miniaturadaimagem|O ditador do Paraguai, Francisco Solano López. As causas da Guerra do Paraguai encontram-se nas rivalidades entre a Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, causadas pelos desentendimentos quanto às fronteiras entre os países, a liberdade de navegação dos rios platinos, as disputas pelo poder por parte das facções locais (federalistas e unitaristas na Argentina, e blancos e colorados no Uruguai) e rivalidades históricas de mais de três séculos.VAINFAS, Ronaldo, Dicionário do Brasil Imperial, Objetiva, 2002, pg.323SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pg.297-8DORATIOTO, Francisco, Maldita Guerra, Companhia das Letras, 2002FURTADO, Joaci Pereira. A Guerra do Paraguai (1864-1870). São Paulo: Saraiva,2000PEDROSA, J. F. Maya.A Catástrofe dos Erros. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2004 O motivo para o começo da guerra foi a intervenção do Brasil na política uruguaia entre agosto de 1864 e fevereiro de 1865. Para atender ao pedido do governador dos blancos de Aguirre, López tentou servir de intermediário entre o Império do Brasil e a República Oriental do Uruguai, mas, como o governo brasileiro não aceitou sua pretensão, deu início às inimizades. Assim começa o maior conflito armado ocorrido na América do Sul, a guerra do Paraguai (1864-1870), que serve como fim das lutas durante quase dois séculos entre Portugal e Espanha e, depois, entre Brasil e as repúblicas hispano-americanas pela hegemonia na região do rio da Prata.
Antecedentes do Conflito do Paraguai
Argentina reunificada Com fim da Guerra do Prata, em 1852 foi assinado o Acordo de San Nicolás, que modificou completamente o pacto unitarista na Confederação Argentina, descentralizando o país e permitindo às províncias uma grande autonomia. Tal acordo não fora aceito por Buenos Aires, que não aceitaria a possibilidade de perder sua influência e poder sobre as demais províncias, levando-a a se retirar da confederação. De 1854 até 1862, a Argentina esteve dividida em dois Estados rivais que lutavam para subjugar um ao outro. De um lado, os federalistas da Confederação Argentina, liderados por Justo José Urquiza (comandante-em-chefe das forças aliadas em Monte CaserosVAINFAS, Ronaldo, Dicionário do Brasil Imperial, Objetiva, 2002, pg.330), do outro, os unitaristas de Buenos Aires sob Bartolomeu Mitre (um dos comandantes argentinos que lutaram ao lado dos aliados na Batalha de Monte Caseros). Os conflitos armados entre ambos se extinguiram com a vitória dos unitaristas sobre os federalistas na Batalha de Pavón em 1861, que resultou na incorporação da Confederação Argentina a Buenos Aires, formando como resultado a República Argentina em 1862, tendo Mitre como seu primeiro presidente.
A posição de Mitre sobre o país recém reunificado era tênue e o presidente recém-eleitoSCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pg.298 governava efetivamente apenas a região da província de Buenos Aires. Para manter firme o país sob o controle do governo central, Buenos Aires dificultava a exportação de produtos provenientes das demais províncias, com o intuito de mantê-las dependentes da capital. Os antigos desejos da recriação do Vice-Reinado do Prata não haviam desaparecido por completo, de maneira que Buenos Aires também criava dificuldades para os produtos paraguaios, visando enfraquecer o país vizinho e forçá-lo a aceitar sua supremacia.SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pg.301 Os federalistas e o governo paraguaio, ambos sufocados pela falta de liberdade de navegação dos rios platinos, buscaram realizar suas exportações, e assim manter suas independências, através dos portos de Montevidéu, capital do Uruguai, então governado pelo Partido Blanco.
Para manter o país unido, e impedir novas revoltas e guerras civis por parte dos federalistas, Mitre apoiou os membros do partido Colorado no Uruguai em suas revoltas contra o governo blanco. Enfraquecendo o governo blanco, possivelmente permitindo aos seus aliados colorados chegarem ao poder, Mitre seria capaz de manter sob seu controle não só as demais províncias argentinas, mas também o Paraguai e Uruguai, tornado uma possibilidade real a recriação do Vice-Reinado. Formara-se, portanto, um quadro de alianças circunstanciais, de um lado unitaristas argentinos e colorados uruguaios, do outro, federalistas argentinos, paraguaios e blancos uruguaios.
Mitre tinha noção da militarização do Paraguai, e temia uma aliança militar entre este país e as demais províncias argentinas (principalmente as sempre problemáticas Corrientes e Entre Rios governadas por Urquiza), que poderia resultar num ataque direto a Buenos Aires e conseqüentemente na derrota dos unitaristas (ainda mais por que o exército argentino remontava a apenas seis mil homens espalhados pelo território). Havia em Buenos Aires, entre a população em geral, um certo desejo de ver ocorrer uma guerra entre o Paraguai e o Brasil. A razão disto era por que o Império sempre impediu a anexação do Paraguai e do Uruguai por parte da Argentina e também por uma rivalidade histórica herdada de suas respectivas pátrias-mães (Portugal e Espanha). Contudo, os resultados seriam imprevisíveis se tal conflito de fato viesse a ocorrer. Se o Paraguai vencesse, as províncias argentinas muito provavelmente se revoltariam e a unificação de toda a região viria a ocorrer, mas não sob os auspícios de Buenos Aires. Se o Brasil vencesse, a possibilidade de anexação dos países vizinhos pela Argentina se tornaria definitivamente impossível. E a guerra civil uruguaia iniciada em 1863 poderia vir a causar este temeroso conflito entre Brasil e Paraguai. Mitre percebeu que ela precisava acabar e logo, e por tal razão acolheu com bons olhos a intervenção brasileira sobre o país vizinho.PEDROSA, J. F. Maya.A Catástrofe dos Erros. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2004, pg.15
O Paraguai se prepara para a guerra As relações entre o Brasil e Paraguai, até meados da década de 1850 formalmente aliados, tornaram-se cada vez mais complicadas e tensas. A razão disto era devido à incapacidade de ambos os países de chegarem a um acordo quanto as delimitações da fronteira e à livre navegação dos rios Paraná e Paraguai. A república paraguaia reivindicava os limites fronteiriços no rio Branco, de acordo com o Tratado de Santo Ildefonso (1777) assinado em 1777 por Portugal e Espanha. Entretanto, o Brasil recordou ao Paraguai que o Tratado de Badajoz assinado por Portugal e Espanha, após a Guerra de 1801, não só anulara o tratado de 1777 como também definira a fronteira na região no rio Apa, mais ao sul do rio Branco.DORATIOTO, Francisco, Maldita Guerra, Companhia das Letras, 2002, pg.32SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pg.301-2 O Paraguai não via com bons olhos a possibilidade de tal fronteira, pois o rio Apa permanecia seco por boa parte do ano, o que facilitaria o avanço de tropas brasileiras no caso de um conflito armado entre ambos os países.FURTADO, Joaci Pereira. A Guerra do Paraguai (1864-1870). São Paulo: Saraiva,2000, pg.14 A tensão entre os dois países chegara a tal ponto que o ditador paraguaio Carlos Antonio López acabou por expulsar o enviado brasileiro Filipe José Pereira Leal, em 1853 e no ano seguinte, proibiu a navegação de qualquer navio estrangeiro nos rios enquanto não se definisse de uma vez por todas os limites entre o Brasil e Paraguai.
O Império brasileiro se alarmou com a situação, pois a província do Mato Grosso ficou efetivamente isolada do resto do mundo, tanto em relação a contato, quanto também a comércio e transporte (não havia estradas por terra, e da cidade de São Paulo até Cuiabá levava cerca de seis meses de caminhada por terreno selvagem não mapeado e praticamente intransponível). As mesmas medidas que Buenos Aires utilizava contra o Paraguai dificultando-lhe o contato e comércio com o mundo exterior para negociar em situação de vantagem, a república paraguaia decidiu utilizar na relação com o Brasil. Após alguns meses de indecisão, o governo brasileiro enviou uma esquadra formada por vinte navios de guerra, com um total de cento e trinta canhões e dois mil soldados para se chegar a um acordo quanto a navegação dos rios, mas o almirante recebera ordens de não atacar o Paraguai em hipótese alguma.
Nenhuma das duas nações tinha interesse numa guerra, mas após alguns impasses, assinou-se um Tratado de Paz, Amizade, Comércio e Navegação em 1856 que permitia a passagem dos navios brasileiros pelos rios Paraná e Paraguai. Quanto à fronteira, ficou acordado que as negociações ficariam suspensas até 1862. O Mato Grosso ficou mais de dois anos completamente isolado do resto do mundo, e o Brasil percebeu que tal situação não poderia voltar a ocorrer.FURTADO, Joaci Pereira. A Guerra do Paraguai (1864-1870). São Paulo: Saraiva,2000, pg.15 Carlos Antonio Lopez sabia que a situação dos limites quanto a fronteira provavelmente não seria resolvido de forma pacífica, pois ambos os países se recusavam a ceder um palmo de terra da região entre os dois rios riquíssima em erva-mate, e iniciou os preparativos para um conflito armado com o Império.
O Paraguai não tinha problemas em relação à delimitação de fronteiras somente com o Brasil, mas também com a Argentina e Bolívia quanto a região do Chaco. Os três países fizeram parte do antigo Vice-Reinado do rio da Prata, que foi incapaz de se manter unido e coeso após sua independência da Espanha no início do século XIX. Por isso que as delimitações das fronteiras entre as nações castelhanas eram ainda mais complicadas de se definir, pois não havia tratados de limites anteriores por onde se basearem (diferente do que ocorria em relação ao Brasil e seus vizinhos). Buenos Aires, que ainda não desistira de recriar o antigo Vice-Reinado, buscava criar dificuldades para o Paraguai comercializar com o exterior, impedindo-o de utilizar os portos da cidade e assim submetê-lo a sua tutela. A nação paraguaia, temerosa de ser isolada do resto do mundo e eventualmente incorporada pela Argentina, buscou entrar em contato e realizar alianças com os blancos uruguaios (que governavam o Uruguai e possibilitariam a utilização do porto de Montevidéu para escoar os produtos paraguaios) e com os federalistas argentinos (que ainda sonhavam em se tornar independentes e assim manter em xeque o poder de Buenos Aires).
Em 1862, Carlos Antonio López falecia, e seu filho Francisco Solano López tornara-se o novo ditador do país, dando continuidade à política de seu pai de desenvolver internamente o país através da contratação de técnicos estrangeiros. López havia optado por uma política agressiva e ambiciosa quanto a seus vizinhos e preparou seu país para a uma guerra, logo que assumiu o poder, pois desejava tornar o Paraguai uma potência regional.CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pg.107 O ditador acreditava que após a intervenção brasileira no Uruguai em 1864, o Paraguai seria o próximo alvo (apesar de não haver qualquer indício de um desejo do Brasil de fazê-lo naquele momento) e iniciou o ataque a província do Mato Grosso.SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: Memórias & Imagens. Rio de Janeiro: Bibilioteca Nacional, 2003, pg.18
O Paraguai antes do conflito