantoria é a arte de criar versos, em geral de improviso, e cantá-los sobre uma linha melódica preexistente ou também improvisada, praticada, em diversas modalidades, por poetas cantadores populares, em todo o Brasil. Improvisação repentina,muito tocado e aplaudido em bares e botecos, cantada em feitio de contenda, numa espécie de duelo verbal, como outras modalidades de cantoria, o partido-alto tem a distingui-lo a circunstância de que se realiza e completa na roda do samba, e sempre de forma bem-humorada e brincalhona. Menos complexo e rico, por exemplo, que o amplo leque de variações da cantoria nordestina, de regras absolutamente rígidas, porém mais diversificado que outras expressões semelhantes, o partido-alto sempre foi visto, sem contestação, como um samba de estatuto superior, apanágio dos sambistas não só mais inspirados como mentalmente mais ágeis. O que distingue, pois, o "partideiro" (neologismo que, na década de 1960, substitui, segundo Jota Efegê, os correspondentes "versador" e "tirador") do mero sambista, compositor ou cantor é, como percebeu o etnomusicólogo Alejandro Ulloa, a competência, a capacidade e o saber intuitivos para "improvisar em verso, seguido a melodia e acompanhado o ritmo".
A expressão "partido-alto", vamos ver que sua exata conceituação ainda hoje é objeto de controvérsias. Entretanto, o estabelecimento da linguagem desse importante subgênero musical do samba pode nos trazer alguma luz. Inicialmente, que o canto solista improvisado sobre uma base coral não é um traço exclusivo de culturas africanas. O extremamente elaborado repente do Nordeste brasileiro, por exemplo - e até mesmo por não se apoiar em base coral -, tem origem claramente ibérica, da mesma forma que a paya hispano-americana e até mesmo o punto cubano.
Mas, já no século XIX, observadores portugueses chamavam a atenção para esse traço nas canções do batuque angolano. Estabelecendo a linhagem descendente do partido-alto, desde os batuques dos povos bantos de Angola e do Congo, viria: primeiro, o lundu bailado, dando origem ao lundu puramente canção dos salões imperiais, aos sambas rurais da Bahia e de São Paulo, a um lundu campestre ainda dançado, e a outras manifestações; depois, todas essas expressões (como a chula do samba baiano ganhando status de manifestação autônoma) confluindo para o que chamaremos de samba da "Pequena África da Praça Onze", onde o núcleo irradiador foram as festas da comunidade baiana; depois ainda, o samba amaxixado da "Pequena África", dando origem ao samba de morro; e, finalmente, esse samba de morro se dicotomizando em samba urbano (a partir do bairro do Estácio), próprio para ser dançado e cantado em cortejo, e em partido-alto, próprio para ser cantado e dançado em roda.
Nas festas ou nos pagodes da comunidade baiana, a diversão era quase sempre distribuída espacialmente: na sala tocava o "choro", o conjunto musical à base de flauta, cavaquinho e violão; no fundo, fluía o samba, batido na palma da mão, no pandeiro, no prato-e-faca. recebendo interpretação instrumental, então, tocado nas salas - visto assim como um samba de mais status - é que o estilo recebia, entre os antigos, a denominação de "Samba-de-partido-alto", ou seja, para os antigos, "o verdadeiro partido-alto não era cantado. Era só no ritmo mesmo do samba".
A denominação "samba de (ou do) partido-alto" nasceu para intitular o samba praticado por um "partido - união de homens que participem das mesmas idéias", conforme o Dicionário de Sinônimos, de Antenor Nascentes -, que se presume alto, de elite. Mas a denominação e sua origem são muito controvertidas. João da Baiana, por exemplo(…) dizia que "o samba de partido-alto, o samba raiado. É a mesma coisa. Pode-se dar o nome de samba raiado ou samba de partido-alto." Contemporâneo de João Baiana, Oscar José Luís de Moraes, o Caninha, declarava em 1932, segundo Jota Efegê, em Figuras e coisas da música popular brasileira, que "partido-alto" não significava samba de elite, samba de alta categoria, parece-nos, de forma ambígua, que essa era uma denominação baiana para o que aqui se chamava "chula".
Aniceto do Império classificava o partido-alto de hoje como "samba menor", não sabendo exatamente a razão dessa classificação, a qual, se não envolvia nenhum juízo de valor, pelo menos apontava para uma deformação em relação às matrizes jongueiras, se onde ele acreditava ter a modalidade se originado. Edison Carneiro diz que partido-alto é "o samba cantado e dançado à moda antiga", que consiste num estribilho tradicional sobre o qual o cantador versa ou improvisa.
Câmara Cascudo diz apenas tratar-se de uma espécie de samba, "um estribilho com quadras repetidas ou improvisadas dos sambas cariocas". José & Araújo escrevem que é uma forma de samba que tem como características uma estrofe-base ou estribilho que dá o tema e é levada em coro por todos e por cima da qual surgem outras, improvisadas ad infinitum. Referem esses autores, ainda, a existência de duas formas básicas de partido-alto: o "partido-alto em linha", em que a improvisação se baseia no estribilho, "obedecendo ao espírito que gerou o partido"; e o "partido-alto avulso", onde a improvisação não precisa subordinar à ideia exposta no estribilho. Candeia & Isnard também conceituam o partido-alto como "um tipo de samba em que o refrão se repete e os versos que se seguem devem obedecer ao meso tema proposto".
Lygia Santos, filha de Donga, diz que partido-alto do tempo do seu pai, era, segundo ele, um samba "pastoso" em oposição ao "samba ligeiro (normal)" e ao "samba corrido (excepcional)". Ralph Waddey, por sua vez, escreve que "samba de viola, samba de chula, samba de parada, samba de partido-alto, samba santo-amarense, samba amarrado, todos se referem a um mesmo fenômeno: variam as denominação conforme diferentes aspectos que apresenta". "Na realidade - diz ele - é o texto, a 'chula' que formalmente dissocia de outros tipos de samba".
No texto de contracapa do LP Clementina de Jesus, de 1966, Hermínio Bello de Carvalho define o partido-alto como um "refrão (geralmente curto) seguido de um improviso que se faz toando a rima com o último verso de refrão", conceituando que, segundo ele próprio, não contava com a aprovação do compositor Ismael Silva, que via aí uma definição mais de "batucada" do que de "partido-alto".
História Origens No século XVII, depois de fracassarem na colonização do Congo, os conquistadores portugueses voltaram-se para a bacia do rio Cuanza, onde o Ndongo (berço da futura Angola) se localizava. Durante os séculos XVII e XVIII, a política portuguesa em Angola foi dirigida diretamente do Brasil. As ligações políticas e econômicas entre os dois países eram tão fortes que, baseada na escravidão, vai levar ao Brasil, embarcados nas praias de Luanda e Benguela, milhões de indivíduos dos ambundos, ovimbundos, lundas, quiocos e outros povos bantos de Angola para o trabalho escravo em terras brasileiras, da mesma forma que seus aparentados do Congo, o que ocasionou também o embarque de milhões de congos cativos, com suas angomas (de ngoma, tambor) principalmente de Cabinda, com destino ao Brasil.