thumb|276px|Castelo de Mértola: Portugal: estátua equestre de ibne Cassi; ao fundo, a Torre de Menagem

O Castelo de Mértola localiza-se na freguesia, vila e município de Mértola, distrito de Beja, no Alentejo, em Portugal. O complexo do castelo corresponde a dois elementos distintos: a cintura de muralhas em redor do centro histórico medieval, e a alcáçova, situada no interior deste recinto.

Foi construído durante o período de domínio muçulmano da Península Ibérica, sucedendo às antigas defesas romanas da cidade. Mértola foi reconquistada pelas forças cristãs em 1238,CAPELO et al, 1994:36 e posteriormente foi reconstruído o castelo, embora reutilizando as estruturas militares islâmicas. Em 1951, o castelo foi classificado como Monumento Nacional.

História Antecedentes Durante a Idade do Ferro, a povoação de Mértola era protegida por um cintura de muralhas com cerca de 2 Km de comprimento, encerrando uma área de 65 Ha, que era uma das mais extensas deste período na Península Ibérica. Estas muralhas eram formadas com recurso a blocos e lajes de xisto da região, e tinham uma largura variável entre os 4 e 5 metros, sendo pontuadas por torres semi-circulares com 5 a 6 metros de largura. Foram construídas entre o século VI e II a.C..

Durante os finais da época romana, o local onde se implanta a alcáçova estava ocupado por edifícios religiosos, assentes numa plataforma artificial sustentada por um criptopórtico. Esta estrutura foi depois reaproveitada quando foi construída a alcáçova. A cidade romana era defendida por uma cintura de muralhas. Segundo o arqueólogo Estácio da Veiga, apesar de até então não terem sido encontrados vestígios das estruturas militares da época romana, seria certo que uma cidade tão importante como Myrtilis estaria fortemente defendida, como era usual nessa época.VEIGA, 1880:79 Além disso, este local era muito significativo do ponto de vista estratégico, uma vez que se situava perto do ponto a partir do qual o Rio Guadiana deixava de ser navegável.VEIGA, 1880:124 Esta situação era muito semelhante à da vila de Odemira, situada na costa ocidental alentejana, que foi igualmente fundada no local em que um importante curso de água deixava de ser navegável, naquele caso o Rio Mira.

No século V verificou-se a queda da civilização romana, e a consequente ocupação da Lusitânia por vários povos vindos das regiões setentrionais da Europa, como os suevos e os visigodos. A antiga cidade romana de Mértola também foi atingida por este processo, embora ainda tenha mantido alguma da sua importância, como referido por Enrique Flórez na sua obra España Sagrada, baseado na Crónica dos Suevos do bispo Idácio, e transcrita por Estácio da Veiga: «Censorius comes, qui Legatus missus fuerat ad Suevos, residens Mirtyli, obsessus à Rechila in pace se tradit. Este trecho de Flórez indica que em 440 a cidade romana foi cercada e tomada pelos Suevos, a cujo rei Réquila foi enviado como embaixador o Conde Censório.VEIGA, 1880:85-88

Período islâmico

A povoação de Mértola foi conquistada pelas forças muçulmanas em 713, como parte de uma campanha militar liderada por Muça ibne Noçáir, durante a qual também foram tomadas Medina Sidónia e Sevilha.CAPELO et al, 1994:13

O castelo terá sido construído durante o período islâmico, embora reutilizando materiais da época romana. Chegou a ser uma das mais importantes cidades fortificadas na região do Gharb al-Andalus, devido à existência de ricos depósitos mineiros na região em redor, como a da futura mina de São Domingos, e à navegabilidade do Rio Guadiana, que permitiu o estabelecimento de fortes ligações comerciais com as civilizações do Mar Mediterrâneo. Além da alcáçova em si, Mértola também era protegida por muralhas, mantendo sensivelmente a mesma configuração da cidade romana que a precedeu. A maior parte das estruturas militares terão sido edificadas durante o domínio do Califado Omíada, entre 930 e 1031, mas a cortina no lado setentrional só terá sido construída nos finais do século XII, já durante o período do Califado Almóada, quando se começaram a aproximar as forças cristãs, durante a reconquista. Também no século XII foi construído um bairro perto da alcáçova, sobre antigas estruturas romanas. Esta maior concentração dos habitantes na área intramuros, em detrimento dos núcleos no exterior, terá sido por motivos de defesa, tendo-se verificado numa época já de reconquista.

As referências a esta nova estrutura defensiva surgem no final do século IX, sendo certo que entre 930 e 1031, o castelo foi consolidado, tornando-se um dos mais sólidos da região. Com a queda do Califado de Córdova (1031), Mértola tornou-se um reino independente — a Taifa de Mértola —, rapidamente retomado por Almutâmide, da Taifa de Sevilha. Um século mais tarde, entre 1144 e 1151, tornou-se novamente independente (2.ª Taifa de Mértola), sendo provável terem sido erguidas nova obras defensivas durante o governo de ibne Cassi (1144–1151). É certo que, em 1171, já sob o domínio do Califado Almóada, a fortificação foi ampliada com uma torre e, em 1184, com o torreão integrante do portão de entrada.

Reconquista

Segundo Alexandre Herculano, Mértola foi reconquistada em 1238, como parte de uma campanha militar ao longo do Rio Guadiana, durante a qual foram igualmente tomados os castelos de Alfajar de Pena e Aiamonte. Herculano refere que «Estes castellos, o primeiro dos quaes era assás antigo e celebre, dominavam vastos tractos de terra, que lhes foram dados por termos. Assim, o districto de Mertola, limitado ao noroeste e ao norte pelos rios Cobres e Terges, ia entestar pelo nascente e sueste com os de Serpa, Alfajar e Ayamonte».HERCULANO, 1900:377 Como parte deste processo, foi abandonado o bairro muçulmano junto à alcáçova, que foi convertido num cemitério cristão. No entanto, a obra Arquivo Histórico de Portugal, publicada em 1890, refere que segundo alguns autores, Mértola só foi reconquistada em 1242, por D. Paio Peres Correia.

O castelo voltou a ser construído após a reconquista, embora aproveitando grande parte das estruturas islâmicas já existentes. Com efeito, tanto Alexandre Herculano como Estácio da Veiga notaram a presença de vários aparelhos construtivos sobrepostos nas muralhas, como referido por Estácio da Veiga em 1880: «Notou o grande historiador e abalisado critico Alexandre Herculano uma triplice construcção no castello de Mertola, deixando assim presumir que aquelle recinto fortificado não era todo originariamente arabe, mas parcialmente anterior. É possivel, se bem que mui difficil seja, confirmar-se este presupposto. Ha, com effeito, alguns lanços de muralha, em que o apparelho externo revela uma regularidade exemplar, mas só até certa altura um tanto limitada, e ahi não ha ver uma pedra com indício de ter sido utilisada em diversa construcção. N'outros logares, logo a pouca altura dos entulhos, que em rampa mais ou menos abrupta vão de encontro ás muralhas, começam a manifestar-se no revestimento externo varias pedras, incluindo bellos marmores, que bem significam haver pertencido a nobres edificios. Quasi toda a cortina adherente ao baluarte fronteiro á ermida da Senhora das Neves é abundante d'esta mescla, incluindo espaçosas pedras rectangulares de granito, que necessariamente vieram de grande distancia e não para construcção de muralhas. Ha também nas cortinas e nos baluartes uma derradeira sobreposição, de apparelho irregular, occupando espaços de alturas variaveis e em parte misturada de marmores e pedras de apurado trabalho, que parece obra muito posterior, e que por isso é de crer que pertença á classe dos reparos exigidos por destruições parciaes. Não ousarei dizer, nem mesmo insinuar, que um castrum romano foi alli aproveitado e ampliado pelos arabes, do mesmo modo que se póde afoitamente affirmar, que quasi todas as muralhas dão indicios e até provas incontestaveis de reedificações posteriores, certamente portuguezas, como em seu logar mostrarei.».

O rei D. Sancho II doou a vila de Mértola à Ordem de Santiago, que teve um papel decisivo na sua conquista. Nesta época ainda tinha uma grande importância estratégica devido à sua localização fronteiriça, uma vez que tanto o Algarve como a Andaluzia ainda eram controlados pelos muçulmano. Assim, a vila tornou-se a sede da ordem em Portugal, que foi posteriormente transferida para Alcácer do Sal e Palmela. Segundo o Arquivo Histórico, alguns historiadores referiram que o primeiro foral de Mértola só foi concedido por D. Dinis (1279-1325). Em 1292 foi concluída a torre de menagem, cuja construção foi ordenada por D. João Fernandes, Mestre da Ordem de Santiago, data assinalada por uma placa na própria estrutura.VEIGA, 1880:142

Segundo o historiador José Osório de Oliveira, o castelo foi reconstruído durante o reinado de D. Dinis (1279–1325), como parte de um programa de reforço das defesas nacionais. Com efeito, Mértola situava-se numa região sensível, nas imediações da fronteira com Espanha ao longo do Rio Guadiana, tendo o monarca conseguido acrescentar ao país uma vasta faixa de território em forma de triângulo, com os seus vértices em Mourão, Noudar e Pomarão.

Em 1903, o investigador Pedro Augusto de Azevedo transcreveu na revista O Arqueólogo Português uma carta de 1373, na qual o rei D. Fernando ordenou que fosse paga à Ordem de Santiago a quantia correspondente às despesas em obras de reparação, fortalecimento e melhoramento do castelo de Mértola.

Sob o reinado de D. Manuel I (1495–1521), a povoação e seu castelo encontram-se figurados por Duarte de Armas (Livro das Fortalezas, c. 1509). A vila recebeu o Foral Novo do soberano em 1512, quando a sua defesa foi objeto de novos melhoramentos.

Do século XVI ao XIX: abandono e decadência Pedro Augusto de Azevedo também encontrou documentos indicando que em 12 de Abril de 1535 a fortaleza de Mértola foi entregue ao seu alcaide-mor, Diogo Nunes. No correspondente auto de entrega é feita uma descrição do castelo, incluindo a torre de menagem:

Após o final do domínio islâmico, Mértola perdeu grande parte da sua importância. Por exemplo, mesmo no século XVI, o último antes da vila entrar num profundo processo de declínio, a povoação estaria quase totalmente circunscrita à área intra-muros, em forte contraste com o seu período de apogeu, durante o qual existiam grandes núcleos urbanos fora das muralhas.

Entretanto, no século XVII o cemitério junto à alcáçova passou a ser menos utilizado, levando à sua reutilização parcial como área de hortas. A partir do século XVIII iniciou-se um processo de expansão para fora da área amuralhada, gerando novas áreas urbanas. No entanto, Mértola passou por uma fase de desenvolvimento menos acentuada do que noutros pontos do país, devido ao seu afastamento em relação às rotas comerciais e aos grandes centros urbanos; além disso, este crescimento deu-se quase sempre relativamente fora do centro histórico, pelo que não foi necessário sacrificar as muralhas para a instalação de novas vias. Ainda assim, verificaram-se algumas demolições pontuais das antigas estruturas militares, como sucedeu com uma torre que foi eliminada para ali ser construído o mercado municipal.

Na década de 1870 o arqueólogo Estácio da Veiga esteve a fazer pesquisas em Mértola, tendo investigado as muralhas e a alcáçova, incluindo a cisterna no seu interior.

Na sua obra Memória das antiguidades de Mértola: Observadas em 1877, Estácio da Veiga descreveu as investigações que fez nas muralhas e na alcáçova de Mértola:VEIGA, 1880:19-20